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Capítulo 1 de 46

Parte 1 de 2

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

Camille Flammarion

A Pluralidade dos Mundos Habitados

Estudo onde se expõem as condições de habitabilidade das terras celestes discutidas do ponto de vista da astronomia e da filosofia natural

Título Original La Pluralité dês Mondes Habités

Urânia - Deusa Grega - Musa da Astronomia e da Astrologia

Estátua romana em mármore de Urânia século II ou I A.C. (encontrada em Málaga). Museu Arqueológico de Madri na Espanha

Conteúdo resumido

Principais temas abordados nesta obra: Estudo Histórico, Os Mundos Planetários, Descrições do Sistema solar e Estudo comparativo dos planetas, Fisiologia dos seres sobre a terra, Imensidão dos Céus, A Humanidade no Universo, Os habitantes dos outros mundos, Inferioridade do habitante da terra, A humanidade coletiva, Cosmogonia dos Livros Santos, Tabela dos pequenos planetas situados entre Marte e Júpiter, O calor nas superfícies dos planetas, A constituição interior do globo terrestre, A análise espectral e a vida sobre outros Mundos, Como se determinam às distâncias das estrelas a terra (Cálculo de Paralaxe). Extratos filosóficos sobre a pluralidade dos mundos (Plutarco, Cyrano de Bergerac, Fontenelle, Huygens, Voltaire, Swedenbord Charles Bonnet Lambert, Sir. Humphy, Davy Young, De Fontanes e Ponsard). Trata-se de um livro que interessa a astrônomos, astrólogos, ufólogos, filósofos, esoteristas, espíritas, espiritualistas — enfim, todos os que buscam a compreensão do Universo em que vivemos, e para os quais esta obra clássica representa uma fonte inesgotável de sabedoria e esclarecimento.

Sumário Camille Flammarion / 05 Advertência da 29º edição / 06 Advertência da 10ª edição / 09 Prefácio da 2ª edição / 10 Introdução / 12 Livro Primeiro Estudo Histórico I - Da Antiguidade à Idade Média / 19 II - Da Idade Média até nossos dias / 33 Livro Segundo Os Mundos Planetários 1 - Descrições do sistema solar / 52 II - Estudo Comparativo dos Planetas / 65 Livro Terceiro Fisiologia dos Seres I - Os seres sobre a Terra / 91 II - A vida / 113 III - A habitabilidade da Terra / 130 Livro Quarto Os Céus I - Imensidão dos céus / 148 Livro Quinto A Humanidade no Universo I - Os habitantes dos outros mundos / 165 II - Inferioridade do habitante da terra / 203 II - A Humanidade Coletiva / 244 Apêndice Nota A - A Pluralidade dos Mundos Perante o dogma cristão / 260 I - A Encarnação de Deus na Terra / 262 II - Cosmogonia dos livros santos / 284

Nota B - Tabela dos pequenos planetas situados entre Marte e Júpiter / 305 Nota C - Sobre o calor na superfície dos planetas / 308 Nota D - Sobre a constituição interior do globo terrestre / 319 Nota E - A análise espectral e a vida sobre os outros mundos / 325 Nota F - Como se determinam as distâncias das estrelas a Terra ou cálculo da Paralaxe / 332 Nota G - De Generatione / 337 Extratos filosóficos para servir à história da Pluralidade dos Mundos / 338

Camille Flammarion

Camille Flammarion nasceu em Montigny-le-Roy (Alto Marne), na França, no dia 26 de fevereiro de 1842, vindo a falecer em Juvissy, no mesmo país, no dia 4 de junho de 1925. Foi um dos mais destacados astrônomos de sua época e autor de muitas obras literárias, entre as quais destacamos: A Pluralidade dos Mundos Habitados, Astronomia, Astronomia Popular, As Terras do Céu, Deus na Natureza, As Maravilhas Celestes, As Estrelas e as Curiosidades do Céu, entre outras. Gabriel Delanne dizia que Flammarion era "um filósofo enxertado em sábio"; por sua vez, o grande historiador Michelet afirmava que ele se havia tornado o "poeta dos céus". Foi um exemplo dignificante de trabalho, ação e devotamento a um ideal. A Pluralidade dos Mundos Habitados foi escrito em 1861 e editado em 1862, quando Flammarion contava menos de vinte anos de idade, e reeditadas dezenas e dezenas de vezes. Trata-se de um livro que interessa a astrônomos, astrólogos, ufólogos, filósofos, esoteristas, espíritas, espiritualistas - enfim, todos os que buscam a compreensão do Universo em que vivemos, e para os quais esta obra clássica representa uma fonte inesgotável de sabedoria e esclarecimento. Nélson Marchetti

Aspecto da Terra e Marte Tamanhos: Raio da Terra = 1.592: Raio de Marte = 827 léguas

