[user_registration_my_account]
Capítulo 7 de 46
Os Mundos Planetários
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
Um elo misterioso une a natureza celeste e a natureza terrestre. Von Humboldt
Descrições do sistema solar (1)
Natureza e papel do Sol. — Gravitação universal. — Os mundos planetários. — Mercúrio. — Elementos astronômicos de Vênus. — A Terra. — O globo de Marte e sua semelhança com a Terra. — Planetas telescópicos. — O mundo de Júpiter. — Saturno; seus anéis e seus satélites. — Urano e seu cortejo. — Netuno. — O conjunto do sistema.
(1) Será bom, antes de começar este estudo, dar uma olhadela na tabela Elementos do Sistema Solar, colocada no fim deste livro. Reunimos lá todos os dados astronômicos a consultar para o estudo dos outros mundos e para sua comparação com o nosso. O refulgente astro do dia, fonte fecunda da luz e do calor que ele propaga em grandes vagas pela imensidão do espaço, renovador incessante da juventude e da beleza dos planetas que formam sua corte, foco gigantesco da vida e da fertilidade que se desenvolvem em seu império, reside glorioso no centro de nosso sistema planetário e preside às revoluções celestes dos mundos que o compõem. Sua constituição física é uma questão ainda não resolvida definitivamente, mesmo que esteja em debate desde Anaximandro de Mileto, discípulo de Tales.
Os trabalhos dos astrônomos e dos físicos do século passado e do nosso pareciam mostrar no astro solar um globo escuro como os planetas, envolvido de duas atmosferas principais, das quais a exterior seria a fonte da luz e do calor, e a interior teria o papel de refletir para fora esta luz e este calor e preservar o globo solar. Este globo solar seria da espécie habitável: era a opinião dos dois Herschel, de Humboldt, de Arago e dos astrônomos da primeira metade de nosso século. Mas as mais recentes determinações da física geral parecem demonstrar hoje em dia que o globo solar está inteiramente num estado de temperatura tão elevada que deve ser completamente líquido, senão até mesmo gasoso, que é bem a superfície dele o que vemos, e que esta superfície é luminosa, ardente, móvel, ondulante como a do mar, agitada por ondas formidáveis, turbilhões de explosões das quais as nossas tempestades e vulcões terrestres só podem dar uma idéia medíocre.
O Sol parece ser, segundo a palavra de Kepler, um ímã gigantesco sustentando apenas pelas leis de atração recíproca todos os outros mundos do grupo que rege, uma tocha e foco permanente de eletricidade, pondo em movimento nestes mundos este agente imponderável que exerce tão grande papel entre as forças em ação em nosso sistema. (1) (1) Os estudos feitos nestes últimos anos sobre a constituição física e química do Sol são expostos em detalhe e discutidos nos últimos volumes de nossos Etudes et Lectures sur
1'Astronomie. Estão resumidos com figuras explicativas em nossa recente obra, Les Terres du Ciel, livro 11, caps. 11 e 111. Sua ação sobre a Terra e sobre os outros planetas é de importância única; devemos a ele os próprios princípios de nossa existência. O vento que sopra em nossos campos, o rio que desce das planícies para o mar, o navio de velas enfunadas, o trigo que germina, a chuva que fecunda, o moinho que transforma a espiga dos campos, o cavalo que salta sob o estribo, a pluma do escritor que responde ao seu pensamento, é ao Sol que devemos remontar para a explicação de todos estes movimentos; é o agente direto ou indireto de todas as transformações vitais que se operam nos outros planetas — ele, cujo poder e glória nos cercam e nos penetram, e sem os quais logo deixaria de bater o coração gelado da Terra. O globo imenso do Sol é cerca de um milhão e trezentas mil vezes maior que a Terra.
