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Capítulo 41 de 46

Extratos Filosóficos — parte 2 de 3

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

Agora, devo provar-vos que ele não deve ser condenado, se o colocais na categoria dos animais. Pois, supondo que ele seja um animal sem razão, como o acusaríeis de ter pecado contra ela? Ele disse que a Lua era um mundo; ora, os animais só agem pelo instinto da Natureza; portanto, é a Natureza que o diz, e não ele. — Crer que essa sábia Natureza que fez o Mundo e a Lua não saiba o que é ela mesma e que vós, que só tendes conhecimento do que recebeis dela, sabeis com mais certeza, isso seria bem ridículo. Mas mesmo quando a paixão vos fizesse renunciar a vossos princípios, e que supusésseis que a Natureza não guia os animais, envergonhai-vos ao menos com as inquietações que sofreis com os caprichos de um animal. Em verdade, senhores, se encontrásseis um homem de idade madura que vigiasse a organização de um formigueiro, ora dando um tabefe na formiga que derrubasse sua companheira, ora prendendo uma que roubasse um grão de trigo da vizinha, não o consideraríeis insensato por se dedicar a coisa muito abaixo dele?

Como, pois, venerável assembléia, defenderíeis o interesse que tomais pelo capricho deste animalzinho? Justos, tenho dito". Assim que acabou, uma espécie de música fez ressoar toda a sala; depois que todas as opiniões foram debatidas por bem um quarto de hora, o rei sentenciou: "Que daí por diante eu seria considerado homem, e como tal colocado em liberdade, e que a punição de afogamento seria modificada para uma condenação vergonhosa (pois naquela terra não existe honorável), na qual eu retiraria publicamente o ter dito que a Lua era um mundo, por causa do escândalo que a novidade desta opinião teria causado na alma dos fracos". Esta sentença pronunciada, fui levado para fora do palácio; como ignomínia, fui vestido magnificamente, levado numa magnífica carruagem, e, puxado por quatro príncipes colocados sob o jugo, eis o que me obrigaram a pronunciar nos quatro cantos da cidade:

"Povo, eu vos declaro que esta lua aqui não é uma lua, mas um mundo; e que aquele mundo lá não é um mundo, mas uma lua. Isto é que o Conselho acha bom que acrediteis".

Fontenelle

Diálogo sobre a Pluralidade dos Mundos

(Serão suplementar)

Havia muito tempo que não falávamos dos Mundos, madame a marquesa de G... e eu, e começamos até a esquecer que algum dia falamos disso, quando um dia fui à casa dela, e entrei exatamente quando dois intelectuais, muito conhecidos na sociedade, saíam. "Vistes bem, disse-me ela assim que me viu, que visita acabo de receber, e assevero-vos que ela me deixou uma suspeita que poderíeis tê-la estragado. — Seria glorioso, respondi-lhe eu, ter tanto poder sobre vós; não creio que se pudesse empreender nada mais difícil. — Receio, no entanto, que o fizestes, retomou ela. Não sei como, a conversação voltou-se para os Mundos, com esses dois homens que acabam de sair; talvez tenham dirigido o discurso maliciosamente. Não deixei de dizer-lhes logo que todos os planetas eram habitados. Um deles disse-me que estava convencido de que eu realmente não acreditava nisso e eu, com toda a ingenuidade possível, sustentei que acreditava; ele sempre tomou isto como uma brincadeira de uma pessoa que queria se divertir, e acreditei que o que o tornava tão obstinado em fazer-me duvidar de meus sentimentos, é que ele me estimava demasiado para imaginar que eu fosse capaz de uma opinião tão extravagante. Quanto ao outro, que não me estima tanto, acreditou em minha palavra. Por que me convencestes de uma coisa que as pessoas que me estimam não podem crer que eu a sustente seriamente?

— Mas Madame, respondi-lhe, por que a sustentais seriamente com pessoas que, tenho certeza, não entrariam em nenhum raciocínio que fosse só um pouco sério? E assim que se deve considerar os habitantes dos planetas? Contentemo-nos com ser uma pequena tropa escolhida, como cremos, e não divulguemos nossos mistérios para a plebe. — Como! exclamou ela, chamais de plebe os dois homens que saíram daqui? — Eles são muito inteligentes, repliquei, mas não raciocinam. Os raciocinadores, que são gente dura, os chamariam de plebe sem dificuldade. Por outro lado, tais pessoas se vingam levando os raciocinadores ao ridículo; e parece-me uma ordem bem estabelecida que cada espécie despreza o que lhe falta. Seria preciso, se fosse possível, se acomodar a cada uma; seria melhor fazer brincadeira sobre os habitantes dos planetas com esses dois homens que acabastes de receber, pois que eles sabem fazer humor, do que arrazoar, coisa que não sabem fazer. Teríeis conservado a estima deles, e os planetas não teriam perdido um só de seus habitantes. — Trair a verdade! disse a marquesa.

