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Capítulo 3 de 46
Estudo Histórico — parte 1 de 4
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
Da Antiguidade à Idade Média
A história da pluralidade dos mundos começa com a história da inteligência humana ascendeu a esta crença em primeiro lugar? - Os árias. - Os celto-gauleses e os druidas. - Opiniões da antiguidade histórica. - egípcios -. Seitas gregas. - A Lua, segundo Orfeu. - Escola jônica; Anaxágoras. - Os pitagóricos; harmonia do mundo. - Xenófanes e os eleatas. - Os cento e oitenta e três mundos de Pétron de Hímera. - Os platônicos. - A escola de Epicuro; Lucrécio. - Primeiros séculos do cristianismo.
"Todo esse universo visível", dizia Lucrécio, há dois mil anos atrás, "não é o único na natureza, e devemos crer que haja, em outras regiões do espaço, outras terras, outros seres e outros homens." Abrindo, com estas judiciosas palavras do antigo poeta da natureza, considerações que só devem ter por base dados positivos da ciência moderna, temos menos a intenção de nos apoiar no testemunho da antiguidade, para fundar nossa doutrina, do que de resumir numa epígrafe o assentimento da maioria dos filósofos quanto a este assunto. Todavia, antes de demonstrar pelo ensinamento da astronomia a habitabilidade real e manifesta dos mundos planetários, achamos que não será inútil acompanhar, ao longo de umas tantas páginas, a história da pluralidade dos mundos, e mostrar assim que os heróis do saber e da filosofia se alinharam com entusiasmo sob o estandarte que vamos defender. - Nosso sábio mestre Babinet escreveu, precisamente sobre o tema que nos ocupa, que não é grande recomendação para uma
teoria ter sua origem na antiguidade, porque a opinião contrária poderia pretender à mesma vantagem. Não compartilhamos desta opinião; pois se é verdade, como veremos, que nossa doutrina foi ensinada pela maioria dos grandes filósofos conhecidos, é pouco provável que estes mesmos filósofos, não sabendo o que diziam, tenham avançado o pró e o contra das idéias que seus historiadores transmitiram à posteridade. Se alguns autores antigos não ascenderam a esta intuição, são aqueles cujas obras não tiveram por objeto o estudo do céu. - Portanto, achamos bem pertinente esperar que ao reconhecer que, longe de contar com raros campeões espalhados por todas as eras, esta causa teve como defensores gênios eminentes na história das ciências, constataremos; que uma tal doutrina não é devida ao espírito de sistema nem a opiniões efêmeras de seitas e de partidos, mas é inata na alma humana, que, em todas as eras e em todos os povos, o estudo da natureza a desenvolveu na mente humana.
Será possível então, sem o receio de perder tempo com uma ocupação pueril, indigna dos trabalhos do pensamento, dedicar-se às contemplações grandiosas que mostrarão o homem relativamente a toda a natureza, e que farão conhecer o verdadeiro lugar que ocupa na ordem das coisas criadas. É este o objetivo eminente de nossos trabalhos sobre a pluralidade dos mundos. Para conhecer a origem desta admirável doutrina, e para saber a que mortal devemos agradecer esta maravilhosa concepção da inteligência humana, remetamo-nos, pelo pensamento, aquelas noites esplêndidas em que a alma, sozinha com a natureza, meditava pensativa e silenciosa, sob o domo imenso do céu estrelado. Ali, mil astros perdidos nas regiões longínquas do espaço vertem sobre a Terra uma suave claridade que nos mostra o verdadeiro lugar que ocupamos no Universo; ali, a idéia misteriosa do infinito que nos rodeia nos isola de toda agitação terrestre, e nos leva, apesar de nós mesmos, àquelas vastas regiões inacessíveis à fraqueza dos nossos sentidos. Absortos numa divagação, contemplamos aquelas pérolas cintilantes que tremeluzem no melancólico azul, acompanhamos aquelas estrelas passageiras que sulcam de quando em quando as planícies etéreas e,
indo com elas pela imensidão, erramos de mundo em mando no infinito do céu. Mas a admiração em nós excitada pela cena mais comovedora do espetáculo da natureza logo se transforma num sentimento de tristeza indefinível, porque nós nos julgamos estranhos a esses mundos onde reina uma solidão aparente, e que não podem dar origem à impressão imediata pela qual a vida nos liga à Terra. Despertam um pensamento do infinito que é fonte de melancolia ao mesmo tempo em que de puras alegrias; eles planam lá no alto como moradas que esperam em silêncio e cumprem longe de nós o ciclo de sua vida desconhecida; atraem nossos pensamentos como um abismo, mas conservam a palavra de seu enigma indecifrável. Contempladores obscuros de um Universo tão grande e tão misterioso, sentimos em nós a necessidade de povoar esses globos aparentemente esquecidos pela Vida, e, nessas praias eternamente desertas e silenciosas, procuramos olhares que respondam aos nossos.