Eis um exemplo bem conhecido que dará uma idéia deste tamanho colossal: se supusermos a Terra colocada no centro do Sol, como um pequeno caroço dentro de uma fruta, a Lua (afastada de nós 96 mil léguas) estaria também no interior do corpo solar e, para ir do centro da Lua à superfície do Sol, seria preciso ainda percorrer 80 mil léguas em linha reta. Este astro importante pesa, só ele, 324 mil vezes mais que a Terra e setecentas vezes mais que todos os planetas e seus satélites juntos. Sua superfície é a sede de movimentos assombrosos, e apresenta normalmente sobre certas regiões especiais manchas relativamente escuras, que parecem ser aberturas imensas cuja extensão ultrapassa por vezes incomparavelmente a da Terra. Nós mesmos medimos no Sol manchas cujo diâmetro era dez vezes maior que o do globo terrestre, e que no entanto se transformaram completamente no espaço de alguns dias.
A análise espectral constatou que o globo solar está cercado de uma atmosfera impregnada de vapores dos materiais constitutivos do astro do dia, vapores entre os quais dominam os do ferro, titânio, cálcio e magnésio, bem como o hidrogênio.
Este astro é animado de um movimento de rotação, que executa em vinte e cinco dos nossos dias em torno de seu eixo, movimento de rotação bem diferente, em seus efeitos, dos movimentos planetários, pois que não produz, na superfície do Sol, a sucessão alternada dos dias e noites que produz na superfície dos planetas. Não se sabe determinar por que agente desconhecido se engendram incessantemente o calor e a luz solares; só podemos dizer que, malgrado a enorme quantidade que ele propaga ao seu redor no espaço, seja que este foco se consuma, o que os estudos de astronomia estelar nos ensinarão provavelmente um dia, seja que ele tenha adquirido um estado de estabilidade permanente, que carregue em si mesma as condições para uma duração indefinida, seja, por fim — o que é o mais provável — que ele repare a cada instante as perdas causadas por sua perpétua irradiação, a distância que o separa de nós é tal, que a menos que ocorram mudanças de rapidez excessiva, não podemos, daqui, apreciar nenhuma diminuição de seu disco.
Se ele diminuísse, por exemplo, diariamente, a ponto de seu diâmetro diminuir um metro a cada vinte e quatro horas, seria preciso uma observação de quase dez mil anos para o habitante da Terra perceber alguma diminuição sensível de seu disco aparente. Mesmo assim, esta grande distância não nos impede de receber uma massa considerável de calor. Se a quantidade que o globo terrestre recebe em um só ano fosse uniformemente repartida por todos os pontos, e se fosse unicamente empregada para derreter o gelo, seria capaz de derreter uma camada de gelo que envolvesse a Terra inteira e com uma espessura de mais de trinta metros! Pode-se imaginar por esta determinação quanto calor o astro radioso verte anualmente sobre nosso globo. Mas o calor interceptado pela Terra é infinitamente pequeno, em comparação ao calor total transbordado para o espaço: à distância em que estamos do Sol, nosso planeta não intercepta nem o bilionésimo do calor que ele difunde pelo espaço. A intensidade real do calor solar é coisa prodigiosa. Assim, na superfície do astro, o calor emitido em apenas uma hora poderia fazer ferver três bilhões de miriâmetros cúbicos de água à temperatura do gelo. O
calor que este formidável fogo produz em um ano é igual ao que seria fornecido pela combustão de uma camada de hulha de 27 km de espessura, envolvendo inteiramente o Sol. (Ora, este astro, como o dissemos, é um milhão e trezentas mil vezes maior que a Terra.) Uma força misteriosa, à qual se deu o nome de Gravitação universal, dirige em torno do astro central todo o sistema solar: planetas, satélites, asteróides, cometas, meteoros cósmicos etc., envolvendo numa mesma dominação todos os seres que o Sol ilumina. É esta mesma força que traça para a Lua a órbita elíptica que este astro descreve ao redor de nosso globo, e que arrasta numa corrida perpétua os satélites ao redor de seus respectivos planetas; é ela que, sob o nome de Gravidade, garante os passos efêmeros do homem e do inseto na superfície da Terra, a fuga do peixe pelas águas, e o vôo do pássaro nas planícies azuis; é ela que, sob o nome de Afinidade molecular, dirige os movimentos dos átomos nas transformações invisíveis do mundo inorgânico e, para ir do mais pequeno ao maior, é ela ainda que, nas profundezas incomensuráveis do espaço, preside às revoluções longínquas dos sistemas estelares.
