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Capítulo 12 de 46

Fisiologia dos Seres — parte 2 de 5

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

poderá prevalecer, encontra tantas variedades nas produções da Terra, quanto mais deveremos ter certeza de que nenhuma causa pode se opor eficazmente à manifestação da vida sobre os planetas e sobre os satélites, cujas produções, aliás, podem variar ao infinito! Dizemos que essas diversas produções podem e devem variar ao infinito, e estamos muito longe de admitir que o habitante de Mercúrio seja conforme ao de Netuno, pois temos certeza de uma infinidade de organizações diferindo não somente de um mundo para outro, mas ainda sobre cada um dos mundos, com suas diferentes eras, seus climas e suas condições biológicas. A diversidade que reina aqui entre a flora e a fauna das diversas regiões, conforme as latitudes, a climatologia, a isotermia, o estado atmosférico, a natureza do solo, as linhas isoquímenas e todas as outras circunstâncias locais, é para nós indicação da diversidade inimaginável que distingue a habitação de cada um desses mundos, quanto ao organismo, quanto à forma e quanto ao modo de viver.

E, quem sabe? as conjeturas que têm campo livre em nossa matéria —mas que não teriam direito de cidadania neste livro — poderiam bem ir ao encontro das criações fantasistas dos poetas e dos pintores que se puseram a povoar com seres bizarros os tempos desconhecidos, lá semeando à profusão emblemas disformes e filhos da Imaginação (*) que se chamou de Esfinges, Grifos, Cabiros, Dáctilos, Lâmias, Elfos, Sereias, Gnomos, Hipocentauros, Arimaspos, Sátiros, Harpias, Vampiros etc. Todos os seres que simbolizam sob formas diferentes o grande Pã invisível podem encontrar-se entre as produções infinitas da Natureza. O princípio capital, a grande lei que domina toda manifestação viva, é que os seres se conformam, cada um segundo sua morada, e que em torno deles tudo se encontra em harmonia com sua organização, suas necessidades e seu gênero de vida.

Se fizermos uma idéia justa do poder eficaz da Natureza, admitiremos forçosamente que os habitantes dos planetas mais afastados do Sol não recebem menos luz e calor relativamente à sua organização recíproca que os de Mercúrio ou da Terra, e que não se pode apoiar legitimamente sobre o afastamento ou a

proximidade dos planetas para deduzir disto sua inabitabilidade. Dizemos também que os elementos inerentes à constituição deste ou daquele planeta não podem ser mais contrários à sua habitabilidade que aqueles, de que a Terra está revestida, não são contrários a nós mesmos. Assim, quando se nos opõe que a água estaria no estado de vapor em certos mundos e no estado de gelo ou neve em outros, que os minerais estariam em fusão em alguns e em estado de solidez nos outros, que a agricultura e as artes seriam impossíveis, ou mil outras objeções do mesmo gênero; estas razões só podem se referir aos elementos terrestres transportados a esses astros, o que lhes retira completamente todo valor científico. Sobre Urano e sobre Netuno, os líquidos não podem ter a mesma composição química que sobre a Terra, pois que a água terrestre lá estaria num estado de congelamento perpétuo; o mesmo ocorre para os sólidos e para os gases. Cada mundo possui elementos de habitabilidade própria.

E certo que a Natureza sabe apropriar perfeitamente a organização física dos seres vivos à dos seres orgânicos ou inorgânicos entre os quais deverão passar os seus dias, ao mesmo tempo que aos princípios vitais próprios em meio dos quais deverão consumir sua existência. (*) No original, In Folle du logis, "a louca do lar", nome dado à imaginação por Nicolas Malebranche (1638-1715). (Nota do Editor.) Este ensinamento da Natureza é unânime aqui como nos outros pontos de nossa tese. Uma relação estreita e indissolúvel reina entre a Terra e os seres que a habitam, entre os fenômenos físicos que se cumprem na sua superfície e as funções desses seres, desde os animais que emigram por indicação de seu instinto pessoal, para se encontrar sempre nas condições em que foram constituídos, até aqueles que, sem poder se deslocar, mudam de pelagem e se vestem de acordo com a estação.

