Voltar ao livro A Pluralidade dos Mundos Habitados

Capítulo 38 de 46

Apêndice — parte 8 de 9

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

interrompida, as regiões vizinhas são ameaçadas de terremotos próximos. (Pode-se imaginar o que aconteceria se todas essas válvulas vulcânicas se encontrassem um dia fechadas). Antes de deixar esse grande fenômeno, devo assinalar a origem da impressão profunda, do efeito todo especial que um primeiro terremoto produz sobre nós, mesmo quando não é acompanhado de qualquer ruído subterrâneo. Esta impressão não provém, em minha opinião, das imagens das catástrofes de que a história guardou a lembrança, que então se oferecem em multidão à nossa imaginação. O que nos assalta é que perdemos totalmente nossa confiança na estabilidade do solo. Desde nossa infância, estávamos habituados ao contraste da mobilidade da água com a imobilidade da terra. Todos os testemunhos de nossos sentidos fortificaram nossa segurança. O solo vem a tremer, e este momento basta para destruir a experiência de toda uma vida. E um poder desconhecido que se revela de chofre; a calma da natureza era apenas uma ilusão, e sentimo-nos rejeitados violentamente num caos de forças destrutivas.

Então cada ruído, cada sopro de ar excita a atenção; desconfiamos sobretudo do solo sobre o qual caminhamos. Os animais experimentam a mesma angústia; os crocodilos do Orenoco, de ordinário tão mudos quanto nossos pequenos lagartos, fogem do leito convulsionado do rio e correm, rugindo, para a floresta. Um terremoto se apresenta ao homem como um perigo indefinível mas, em todos os lugares, ameaçadores. Pode-se afastar de um vulcão, pode-se evitar uma torrente de lava; mas quando a terra treme, para onde fugir? Por todos os lugares, acreditamos caminhar sobre um foco de destruição. Felizmente as molas de nossa alma não podem ficar assim tensas por muito tempo, e os que habitam uma região onde os tremores são pouco sensíveis, e se seguem em curtos intervalos, acabam por experimentar apenas uma leve apreensão. Terminaremos estas considerações do ilustre decano da ciência moderna com um rápido relancear sobre a constituição interior do globo terrestre. Um fato universalmente constatado pelos geólogos, é o aumento do calor à medida que se afunda sob a superfície da Terra, acréscimo

proporcional a 1 grau a cada 33 metros. Segue-se daí que a uma pequena profundidade (de 40 a 50 quilômetros) comparativamente ao raio do globo, todas as substâncias devem se encontrar em fusão; e essa é, como acabamos de ver, a única explicação possível da agitação perpétua da crosta terrestre, das erupções vulcânicas e da maioria dos fenômenos geológicos. As fontes quentes se explicam da mesma maneira por este estado calorífico do globo. Todas as águas que jazem a uma profundidade de 4 quilômetros atingiram o ponto de ebulição. Relativamente à constituição geral do globo, parece uma aquisição inviolável da ciência que a massa interior inteira conservou a fluidez ígnea da Terra primitiva, e que uma película, que não chega à centésima parte do raio, forma apenas a crosta sólida habitada pelos vegetais, animais e os homens. Esta esfera imensa de matérias em fusão forma, pois, quase a totalidade do globo; por ela, todos os fatos geognósticos são explicáveis; sem ela, a história da Terra é ilegível.

Quando uma revolução importante se cumpre em torno dessa massa rodopiante, a crosta terrestre se ergue em certos pontos, se abaixa em outras regiões sob a ação das forças plutônicas inferiores: então os continentes são submersos, e o leito dos antigos mares é colocado a seco: então as gerações se extinguem para dar lugar a outras mais avançadas na escala da vida; e a superfície da Terra reveste-se com uma roupa mais rica e mais esplêndida. Um dia, talvez — ou melhor, provavelmente —, nossa raça, atingida nas próprias condições de sua existência, cairá sob uma dessas revoluções fatais; e o quarto reino, o reino humano, intelectual, será marcado pela eclosão de novas gerações, mais elevadas no progresso; e nós, nós dormiremos, ruínas fósseis de um mundo desaparecido, até que as escavações dos geólogos futuros venham desenterrar nossos esqueletos de pedra, e (por que não dizê-lo?) nos alinhar talvez juntos, vós e eu, leitor, num anfiteatro de paleontologia, onde ficaríamos bem surpresos de nos encontrar, tão longe da era presente. Mas não nos detenhamos nesta idéia pitorescamente lúgubre da sorte possível da raça humana sobre a Terra. Proclamemos acima dela esta

verdade, mais certa: que as grandes catástrofes do mundo só se mostram em intervalos prodigiosamente afastados; que se contamos por milhões os anos que separaram a convulsão do globo nos tempos antediluvianos, não há mais que 10.000 anos que o primeiro Dilúvio se produziu sobre a Terra, e daqui até o próximo, haverá talvez tantos séculos futuros quanto anos passados. O tempo só é sensível para nós, cuja vida efêmera só faz passar do nascimento para a morte; o tempo nada é para o eterno Poder que deu o primeiro impulso aos sóis dos espaços longínquos.

