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Capítulo 34 de 46
Apêndice — parte 4 de 9
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
que o Sol fosse maior que o Peloponeso. Só se conhecia a Terra, ou, melhor dizendo, uma parte muito pequena da Terra; o restante, desconhecido, se perdia no vago e na obscuridade das fantasias. A Terra não poderia estar isolada no espaço; sobre que alicerce ela repousaria? Só se podia habitar a parte de cima; à parte de baixo da Terra ninguém jamais vira, e se alguém falasse dos antípodas. erguia-se os ombros, surpreendendo-se que um homem fosse ingênuo o suficiente para crer que houvesse seres que pudessem viver de cabeça para baixo, e os pés para cima. As estrelas eram fagulhas presas à abóbada celeste; o Sol e a Lua eram faróis a serviço da Terra. A Terra não era um planeta, um mundo; era o Mundo. Se algum cometa desordenado aparecesse no céu, era sinal precursor de um grande acontecimento. Um eclipse não era um fato natural; era ainda um agouro para o homem. "Sob o reinado de Hunerico, rei dos vândalos", diz Gregório de Tours, "o sol se escureceu a ponto de só um terço de seu disco estar luminoso.
A causa é, eu creio, tantos crimes e derramamento de sangue inocente." Esta frase de Gregório de Tours pode ser aplicada, com variantes, à interpretação de todos os fenômenos da natureza que saíam de sua marcha cotidiana: tudo se reporta ao homem. As idéias recebidas sobre o sistema do mundo dominaram os cristãos tanto quanto os bárbaros. Ninguém, na época, podia subtrair-se à sua influência. Tampouco faz-se necessário um exame minucioso para constatar que o sistema físico do mundo adotado nos começos da era cristã e durante os debates dos concílios serviu de estrutura para o edifício da metafísica religiosa; a observação deste sistema e sua comparação com o conjunto do dogma cristão,tanto no que concerne à vida presente quanto no que toca à vida futura, mostram claramente que a antiga opinião cosmogônica estava muito bem estabelecida no fundo de todas as mentes que compareceram aos concílios, servindo necessariamente de base e ponto de apoio ao edifício das idéias. Isto posto, ficou subentendida, desde os primeiros tempos, uma correlação entre o ensinamento doutrinário e a física do mundo. Não há
tanta distância quanto se pensa, entre a física e a metafísica; na esfera do ideal mesmo, o homem não está completamente independente; os princípios fixados no fundo de sua alma servem, mesmo contra a vontade, de fundamento para seus conceitos habituais, e depois, àqueles que lhe parecem mais estranhos. Por outro lado, como nenhum edifício pode ser construído sobre o vazio, o próprio edifício da fé exigia um granito para seu alicerce; e eis por que a fé cristã está em plena harmonia com o antigo sistema do mundo. Desde já temos fundamento para interrogar os defensores desta fé sobre o que pensam da solidez de seu edifício, depois do golpe terrível que revirou a sua estrutura, há três séculos; temos fundamento para lhes perguntar se, em virtude da solidariedade que existe entre o sistema do mundo físico e o sistema do mundo moral, seu símbolo não sofreu com os atentados dirigidos contra o primeiro destes sistemas. A crença cristã pode, sem receber nenhuma interpretação nova, nenhuma modificação sistemática, se conciliar sem esforço com o novo sistema dos mundos?
Tal era, e tal é a grande questão. Respondeu-se a isto de duas maneiras. De um lado, pela negativa, declarando simplesmente que, compreendida literalmente tal como o foi até aqui, a doutrina religiosa não concorda com o ensinamento da nova ciência astronômica. Esta resposta estabeleceu uma cisão entre a ciência e a Igreja. A segunda foi em favor da afirmativa; mas, para chegar a uma conciliação perfeita, ela visivelmente consentiu em algumas modificações de nuances, em algumas interpretações novas; ela não ficou obstinadamente no severo non possumus; ela não guardou o eterno status quo do imutável. Estas são as duas faces da questão. Vamos desenvolvê-las, a fim de fornecer ao leitor os elementos necessários para permitir-lhe julgar o fato em litígio e fixar seus julgamentos. Escutemos de início a interpretação científico-dogmática de sir. David Brewster, o sábio associado de nosso Instituto. Seu grande saber não o impede de estar profundamente preso ao dogma, como já se viu; ele se
esforça por salvaguardar um e outro. Em oposição aos sábios franceses, os ingleses se atêm mais a seus dogmas religiosos que nossos doutores em Direito Canônico. Quando nossos conhecimentos sobre o espaço não se estendiam além do Oceano, diz ele, só se podia colocar a morada dos bem-aventurados no céu empíreo. Envolvida por uma sombra indefinida, a vida futura parecia um sonho para a razão de um cristão, se bem que fosse uma realidade para sua fé; em vão se poderia perguntar o que seria essa vida futura em suas relações materiais; em que regiões do espaço ela deveria cumprir-se; que deveres e que trabalhos a ocupariam, e cicie dons intelectuais e espirituais lhe caberiam em partilha.
