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Capítulo 5 de 46

Estudo Histórico — parte 3 de 4

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

"A Kircher faltam expressões para nos transmitir a admiração que lhe causaram os habitantes de Vênus. Eram jovens de porte e beleza encantadores. Suas vestes, transparentes como o cristal, se pintavam, aos raios do sol, com as cores as mais brilhantes e as mais variadas. Uns dançavam ao som das liras e dos címbalos; outros embalsamavam o ar espalhando a mancheias os perfumes que renasciam sem cessar nas corbelhas que carregavam.'' Eis como fala o autor das Cartas a Palmyre sobre a opinião do padre Kircher no que toca aos habitantes dos mundos. Outros escritores, depois dele, pareciam compartilhar da mesma maneira de ver. Para citar apenas um exemplo, lê-se no Panorama dos Mundos (obra, de resto, muito instrutiva), p. 354: "Nosso viajante [Kircher] mal pôs o pé no globo de Saturno, e viu velhos melancólicos, vestidos de roupas lúgubres, caminhando em passo de tartaruga e brandindo tochas fúnebres. O afundamento de seus olhos cavos, a palidez de suas faces e a austeridade de suas frontes anunciam que são ministros da vingança e que este planeta está cheio de influências malignas".

Vemos que estas palavras são textualmente as mesmas que as reproduzidas mais acima - e no entanto não são a tradução do livro de Kircher. Remontando, como em todas as coisas, à obra original, vimos que o padre Kircher se defende ao máximo da opinião não-dogmática da pluralidade dos mundos, e nunca fala de habitantes. Quanto a Vênus, como quanto a Saturno, bem como quanto aos outros astros e planetas, ele não deixa de dirigir a cada vez a pergunta seguinte ao seu guia: "Ó meu Cosmiel! Vem em meu auxílio, revela-me, rogo-te, o mistério dessas aparições!" E Cosmiel responde, a cada vez: "Esses são, ó meu filho! os anjos encarregados pelo Senhor da direção desse mundo; daí eles vertem as influências boas ou perniciosas desses astros sobre cabeças dos pecadores". O livro de Kircher é inteiramente ditada pelo espírito astrológico, que então reinava: para ele, a Terra, centro do mundo, é a única morada do homem; os Sete astros planetários rolam ao seu redor, derramam as suas influências

recíprocas sobre nossos cabeças, segundo a relação genetlíaca que existiu entre o momento do nosso nascimento e a posição destes astros no céu; acima de toda o sistema, por fim, do céu e das estrelas fixas, ha a que ele chama de Águas supracelestes: são, segundo ele, as águas superiores de que fala o Gênese, que foram separadas dos águas inferiores na segunda Dia, e que envolvem atualmente o Universo. Vemos que o padre Kircher está bem longe de nossas idéias; todavia, não relatamos os episódios mais curiosos de sua viagem, não lembramos a pergunta que dirige a seu gênio Cosmiel: se as águas que se encontram sobre Vênus seriam boas para batizar um catecúmeno, e se o vinho que se poderia recolher das vinhas de Júpiter seria conveniente para o santo Sacrifício, etc. Eis aí, no entanto, perguntas bem interessantes. Voltemos agora a nossa exposição histórica.

Antes de passar à época seguinte, devemos escrever letras maiúsculas o nome de nosso espiritual FONTENELLE, que herdou de seu século e que, no que concerne a nossa doutrina, guardou todo o seu renome. Mas encontrou-se em Fontenelle mais as belas idéias do que ciência: diz-se que foi um galante centenário que, segundo suas próprias palavras, "passou a vida entre frivolidades sem nunca amar pessoas nem coisas", e que morreu colhendo rosas na fronte da senhorita Helvetius. Quanto a nós, só sabemos que o livro que dedicou à marquesa de la Mésengère sob o titulo de Conversações sobre pluralidade dos Mundos foi recebido com entusiasmo há cento e setenta unos, e ainda é relido hoje com incessante prazer. E bem a mais encantadora obra que se possa escrever sobre o assunto, e seu imenso sucesso, sob os ornamentos da ficção com que sua tese é graciosamente paramentada, fez bem abrir os olhos do lado da verdade. O prazer que sentimos ao ler esta obra e nossa grande admiração pelo sábio secretário da Academia de Ciências levam nossas homenagens muito acima da pequena reprovação que acabamos de mencionar. Por mais insignificante que seja, esta pequena reprovação nos parece ainda por demais severa. "Ele queria dar o fruto sob a flor", diz M. A. Houssaye, "a filosofia sob a