Nota E

A Análise Espectral e a Vida Sobre os Outros Mundos

A astronomia matemática deixou já há alguns anos à astronomia física o lugar legítimo que lhe é devido. Não é somente pelos artifícios do cálculo, por mais engenhosos que sejam, que a mente humana se eleva ao conhecimento do céu. Sem dúvida, um dos maravilhosos triunfos da ciência moderna foi assujeitar os movimentos da Terra e dos outros astros a regras numéricas tão exatamente determinadas que, do fundo de seu gabinete de trabalho, o astrônomo pode escrever a rota atualmente seguida por um certo astro situado a bilhões de léguas de distância, e prever tal eclipse, tal passagem futura. Mas a astronomia física não tem menos direitos à conquista do céu. Gostamos de saber como são esses mundos pesados pelo cálculo; gostamos de deixar viajar nosso pensamento até eles, e imaginar de que formas a natureza pode se vestir agindo em sua superfície em virtude de sua inesgotável fecundidade; gostamos, por fim, de afastar o véu e fazer desaparecer o deserto aparente que rodeia as estrelas silenciosas, para sentir nesses mundos distantes a onda de vida palpitante com os batimentos de nossos corações terrestres, através da imensidão do céu.

Os últimos progressos da astronomia física tiveram como objeto a interessante aplicação da análise espectral da lua ao estudo da atmosfera dos planetas. Deve-se acrescentar a análise recente feita de alguns aerólitos que nos trouxeram amostras da natureza dos outros mundos. Ficamos felizes em constatar aqui os resultados dessas pesquisas. Na época em que publicamos a primeira edição desta obra, estávamos longe de esperaras descobertas que, em alguns anos, trariam novos e preciosos elementos em favor de nossa tese. Este curioso problema da existência de vida na superfície dos outros mundos, cuja solução só se apresentava inicialmente como a conseqüência filosófica da existência mesmo desses mundos, torna-se agora tema de estudos diretos. Hoje em dia está incontestável e rigorosamente provado que cada planeta de nosso sistema solar está cercado de uma atmosfera.

A observação desde há muito tempo o indicara para Júpiter e Saturno, cujos globos imensos jamais se apresentam ao telescópio senão sulcados de faixas de nuvens paralelas ao equador, e desenhando para nós zonas tropicais análogas àquelas onde nossos navegadores encontram chuvas perpétuas e nuvens renascendo sem cessar. Já sobre Vênus observara-se a aurora e o ocaso do dia, os fenômenos crepusculares, quer dizer, a diminuição lenta da luz sobre os meridianos do pôr-do-sol na superfície deste planeta. Numa passagem de Mercúrio sobre o Sol, observou-se em torno do planeta negro uma auréola acusadora de atmosfera. Enfim, sobre nosso vizinho, o mundo de Marte, as neves do pólo, que se derretem na primavera, seus oceanos cortando as terras, e suas nuvens variáveis autorizavam admitir a presença de uma atmosfera mais ou menos úmida, e a da pressão atmosférica, garantindo a permanência do elemento líquido.

Aplicando a análise espectral ao exame dos planetas, um certo número de astrônomos pode não somente constatar com certeza a existência das atmosferas planetárias, mas ainda investigar qual é a sua composição química, c chegar, como veremos, a curiosas determinações.

No Observatório de Roma, o pe. Secchi entregou-se especialmente, e em sucessão, ao exame da luz dos planetas Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Nossos leitores sabem que recebendo através de um prisma o raio luminoso saído de uma chama, de um metal ou de um corpo qualquer em ignição, e examinando este raio ao espectroscópio, encontra-se neste raio, alongado sob a forma de uma pequena faixa, uma série de linhas transversais cujo número e disposição indicam a natureza química da chama ou do corpo em combustão. Foi assim que se determinou os corpos constituintes do Sol, em ignição na sua superfície. Ao atravessar uma atmosfera, a luz (de um corpo qualquer, do Sol, por exemplo) é modificada pelos elementos gasosos que existem nesta atmosfera. Os elementos constituintes desta atmosfera absorvem mais ou menos o raio luminoso, o qual, chegando sob o espectroscópio analisador, parece entrecortado de lacunas, de raias negras cujo número e disposição indicam a natureza química da atmosfera atravessada pela luz analisada.

