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Capítulo 28 de 46
A Humanidade no Universo — parte 9 de 11
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
todos esses vãos ornamentos condenados a perecer, mas em todo o seu imperecível e eterno esplendor!" Se há nos belos princípios absolutos que formam como o fundo e o tipo espiritual da beleza, igualmente e com mais forte razão deveremos encontrar esses mesmos princípios absolutos na idéia do Verdadeiro e do Bem; pois aqui nada mais há de material, tudo é essencialmente moral e pertence ao reino do espírito. O que é verdadeiro é verdadeiro, o que é bem é bem, na absoluta acepção da palavra; e se a história dos povos parece mostrar junto a alguns as verdades não reconhecidas por outros, e invalidar por isso o princípio das verdades absolutas, tal fato só deve nos servir para esclarecer sobre a existência dessas verdades, para ensinar-nos a distinguilas de certas idéias relativas, e a não tomar levianamente por absoluto o que não oferece os caracteres indestrutíveis. As verdades universais oferecem esse caráter distintivo, de que elas existem necessariamente, independentemente de nós, e não podem sofrer alteração seja onde for. Elas são axiomáticas e imperecíveis.
Nossa razão as percebe, mas não as inventa; ela as encontra, mas não as forma; e se todos os homens não podem igualmente apreciar seu valor, pois não são igualmente elevados na ordem moral e intelectual, ao menos sua noção é acessível a toda consciência humana, porque esta noção deve ser a regra de nossa conduta interior. Esses princípios universais estão à frente de todas as ciências, e, sem a sua autoridade indiscutível, nenhuma ciência saberia como se edificar. À frente das matemáticas temos nossos axiomas, nossas definições primeiras, que formam a base original de nossa ciência, além da qual não subimos, já que nela subsiste a confirmação inalienável de nossos teoremas. Em todos os países do mundo 2 mais 2 são 4, o quadrado de 4 é 16, e 8 é a raiz quadrada de 64. Os raios do círculo são iguais onde quer que seja, assim
como em qualquer lugar a medida da esfera é 4/3 r R. Nada pode fazer que num triângulo retângulo a soma dos dois ângulos agudos não seja igual ao
ângulo reto, ou que cada lado do ângulo reto não seja igual à hipotenusa multiplicada pelo seno do ângulo oposto. Etc. À frente da lógica, esta matemática do raciocínio, temos nossos princípios absolutos, aos quais reconduzimos os diversos pontos de nosso discurso, princípios em virtude dos quais nós pronunciamos com autoridade e alcançamos a verdade procurada. Todo efeito proclama uma causa, ao menos igual ao efeito produzido; toda ação necessita uma força, e toda força só pode aplicar-se sobre um ponto resistente. Nada pode fazer com que o continente não seja superior ao conteúdo. Não há ato sem agente, nem qualidade sem substância. Etc. À frente da moral temos igualmente nossos princípios absolutos e indiscutíveis, em virtude dos quais julgamos as ações, os próprios pensamentos, e apreciamos seu valor. Eles são a base de nossas leis individuais e de algumas de nossas leis sociais; eles são a regra de nosso comportamento íntimo; eles se estendem a todos os seres morais, sem distinção de mundos, de espaço e de tempo.
A idéia do justo e do injusto está no fundo de nossas consciências. O juramento obriga, e qualquer um que traia seus votos comete uma falta. O homem invejoso e ciumento de seu irmão é um criminoso; aquele que consagra sua vida a aliviar o infortúnio é virtuoso. Etc. Estão aí verdades absolutas e universais. Não se deve confundir essas verdades universais com as verdades apenas gerais, que, a despeito de sua extensão às vezes ilimitada, não são contudo absolutas. Por exemplo, quando dizemos que o ano depende do movimento da Terra, nós enunciamos uma verdade geral, que pode ser estendida a um grande número de astros, mas que pode não sê-lo a astros submetidos a um sistema diferente do nosso. Sobre uma terra que, por exemplo, fosse relativamente imóvel no centro de um grupo de sóis, o ano não existiria; haveria uma astronomia, uma física completamente diferentes daqui; contudo não poderia haver outros princípios matemáticos, nem outros princípios de lógica para seus habitantes, etc. As verdades gerais podem nos ser fornecidas pelos sentidos, pela observação exterior; e é por
isso que a escola empírica não as quer distinguir daquelas universais. As verdades absolutas, que não dependem nem do mundo, nem de nós, são concebidas por nossa razão; esta as alcança, as descobre, com a ajuda dos princípios universais dos quais é provida; ela não as constitui. Por isso dizemos que, em todas as humanidades, as verdades absolutas são, como entre nós, a base originária dos trabalhos da inteligência. Reconheçamos então em definitivo: 1º que nosso espírito se apercebe da verdade absoluta, mas não a constitui; 2º que os seres exteriores participam da verdade absoluta, mas não a explicam; 3º que a verdade não existe abstratamente em si mesma e só existe em Deus, princípio dos princípios. O Ser superior ligou todas as inteligências com esse laço; o destino de todos os seres dotados de razão é elevar-se ao conhecimento das verdades absolutas, e esses seres possuem neles os elementos e as noções necessárias para se desenvolverem e chegarem a este conhecimento.