As funções da vida respondem ao estado da Terra; uma grande solidariedade liga os seres a esta constituição terrestre, e a tudo que dela depende, até mesmo nesses períodos insensíveis de tempo que parecem totalmente estranhos à nossa organização. Para citar um entre mil exemplos, indicaremos o Relógio de

Flora, de Lineu, formado por uma série de plantas que abrem ou fecham suas flores em certas horas do dia, como o Emerocalo, que se abre às 5 horas da manhã, o Souci des champs, às 9 horas, a Belle-denuit, às 5 da tarde, a Silène às 11 horas etc., fenômenos em correlação íntima e direta com as alternativas diurnas do movimento da Terra, pois que se produzem em qualquer lugar oculto para onde se transportem essas flores, longe das influências da luz e do calor. Estes são apenas alguns dos inumeráveis efeitos da concordância mútua que existe entre a Terra e sua população, concordância mostrando que elas foram formalmente destinadas uma para a outra. A Natureza conhece o segredo de todas as coisas, põe em ação as forças mais insignificantes como as mais poderosas, torna todas as suas criações solidárias, e constitui seres de acordo com os mundos e de acordo com as eras, sem que nem uns nem outros possam opor obstáculo à manifestação de seu poder.

Segue-se daqui que a habitabilidade dos planetas que passamos em revista é o complemento necessário de sua existência, e que, de todas as condições que enumeramos, nenhuma oporia obstáculo à manifestação da vida sobre cada um desses mundos. Iremos mais longe ainda, e estenderemos nossos princípios à generalidade dos astros iluminados pelos sóis do espaço. Os trabalhos maravilhosos da análise espectral já nos fizeram conhecer, nos espectros luminosos dos planetas, as mesmas cores e as mesmas raias negras de absorção que no espectro solar; daqui, somos levados a ver nos planetas substâncias que se encontram igualmente na constituição do Sol. Ora, já sabemos que no Sol existem o ferro, o sódio, o magnésio, o cromo, o níquel, o cobre; ao passo que este globo não contém ouro, prata, estanho, chumbo, cádmio ou mercúrio. Pode-se fazer agora a química do céu, como se faz a química dos corpos terrestres, e analisar a constituição dos astros que povoam o espaço.

As pesquisas recentes que tiveram como objeto o exame de Sírius, Vega, da Espiga da Virgem... e das mais belas estrelas do firmamento, abriram uma ciência experimental que levará às mais importantes descobertas, e nos dão legitimamente a esperança de logo

conhecer a natureza íntima de alguns desses astros inacessíveis (1) . Mas quer os espectros estelares nos mostrem elementos análogos àqueles de que se compõem o nosso Sol e os nossos planetas, ou que indiquem uma grande diversidade de substâncias, não devemos abandonar a convicção de que esses astros, ou, melhor dizendo, os planetas que giram ao seu redor, possuem elementos capazes de constituir seres organizados segundo seu respectivo estado, e independentemente da diferença que separa sua constituição da nossa. A única consideração de prudência a guardar aqui é ficar entre os limites extremos; a Natureza, que tem o infinito ao seu redor e a eternidade como medida, pode ter astros exclusivamente criados para o serviço de certos outros, assim como pode ter mundos em via de formação ou de destruição. (1) Soubemos pelos jornais ingleses do mês de setembro de 1864 que, depois da leitura de nossa obra, vários astrônomos, especialmente os srs. Miller e Huggins, a quem se devem brilhantes descobertas na análise espectral, dedicaram-se, com o auxílio de aparelhos aperfeiçoados, a um novo estudo dos espectros elos planetas.

Ficamos felizes por esses célebres professores, cujos trabalhos contam quase trinta anos, aplicarem sua habilidade inconteste a essas interessantes soluções. — V. a nota do Apêndice: A análise espectral e a vida sobre os outros mundos. (Nota da 44 edição.) Isto é o mesmo que dizer que certas condições biológicas que nos parecem incompatíveis com as funções da existência na Terra podem, na verdade, ser favoráveis a seres organizados de um modo desconhecido. Até mesmo adiantaríamos que a ausência de atmosfera, por exemplo, e por isso mesmo, a ausência de líquidos na superfície de certos mundos, não acarreta necessariamente a impossibilidade da vida. Com efeito, os autores modernos, que só admitem a pluralidade dos mundos com esta restrição, não consideram a Natureza capaz de formar seres vivos segundo outros modelos que não os que estabeleceram na Terra.

Será esta uma razão, porque não podemos viver sem este fluido grosseiro que envolve o nosso globo, que nenhum ser possível possa habitar as esferas desprovidas desse fluido, e, de que a água é necessária à alimentação da vida terrestre, devemos forçosamente concluir que aconteça o mesmo nos outros mundos?