Não tendes consciência. — Asseguro-vos, respondi, que não tenho grande zelo por essas verdades, e que as sacrifico de bom grado às menores conveniências da sociedade. Vejo, por exemplo, de que vale e de que valerá sempre que a opinião sobre os habitantes dos planetas nunca passe por tão verossímil quanto é. Os planetas se apresentam sempre à vista como corpos que em item luz, e não como grandes campos ou grandes pradarias. Acreditaríamos em prados e campos que fossem habitados; mas em corpos luminosos, não há meio. A razão sempre ganha ao vir nos dizer que há nos planetas campos e prados; a razão vem muito tarde, o primeiro relance já fez seu efeito sobre nós antes dela: nós não a queremos escutar. Os planetas não são mais que corpos luminosos, e depois, como seriam constituídos seus habitantes? Seria preciso que nossa imaginação nos representasse de imediato suas figuras, mas ela não pode; é mais fácil acreditar que eles não existem. Desejaríeis que para estabelecer os habitantes dos planetas, cujos interesses

me tocam por demais de longe, eu vá atacar essas temíveis potências que se chamam o senso e a imaginação? Seria preciso muita coragem para essa empresa; não se persuade facilmente os homens a colocar a razão no lugar dos olhos. Vejo por vezes pessoas razoáveis o bastante para querer acreditar, depois de mil provas, que os planetas são terras; mas não o crêem da mesma maneira que o creriam, se os tivessem visto sob uma aparência diferente; lembram-se sempre de sua primeira idéia, e não aceitam muito bem. São essas pessoas que, acreditando em nossa opinião, parecem, porém, conceder-lhe graça e só favorecê-la por causa de um certo prazer que lhes dá sua originalidade. (1) Lamentamos dizer que percebe-se, de tempos em tempos, em toda obra de Fontenelle, afirmativas lamentáveis como essa, que desfiguram seu relato e enfraquecem sua autoridade. — O quê! interrompeu ela, não é o suficiente para uma opinião que é apenas verossímil? — Ficaríeis bem surpresa, retomei eu, se vos dissesse que o termo verossímil é assaz modesto. É simplesmente verossímil que Alexandre tenha nascido?

Tendes certeza, e sobre que se funda esta certeza? Sobre que tendes todas as provas que podeis desejar em tais assuntos, e que não se apresenta o menor motivo de duvidar que possa suspender e deter vossa mente; pois, de resto, jamais vistes Alexandre, e não tendes demonstração matemática que ele tenha existido. Mas que diríeis se os habitantes dos planetas estivessem mais ou menos no mesmo caso? Não se poderia apresentá-los aos vossos olhos, e não poderíeis exigir que vos fossem demonstrados, como se faz em matemática; mas todas as provas que se pode desejar de uma tal coisa, vós as tendes; a semelhança toda dos planetas com a Terra, que é habitada, a impossibilidade de imaginar qualquer outro uso para o qual tenham sido feitos, a fecundidade e a magnificência da Natureza, e certas preocupações que ela parece ter tido com as necessidades de seus habitantes, como ter dado luas aos planetas afastados do Sol: e, o que é muito importante, tudo está deste lado, e nada do outro; e não poderíeis imaginar a menor dúvida,

se não retomardes os olhos e a mente da plebe. Enfim, supondo que existam, esses habitantes dos planetas, eles não saberiam se manifestar por mais sinais ainda; e depois disso, cabe-vos ver se os quereis tratar como coisas somente verossímeis. — Mas não quereis que isso me pareça tão certo quanto me parece que Alexandre tenha existido? — Não, de modo algum, respondi-lhe; pois mesmo que tenhamos sobre os habitantes dos planetas tantas provas quantas podemos ter na situação em que estamos. o número destas provas não é grande. — Vou renunciar à idéia dos habitantes dos planetas, interrompeu ela, pois não sei em que categoria colocá-los em minha mente: eles não são totalmente certos, eles são mais que apenas verossímeis; isso embaraça muito. — Ah! Madame, repliquei, não vos desencorajeis. Os relógios mais comuns e os mais grosseiros marcam as horas também; só aqueles que são trabalhados com mais arte é que marcam os minutos.