imagem das graças, a verdade sob o véu ondulante da mentira. Seu livro não pode tornar-se um clássico, pelo julgamento de Voltaire, pois a filosofia é sobretudo a verdade, e a verdade não deve se esconder sob falsos ornamentos. Não é com a galanteria que se vai à procura dos mundos; a divagação, armado de um compasso, seria melhor companheira de viagem: para a divagação, o horizonte se ampliaria a cada passo, enquanto que, para a galanteria, o horizonte, por mais claro que fosse, se restringe de golpe. Assim encontramos nos Mundos de Fontenelle: Um grande aglomerado de matérias celestes onde se acomodou o Sol. - A aurora é uma graça que a natureza nos dá a mais. - De toda a equipagem celeste, restou a terra apenas a lua, que parece ter por ela muito apego, etc. Tudo isto é muito engraçado, mas sobretudo para risonhos escolares, ou para mulheres que escutam com os olhos nas chinoiseries de seu leque. (1) "Como já dissemos, a reprovação é demasiado severa, sobretudo se se leva em conta, como se deve fazer, a época e a meio em que viveu Fontenelle, bem como o sistema errôneo que abraçou ao mesmo tempo que seus amigos, os cartesianos; no entanto, devemos acrescentar que Fontenelle deu lugar ele mesmo a esta reprovação.

Nosso gracioso autor, com efeito, considerava tão leviamente a assunto de sua própria tese e ponderava tão pouco a influência dela sobre o raciocínio humano que, em seu próprio prefácio, encontram-se frases como: "Parece que nada deveria nos interessar mais que saber se há outros mundos habitados; mas, afinal de contas, inquiete se com isso quem quiser. Os que têm pensamentos para esbanjar podem esbanjá-los com esses assuntos; mas nem todos estão em condições de fazer esta despesa inútil". (1) Galerie du dix-huitième siecle, primeira série. Seja como for, mesmo reconhecendo que o livro de que falamos não está no nível da ciência e da filosofia, não é menos verdade que é a Fontenelle que devemos o ter popularizado as idéias astronômicas, o ter mesmo escrito o primeiro livro de astronomia popular, e nessa condição, nossas sinceras homenagens são prestadas à sua memória como um tributo ainda modesto de nosso reconhecimento.

Dez anos depois da publicação do livro de Fontenelle, o astrônomo Huygens, quase septuagenário, escrevia seu Cosmotheôros, (1) obra póstuma que foi publicada aos cuidados de seu irmão. É a obra mais séria que foi escrita sobre a questão. De um lado, ensina astronomia planetária e mostra doutamente em que condições os habitantes de cada planeta devem se encontrar na superfície de seus respectivos mundos; de outro, procura, com argumentos sólidos, estabelecer sua teoria fundamental: que os homens dos planetas são semelhantes a nós, seja do ponto de vista físico, seja do ponto de vista intelectual e moral; teoria sobre a qual nada temos a dizer aqui, mas que discutiremos quando examinarmos a habitabilidade comparativa dos diversos mundos e o estado biológico do homem terrestre. Huygens é superior a Fontenelle como cientista e como filósofo. (1) Cosmotheoros, sive de Terris coelestibus, earumque ornatu Conjecture. Hagae- Comitum, 1698. O autor de Telliamed, (1) mais conhecido pelas pilhérias de Voltaire do que por si mesmo, relata que a obra de Huygens foi muito mal recebida por seus contemporâneos e que se encontrou nele muita ostentação e pouca solidez.