Mas quando a ciência ensinou a história passada de nossa Terra, sua forma, seu volume e seus movimentos; quando a astronomia observou o sistema solar, mediu os planetas, proclamou que a Terra é uma esfera pequenina, que não tem nenhum lugar distinto entre seus gigantescos companheiros, e quando o telescópio descobriu novos sistemas de mundos bem além dos limites do nosso, a vida futura do sábio tomou lugar entre estes mundos, num espaço sem limites assim como numa duração sem fine. Sobre asas de águia, a imaginação do cristão se elevou ao zênite, e continuou seu vôo até o horizonte do espaço, sem nunca atingir um termo, afastando-se sem cessar; e na infinidade dos mundos, no seio de uma vida infinita, ela descobriu os campos da vida futura. As opiniões do cristão, acrescenta o autor, concordam com as verdades da astronomia. Sustentando a Pluralidade dos Mundos, estamos felizmente, numa posição mais favorável que o geólogo, cujas pesquisas sobre a história primitiva da Terra se encontraram, em aparência, em oposição com o ensinamento da Escritura.
Não há uma só expressão, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, que seja incompatível com esta grande verdade: há outros mundos além do nosso que são morada da vida e da inteligência. Ao contrário, muitas passagens da Escritura são favoráveis a esta doutrina, e algumas mesmo seriam, em nossa opinião, inexplicáveis, se não fosse admitida como verdadeira. O texto magnífico (1), por exemplo,
no qual o Salmista inspirado exprime sua surpresa de que aquele que moldou os céus e estabeleceu a lua e as estrelas na ordem harmoniosa dos mundos prestasse atenção num ser tão insignificante quanto o homem, é, a nosso ver, um argumento decisivo em favor da Pluralidade dos Mundos. O poeta hebreu não poderia manifestar uma tal surpresa, se não tivesse visto nas estrelas mais que pontos brilhantes sem importância, do gênero desses fogos-fátuos que volteiam sobre os campos pantanosos; não se pode duvidar que a inspiração lhe tenha revelado a grandeza, as distâncias e o destino das esferas radiosas que chamaram sua atenção. Quando estas verdades lhe foram conhecidas, a criação se divisou para ele em duas partes, separadas pelo contraste mais admirável: de um lado, o homem em sua imaginação relativa, por outro os céus, a Lua e as estrelas em sua grandeza absoluta.
Aquele que Deus fez um pouco menor que os anjos, aquele que coroou gloriosa e magnificamente e para a redenção do qual enviou seu Filho único para sofrer e morrer, aquele não pôde ser considerado pelo Salmista como um sujeito insignificante; ora, perante sua alta estima do homem, é preciso que sua idéia sobre o valor dos astros tenha sido superior a qualquer outra. Como esta idéia sobre os astros poderia ser tão elevada se ele não tivesse conhecido as verdades astronômicas? O homem criado à imagem de Deus seria uma criatura mais nobre que fagulhas cintilando no espaço ou que a luminária da noite. Se pois se pergunta sob que impressão o Salmista escreveu, se via os mundos como globos sem vida, ou se os considerava como morada de seres racionais e imortais, a resposta não será difícil: é preciso optar por esta última opinião.