Igualmente, as mentes ordinárias percebem a diferença de uma simples verossimilhança para uma certeza inteira; mas só as mentes mais refinadas percebem o mais ou o menos de certeza ou de verossimilhança, e que marcam, por assim dizer, os minutos por sua opinião. Colocai os habitantes dos planetas um pouco acima de Alexandre, mas abaixo de não sei quantos pontos de história que não são totalmente provados; creio que ficarão bem aí. — Gosto da ordem, disse ela, e vós me dais o prazer de arranjar minhas idéias."

Huygens

Carta a seu irmão

Servindo de introdução ao Cosmothéôros

Não é possível, meu caríssimo irmão, que aqueles que são da opinião de Copérnico, e que crêem verdadeiramente que a Terra que habitamos está no número dos planetas que giram em torno do Sol, e que recebem dele toda lua, não creiam também que todos esses globos são habitados, cultivados e ornados como o nosso: eles se convencerão facilmente de nossas conjeturas, dirigindo sua atenção sobre as novas descobertas que foram feitas no céu desde o tempo de Copérnico, sobre os astros que acompanham Júpiter e Saturno, sobre os montes e campos descobertos na Lua, e sobre muitas outras coisas pelas quais não somente se vê novas provas da verdade do novo sistema, mas ainda sobre novos pontos de semelhança e de analogia entre a Terra e os outros planetas. Isso me relembra dos diálogos que tivemos, vós e eu, quando consideramos juntos a situação e o movimento dos astros com potentes lunetas, o que não fazemos há muitos anos, por causa de vossas ocupações e vossas ausências.

Naquele tempo, acreditávamos firmemente não dever esperar adquirir jamais nenhuns conhecimento sobre as obras da Natureza nessas regiões celestes, e que, por conseguinte, seria inútil fazer sua pesquisa: para dizer a verdade, tanto entre os filósofos antigos quanto entre os modernos, não encontrei nenhum que tenha tentado fazer uma descoberta desta Natureza. Se, desde o nascimento da astronomia, quando se percebeu que a Terra é redonda, rodeada de ar por todos os lados, houve aqueles que ousaram asseverar que havia sobre os astros outros Mundos que não o nosso, em tão grande número que não se poderia contar; se aqueles que vieram depois, como o cardeal de Cusa, Bruno e Kepler afirmaram que os planetas são habitados, não parece, todavia, que nem uns nem outros tenham procurado algo por lá, nem que

tenham levado mais longe suas descobertas, não mais que o novo autor francês dos Diálogos Sobre a Pluralidade dos Mundos (Fontenelle). Alguns se contentaram em debitar certas fábulas tocando os povos da Lua, nas quais não há mais verossimilhança do que nas de Luciano; coloco no número destas as fábulas de Kepler, que quis aliviar seu espírito apresentando-nos seu Sonho Astronômico. Quanto a mim, que não me creio mais esclarecido que esses grandes homens, mas somente mais feliz, por ter vindo depois deles, aplicando-mo há algum tempo a meditar sobre este assunto com mais cuidado do que já havia feito, pareceu-me que a Providência não nos fechou todas as avenidas que podem conduzir à pesquisa do que se passa em lugares tão afastados daqui. Espero que leiais também esta obra, tendo tanto ardor como tendes pela astronomia.

Afirmo-vos que tive muito prazer em escrevê-la e experimento hoje (como já o fiz outrora) a verdade do que diz Arquitas: Se alguém tivesse subido ao céu, e tivesse considerado atentamente a economia do Universo e a beleza dos astros, a admiração que teria por tantas maravilhas se tornaria desagradável para ele, se não encontrasse ninguém para quem contar. Mas aprouve a Deus que eu pudesse contar a todos essas produções da mente, e à exceção de vós, foi-me permitido escolher leitores ao meu talante, que não fossem totalmente ignorantes em astronomia e na boa filosofia, e nos quais eu teria confiança bastante para crer que dariam facilmente sua aprovação a estes ensaios, e uma tal obra não teve a necessidade de proteção para fazer desculpar a sua novidade!