Tal como um ousado navegador explorou em sonho, longamente, os desertos do oceano, procurando a terra que lhe fora revelada, penetrando com seus olhos de águia as mais vastas distâncias e franqueando audaciosamente os limites do mundo conhecido, para abordar por fim as planícies imensas onde o Novo Mundo esperava, havia muitos séculos. Seu sonho se realizou. Que o nosso saia do mistério que ainda o envolve, e, no navio aéreo do pensamento, subiremos ao céu, para lá procurar por novas terras. Esta crença íntima que nos mostra, no Universo, um vasto império onde a vida se desenvolve sob as formas as mais variadas, onde milhares de nações vivem simultaneamente nas extensões dos céus, parece ser contemporânea ao aparecimento da inteligência humana na Terra. Ela se deveu ao primeiro sonhador que, dedicando-se com a boa fé de uma alma simples e estudiosa à doce contemplação do céu, mereceu compreender esse eloqüente espetáculo.
Todos os povos, em particular os hindus, os chineses e os árabes, conservaram até nossos dias tradições teogônicas onde se reconhece, entre os dogmas antigos, o da pluralidade das habitações humanas nos mundos que rebrilham acima de nossas cabeças; e,
remontando às primeiras páginas dos anais históricos da humanidade, encontramos essa mesma idéia, seja religiosa, pela transmigração das almas e seu estado futuro, seja astronômica, simplesmente pela habitabilidade dos astros. (1) (1) V. Rig-Veda, o Mahabharata, o Ramayana e os comentários de Colebrooke, Weber, Obry, Burnouf, Barthélemy Saint-Hilaire etc. Os livros mais antigos que possuímos, os Vedas, gênese antigo dos hindus, professam a doutrina da pluralidade das moradas da alma humana nos astros, sucedendo à encarnação terrestre; segundo as próprias expressões desses discursos que o eco secular dos tempos conservou para nós com tanta dificuldade, a alma vai para o mundo ao qual pertencem suas obras. O Sol, a Lua e os astros desconhecidos estão preparados para a habitação e originaram formas vivas não compreendidas. (2) O Código de Manu, os livros do Avesta, os dogmas de Zoroastro, encaram o Universo sob o mesmo ponto de vista. (3) Mas é difícil, nessas filosofias antigas, avaliar a influencia da física e da metafísica, e aqui só vamos mencioná-las. (2) V. Heródoto, Historias; Lanjuinais, La religion dês Hindous selon lês Védas (3) Zend-Avesta, Vendidad Zade, Fuargard etc. Os celto-gauleses, nossos ancestrais, e em particular os eduanos, celebravam, nas invocações dos druidas a Tutatis e nos cantos dos bardos a Belenos, o infinito do espaço, a eternidade da duração, a morada da Lua e de outras regiões desconhecidas, e a migração das almas no Sol e dali para as moradas do Céu.
