[user_registration_my_account]
Capítulo 26 de 46
A Humanidade no Universo — parte 7 de 11
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
Essa lei de morte tem, além disso, um triste complemento em nossa espécie, complemento não fatal, esperamos. Os homens, que já estão à frente do combate perpétuo que os seres vivos travam sobre a Terra, levaram ao extremo essa lei desastrosa virando-a contra eles mesmos; e desde a origem das sociedades, entre as civilizações mais avançadas ou em meio à barbárie, a Guerra, iníqua e insensata, tomou as rédeas das nações humanas. — Crê-lo-eis vós, populações pacíficas do espaço! O homem chegou aqui a tal aberração, que fez dessa Guerra uma deusa, e a adora! Sim, os habitantes da Terra contemplam com veneração este Moloch esfomeado; e, por uma convenção mútua, dão a palma das honras e o diadema da glória aos mais cruéis entre eles, cuja habilidade na carnificina é maior! Eis aí nosso mundo!
Glória àquele que amontoa cadáveres nas planícies tingidas de vermelho; glória àquele que enche deles as valas; glória àquele cujo ardor frenético recruta o maior número de tigres ao redor de seu estandarte sangrento, e faz marchar hordas de carrascos sobre o ventre de nações dilaceradas! Este estado de coisas que nos domina, que há muito tempo se tornou necessário, porque foi consagrado por nossas instituições políticas, que têm sua origem na lei do mais forte; este estado de coisas é inerente a nossa espécie, cujas necessidades materiais são imperiosas. As primeiras tribos selvagens que o historiador encontra na origem de todas as nações só puderam subsistir, como os animais, pelo direito da eleição natural, ou seja, pela conquista dos elementos de sua existência.
Antes de saber falar, antes de haver imaginado alguma arte, antes mesmo de haver pensado, esses povos deviam fazer a guerra contra os animais e contra os homens, no momento em que lhes fosse necessário assegurar-se da propriedade de um território; essa guerra ora ofensiva, ora defensiva, cujo único objetivo era fornecer aos combatentes os meios de uma vida segura, fundou os primeiros direitos e os primeiros poderes. As tribos cresceram, mudaram de território, inquietas com os flagelos da natureza e atraídas pelo atrativo de uma vida mais feliz; elas se sucederam, estabeleceram a pátria e a nacionalidade, e,
longe de abandonar entre os apetites primitivos a guerra em que nasceram, cada qual alimentou este monstro devorador que devia com a idade tornarse ainda maior e mais terrível. Há muito tempo, as nações, chegadas à maturidade, armaram a guerra por orgulho e ambição; nossas necessidades primitivas estão satisfeitas mas nossa antiga barbárie permaneceu, agravada pelos refinamentos de uma ciência odiosa. Assim, os vícios de nossa humanidade têm sua origem na própria organização do nosso mundo; a natureza humana está solidariamente ligada à natureza terrestre; se esta fosse superior ao que é presentemente, a primeira teria a mesma superioridade. Não hesitamos em imputar, a essa lei de morte que governa nosso mundo, a causa primeira do vício social de que falamos. Se essa lei terrível não existisse, a humanidade teria vivido desde o primeiro dia no seio da tranqüilidade e da felicidade. A maioria dos males que nos afligem encontraria sua causa primeira no estado de inferioridade de nosso mundo.
Indo ao fundo da questão, reconhece-se que nossos vícios particulares, como nossos vícios sociais, não teriam nenhuma razão de ser sobre uma terra que não os provocasse. Se a propriedade, ao menos passageira, dos elementos de nossa existência não nos fosse necessária; se nosso planeta alimentasse seus filhos sem lhes impor condições tão rigorosas, sem submetê-los a tantos sacrifícios, ninguém jamais sonharia em arrebatar objetos gratuitos, o roubo não teria nascido; e com o roubo, a mentira, o assassínio e todos os vícios que têm seu princípio na cupidez não teriam aparecido sobre a Terra. Estando todas as coisas solidárias na natureza, nosso regime, material de um lado, não pode ser espiritual do outro; e enquanto os apetites grosseiros dominavam nosso corpo, todas as paixões de nossa alma deviam ressentir-se disso.