É assim que, no seio da natureza, todos os fenômenos se encadeiam sob a força das leis universais; que a mesma força, que ergue periodicamente as águas do mar espumante, risca com cometas chamejantes as planícies etéreas; que a mesma fecundidade que povoa uma gota de água com milhares de infusórios deva produzir e desenvolver na imensidão dos céus milhares de nações e de criaturas. Em torno do Sol gravitam os mundos planetários; ei-los, tais como se revelam à observação telescópica. O primeiro planeta que se encontra indo do centro do sistema para a sua periferia é Mercúrio. — Recentemente, emitiu-se a hipótese (1) que um anel de asteróides deveria rodear o Sol aquém da órbita de Mercúrio, nas regiões mais próximas do astro do dia; mas como esta teoria é muito nova, não podemos afirmar nada sobre esses pequenos corpos cuja importância, de resto, do ponto de vista de nossas considerações, é totalmente secundária. Além desta região central é que se movimentam os planetas, em
órbitas concêntricas e quase circulares. — Mercúrio está afastado do Sol 14 milhões e 300 mil léguas; seu ano dura quase 88 dos nossos dias (87d23h15'); sua rotação diurna se efetua em 24h5'5": fato digno de nota, a duração do dia é quase a mesma nos quatro primeiros planetas do sistema: Mercúrio, Vênus, Terra e Marte. O globo de Mercúrio é muito menor que o globo terrestre, seu diâmetro só mede 1.200 léguas, ao passo que o da Terra mede 3.183; mas sua densidade é cerca de um terço maior. O Sol se apresenta a um habitante de Mercúrio como um disco refulgente, sete vezes maior do que parece aos habitantes da Terra, e variando acima e abaixo desta grandeza média, conforme as posições sucessivas do planeta em seu curso; esta variação do disco aparente do Sol, maior para Mercúrio que para a Terra, poderia fazer com que seus habitantes reconhecessem bem mais facilmente que nós uma das primeiras leis do sistema do mundo: que os planetas seguem órbitas elípticas, das quais o centro do Sol ocupa o foco.
As observações modernas demonstraram que este globo está rodeado de uma atmosfera muito densa, e que está coberto de cadeias de montanhas muito mais elevadas que as nossas. A luz e o calor que ele recebe do Sol são sete vezes mais intensos que na superfície terrestre. (1) Em setembro de 1859. A hipótese foi retomada em 1876, mas sem ser melhor provada. V. nossa Astronomie populaire, p. 431. O brilhante Vênus, estrela anunciadora da aurora e do ocaso, planeta mais radioso e provavelmente o que é conhecido há mais tempo, de todo o sistema, envolve a órbita de Mercúrio no círculo que descreve em 224d16h49' em torno do astro central. Está afastado deste em 26.750.000 léguas, e recebe duas vezes mais luz e calor que a Terra. Seus dias duram 23h27', quer dizer, 33 minutos a menos que os nossos; suas estações são muito mais diferenciadas que as nossas e só duram dois meses cada. Sua extensão, sua massa, densidade e peso dos corpos na superfície diferem pouco dos elementos análogos do planeta que se lhe segue. Este globo está eriçado de esbeltas montanhas das quais algumas excedem 40 mil metros de altura, e cercado de um envoltório atmosférico igualmente muito elevado,
de constituição física semelhante à de nosso envoltório aéreo, e apreciável o suficiente para que distingamos, nesse mundo, a aurora e o declínio do dia. Como Mercúrio, Vênus quase sempre está coberto de nuvens. À distância de 37 milhões de léguas do Sol, encontramos a Terra, planeta análogo ao precedente sob numerosos aspectos, de mesmo tamanho, mesmo peso, rodeado como o outro de um fluido atmosférico, cumprindo seu movimento de rotação diurna em 23h56'4" e percorrendo sua revolução anual em 365d5h48'. — Este astro está acompanhado de uma lua ou satélite, que cumpre em 27d12h44' seu duplo movimento de translação e rotação, à distância média de 96.109 léguas; a superfície deste satélite foi assolada por violentos cataclismos; as vastas crateras e picos sem número de que está atualmente coberto nos evidenciam os últimos vestígios das convulsões que o destruíram. Cerca de 20 milhões de léguas adiante, circula o planeta Marte, que apresenta também surpreendentes semelhanças com os planetas precedentes.