E, de fato, se Davi considerasse os mundos desabitados, não se pode de modo algum explicar a surpresa que manifesta com a atenção de Deus pelo homem, pois esta surpresa só poderia ser motivada pelo fato de que inumeráveis massas de matéria existem no Universo e executam ao longe revoluções solitárias; ao contrário, sua surpresa teria como objeto, não a fraqueza, mas a grandeza daquele que, só, teria podido contemplar os céus, e para o uso do qual tantos corpos magníficos teriam sido criados. Mas se,
ao contrário, o poeta encarou os mundos siderais como outras tantas moradas da vida, cuja preparação exigiu milhões de anos e que são enriquecidos hoje com novas manifestações do pensamento, podemos então compreender por que ele se espanta com a atenção de Deus por uma criatura tão insignificante quanto o homem. — Este raciocínio não deixa de ter sua elegância, mas duvidamos muito que seja levado a sério. (1) "Quando considero vossos céus, obra de vossos dedos, a Lua e as estrelas que fundastes, exclamo: o que é o homem, para que vos lembreis dele, ou o filho do homem, para que o visiteis?" (Salmo VIII, 3, 4.) Passando em seguida a outras interpretações, o sr. Brewster pesa o valor e o sentido da palavra céus, tal como é empregada na Bíblia. Esta palavra, diz ele, se apresenta como independente da lua e das estrelas, como que indicando uma criação material, uma obra das mãos de Deus, e não um espaço vazio que se suporia habitado por seres puramente espirituais.
Os autores do Testamento exprimem pela palavra "céu" uma criação material separada da Terra; e encontram-se passagens que parecem indicar claramente que esta criação é morada da vida. Quando Isaías fala de céus estendidos como uma tenda para se morar, quando Jô nos diz que Deus, que estendeu os céus, fez Arcturus, Orion, as Plêiades e as câmaras do sul, quando Amós fala daquele que construiu seus aposentos no céu (casa de muitas moradas), as expressões de que se servem indicam claramente que os corpos celestes são morada da vida. No próprio livro do Gênesis, está dito que Deus terminou os céus, e a terra, e todo seu exército, a terra e todas as coisas que ela encerra, e que o exército dos céus o adora. O Salmista fala de todo o exército dos céus como criado pelo sopro saído da boca de Deus, assim como para o nascimento de Adão. Isaías nos fornece uma passagem notável onde os habitantes da terra e dos céus são descritos separadamente.
"Fui eu que fiz a terra e fui eu que criei o homem para habitá-la, minhas mãos estenderam os céus, e fui eu que dei todas as ordens à milícia dos astros." A estas alusões pode-se acrescentaras seguintes, igualmente tiradas de Isaías. "É para isso que o Senhor formou a Terra e que lhe deu o ser, e que criou os céus; ele não a criou em vão, mas formou-a para que fosse
habitada." Não é esta lima declaração formal do profeta inspirado, que a Terra teria sido criada em vão se não fosse habitável e habitada? Não se deve concluir que, como não se pode supor que o Criador tenha criado em vão os mundos de nosso sistema e os do universo sideral, deve-se admitir que ele os criou para serem habitados? O mesmo espírito de interpretação encontra no Novo Testamento passagens que não somente estão em perfeita harmonia com a doutrina da Pluralidade dos Mundos mas, além disso, que não se poderia explicar sem ela. Quando o apóstolo São João anuncia que os mundos foram criados pela palavra de Deus, quando São Paulo ensina que os mundos são uma criação do Salvador. o herdeiro de todas as coisas, não se deve supor que se trate de globos de matéria inerte, sem população presente ou futura. A Escritura ensina que o Salvador criou todas as coisas e que Deus se propôs tudo receberem Jesus Cristo, tanto o que está no céu como o que está na terra.
As criações indicadas pelas palavras: todas as coisas, são as criações do céu, e as que estão acima dos céus, de que fala São Paulo, quando diz: Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de cumprir todas as coisas. Alhures, o apóstolo fala do mistério escondido em Deus que criou todas as coisas por Jesus Cristo, mistério que recebeu a graça de anunciar, a fim de que os principados e os poderes que estão nos céus conheçam pela Igreja a sabedoria de Deus, diversificada em seus efeitos. Quando o Senhor fala do aprisco do qual é a porta, da ovelha que o segue e que conhece sua voz, e pela qual dá sua vida, acrescenta: "Tenho ainda outras ovelhas que não são deste rebanho; é preciso que eu também as conduza; elas escutarão minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor."