Os druidas, que possuíam conhecimentos astronômicos mais avançados do que se supõe geralmente, haviam elaborado um calendário exato e determinado à duração do ano e a obliqüidade da eclíptica; os druidas, que edificaram ao culto da astronomia os edifícios simbólicos de que encontramos hoje os últimos vestígios nas planícies solitárias de Carnac; os druidas, como dizíamos, eram mais avançados nas ciências físicas e naturais do que se levou a crer depois da queda de sua religião, sob a influência romanas.(1) O estudo da cosmogonia dos druidas mostra no mínimo conceitos em harmonia com aqueles dos quais Pitágoras se fez mais tarde o digno intérprete. Os pálidos vestígios que nos restam
dessas civilizações desaparecidas suscitam profundas lamentações. E uma infelicidade, e uma grande perda para a história da França, que um dos pontos fundamentais do caráter celta tenha sido, como informa Júlio César, não escrever sobre nenhuma de suas obras, nenhum dos feitos de sua nação, nenhuma de suas crenças. Sobre nossa doutrina em particular, não conseguimos discernir suas idéias religiosas de suas idéias astronômicas; o mesmo ocorre com outros povos cuja história não chegou à nossa era sem estar profundamente alterada. (1) V Henri Martin, Histories de France, Jean Reynaud, I’Esprit de la Gaule; Flammarion, Histories du Ciel, 2. soirée. Ora, para nos atermos à doutrina da pluralidade dos mundos, a única que vamos levar em consideração aqui, e à antiguidade histórica e clássica, que é a única que podemos estudar com alguma base de certeza, observaremos inicialmente que o Egito, berço da filosofia asiática, ensinou a seus sábios esta antiga doutrina.
Talvez os egípcios só a estendessem aos sete planetas principais e à Lua, que chamavam de terra etérea; seja como for, é notório que professavam largamente esta crenças. (1) (1) Bailly, Historie de I’Astronomie ancienne. V. também Lepsius, Das Todtenbuck der Agypter; Bunsen, Agypteus Stelle in der Weltgeschichte; Brugssch, Lês Livre dês Migrations. A maioria das seitas gregas a ensinou, quer abertamente a todos os discípulos, indistintamente, quer em segredo aos iniciados da filosofia. Se as poesias atribuídas a Orfeu são mesmo de sua autoria, pode-se contá-lo como o primeiro a ter ensinado a pluralidade dos mundos. Ela esta implicitamente encerrada nos versos órficos, onde se diz que cada estrela é um mundo, e notadamente nas seguintes palavras, conservadas por Proclo (2): "Deus construiu uma terra imensa que os imortais chamam Selene, e que os homens chamam Lua, na qual se ergue um grande número de habitações, montanhas e cidades." (2) Comentário ao Timeu.
Os filósofos da mais antiga seita grega, a seita jônica, cujo fundador, Tales, acreditava que as estrelas eram formadas da mesma substância que a Terra, perpetuaram em seu seio as idéias da tradição egípcia, importadas da
Grécia. Anaximandro e Anaxímenes, sucessores imediatos do chefe da escola, ensinaram a pluralidade dos mundos, doutrina que foi mais tarde difundida por Empédocles, Aristarco, Leucipo e outros. Anaximandro sustentava, como o fizeram mais tarde Epicuro, Orígenes e Descartes, que de quando em quando os mundos eram destruídos e se reproduziam por novas combinações dos mesmos elementos. Ferécïdes de Siros, Diógenes de Apolônia e Arcesilau de Mileto (3) alinharam-se, como os precedentes, no número dos adeptos desta doutrina; pensavam, aliás, que uma força inteligente, imaterial, presidia à composição e disposição dos corpos celestes. "Mesmo desde aqueles tempos antigos", dizia nosso infortunado Bailly (*) “a opinião da pluralidade dos mundos foi adotada por todos os filósofos que tiveram gênio suficiente para compreender o quanto ela é grande e digna do Autor da natureza.” (1) Anaxágoras ensinou a habitabilidade da Lua como artigo de fé filosófica, adiantando que ela encerrava, como nosso globo, águas, montanhas e vales. (2) Partidário famoso do movimento da Terra, deve-se observar que sua opinião suscitou ao seu redor invejosos e fanáticos e, por ter adiantado que o Sol era maior que o Peloponeso, foi perseguido e quase morto, preludiando assim a condenação de Galileu, como se realmente a Verdade devesse ficar todo o tempo fatalmente velado aos olhos dos filhos da Terra. (3) Estobeu, Égloga Philosophorum. (1) Histories de I’Astronomic ancienne, p. 200. (2) Plutarco, De Placitis Philosophorum, lib.