Então se as mais nobres aspirações de nossa inteligência não podem ter livre curso sob a influência do invólucro terrestre que pesa sobre nós desde o nosso nascimento, todo o nosso ser se encontra absorvido, e é a nosso estado original (estado intimamente modelado pela constituição física do globo) que devemos nos remeter para encontrar a
origem de nossas necessidades, nossos desejos e nossas paixões primitivas. Não é nos vícios provenientes da própria civilização que se poderia encontrar ainda um princípio original em nosso estado natural. Recapitulese a soma das diversas paixões humanas, desde o fogo dominador do amor físico ao gelo da avareza valetudinária, e será possível encontrar facilmente seu germe nas necessidades inerentes à nossa organização terrestre. Voltemos à lei fundamental da existência, a nossa e a de todos os seres vivos sobre a Terra, a lei que quer que mendiguemos nosso alimento aos restos de outros seres, e que só possamos viver sob a condição de desenterrar as plantas e mandar matar os animais. Pensar-se-á que essa lei é necessária, e que faz parte da ordem absoluta não ser possível viver sem vítimas? Pensar-se-á que em todos os mundos o homem seja forçado a matar e devorar para manter sua existência? Tal opinião nos pareceria absolutamente falsa.
Por um lado, seria um fenômeno tão extraordinário que certos corpos fossem constituídos de tal maneira que seu organismo trouxesse em si mesmo as condições de uma longa existência? Por outro lado, seria uma suposição muito estranha, imaginar atmosferas alimentícias, atmosferas compostas de elementos nutritivos que se assimilariam a corpos organizados de acordo com as condições delas? Tão logo se represente o estado da humanidade em tais mundos, onde os homens seriam dispensados das grosseiras necessidades, inerentes à nossa organização terrestre, e que colocam tantos obstáculos ao trabalho de nossas inteligências; tão logo se transporte a esses mundos afortunados onde o homem levaria uma vida mais nobre e generosa, onde as inteligências agiriam com todo o seu poder de ação, com toda a sua liberdade, e tão logo se deixa cair em seguida sobre nosso pobre planeta, onde se travam os combates incessantes da vida contra a morte, compreende-se que alto grau de superioridade esses mundos teriam recebido com relação ao nosso, e quanto os seres que os habitariam estariam elevados acima dos filhos da Terra.
Graças à organização de nosso aparelho pulmonar, nosso sangue se renova incessantemente sem que o saibamos; não precisamos fazer uma refeição de oxigênio para manter a identidade da composição química do nosso sangue, que uma circulação perpétua reconduz das extremidades ao coração; então a atmosfera é mesmo, aqui, um elemento de nossa subsistência, uma parte do alimento de nosso sistema corporal. Não pode acontecer que nos mundos inferiores a respiração difira da nossa e seja forçada a um tipo de alimentação periódica? Reciprocamente, não pode acontecer que nos mundos superiores essa respiração, modificada e completada, seja suficiente para alimentar todo o organismo humano? "A lei de morte", dizia Epicteto, "é a lei da natureza material e secundária; não acontece assim na natureza primordial e etérea." Antes de Epicteto, esta condição já havia sido expressada pelo poeta da Ilíada.
Celebrando a vigilante ternura de Vênus por seu filho Enéias, Homero falara nestes termos:" Um vapor etéreo corre no seio dos deuses afortunados; eles não se alimentam dos frutos da terra, e não bebem vinho para matar a sede. (1) Tais idéias foram freqüentemente expressadas depois, aplicadas aos seres que as religiões e as mitologias imaginaram em meio às habitações paradisíacas; essas idéias não representam somente as criações ilusórias da Fábula, mas um estado de coisas existente nas esferas superiores, estado em harmonia com o elevado destino dos seres que contemplamos do fundo de nosso crepúsculo, e nos quais nós acreditamos encontrar o tipo ideal de nossa perfectibilidade. (1) Illiada, canto V, versos 341. 342. Sim, a materialidade de nosso mundo reagiu sobre a constituição física de seus habitantes, nossas tendências instintivas foram por ela influenciadas, nossos apetites trazem o cunho dessa grosseria, e os próprios sentimentos de nossa alma encarnada não puderam se libertar. Não é também apenas em nosso aparelho nutritivo que reconhecemos os sinais da inferioridade de nosso mundo; também não apenas em nosso aparelho respiratório; mas todos os órgãos de nosso corpo estão solidariamente
ligados entre si, não há sequer uma de nossas funções que não esteja marcada pelo sinal inequívoco de nosso rebaixamento. Material de um lado, nosso organismo não poderia ser etéreo de outro; a harmonia subsiste mesmo nas criações inferiores; nós somos indígenas, e todo o nosso ser oferece, em todas as suas partes, a característica local de nossa região. (2) (2) Vide G no Apêndice: de Generatione. Sobre os mundos onde as disposições amigáveis da natureza prepararam um verdadeiro trono à inteligência humana, e onde o homem não tem uma lealdade fictícia como aqui, mas reina em toda a extensão do domínio que pertence ao espírito, sobre esses mundos uma era de paz e de felicidade mede as idades da humanidade. As formas enganadoras que revestem o vício não surgiram ali; por que motivo seriam vestidas, e para que serviriam? Os elementos da perfídia e da sedução também não nasceram lá, pois o joio não cresce sem o germe.