Ele está em média afastado do astro central 56.350.000 léguas, cumpre seu ano em 686d22h18' e sua rotação diurna em 24h37'23". Os envoltórios atmosféricos que rodeiam este planeta e o seu precedente, as neves (1) que aparecem periodicamente em seus pólos e as nuvens que se estendem de quando em quando sobre suas superfícies, a configuração geográfica de seus continentes e de seus mares, sua meteorologia, as variações de estações e climas comuns a estes dois mundos, dão-nos fundamento para crer que estes dois planetas são, tanto um como outro, habitados por seres cuja organização física deve oferecer mais de um caráter de analogia, ou, se um deles fosse votado ao nada e à solidão, o outro, que se encontra nas mesmas condições, deveria ter a mesma sina. (1) Sobre a constituição física deste planeta vizinho, veja o livro VI, cap. IV e V ("Meteorologia e geografia de Marte") de nossa obra Les Terres du Ciel, bem como o mapa que traçamos. — Nosso Frontispício representa o aspecto comparado de Marte e da Terra. Pode-se ver, pelas neves dos pólos, pela configuração dos continentes e dos mares, pelo conjunto geográfico de cada um destes planetas, o quanto eles se assemelham e que alto grau de analogia
os une um ao outro. Desenhou-se Marte do mesmo tamanho que a Terra (se bem que seja um tanto menor) a fim de tornar a comparação mais fácil. Marte é acompanhado de dois satélites. À distância de cerca de 100 milhões de léguas do Sol, existe uma ampla região que parece ter sido, outrora, o teatro de alguma grande catástrofe. De fato, nesta região, onde os astrônomos esperavam encontrar o planeta que as leis universais da natureza colocavam entre Marte e Júpiter, planeta anunciado de há muito por Kepler, Titius e outros, já se encontraram 75 (2) fragmentos planetários cumprindo, independentemente uns dos outros, seus movimentos de translação em torno do centro comum de todo o sistema.
Quiçá, admitindo a mais verossímil das teorias cosmogônicas, estes asteróides se devam a um despedaçamento em tempos primitivos do anel cósmico que deveria formar o planeta; talvez sejam os fragmentos de um mundo que existiu outrora nesta parte do sistema, e que uma revolução geológica interior teria rompido, disseminando os seus pedaços pelo espaço e deixando escapar seus gases interiores, que teriam podido formar traços cometários. (2) Este é o número dos pequenos planetas até 1862, época da publicação da primeira edição deste livro. Ele cresce a cada ano, por novas descobertas. Damos, na nota B do Apêndice, a lista dos planetas pequenos conhecidos na data desta última edição. Além da região em que se movem os planetas telescópicos, gravita o globo colossal de Júpiter, numa órbita afastada do Sol de 192 milhões de léguas.