Quando dizemos que os princípios universais da verdade são postos pelo próprio Deus em nossa alma, e que formam a base de nossas ciências, não queremos dizer que eles sejam conhecidos de todos no mesmo grau, e que por toda parte se tenham elevado sobre eles os edifícios que elevamos sobre a Terra. Longe disso, é certo, ao contrário, que os conhecimentos humanos são mais ou menos avançados, mais ou menos disseminados, conforme sejamos nós mesmos mais ou menos elevados na ordem mental. Dos mesmos princípios é possível extrair conseqüências muito diferentes, embora verdadeiras, e também conseqüências errôneas. Se, por exemplo, dos princípios axiomáticos da numeração e da geometria temos sucessivamente estabelecido nossas proposições de aritmética, álgebra, trigonometria, análise e matemáticas transcendentes, desde os primeiros teoremas de Euclides até o cálculo diferencial e integral que nos legaram Descartes, Leibniz, Fermat, Lagrange etc., não está dito por isso que em todos os mundos do espaço onde as matemáticas são cultivadas se tenha elevado o mesmo conjunto. Nada nos prova que os meios de cálculo que conhecemos sejam os únicos que se pode empregar, e que o caminho
seguido por nós seja o único que pudesse ser aberto ao gênio do homem. Se é verdade, por um lado, que Pascal e outros pesquisadores isolados encontraram sozinhos as propriedades geométricas que Euclides e outros haviam já encontrado, é igualmente possível que em outros mundos se tenha de forma idêntica as mesmas matemáticas que nós. Mas talvez também, em certos mundos, se tenha parado nas equações de primeiro grau, talvez Napier não tenha tido êmulos, e as fecundas progressões logarítmicas sejam desconhecidas aos laboriosos calculadores; por outro lado, talvez em alguns mundos a análise infinitesimal seja o dever de escolares de pouca idade, e lá se tenha chegado a concepções de que nem faríamos idéia.
Nada impede também que se tenha construído todo um outro corpo de matemáticas sobre as mesmas proposições fundamentais que nós; que se tenha julgado fecundos certos princípios que acreditamos serem estéreis; que se haja deduzido proposições novas, e que se empregue, para a resolução dos mesmos problemas (ou outros), métodos totalmente diferentes daqueles em uso entre nós. — Não temos nós mesmos diversos métodos para resolver as mesmas questões? É preciso saber, de um lado, que cada inteligência é limitada, se nós a consideramos num dado momento, e que, segundo a sua capacidade, ela está como no centro de uma esfera mais ou menos extensa, além da qual ela não vê mais nada; de outro lado, é preciso saber que cada um tem suas aptidões e sua própria faculdade de invenção, de tal forma que sobre os mesmos princípios universais uma imensa variedade de ciências pode se edificar.
Feita esta restrição, restabeleçamos o ponto reconhecido antes: que os princípios absolutos das verdades eternas estão na consciência de toda alma responsável; que eles são a luz iluminando todo homem que nasce no mundo, e que constituem com aqueles do Belo e do Bem a unidade moral da criação. Para terminar, coroaremos nossas asserções com as palavras de Bossuet em seu Tratado do conhecimento de Deus e de si mesmo, como coroamos nossas asserções sobre o Belo com as palavras emprestadas ao Banquete de Platão.