Não é o estado da natureza física que determinou que a vida nascesse sob tal ou qual modo, se revestisse desta ou daquela forma, e todos os seres não estão ligados a este estado pelas forças que os engendraram ou que os sustentam? O Criador teria estendido sobre o nosso globo uma atmosfera aérea composta tal como é, se o homem tivesse de ser organizado diversamente, ou o teria colocado aqui embaixo, organizado tal como é, se esta atmosfera não existisse? Que absurdo para os modernos, de encerrar o poder criador dentro de tais estreitos limites, nos quais a própria ciência humana não ousaria se entrincheirar para sempre! Que bobagem pretender que, sem um certo número de equivalentes de oxigênio e de azoto, a todapoderosa Natureza não poderia engendrar nem a vida animal, nem a vida vegetal, ou, melhor dizendo, nenhuma espécie de seres, pois, porque a criação está dividida em três reinos na Terra, não há razão para que não possa aparecer em outros mundos sob formas incompatíveis com alguma das formas terrestres!

Na verdade, se os antigos tivessem melhor raciocinado, e se interrogássemos seu último rebento, que os reflete a todos em seus memoráveis escritos: "Os que querem", nos responderia ele, "que os seres animados dos outros mundos tenham todas as coisas necessárias ao nascimento, vida, alimentação e sustento como os daqui, não consideram a grande diversidade e desigualdade que há na Natureza, onde se encontram variedades e diferenças maiores entre uns e outros seres. Isto como se não pudéssemos nos aproximar do mar, nem tocá-lo, tendo-o visto apenas de longe, e ouvindo dizer que a sua água é amarga, salgada e impossível de beber, que ela alimenta grandes animais em grande número e de todas as formas no seu fundo, e que está todo cheio de grandes bestas que se servem daquela água nada mais nada menos como nós o fazemos do ar, (1) parecernos-iam todas estas coisas fábulas e notícias estranhas, inventadas e criadas ao bel-prazer.

Da mesma maneira seria nossa disposição para com a Lua e outros mundos, não acreditando que algum homem more por lá. (2) (1) Plutarco, que não conhecia a respiração pelas brânquias, engana-se aqui com o fenômeno; mas seu raciocínio não é menos correto em relação à nossa tese. (2) De facie in orbe Lunae, trad. Amyot.

Trataremos a questão do ponto de vista filosófico geral em nosso quinto livro, sobre a Humanidade no Universo, mas acrescentemos aqui ainda uma observação particular, que completará as precedentes. Falemos por um instante de nossa ignorância forçada nesta pequena ilha do mundo onde o destino nos relegou, e da dificuldade em que estamos de aprofundar os segredos e as forças da Natureza. Constatemos que, de um lado, não conhecemos todas as causas que puderam influenciar, e que influem ainda hoje, sobre as manifestações da vida e sobre seu sustento e sua propagação na superfície da Terra; e que, de outro, estamos muito mais longe ainda de conhecer todos os princípios da existência que propagam sobre os outros mundos criaturas muito dessemelhantes. Mal penetramos aqueles que presidem às funções cotidianas da vida; mal pudemos estudar as propriedades físicas dos meios, a ação da luz e da eletricidade, os efeitos do calor e do magnetismo. Existem certamente outras que agem constantemente sob nossos olhos e que ainda não se pode estudar, e nem mesmo descobrir.

Quão inútil seria, portanto, opor às existências planetárias os princípios superficiais e limitados que chamamos de nossa ciência? Que causa poderia lutar com vantagem contra o poder efetivo da Natureza, e opor obstáculo à existência dos seres sobre todos esses globos magníficos que circulam ao redor do foco radioso! Que extravagância encarar o pequeno mundo em que recebemos a vida como o templo único ou como modelo da Natureza! Recordemos agora em resumo, o que demonstramos até aqui, relativamente às condições astronômicas e fisiológicas dos mundos, e estabeleceremos uma dupla conclusão, evidente do ponto de vista fisiológico, tanto quanto do ponto de vista astronômico: 1º) A Terra não tem nenhuma preeminência notável sobre os outros planetas; 2º) a vida nos parece o objetivo supremo da vida da matéria; 3º) os outros mundos apresentam um destino análogo ao do globo que habitamos. Uma vez estabelecidas estas proposições, é fácil derivar delas um corolário que será a última palavra de nossa discussão. Aqui, toda a