Não levaremos a sério este autor. Seu olhar filosófico não nos parece abarcar as coisas suficientemente do alto. No capítulo que consagrou em sua obra à doutrina da pluralidade dos Mundos, emite a idéia de que, se não tivéssemos a Lua, não teríamos noção da pluralidade dos Mundos, porque esta noção deriva do conhecimento que temos da Lua. Esta maneira de ver é demasiado estreita. A observação dos corpos celestes não criou a doutrina; esta existia antes, concepção natural de nossa mente; apenas foi desenvolvida e confirmada pelas descobertas dos íntimos tempos. (1) Telliamed, Entretiens d’um philosophe indien avec um missionnaire français, de De Maillet, 1748. Eis-nos chegados ao século XVIII. Aqui, como no passado, os filósofos, naturalistas e matemáticos mais célebres afluem em massa à nossa doutrina. Para começar, o livre-pensador Bayle, que pertence ao século passado, o ilustre Leibniz, Bernouilli, Thomas Burnet e Nehemias Grew, autor da Cosmologia; depois, Isaac Newton, em Optic; William Whiston, em Theory

of the Earth, e o alemão Christian Wolff, em Cosmologia generalis; Guillaume Derham, em Astro-Theology; George Cheyne, em Princípios de Filosofia Natural; Xavier Eimmart, em Iconografia das novas observações do Sol; o famoso teósofo que se chamava Emmanuel de Swedenborg e que escreveu os Arcanos celestes. - Acrescentemos a eles os espiritualistas que tiveram o dom de compreender sua misteriosa palavra, desde os apóstolos da Nova Jerusalém aos nossos contemporâneos de sua escola de ultramar. - Aos filósofos precedentes, acrescentemos: Voltaire, no romance tão conhecido de Micrômegas e em seus fragmentos filosóficos; (1) Buffon em suas épocas da Natureza; Condillac, em sua Lógica; Delormel, em seu Grande Período Solar; Charles Bonnet, em Ensaio analítico e em sua Contemplação da Natureza; Lambert em Cosmologische Briefe; Marmontel, em Os Incas; Bailly, em História da Astronomia; Lavater, em Fisiognomonia; Bernardin de Saint Pierre, em Harmonias da Natureza; Diderot e os principais redatores da Enciclopédia, malgrado o Não se sabe nada de d'Alembert; Necker, em seu Curso de moral religiosa; Herder, em Filosofia da História da humanidade; Dupont de Nemours em Filosofia do Universo;

Balanche mesmo, em certos fragmentos de sua Palingenesia; Cousin-Despréaux, em lições da Natureza; Joseph de Maistre, em Noites de São Petersburgo; Emmanuel Kant, em Allgemeine Naturgeschichte des Himmels; os poetas filósofos Goethe, Krause e Schelling; os astrônomos de diferentes ordens: Bode, em suas Considerações sobre o Universo; Ferguson, em Astronomy explained upon Newton's principies; William Herschel, em suas diversas Memórias; Lalande, em suas quatro obras de astronomia; Laplace, em Exposição do Sistema do Mundo etc.; por fim, um certo número de poetas que, como o inglês Young, em suas célebres Noites; Hervey, seu imitador; Thompson, nas estações; Saint Lambert, seu imitador, e Fontanes, em seu Ensaio sobre a Astronomia, cantaram a grandeza do Universo e a magnificência dos mundos habitados. (2) (1) Nosso muito espirituoso Voltaire deveria ser aqui levado mais a sério do que em outras obras? Enquanto proclama a pluralidade dos Mundos em diversos pontos de suas obras, transforma, em outros lugares, esta crença em brincadeira. Eis, por exemplo, o que diz em sua

Física: "Não temos a respeito disto nenhum outro grau de probabilidade senão o de um homem que tenha pulgas e conclua que todos os que passam na rua as têm como ele; pode muito bem ser que os passantes tenham pulgas, mas de modo algum está provado que eles realmente as tenham". Eis o que se chama um argumento a la Voltaire! Este modo de raciocinar relembra a explicação que ele também deu das conchas fósseis nas montanhas dos peregrinos. (2) Este é um esboço rápido dos principais autores que trataram antes de nós da questão da pluralidade dos mundos. Depois, consagramos uma obra especial, Os Mundos imaginários e os Mundos reais, a uma exposição histórica de todos os livros antigos e modernos escritos sobre este vasto assunto e as curiosas viagens imaginárias feitas nos planetas.