Pode-se perceber que o sistema de redenção coletiva defendido pelo sr. Brewster se delineia visivelmente nestes textos selecionados, e que a interpretação se mescla um pouco com a opinião pessoal do autor; o que ocorre com freqüência, entre os protestantes. Para que não sejamos acusados de parcialidade, ou de uma escolha puramente científica, interrogaremos agora o eloqüente orador que há alguns anos se fez
intérprete da ciência religiosa, aquele que do alto da cátedra de Notre-Dame se impôs à missão difícil de fazer gloriosamente comparecer os dogmas antigos no tribunal da ciência contemporânea, e torná-los luminosos ao sol do século dezenove. O Reverendo Padre Félix está também no número dos conciliadores. Numa conferência sobre o Gênesis e as ciências modernas, o pregador enunciava a objeção científica que se opôs ao dogma cristão, faz falar como se segue àqueles que apresentam esta objeção: "O relato de Moisés faz da Terra o centro de toda criação: e o próprio dogma católico a considera como o teatro reservado dos grandes desígnios de Deus. Ali, Deus se encarnou; somente esta poeira terrestre foi tocada pelos pés divinos e irrigada pelo sangue reparador. E segundo o ensinamento católico, a Terra apenas carrega a inteligência e a vida; ali somente Deus deixou cair seres inteligentes e livres, capazes de fazer subir até ele o hino universal cantado pela criação.
Ora, seria razoável restringir a este ponto o teatro da vida e as manifestações da glória de Deus? Os astros não parecem feitos expressamente para servir de suporte a seres vivos? Não é mais digna, além do mais, da idéia que devemos ter do Criador, pensar que em todos os lugares existem seres capazes de conhecê-lo e tornar pública a sua glória, do que despojar o universo de todos os seres inteligentes, reduzindo-o a uma profunda solidão, onde só se encontrariam os desertos do espaço e assustadoras massas de uma matéria inanimada? Por que, aliás, este planeta que, perante a imensidão dos céus, é como uma gota d'água no oceano, c como um átomo em meio aos sóis, por que este pequeno planeta seria o único, na criação, honrado com a vida? E como admitir que Deus tenha confinado neste imperceptível canto do universo as únicas testemunhas inteligentes de sua sabedoria e de seu poder? Não, não, que o cristianismo aceite de uma vez por todas: a ciência moderna não admitirá mais esta hipótese da teoria cristã. Ela não renunciará a suas conquistas. Cabe ao cristianismo observar e decidir se quer romper com a
ciência, ou caminhar com ela nos novos sendeiros que ela abre para si a cada dia, através dos céus. "À primeira vista, esta objeção tem algo de desconcertante para nós. Mas não é nada disto, e poderei com uma só palavra dar aqui satisfação a todos os sábios que fariam desta objeção da ciência moderna uma razão peremptória contra o cristianismo. Poderia dizer-lhes: Quereis absolutamente descobrir habitantes na Lua; quereis encontrar, nas estrelas e nos sóis, irmãos em inteligência e em liberdade; e, como dizem certos gênios que pretendem a visão intuitiva de todos os mundos, quereis saudar de longe, através dos espaços, sociedades e civilizações astronômicas. Que seja. Se não tendes contra nós nenhuma outra razão para romper conosco, nada se opõe a que nós vos estendamos a mão, e a que vós nos estendais a vossa.
Colocai no mundo sideral tantas sociedades quanto vos agrade, sob a forma e grau de temperatura material e moral que quiserdes imaginar; o dogma católico é aqui de uma tolerância que vos surpreenderá: ele só vos pede não fazer dessas gerações siderais uma posteridade de Adão nem uma posteridade do Cristo. "Certamente, sobre esta grandiosa hipótese, cientificamente e do ponto de vista da demonstração rigorosa, há muito a dizer e, sobretudo, muito a desejar. Por muito tempo ainda, para demonstrar que o Sol, a Lua e as estrelas, bem como nosso planeta, portam a inteligência e a vida, procurareis um axioma, um ponto de partida, de onde possa surgir sob o brilho da evidência uma conclusão rigorosa (1). Suponde que Deus quisesse fazer de um átomo o centro da criação: quem então, dentre vós, rogo-vos, ousaria se manifestar contra a sabedoria divina, e, em nome da ciência, convencer Deus de absurdo? A partir de então, o que haveria de tão absolutamente absurdo em supor que Deus tenha concedido a Terra, malgrado o infinitamente pequeno de sua importância material, um privilégio reservado na criação?
Dado que Deus escolheu a Terra para aqui pousar o pé e aqui desenrolar todo o grande mistério da encarnação e da redenção; quem não vê que a Terra, por esta vocação especial, adquire na
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.