Malgrado a velocidade de sua rotação diurna, que se efetua em menos de 10 horas, e que só lhe dá, por conseguinte, 5 horas de dia propriamente dito, seu ano é doze vezes mais longo que o nosso, e seus habitantes só contam oito anos no mesmo tempo que nós contamos um século. Este mundo, que ultrapassa de 1.234 vezes nossa mesquinha esfera, está cercado de um envoltório gasoso no qual flutuam constantemente espessas nuvens que nos escondem a configuração geográfica de sua superfície; sabemos, todavia, que grandes movimentos meteóricos se operam neste globo, seja no seio de sua atmosfera sulcada de brancas nuvens de cada lado do equador, quer nas regiões marítimas, quer nos
continentes; observa-se, especialmente, que ventos alísios fazem correr brisas temperadas por suas regiões intertropicais. A quantidade de calor e de luz dirigida pelo Sol sobre a superfície de Júpiter é 27 vezes inferior à da Terra, para uma mesma área; e esta quantidade, que pode ser, como o reconhecemos, tão considerável para os habitantes de Júpiter quanto é para nós, está distribuída numa medida constante e invariável a cada grau de latitude, do equador aos pólos. Este mundo não está submetido, como o nosso, às vicissitudes das estações, nem às bruscas alternativas da temperatura; uma eterna primavera enriquece com seus tesouros. Seu diâmetro equatorial não mede mais que 35.500 léguas; sua massa, igual a 310 vezes a massa terrestre, dá-lhe uma densidade específica que, relativamente às grandes dimensões do astro, não é maior que a do carvalho, de modo que, para um mesmo volume, seria quatro vezes mais leve que a Terra. Quatro satélites (1) dão-lhe uma luz permanente que, unida à dos longos crepúsculos, proporciona a este planeta noites relativamente curtas, e constantemente iluminadas.
O sistema de Saturno, à distância de 355 milhões de léguas do centro comum das órbitas planetárias, comporta, numa revolução de 30 anos, seu globo majestoso, que ultrapassa o nosso de 864 vezes, com seus anéis imensos, cujo diâmetro não é inferior a 71 mil léguas, e todo um mundo de satélites que abarca, no espaço, uma extensão circular de mais de 2 bilhões e 600 milhões de léguas quadradas (2). As estações de Saturno são mais bem marcadas que as da Terra, e duram, cada uma, sete anos e quatro meses; vemos, durante seus longos invernos, manchas esbranquiçadas aparecendo em seus pólos, como na Terra e em Marte. Seu movimento de rotação se cumpre com velocidade prodigiosa, pois a duração de seu dia,
muito semelhante ao dia de Júpiter, não excede 10h16'. Esta velocidade provocou, nos pólos, um achatamento considerável (de um décimo), tal como no planeta precedente (dezessete avos), observação que nos dá ainda outra prova da universalidade das leis da natureza. As faixas alternativamente brilhantes e sombrias que aparecem nestes dois astros e que são índice certo das variações que se operam em suas atmosferas, a diversidade que se observa entre os tons das regiões polares e das regiões equatoriais, a magnificência do espetáculo da criação em Saturno, onde os jogos da natureza entre os misteriosos anéis devem ser, para seus habitantes, de um esplendor sem igual, e em Júpiter, onde se reúnem às condições mais favoráveis à existência, dizem-nos o quanto o domínio da vida está longe de estar limitado ao pequeno mundo que nos deu a vida.
O planeta Urano gira à distância de 733 milhões de léguas, numa órbita elíptica que percorre em 84 anos e três meses. Seu diâmetro mede 13.400 léguas; é 74 vezes maior que a Terra e achatado em seus pólos, como os precedentes; sua densidade é um pouco inferior à do tijolo; a luz e o calor que recebe do Sol são 390 vezes inferiores que na superfície terrestre. Está cercado, como Júpiter, de um cortejo de quatro satélites; suas distâncias ao planeta estão compreendidas entre 49 mil e 150 mil léguas, e suas respectivas durações de revolução, entre dois dias e meio e treze dias e
meio (1). Estes satélites apresentam uma singularidade da qual não há outro exemplo no sistema solar: é a de movimentar-se de oeste para leste. Esta singularidade fez pensar que o próprio planeta deve ter um movimento de rotação retrógrado, e que gira do oriente para o ocidente; a observação telescópica ainda não pôde verificar este fato, o afastamento considerável (700 milhões de léguas) que nos separa desse mundo impedindo-nos de distinguir qualquer coisa em sua superfície.