A última edição desta obra conduz, inclusive, este exame até o presente ano de 1877. Sem analisar as obras de nosso século, que, como as de sir David Brewster e Jean Reynaud, falariam ainda com mais eloqüência que as precedentes em favor de nossa causa, esperamos que esta série gloriosa de nomes para sempre célebres na história da ciência e da filosofia, desde a mais recuada antiguidade histórica até nossos dias. não seja em nossas mãos trena vã e inútil salvaguarda, e nos permitimos pensar que se todos esses homens ilustres não acreditaram diminuir seu gênio ou seu saber proclamando a pluralidade dos mundos, poderemos, nós que não temos de temer esta acusação, proclamar esta bela doutrina e tentar desenvolvê-la e mostrar toda sua grandeza. Filósofos, promotores de novas filosofias, muitas vezes esqueceram os nomes daqueles que os precederam nas mesmas idéias, e por vezes até tentaram substituir sua própria personalidade pela doutrina que ensinavam.

Nós, que não viemos apresentar um eu como pedestal para nossa causa, nosso dever e nossa felicidade tem sido ao mesmo tempo procurar quais pensadores emitiram opiniões conformes à nossa e compartilharam uma crença que nos é tão cara. Com a justiça que fazemos aos que nos precederam, temos a satisfação de mostrar o quanto as idéias que emitimos estão longe de serem singulares ou sistemáticas, e de poder esperar que um tal apoio, santificando nossos esforços, nos ajude a popularizar esta doutrina, na qual saudamos a filosofia do futuro. Os mais profundos filósofos das eras que já se foram compartilharam desta nobre crença, e se nos surpreendemos com alguma coisa estudando

sua história, é o esquecimento, a insignificância em que ela caiu após ter sido tão antiga e universalmente conhecida. Esse nos parece ser um dos mais insondáveis mistérios do destino humano, ver a indiferença de dez ou vinte séculos por uma verdade que tem lugar entre as bases fundamentais da teologia e da filosofia, e parece-nos, concomitantemente, um de nossos primeiros deveres elevar esta verdade obscura sobre o broquel de nossos conhecimentos atuais, fazê-la resplandecer à plena luz da ciência moderna, e coroá-la rainha de nossos pensamentos e de nossas mais caras aspirações. Sim, esta longe de ser nova, a nossa crença: é venerável pelos anos que a amadureceram, é respeitável pelos nomes daqueles que a defenderam. Nas páginas precedentes, que retratam o conjunto de sua história, permitimo-nos acrescentar algumas opiniões escolhidas em diversas épocas nos anais da filosofia; essas opiniões completarão nosso estudo histórico.

Eis, para começar, as palavras que o muito sábio e veraz autor da Viagem do jovem Anacharsis pela Grécia põe na conversação de seu ávido cosmopolita; esse relato exprime o que se pensava de nossa doutrina quatro séculos antes de nossa era, e continuará como uma página admirável em favor desta doutrina: "Callias, o hierofante, íntimo amigo de Euclides, disse-me em seguida [é Anacharsis quem fala]: O vulgo não vê ao redor do globo que habita mais que uma abóbada cintilante de luz durante o dia, semeada de estrelas durante a noite; são esses os limites de seu universo. O universo de certos filósofos não tem limites, e cresceu, até nossos dias, a ponto de assustar nossa imaginação. Supôs-se de início que a Lua era habitado; depois, que os astros eram outros tantos mundos; enfim, que o número desses mundos deveria ser infinito, e depois, que nenhum deles poderia servir de termo e fronteira aos outros. A partir daí, que carreira prodigiosa se abriu de imediato à mente humana!