Assim, a luz do Sol recebida na superfície da Terra, no fundo de nosso oceano aéreo, do qual somos os inferiores peixes, leva em sua imagem prismática as raias atmosféricas devidas à presença do ar atravessado por esta luz. Tomada nas alturas da atmosfera, num balão ou numa alta montanha, esta luz não apresenta mais as raias atmosféricas, senão com fraquíssima intensidade. Os planetas, não tendo brilho próprio, mas refletindo a luz do Sol, são como espelhos celestes nos quais o olho do habitante da Terra pode descobrir a luz solar. Assim, a partir do momento em que o espectroscópio foi dirigido para a Lua e os planetas de nosso sistema, imediatamente encontrou-se o espectro solar incomparavelmente mais pálido, mas análogo ao que observamos ao receber diretamente durante o dia a luz do Sol por um prisma. Examinando a luz das estrelas, não se encontra este espectro. Cada estrela é um sol diferente do nosso, e em cuja natureza íntima, tamanho, peso, intensidade luminosa ou elétrica diferem daquele que nos ilumina.

A primeira impressão resultante da visão do espectro da Lua e dos planetas foi, portanto, que eles refletiam simples e exatamente a luz do Sol. Mas, examinando o fato mais de perto, logo se percebeu que esta reflexão não era absolutamente passiva para os mundos planetários, e que há uma diferença sensível entre seu espectro e o da Lua. Nosso satélite, cuja branca claridade durante a noite silenciosa é tão cara aos poetas, nossa Febe de luz argentina, é apenas o espelho exato, a imagem fiel de Febo, o antigo c resplandecente deus do dia. Examinou-se com o maior cuidado, com o auxílio do espectroscópio, as diversas regiões da superfície da Lua iluminada pelo Sol. A quantidade de luz enviada por estas partes varia em intensidade, mas não manifesta a mais ligeira diferença com a luz direta do Sol, seja sob a relação da intensidade relativa das raias do espectro, seja pela aparição ou desaparição de algumas raias.

O resultado da análise espectral da luz refletida pela Lua foi completamente negativo relativamente à existência de uma atmosfera na superfície de nosso satélite. Estas conclusões são devidas às observações dos srs. Miller, Huggins e Janssen. Não ocorre o mesmo com os planetas. Atravessando suas atmosferas duas vezes: 1.ª) chegando ao Sol sobre sua superfície; 2.ª) partindo de sua superfície para irradiar-se para a Terra, a luz é modificada em sua natureza íntima por estas atmosferas. O pe. Secchi pôde tirar as conclusões seguintes de suas pesquisas particulares: "Numerosas observações, acompanhadas de grande número de desenhos e correspondendo a noites diferentes, demonstraram que na luz refletida por esses astros existem não somente raias próprias à luz solar direta, mas que algumas dessas raias são enormemente reforçadas e dilatadas em faixas por suas atmosferas, agindo da mesma maneira que a atmosfera terrestre sobre o espectro solar. Em uma só palavra, os espectros desses planetas são da mesma espécie que o espectro atmosférico terrestre, com a diferença, porém, que certos raios são mais absorvidos por certas atmosferas planetárias do que pela nossa".

A observação se torna sobretudo muito concludente se se escolhe um momento em que a Lua esteja quase na mesma altura dos planetas que se quer examinar. Dirigindo alternativamente a luneta para a Lua e para os planetas, vemos a enorme diferença dos espectros, pois ode nosso satélite só tem as raias solares muito finas e, ao contrário, vê-se nos planetas largas faixas nos locais indicados. Concluiu-se, das comparações efetuadas, que os planetas têm atmosferas análogas à que envolve o nosso globo errante. Procurou-se então examinar atentamente as principais raias de absorção. O resultado, de início inesperado, mas do qual se deu conta facilmente por comparações terrestres, é que a principal modificação do espectro solar pelas atmosferas dos planetas é devida ao vapor d'água difundido nestas atmosferas. Assim sendo, a análise espectral nos demonstra que há água nos planetas. Já se havia reconhecido nas pedras caídas do céu o hidrato de óxido de ferro, quase a única forma sob a qual a água poderia atravessar o espaço e chegar até nós.