Por fim, o último planeta conhecido do sistema, cuja descoberta, que data de nossos dias, lançou tão vivo brilho sobre a certeza dos dados científicos modernos, e principalmente sobre o poder da análise matemática, o planeta que recuou em quase 400 milhões de léguas os confins do domínio planetário, e que encerra apenas provisoriamente este império imenso, descreve, à distância de 1 bilhão e 100 milhões de léguas do centro do sistema, uma órbita cuja grandeza linear ultrapassa sete bilhões de léguas. A esta distância assombrosa, de onde o disco solar parece trinta vezes menor em diâmetro e novecentas vezes menor em superfície do que visto de nosso posto terrestre, a mesma força de gravitação dirige sua revolução anual, sua rotação diurna e os fenômenos que se produzem na superfície.
O ano de Netuno é igual a 164 dos nossos, as estações duram cada uma mais de quarenta anos; sua densidade é mais ou menos igual à da madeira da faia, seu volume ultrapassa em 84 vezes o da esfera terrestre. — Este planeta é acompanhado de uma lua, que cumpre seu duplo movimento de translação e de rotação, simultânea para cada satélite, em 5 dias e 21 horas, à distância de 100.000 léguas do planeta. (1) (1) Neste quadro sumário do estado do sistema do mundo, não pudemos dar a descrição detalhada de cada planeta. Este conhecimento físico, climatológico e mesmo geográfico de cada um dos mundos que gravitam com a Terra em torno do Sol pode ocorrer, já há quinze anos,
graças aos últimos progressos da ciência, desenvolvida até seus mais curiosos detalhes; esta exposição poderá ser encontrada em nosso recente livro Les Terres du Ciel, que confirma totalmente as previsões deste. (Nota da 25° edição). Antes de terminar esta exposição do sistema planetário, seria bom observar que se nossos meios de investigação não puderam se estender ainda senão à distância de Netuno, quer dizer, um bilhão de léguas do foco central, é certo que o império do Sol não fica apenas dentro destes limites: numerosos cometas descrevem órbitas mais extensas, órbitas cujo percurso necessita de milhares de anos. Mundos planetários desconhecidos circulam, muito provavelmente, nessas regiões presentemente inacessíveis, e levam bem além de Netuno as fronteiras do sistema planetário.
O limite de nossa visão e de nossa ciência não prejulga em nada o do universo solar. — A distância que separa o nosso Sol da estrela mais vizinha ultrapassa em oito mil vezes à distância de Netuno ao Sol; vemos que a arena é grande, para as revoluções dos astros, e deve-se considerar que esta extensão não é vazia de mundos. Para resumir a descrição precedente, observemos que todos os planetas do sistema se interligam por grandes analogias, e que, se há qualquer distinção convencional a estabelecer para facilitar a discussão de nossa teoria, elas se dividirão naturalmente em dois grupos, separados pela região dos asteróides. Mercúrio, Vênus, a Terra e Marte formarão o primeiro grupo, que será caracterizado pela proximidade do astro luminoso, pela exigüidade de cada um dos quatro planetas que o compõem, pela brevidade de seus anos e pela duração equivalente de seus respectivos dias, e enfim pelos elementos geodésicos análogos, e pela mesma classe no mundo planetário.
Para cada um destes mundos, mesma classe, mesma história, mesma aparência e, sem dúvida, mesmas condições de existência e mesmo papel no Universo. O segundo grupo, igualmente formado por quatro planetas, será destacado pelas dimensões colossais das esferas que o compõem, pois a menor destas esferas, Urano, ainda é maior que os quatro planetas precedentes reunidos; destacar-se-á ainda pelo número de satélites que acompanham esses astros em seu curso, pela lentidão de suas
revoluções anuais e a rapidez de seus dias, e pela supremacia que conquistaram sobre os outros mundos a sua importância nos movimentos celestes e sua imponente majestade nessas regiões imensas do Universo solar. Esta divisão estabelecida e o conjunto do sistema exposto, convém examinar e discutir as causas astronômicas de habitabilidade ou inabitabilidade de cada um dos mundos planetários. Tal será o objetivo do estudo seguinte.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.