Empregai até mesmo a eternidade para percorrê-la, tomai as asas da Aurora, voai até o planeta de Saturno, nos céus que se estendem sobre este planeta, e encontrareis sem cessar novas esferas, novos globos, mundos que se acumulam uns sobre os outros: encontrareis o infinito em todos os lugares, na matéria, no espaço, no

movimento, no número dos mundos e dos astros que os embelezam, e depois de milhões de anos, conhecereis apenas alguns pontos do vasto império da natureza. Oh! como esta teoria cresceu perante nossos olhos! e se é verdade que nossa alma cresce junto com nossas idéias e se assimila, de alguma maneira, aos objetos de que ela se deixa penetrar, o quanto o homem deve se orgulhar de ter penetrado essas profundezas inconcebíveis! “- Orgulharmo-nos! - exclamava eu com surpresa. E de quê, então, respeitável Callias? Minha mente sucumbe ante o aspecto dessa grandeza sem limites, perante a qual todas as outras se aniquilam. Vós, eu, todos os homens, não são, perante meus olhos, senão insetos mergulhados num oceano imenso, onde os conquistadores não se discernem, senão por agitarem um pouco mais que os outros as partículas de água que os cercam. - A estas palavras, o hierofante olhou para mim; e após recolher-se por um momento em si mesmo, me disse, apertando a mão: - Meu filho, um inseto que entrevê o infinito participa da grandeza que vos surpreende.

"Callias saiu assim que terminou seu discurso, e Euclides falou-me dos que admitiam a pluralidade dos mundos. Pitágoras e os seus. Depois, sobre a Lua: segundo Xenófanes disse ele, os habitantes da Lua levam sobre este astro a mesma vida que nós sobre a Terra. Segundo alguns discípulos de Pitágoras, as plantas lá são mais belas, os animais quinze vezes maiores, os dias quinze vezes mais longos que os nossos. - E sem dúvida - disse-lhe eu - os homens são quinze vezes mais inteligentes que sobre nosso globo? Esta idéia é feliz a minha imaginação. Como a natureza é ainda mais rica pelas variedades do que pelo número das espécies, distribuo a meu bel-prazer nos diferentes planetas povos que têm um, dois, três ou quatro sentidos a mais que nós. Comparo em seguida seus gênios com os que a Grécia produziu, e afirmo-vos que Homero e Pitágoras me fazem pena. - Demócrito, responde Euclides, salvou sua glória desse paralelo humilhante. Persuadido, talvez, da excelência de nossa espécie, decidi que os homens são individualmente os mesmos em qualquer lugar". (1) (1) Barthélemy, Voyage du jeune Anacharsis em Grèce, cap. XXX.

O autor continua em seguida um pouco em tom de brincadeira. Vê-se, por esta recapitulação da filosofia ateniense no século de Platão, que os debates sobre a pluralidade dos mundos estão abertos há muito tempo, como mostramos neste estudo histórico. Desde aquela época longínqua, eles só se extinguiram em aparência, e a grande idéia filosófica penetrou aqui e ali as obras do pensamento humano. "Prescrevemos limites a Deus", escrevia Montaigne, no século XVI, "mantemos seu poder assediado por nossas razões, queremos subjugá-lo às aparências vãs e frágeis de nosso entendimento, ele que fez a nós e ao nosso conhecimento. Qual! Deus nos colocou nas mãos as chaves e os últimos recursos de seu poder? Obrigou-se a não ultrapassar os limites de nossa ciência? Pensa bem, ó homem! que tenhas podido observar aqui alguns traços de seus efeitos, pensas que ele tenha empregado tudo o que pode, e que tenha colocado todas as suas formas e todas as suas idéias nesta obra?

Não vês mais que a ordem e a política desse pequeno buraco em que te alojaste; ao menos se a visses: sua divindade tem uma jurisdição infinita para além, e este pedaço nada é, em comparação com o todo. "Em verdade, por que Deus, todo-poderoso como é, teria restringido suas forças a certas medidas'? Em favor de quem teria renunciado a seu privilégio? Tua razão nada mais é que verossimilhança e fundamento ao te persuadir da pluralidade dos mundos:

Terramque et Solem, Lunam, mare, caetera quae sunt, Nom esse única, sed número magis innumerali

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