Já por outro lado, observando as neves do planeta Marte e seus mares, podia-se concluir que sem dúvida a água existe lá como aqui. Mas não se podia afirmar que fosse exatamente o mesmo líquido químico: HO. Agora sabemos que esses mundos afastados levam em sua superfície um ar análogo ao nosso, carregado dessas mesmas zonas de vapor d'água que formam nossas nuvens c nossas chuvas. Esses planetas são filhos do Sol, como a Terra; têm a mesma unidade de origem, pertencem à mesma unidade de plano, e gravitam na mesma unidade fecunda das forças solares. Sustentado por estas observações, apoiado sobre os fatos, nosso pensamento pode agora coroar a certeza lógica da Pluralidade dos Mundos com uma certeza maior ainda, por aquela que se funda na observação direta. A dúvida não é mais permitida, perante testemunhas tão tangíveis que nossa imaginação mais audaciosa não as esperaria apenas há dez anos, e que nos são fornecidas por este maravilhoso método novo de análise espectral, para a qual não há pequenez nem distância.

A mesma análise demonstrou que a atmosfera de Júpiter e a de Saturno diferem em certos detalhes em relação a de outros planetas. Contêm também vapor d'água, mas possuem também certos elementos que não existem na Terra. Urano, esse planeta remoto, que gira nos desertos do espaço dezenove vezes mais longe do Sol que nós, quer dizer, à distância média de 750 milhões de léguas daqui (de 732 a 770) está envolvido por uma atmosfera mais original que as anteriores, pois que a luz deste planeta não oferece nenhuma semelhança com a do espectro solar. Se a análise espectral demonstra a existência de água sobre os planetas Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, o exame químico da matéria carbônica encontrada em certos aerólitos demonstrou recentemente ao sr. Berthelot, o sábio promotor da química orgânica (v. Relatórios da Academia das Ciências), que a origem mais provável, para não dizer certa, desta matéria carbônica pertence a um reino orgânico de mesmo princípio que o reino vegetal terrestre.

Ficamos felizes ao ver que estas pesquisas novas se acumulam em favor da teoria da existência da vida nos outros globos do espaço, e consideramos interessante apresentar aqui esta importante comunicação: "Certos meteoros", observa de início o experimentador, "encerram uma matéria carbônica, cuja existência c origem levantam um problema dos mais interessantes. Esta matéria contém carbono, hidrogênio e oxigênio, e pode ser aproximada dos compostos úlmicos, resíduos finais da destruição das substâncias orgânicas. Seria, sem dúvida, muito importante fazer remontar este resíduo até as substâncias geradoras dele. Se a questão assim definida ultrapassa os recursos atuais de nossa ciência, todavia pode-se dar um primeiro passo neste caminho remontando, senão aos próprios geradores, pelo menos aos princípios que deles derivam por reações regulares. Com efeito, descrevi um método universal de hidrogenação, pelo qual um composto orgânico definido pode ser transformado em carbetos de hidrogênio correspondentes. Este método é aplicável mesmo às matérias

carbônicas, como o carvão vegetal e a hulha; ele os transforma em carbetos análogos aos dos petróleos. "Apliquei o mesmo método à matéria carbônica do meteoro de Orgueil. Reproduzi, na verdade, embora com mais dificuldade do que com a hulha, 2b 2n+2 uma proporção notável de carbetos formênicos C H, comparáveis aos óleos do petróleo. "Desejaria vivamente poder estudar estes carbetos com maior detalhe; mas a proporção de material de que dispunha era muito pequena para permitir outra coisa que não a formação e os caracteres gerais de diversos carbetos, uns gasosos, outros líquidos. "Seja lá como for", acrescenta, terminando, o autor, "esta formação marca uma nova analogia entre a substância carbônica dos meteoros e as matérias carbônicas de origem orgânica, que se encontram na superfície do globo."

Seria sem dúvida mais agradável ainda receber traços diretos da vida celeste, restos de seres vegetais ou animais, uma flor ou uma vértebra caídos de uma terra longínqua; malgrado o número anual de aerólitos, coletam-se e estudam-se tão poucos que, sem contradição, seria o mais singular dos acasos ter uma tão boa fortuna. Esperando, pois, por provas diretas, registremos cuidadosamente os fatos químicos. Servem mais que qualquer hipótese para ampliar nossas vistas e esclarecer nossos julgamentos. Há poucos anos atrás, nenhuns astrônomo ousava levar a sério a idéia da pluralidade dos mundos, e nós éramos o único a sustentá-la oficialmente. Hoje, o Annuaire du Bureau des Longitudes, publicação tão reservada, aceita-a como uma questão pertencente à ordem do dia. No Annuaire de 1869, o sr. Delaunay, presidente em exercício da Academia de Ciências, resume a opinião da ciência nestes termos: "O exame das condições nas quais se encontram os outros planetas e das circunstâncias apresentadas por suas superfícies, mostra que estes planetas podem ser habitados, tanto quanto a Terra". E mais longe, falando dos mundos que gravitam sem

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.