II, cap. XXV. (*) Jean-Sylvain Bailly (1736-1793), astrônomo, membro da Academia de Ciências e da Academia Francesa. Deputado do Terceiro Estado (o povo) pouco antes da Revolução Francesa, foi nomeado prefeito de Paris em 15 de julho de 1789; perdeu sua popularidade após decretar a lei marcial e ordenar que atirassem nos manifestantes que exigiam a deposição e julgamento de Luís XVI (17/7/1791). Preso em 1793, foi condenado e executado no Campo de Marte, em Paris. (Nota da Editora.) O primeiro dos gregos que levou o nome de filósofo, Pitágoras, ensinava em público a imobilidade da Terra e o movimento dos astros ao redor dela, ao passo que declarava a seus adeptos privilegiados sua crença no movimento da Terra como planeta e na pluralidade dos mundos. O
ilustre autor da Lira celeste estabelecera que todas as coisas no mundo são ordenadas segundo as leis que regem a música, preludiando assim a harmonia Mundi de Kepler, as leis empíricas e séries de potências da matemática. Seu grande erro foi ter considerado a música convencional estudada aqui em baixo, na Grécia e alhures, como a representação da harmonia absoluta. As combinações de seu heptacordo pressupõem para os planetas elementos totalmente arbitrários, especialmente no que concerne à sua sucessão diatônica. No entanto, muitas de suas determinações se verificaram: a revolução de Saturno, igual a trinta vezes a da Terra; o movimento bianual de Marte. Os biógrafos do misterioso filósofa de Crótona, que se lembrava ter sido filho de Mercúrio; depois Eufórbio, do cerco de Tróia; depois Hermotímio; depois Pirro, pescador de Delos, não dizem se sua doutrina da metempsicose se aplicava á pluralidade das moradas humanas nos céus; entretanto, a estudo dos Mistérios tende a estabelecer que ele ensinava aos iniciados o verdadeiro sistema e a pluralidade dos mundos.
Depois de Pitágoras, Hipponax de Regium, Demócrito, Heráclito e Metrodoro de Quios, os mais ilustres de seus discípulos, propagaram ex-cátedra a opinião de seu mestre, que se tornou a de todos os pitagóricos e a da maioria dos filósofos gregos. (1) Ocelo de Lucânia, Timeu de Locres e Arquïtas de Tarento compartilharam da mesma crença. Filolau e Nicetas de Sïracusa, que ensinavam na escola pitagórica o sistema do mundo reencontrado vinte séculos mais tarde por Copérnico no livro VII das Questões naturais de Sêneca, defenderam eloqüentemente nossa crença, (2) e seu sucessor Heráclides desenvolveu-a até declarar que cada estrela é um pequeno universo, tendo como o nosso uma Terra, uma atmosfera e uma imensa extensão de substância etérea. (1) Fabricius, Bibliotheca graeca, t. I, cap. XX. (2) Achilles Tatius, lsagoge ad Arati Phoenomena, cap. X. O fundador da escola de Eléia, Xenófanes, ensinou a pluralidade dos mundos e, especialmente, a habitabilidade da Lua. (3) Este filósofo é um dos mais ilustres de seu século; nunca seria demais louvar seus esforços
contra aqueles que aviltaram a majestade divina por arrazoados em que o antropomorfismo tinha a maior papel. "O antropomorfismo é uma tendência natural, a tal ponto que se os bois quisessem criar um Deus para si, eles o conceberiam sob a forma de um boi, e os leões, sob a forma de um leão, tal como os etíopes imaginaram divindades negras, e os trácios lhe deram uma rude e selvagem fisionomia." (1) Xenófanes repudiou essas analogias degradantes e indignas da concepção do Ser supremo. Parmênides e Zenão de Eléia vieram depois de Xenófanes, e tal como ele reconheceram a intervenção de um Espírito superior nas obras da natureza e se alinharam do lado da crença na pluralidade dos mundos. (2) (3) Diógenes Laércio, in Vita Xenophanis; Cícero, Acad Quaest., lib. II. (1) V. Nourrisson, Progrés de la pensée humaine. (2) Diógenes Laércio, in Vita Zenonis Eleatii.