Voltaire

Sistema verossímil — Micrômegas

Como Brama, Zoroastro, Pitágoras, Tales, tantos gregos e tantos franceses e alemães fizeram cada um seu sistema, por que eu também não o faria? Cada um tem o direito de decifrar o enigma.

Eis aqui o enigma, é preciso reconhecer que é difícil. Há bilhões e bilhões de globos luminosos no espaço, e desses globos conhecemos ao menos doze mil com o auxílio de telescópios, contando os dois mil que se descobriu em Órion. Os antigos só conheciam mil e vinte dois. Cada um desses sóis, colocados a distâncias espantosas, tem ao seu redor mundos que ilumina, que giram ao redor de sua esfera, que gravitam sobre ele, e sobre os quais gravita. Entre todos esses globos inumeráveis, entre todos esses mundos girando pelo espaço, assujeitados todos às mesmas leis, gozando da mesma luz, nós também giramos num canto do Universo, ao redor de nosso Sol. A matéria de que nosso globo é composto junto com todos os seus habitantes é tal, que contém muito mais de poros, vazios, interstícios que de sólido. Nosso mundo e nós, somos peneiras, uma espécie de redes.

Nossa terra e nossos mares, girando perpetuamente do ocidente para o oriente, deixam escapar sem cessar uma multidão de partículas aquosas, terrestres, metálicas, vegetais, que cobrem o globo dia e noite até a altura de algumas milhas, e que formam os ventos, as chuvas, os relâmpagos, os trovões, as tempestades ou os dias de sol, conforme estejam dispostas essas exalações, segundo sua eletricidade, sua atração, sua elasticidade têm mais força ou menos força. E através deste véu contínuo, ora mais espesso, ora mais fino, que um oceano de luz é dardejado a partir de nosso Sol. A relação constante de nossos olhos com a luz é tal que vemos sempre nosso acúmulo de vapores sobre nossas cabeças numa abóbada baixa; que cada animal sempre está no meio de seu horizonte; que num tempo calmo, distinguimos, durante a noite, uma parte das estrelas, e que cremos estar sempre no centro dessa abóbada rebaixada e ocupar o meio da natureza. E por esta mecânica dos olhos que vemos o Sol e os outros astros onde eles não estão e que, observando um arco-íris, estamos sempre no meio desse semicírculo, onde quer que nos coloquemos.

E em conseqüência de erros perpétuos e necessários do sentido da vista que nas noites claras, as estrelas, afastadas umas das outras tantos milhões de graus, nos parecem pontos de ouro presos num fundo azul, a alguns pés de distância entre eles; e essas estrelas colocadas nas profundezas de um espaço imenso, os planetas e os cometas, e o vazio prodigioso no qual giram, e nossa atmosfera, que nos rodeia como o dossel arredondado de uma erva que chamamos dente-de-leão, chamamos a tudo isso de céu, e dizemos: "Essa assustadora fabricação foi feita unicamente para nós, e somos feitos para ela". A antiguidade acreditou que todos os globos dançavam em círculo ao redor do nosso, para o nosso prazer; que o Sol se levantava de manhã para correr como um gigante em seu caminho, e que vinha à noite se deitar no mar. Não se esqueceu de colocar um deus nesse sol, em cada planeta que parece correr em torno do nosso; e envenenou-se Sócrates juridicamente, por ter duvidado que esses planetas fossem deuses.

Todos os filósofos passaram sua vida a contemplar essa abóbada azul, esses pontos de ouro, esses planetas, esses cometas, esses sóis, essas estrelas inumeráveis; e todos perguntaram: "Para que serve tudo isso? Esse grande edifício será eterno? Construiu-se por si mesmo? Foi um arquiteto que o construiu? Quem é esse arquiteto? Com que desígnio teria feito tal obra? O que pode acontecer com ele?..." Cada um fez o seu romance, e, o que é pior, alguns romancistas perseguiram a fogo e sangue os que quiseram escrever outros romances diferentes dos deles. Outros curiosos se ativeram ao que se passa sobre nosso pequeno globo terráqueo. Quiseram adivinhar por que os carneiros são cobertos de lã; por que as vacas só têm uma fileira de dentes, e por que os homens não têm garras. Uns disseram que o homem outrora foi peixe; outros, que ele teve os dois sexos, com um par de asas. Encontrou-se quem nos assegurou que todas as montanhas foram formadas dos mares numa série inumerável de séculos. Eles viram, evidentemente, que a pedra calcária era um composto de conchas, e que a terra era de vidro. A isto se chamou física experimental.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.