filosofia vem unanimemente nos responder que toda coisa tem sua razão de ser na Natureza, a qual nada faz em vão, e de Aristóteles a Buffon, nenhum naturalista sonhou em colocar em dúvida esta verdade, que lhes pareceu de uma evidência axiomática. Se a Natureza semeou por todo o espaço mundos habitados, não foi para fazer deles eternas solidões; a partir da opinião de todos os filósofos, não é possível sustentar uma opinião contrária. Mas indo ao fundo da questão e colocando rigorosamente a questão tal como é, ela se resume no eterno dilema discutido desde a origem da filosofia: A existência das coisas tem um objetivo? Ou não tem? Eis o que devemos decidir cá entre nós. Se não nos entendermos previamente no que concerne a isto, a discussão torna-se desde já impossível, cada um se apoiando sobre petições de princípios e sobre argumentos contrários.

Ora, antes mesmo de estabelecer nossa convicção sobre este assunto, suponhamos por um instante ser possível que o Universo seja sem objetivo, e seguir-se-á que as condições respectivas dos planetas devem ser vistas como totalmente fortuitas, que é o acaso (o acaso!) que os formou tais como são, que foi ele, por conseguinte, que presidiu às transformações da matéria e ao estabelecimento dos mundos. Ora, os que raciocinam assim, qualquer que seja a escola em particular a que pertençam, levam o nome geral de materialistas; mas estes filósofos do positivismo estão longe de se opor à nossa tese: já se viu, através de Lucrécio, discípulo de Epicuro, e pode-se resumir como se segue às opiniões de uns e outros.

Se é a combinação cega dos princípios da vida que formou a população da Terra, é certo que estes mesmos princípios, estando difundidos por todo o espaço desde as eras mais recuadas (pois não há criação) e desde as origens das coisas atuais, com os mesmos raios de luz e de calor, com os mesmos elementos primitivos da matéria, com os mesmos corpos, sólidos, líquidos ou gasosos, com as mesmas potências, com as mesmas causas, enfim, que intervieram na formação de nosso mundo, é certo que estes mesmos princípios, não ficando jamais inativos, engendraram por milhares e milhares de

combinações outros seres de todas as formas, de todos os tamanhos, de todas as proporções, tão variados quanto estas mesmas combinações. (1) (1) Ver, quanto aos tempos antigos, os jônios, os eleatas, os atomistas, os epicuristas, os estóicos...; quanto aos tempos modernos, Espinosa, que abriu o caminho à exegese alemã contemporânea, e todo o filosofismo de além-Reno, que acaba de irromper pela França. O sistema dos materialistas é favorável à nossa doutrina, é o que vemos; mas pensamos que é unicamente porque ele é inerente à própria idéia das evoluções da matéria; e malgrado o apoio que esses filósofos possam nos prestar, nosso dever é não nos aliar a eles, e não deixar um só instante nossa doutrina nas suas mãos, pois a autoridade dos que não reconhecem uma Inteligência diretriz na organização do Universo nos parece incapaz de levar seja o que for para o seu lado. Não queremos entrar numa interminável discussão sobre as provas de existência de Deus, pois aqui não é o lugar para isso; mas queremos exprimir em poucas palavras nossa maneira de ver.

Dizemos que, malgrado nosso venerado mestre Laplace, que — em palavras — qualificava Deus como hipótese inútil, malgrado os sábios discípulos das escolas de Hegel, Augusto Comte, Littré e seus êmulos, malgrado a autoridade de nomes contemporâneos, que é inútil mencionar, mas que nos são caros por mais de um motivo, não hesitamos em proclamar em princípio a existência de Deus, independentemente de todo dogma, diríamos mesmo independentemente de toda idéia religiosa; as provas desta existência são para nós tão numerosas quanto os seres animados que povoam a Terra. (2) Depois da publicação de sua grande obra sobre a Mecânica celeste, Laplace fez uma homenagem a Napoleão. Este, lendo-a, chamou o astrônomo e manifestou-lhe sua surpresa de não ler encontrado uma só vez a palavra Deus em toda a extensão da obra. — Sire, respondeu Laplace, eu não tive necessidade dessa hipótese. Malgrado nossa incapacidade de conhecê-lo e nossa fraqueza diante d'Ele, afirmamos o Ser supremo. Nós não o compreendemos mais que o inseto compreende o Sol; não sabemos nem quem Ele é, nem como Ele é, nem por que modo Ele age, nem o que é Sua presciência e Sua ubiqüidade;

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