Por volta da mesma época, em que a escola itálica e a escola de Eléia foram erguidas sobre os escombros da escola jônica, quase extinta, Pétron de Hímera, na Sicília, escrevia um livro em que sustentava a existência de cento e oitenta e três mundos habitados. A crer em Plutarco, esta opinião, havia séculos, penetrara até o mar das Índias; um homem milagroso a ensinava por lá. Tratava-se de um venerável ancião que passara toda sua vida em contemplação e no estuda do Universo, e que, dizia ele, depois de ter vivido na companhia das ninfas e dos gênios, encontrava-se apenas um dia do ano nas margens do mar da Eritrëia, onde os príncipes e os secretários dos reis vinham escutá-lo e consultá-lo. (3) Cleômbroto, um dos interlocutores da Cessação dos Oráculos, conta que procurou-se por muito tempo e com grandes despesas esse filósofo bárbaro, e que dele se aprendeu que havia não um só mundo, nem uma infinidade, mas 183 (4).
Este número, que parece desprovido de sentido à primeira vista, deriva de que este filósofo considerava o Universo como um triângulo cujos lados seriam formados por sessenta mundos, e do qual cada angulo seria também marcado por um mundo. A área do triângulo era o foco comum de todas as coisas e a morada da Verdade.
(3) V. Bonamy, Mémoire adressé à l'Académie des lnscriptions et Belles-Lettres, ed. in-12, das Mémoires, t. XIII, 1741. (4) História relatada por Plutarco, Oeuvres morales: De Oraculorum defectu; Barthélemy, Voyage du jeune Anacharsis en Grèce, cap. XXX; Ramée, Théologic cosmogonique, cap. 1, etc. Antes de chegar ao século em que dominou a escola de Epicuro, assinalemos aqui a filosofia socrática, e acrescentemos que a doutrina esotérica de Platão foi a precursora da nossa. Mas a crença do ilustre discípulo de Sócrates é um tanto mística: ele coloca as terras do céu além do universo visível, não se fundamenta na verdadeira física do mundo, e até mesmo passou por muito tempo como tendo restaurado o sistema da imobilidade da Terra. Riccïoli imputa-lhe gravemente esta falta; mas esta acusação me parece ser bem fundamentada, pois encontra-se no próprio século de Sócrates filósofos em grande número que acreditavam na imobilidade da Terra.
Não é menos verdade que uma tal autoridade arrastou ao erro os últimos partidários do cirenaísmo e do eleatismo, e que colocou no caminho errado os do platonismo e mais tarde os do peripatetismo, seitas ilustres que contaram em seu seio com nomes tais como Fédon, Espeusipo e Xenócrates quanto a primeira, Aristóteles, Calipo e Aristoxenes quanto a segunda, e mais tarde ainda os sábios que se chamaram Arquimedes, Hiparco, Vitrúvio, Plínio, Macróbio e Ptolomeu, que emprestou seu nome ao sistema. É aqui o ponto de observar que se Aristóteles tivesse conhecido o verdadeiro sistema do mundo, teria certamente defendido menos a incorruptibilidade dos céus, única razão, como diz ele mesmo, (1) que o impediu de admitir outras terras e outros céus; e que não podendo, destarte, povoar os astros, acreditou que devia divinizá-los, tomado que estava por esta idéia, compartilhada por todos os que estudam a natureza, de que a terra é um átomo por demais insignificante para ser considerada como a única expressão do Poder criador infinito. (1) Aristóteles, De Coelo, lib. II, cap. III. A escola de Epicuro ensinou a pluralidade dos mundos, e a maioria de seus adeptos não compreendia apenas os corpos planetários a título de mundos habitáveis, mas acreditavam ainda na habitabilidade de uma
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