Sobre esses mundos a humanidade chegou a seu período de verdade, porque lá as paixões humanas tendem ao Bem. E, de fato, qualquer mundo onde a humanidade tenha chegado ao ciclo de sua virilidade deve oferecer este caráter distintivo fundamental: que, nele, o exercício pleno da liberdade conduza ao Bem. Entre as fileiras de uma humanidade viril, a liberdade desfraldada em toda a sua plenitude deve ser uma força poderosa estendida rumo à perfeição; está aí a prova da superioridade de um mundo. Lá, todas as paixões, todos os desejos, todos os apetites do homem têm em vista o tipo ideal que imaginamos como modelo e objetivo da natureza humana. Quanto é necessário que nosso mundo ofereça tal caráter! A liberdade, todo mundo a deseja; ninguém é digno dela. A liberdade, para nós, é a licenciosidade; é a satisfação de instintos perversos; é a destruição da ordem geral e da segurança. E não falamos particularmente aqui dos cidadãos de nossa bela França, mas da Europa inteira e de todas as raças civilizadas: todos são liberais em teoria, ninguém o é na prática. A liberdade! Em que caos nosso pobre mundo se precipitará se, sem
consideração pelas leis convencionais que a sociedade teve de se impor, nem por nossa consciência íntima, que pode mais ou menos nos segurar à beira do abismo, este mundo deixar-se arrastar pela satisfação brutal de seus desejos? Afora algumas exceções, todos os homens sobre a Terra são mais ou menos partidários dessa filosofia pessoal que foi chamada de Filosofia da sensação. Entre todas as escolas, nenhuma conta com tantos discípulos, e esta representa a expressão das tendências freqüentemente inconfessadas, mas dominantes, da maioria dos homens. Essa filosofia, para dizer em poucas palavras, parte do seguinte fato: a sensação agradável ou penosa; procurar a primeira, evitar a segunda. Ela recorda ao homem que seu primeiro instinto é desejar o prazer, qualquer que seja: prazer físico, prazer intelectual ou prazer moral; ela lhe ensina que o bom entendimento da vida consiste em procurar a maior quantidade de prazer possível durante um certo tempo, ou seja, a felicidade, e que a sabedoria mais bem compreendida é aquela que nos permite alcançar este objetivo, mesmo ao preço de renúncias passageiras e prudentes sacrifícios.
Nesse sistema, a felicidade pessoal é o propósito da vida, e o interesse, o único motivo de todas as ações. Ora, não é esta a expressão da maneira de pensar da maioria dos homens, e não seria a de todos, caso se quebrassem os freios que nos prendem a uma moral mais austera, se nos convidassem a fazer pleno uso da liberdade desejada? E nós perguntaríamos, a esses mesmos que proclamam verbalmente os dogmas de uma filosofia mais elevada, esta maneira de ver não está no fundo de seus pensamentos, não é ela o aguilhão que os empurra incessantemente rumo à tão amada deusa da Fortuna? Se todos os homens se escutassem, ou pudessem escutar-se, Epicuro seria o deus da Terra. Mas a filosofia da sensação, ou a moral do interesse, é um sistema filosófico muito falso, que, como tão bem o demonstrou Victor Cousin, confunde a liberdade com o desejo e com isso anula a liberdade; não faz distinção fundamental entre o bom e o mau; não revela nem a obrigação
nem o dever; não admite o direito e não reconhece o mérito ou o demérito; pode facilmente — muito facilmente — prescindir de Deus; e, como última conseqüência, anula os princípios superiores da metafísica, da estética e da moral. Tomai a humanidade em seu conjunto, esta é a estrada sobre a qual ela se precipitaria se vós lhe abrísseis as portas da liberdade tal como ela a compreende, a tal ponto está longe de tender à perfeição ideal. Ainda é essa a estrada seguida secretamente pela maioria dos homens (e seria, para eles, impróprio não segui-la, pois lhes parece melhor encarar o mundo como ele é, modelar a partir dele sua maneira de viver, em vez de consumir-se em vãos esforços para reformá-lo). E é este o mundo que se supôs representar sozinho a obra divina! E esta a humanidade supostamente completa em si mesma, abrigada sozinha sob a asa de Deus, e destinada a governar o Universo!