"As verdades eternas que nossas idéias representam são o verdadeiro objeto das ciências. — Se eu procuro onde e em qual objeto elas subsistem eternas e imutáveis, sou forçado a reconhecer um ser onde a verdade é eternamente subsistente, e onde ela é sempre compreendida; e esse ser deve ser a própria verdade, e deve ser toda verdade, e é dele que toda verdade deriva em tudo o que existe e se compreende fora dele. É então nele, de uma certa maneira que me é incompreensível, é nele, digo, que vejo essas verdades eternas; e vê-las, é me voltar. Àquele que é imutavelmente todo verdade, e receber suas luzes. Esse objeto eterno é Deus eternamente subsistente, eternamente verdadeiro, eternamente a própria verdade. É nesse eterno que as verdades eternas subsistem. É lá também que a vejo, que todos os homens a vêem como eu. "De onde vem ao meu espírito esta impressão tão pura da verdade? De onde lhe vêm essas regras imutáveis que orientam o raciocínio, que formam os costumes, pelas quais ele descobre as proporções secretas das figuras e dos movimentos?
De onde lhe vêm, numa palavra, essas verdades eternas que tanto tenho examinado? São os triângulos e os quadrados e os círculos que traço grosseiramente no papel que imprimem em meu espírito suas proporções e relações? Ou será que há outros cuja perfeita exatidão causa esse efeito?... Em qualquer parte, ou no mundo, ou fora do mundo, os triângulos ou os círculos subsistem nessa perfeita regularidade, de onde ela seria impressa em meu espírito? E as regras do raciocínio e dos costumes subsistem também em qualquer parte, de onde elas me comunicam sua verdade imutável? Ou não seria antes que Aquele que espalhou por toda à parte a medida, a proporção, a própria verdade, imprime em meu espírito a idéia certa?... É certo que Deus é a razão primitiva de tudo o que existe e de tudo o que se entende no Universo; que ele é a verdade original, e que tudo é verdadeiro por ligação com sua verdade eterna, que buscando a verdade nós o encontramos, e que encontrando-a nós o encontramos. O que dissemos sobre as idéias universais do belo e do verdadeiro, comuns à razão de todas as inteligências criadas, deve ser aplicado com
mais razão às idéias absolutas do bem, que estão no fundo da consciência humana. A idéia do bem é, de mais a mais, intimamente ligada à idéia do verdadeiro, pois o bem absoluto nada mais é que a verdade moral absoluta. O que se segue é então o corolário necessário do que o precede, e será ainda mais fácil de demonstrar que há, na base da moral, princípios absolutos e indefectíveis, tanto quanto na base da psicologia, da lógica e da metafísica. Aqui, como antes, estabeleceremos que a filosofia não inventa, mas constata e descreve o que é. O homem não pode criar, formar uma verdade moral, tanto quanto não pode inventar uma verdade da ordem metafísica; tudo o que ele pode fazer é elevar-se à noção de uma verdade existente, descobri-la e pô-la em atividade segundo seu modo de raciocínio.
Eis por que pensamos, com a grande maioria dos filósofos, que os princípios universais da moral podem ser estabelecidos conforme o assentimento geral do gênero humano; que o papel e o método da filosofia limitam-se aqui a recolher o que a humanidade cria e pensa, a ser seu fiel intérprete, e a exprimir em corpo de doutrina as idéias que todo homem, no fundo de sua consciência, considera como pertencendo ao bem. E aqui o senso comum é nosso juiz. Em todas as eras, junto a todos os povos, o homem distinguiu o justo do injusto; em toda a parte o homem compreendeu a noção do dever, a da virtude, a da devoção e do sacrifício; em toda a parte, no estudo das línguas, expressão do pensamento, vida exterior das famílias e dos povos, na consciência íntima de cada um de nós, em toda a parte encontramos julgamentos absolutos de estima ou de desprezo quanto ao valor moral das ações, julgamentos proferidos no tribunal de nossa alma, que os pronunciou com autoridade e conhecimento de causa, e cuja natureza nenhuma autoridade poderia mudar.