Assim, sob qualquer ponto de vista por que se encare a questão do homem, se reconhecem as provas irrefutáveis da inferioridade de nosso mundo e sente-se a existência de uma superioridade extraterrestre; todos os ensinamentos da filosofia e da moral o testemunham unidos. Dir-se-á agora que nossa humanidade cresce e se aperfeiçoa sem cessar, e que virá o dia em que o homem, chegado ao apogeu de sua grandeza, viverá em paz dias felizes e cheios de glória? Mas, imaginando ainda que toda a perfectibilidade de que a nossa raça é capaz realizar-se-á um dia; adiantando que, com a ajuda da ciência e da indústria, o homem chegará a dominar completamente a matéria, a fazer com as máquinas todo o trabalho físico que ainda é obrigado a fazer hoje em dia com as próprias mãos, e estabelecer, tanto quanto nos seja possível, o reinado do espírito sobre a Terra; vendo mais além de um futuro distante uma era gloriosa tão superior à era presente quanto esta o é com relação ao estado selvagem; mesmo assim não poderíamos mudar as condições fundamentais da existência de nossa espécie, condições intimamente ligadas a nossa estada terrestre, e não
poderíamos fazer com que essa estada não portasse sempre o signo indelével de sua inferioridade. Outros, otimistas — com menos certeza —, adiantarão talvez que a criação terrestre não está acabada somente com a existência de uma raça intelectual, e que, de um dia para outro, o poder criador que fez nascer o primeiro homem no berço da humanidade poderá dar à luz uma nova raça de seres superiores, uma nova ordem de seres inteligentes tão elevados acima de nós como estamos acima do macaco, e que viria tomar posse da Terra e dominar os seres que a habitam hoje em dia — o que, convenhamos, seria bem pouco desejável para nós. Essas novas criaturas poderiam não estar submetidas às condições de existência que nos prendem à matéria; sua organização mais etérea ofereceria algumas analogias com a dos habitantes desses mundos superiores de que falamos, e, desde a sua chegada aqui embaixo, elas dominariam por natureza todos os seres submetidos às vicissitudes dos elementos materiais.
A essência e a natureza de suas faculdades morais seriam tão inacessíveis à nossa compreensão quanto a luz à compreensão de um cego ou o som à de um surdo. Embora esta opinião tenha sido partilhada por escritores respeitáveis, parece ser inteiramente gratuita; pois, de um lado, nosso gênero humano parece ter tomado posse da Terra, e, de outro, se surgisse algum dia um novo grau na hierarquia dos seres terrestres, esse grau se manifestaria imediatamente acima de nós, pois a Natureza não dá saltos entre uma criação e outra; não há lacuna na graduação natural dos seres. Ora, essa segunda raça de homens estaria submetida ela mesma às condições de habitabilidade do globo; pertenceria à zoologia da Terra, como as precedentes; seu organismo estaria, como os outros, ligado ao organismo fundamental da animalidade; e, se se imaginasse uma série de novas raças humanas, cada qual superior à precedente, a última e mais perfeita delas seria ainda assim uma raça terrestre, e nada poderia fazer para que a Terra não fosse sempre a Terra. Eliminando assim essa suposição romanesca de uma nova humanidade, ficamos com a nossa, reduzida a sua verdadeira característica. Ora, não
apenas não chegaremos jamais aqui a essa era ideal de paz e de feliz tranqüilidade, que gostamos de encarar em nossos sonhos, mas também, se as condições de uma tal existência nos fossem oferecidas, a melhor decisão para nós seria recusá-las, pois uma mudança como esta não nos seria vantajosa. É preciso que a lei do trabalho esteja em vigor na Terra; sem ela, a inatividade do lazer, longe de favorecer nosso progresso, nos enfraquece e faz tombar na perdição. As almas superiores que vivem do trabalho intelectual são as únicas que podem, sem perigo, abster-se dos trabalhos corporais; mas o trabalho intelectual não é menos necessário; sabemos, pela triste experiência dos que habitam em nossos climas mais afortunados, que o trabalho é a condição de nosso desenvolvimento e de nossa prosperidade, e que, se as forças de nossa alma não estivessem fisicamente obrigadas a estar perpetuamente em ação, elas se embotariam e ficariam estéreis.
A idéia fundamental que deve resultar das considerações precedentes, sobre a ordem moral das humanidades do espaço, deve então nos representar, no conjunto dos mundos, uma progressão de seres orgânicos igualmente superiores a nós. Da mesma forma como aqui, em nossa modesta morada, todos os seres são afetados em sua constituição íntima por uma tendência natural à luz, desde as plantas que nascem no fundo das cavidades rochosas à criança em seu berço, que se vira em direção à luz do dia; igualmente, em toda a criação, os seres estão em ascensão rumo a um destino superior. Na universalidade dos mundos as humanidades não estacionam no mesmo grau de elevação; elas sobem, elas estabelecem uma diversidade infinita nos céus, e todas têm seu lugar marcado na unidade do plano divino que o Eterno formou no início do mundo.
Devemos agora completar os quadros precedentes, com uma olhada na natureza das idéias que os habitantes de outras moradas podem e devem ter, com relação às três questões fundamentais da filosofia: o Verdadeiro, o Bem e o Belo; ao mesmo tempo aprenderemos, com este estudo, a apreciar, tanto quanto possível, estas questões em seu valor absoluto.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.