Na moral, como na lógica ou na estética, nem todos os homens são igualmente capazes de conhecer e apreciar em seu valor integral todos os princípios que constituem o bem; essa faculdade de emitirem julgamentos sempre verdadeiros, de terem no fundo da consciência a noção clara e precisa do bom e do mau, de serem, por conseqüência, responsáveis, essa
faculdade é mais ou menos completa em nós, segundo sejamos mais ou menos elevados na ordem moral. É também importante não confundir os princípios da moral e da religião naturais com as idéias extraídas do estado de natureza, e não procurar, como se fez, os axiomas do bem e a sanção de nossos julgamentos no estado selvagem dos primeiros homens ou pelo menos dos homens inferiores. Da mesma forma como não procuramos as idéias do belo e da verdade entre esses seres que de humano só têm o nome, e que estão no escalão inferior de nosso reino, ligando-os por assim dizer ao reino animal; da mesma forma não lhes perguntaremos sobre o verdadeiro código da moral. Longe disso, essa consideração porá melhor em evidência nossa doutrina da ordem hierárquica das inteligências, e dará uma idéia dessa hierarquia universal das almas, mais ou menos elevadas na noção e na prática do bem.
Para conhecer os verdadeiros princípios da moral, é preciso procurá-los na consciência do ser humano chegado à plenitude de sua vida interior, a seu estado de atividade livre e integral, e não num pretenso estado de natureza ou na humanidade de maiô; é preciso interrogar ao homem que o estudo de si mesmo e a aprendizagem da vida esclareceram, e não ao homem ainda enrolado nas fraldas do primeiro sono. Ora, nossa consciência universal nos dita suas leis, que são as da moral absoluta. Ela nos ensina que os princípios que procuramos, e em virtude dos quais julgamos o mérito ou o demérito, não residem na doutrina da sensação, naquela que Epicuro preconizou, nem na moral baseada no interesse, as quais conduzem ao despotismo e à decadência. Ela nos ensina também que a moral do sentimento, oposta à moral do egoísmo, não é suficiente; que a moral baseada no interesse da maioria é incompleta, que aquela estabelecida apenas na vontade de Deus ou na expectativa das penas ou recompensas futuras é igualmente defeituosa.
A análise dos fatos psicológicos que ocorrem em nós, assim que somos chamados a julgar as ações dos outros e as nossas próprias, essa análise nos mostra que o julgamento do bem e do mal reside na própria constituição da natureza humana, como o julgamento
do belo e o julgamento da verdade, e que, como esses dois julgamentos, o primeiro tem por característica ser simples, primitivo e indecomponível. — Como todas as outras ciências, a moral tem seus axiomas, e tais axiomas se chamam, em todas as línguas, verdades morais; axiomas e verdades que não se curvam a nenhum capricho, que pronunciam com autoridade do fundo de nossa alma, que lançam nela o remorso e o terror ou lá espalham a calma e a serenidade; que nos condena ou nos absolve; que nos julgam, enfim, por nosso real valor. Os princípios constituem a verdadeira moral, pertencem a todas as humanidades do espaço, e ligam na mesma unidade todas as almas responsáveis. (1) (1) E. Renan, cujo vago panteísmo não deixa de lançar certas luzes de quando em quando, se encontra conosco neste ponto.
Relatando o encontro de Jesus com a samaritana e estas palavras do Mestre: "Não mais se adorará nem sobre esta montanha nem em Jerusalém, mas os verdadeiros adoradores, adorarão ao Pai em espírito e em verdade". — Nesse dia, diz ele, Jesus fundou o culto puro, sem data, sem pátria, aquele que todas as almas elevadas praticarão até o final dos tempos. Não somente a religião, nesse dia, foi a boa religião da humanidade, foi a religião absoluta; e se outros planetas têm habitantes dotados de razão e de moralidade, sua religião não pode ser diferente daquela proclamada por Jesus perto dos Poços de Jacó (Nota da 4ª edição.) Esses princípios, como os do belo e da verdade, não são entidades puramente abstratas e inexistentes; não são a criação imaginária de nossas concepções; seus princípios existem, absolutos, irrevogáveis, no Ser primeiro que os constitui.
Da noção do belo, da noção do verdadeiro, chegamos a uma unidade que é o bem absoluto, Unidade suprema que resume em si a perfeita beleza, a perfeita verdade e o verdadeiro bem, Ser infinito ao qual estão ligadas todas as almas de todos os mundos pelos princípios universais que temos analisado, Ser supremo que ocupa o cimo da perfeição, ou melhor dizendo, que é a própria perfeição, e em cuja direção o destino de toda alma humana é elevar-se sem cessar. Do fundo do coração, todo ser pensante que se eleva à contemplação do Eterno pode invocá-lo com amor, e, deixando-se levar por uma santa inspiração, dizer a ele, em nome de todos os seus irmãos do espaço:
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.