Advertência da 29º edição

Vinte anos se passaram desde a publicação da primeira edição desta obra. Quando, em 1862, jovem aluno-astrônomo no Observatório de Paris, recebi do editor deste estabelecimento o convite para imprimir minha obra primitiva, eu não me dava conta da repercussão que rapidamente encontrou no mundo dos leitores. Por mais interessante que me parecesse pessoalmente, a questão astronômica e filosófica da pluralidade dos mundos não me parecia suscetível de cativar a atenção popular. O acontecimento mostrou o contrário: vinte e nove vezes esta obra foi reimpressa na França durante estes vinte anos, e foi traduzida para as principais línguas da Europa, da Ásia e da América. Depois deste lapso de tempo, pode-se refletir um instante neste fato, menos individual do que parece. A astronomia deixou de ser uma ciência abstrata, reservada somente a um pequeno número de praticantes. Tornouse popular, conforme a esperança formulada por Arago há trinta anos,

esperança que o engenhoso astrônomo não chegou a ver realizada. Até então as pessoas consideravam esta ciência como inacessível, e além do mais desprovida de interesse direto, digno de prender útil e agradavelmente sua atenção. Hoje, começam a convencer-se de que se enganavam. O conhecimento do sistema do mundo é acessível a todas as mentes. O estudo do Universo é ao mesmo tempo interessante e importante. Nenhuma ciência abre horizontes tão vastos e pode melhor encantar a alma contemplativa que a bela, a divina ciência do céu. Nenhuma é tão indispensável para formar uma instrução positiva, real, exata; pois sem ela, vivemos como vegetais, sem saber o que nos faz viver, o que é esse sol cujos raios iluminam, adoecem e fecundam este planeta, o que é esta Terra sobre a qual repousam nossos pés, que forças a sustentam e levam-na pelo espaço, que leis regem os anos, as estações e os dias; vivemos sem saber quais são esses outros mundos que brilham acima de nossas cabeças, nem o que é o céu, essa extensão infinita no seio da qual se passam e se sucedem as várias existências de todos os mundos.

A astronomia abrange, em seu estudo, o conjunto do Universo. Todos entendem agora que é preciso ter pelo menos uma noção elementar desse conjunto, para saber avaliar nosso mundo segundo seu justo valor, não mais tomá-lo como centro e fim da criação, nem manter idéias falsas apoiadas há tantos séculos sobre esta ilusão. Sem a astronomia, é impossível raciocinar, seja em filosofia, em religião, ou mesmo em política. Pois o destino do homem não é o mesmo se a Terra constitui sozinha o Universo, ou se ela não é mais que um ponto imperceptível perdido no Grande Todo: o deus dos exércitos deixa de receber piedosos holocaustos; a humanidade terrestre não é mais a única família do Criador; o começo e o fim da Terra não são O começo e o fim do mundo; em suma, os princípios que acreditávamos absolutos são apenas relativos, e uma nova filosofia, grande e sublime, ergue-se sozinha sobre o conhecimento moderno do Universo. Sinto-me refiz, de minha parte, de ter podido servir para inaugurar esta nova filosofia, tornando o estudo da astronomia tão popular quanto

possível. Desde a primeira edição desta obra, sempre tive o cuidado de manter as novas edições ao coerente dos progressos constantes da ciência. Ao longo das obras sucessivas persegui, ele ano em ano, segundo diferentes pontos de vista, a solução da mesma tese, e vi com alegria que estas obras não foram menos favoravelmente acolhidas que esta. Não experimento nenhum sentimento de mesquinha vaidade, mas sim uma alegria profunda em observar que os homens começam a ter a idade da razão, refletem, deixam pouco a pouco os ídolos para se aproximar da Verdade. Passar-se-ão muitos anos, séculos ainda, antes que esta singular humanidade terrestre adquira totalmente o uso da razão, antes que ela saiba se conduzir, antes que ela deixe de nos oferecer espetáculos semelhantes aos que vimos se desenrolar em nossa própria pátria, há apenas doze anos, e que continuam a se reproduzir por toda a humanidade "civilizada", antes que ela se erga, enfim, acima da animalidade, para tornar-se um pouco espiritual e manifestar gostos intelectuais. Mas, quanto mais difícil é o progresso, mais enérgicos devera ser nossos esforços.

Trabalhemos, pois, de comum acordo para educar esta raça ainda bárbara, para libertá-la do jugo da ignorância, para propagar em seu seio as sementes da verdade e do bem, e para multiplicar o número daqueles que, saindo do caminho estreito, conheçam outra coisa que não os apetites materiais e sintam desenvolver-se em si uma alma responsável chamada a destinos superiores. Paris, 1882

Advertência da 10ª edição

Vendo esta obra chegar, em menos de cinco anos, a uma décima reimpressão em nosso país e difundida ao longe por traduções estrangeiras, não pode o autor impedir-se de unir sua voz aos sentimentos benevolentes da imprensa e asseverar que aí encontramos um testemunho digno de atenção para o filósofo. Se a questão da existência de uma raça inteligente sobre os outros globos do espaço, da universalidade da vida na criação sideral, da unidade das leis físicas e morais no mundo inteiro, suscitou a curiosidade e atraiu a simpatia de um número tão grande de pessoas, em meio às preocupações da vida material e malgrado a indiferença habitual pelos problemas da ciência pura, é que, de um lado, esta questão tem sua importância na teoria do destino humano, e que, de outro lado, compreendeu-se esta importância.

Se consentíssemos em publicá-las, as cartas que recebemos de grande número de leitores, que extraíram de nossa doutrina uma força fecunda e o sentimento de uma nova grandeza, mostrariam qual já é a influência secreta desta contemplação científica da natureza. Acreditamos ter servido utilmente nossa época ao perseverar neste caminho e dar à luz sucessivamente as obras que representam a continuidade de nossos esforços. Estamos felizes com o fato de a publicação desta nova edição coincidir com o lançamento de nossa obra Deus na Natureza. Esta obra é, com efeito, o desenvolvimento da idéia que ditou as precedentes. Seu objetivo esta inteiramente nas seguintes palavras: a "Religião pela Ciência". Procuramos formular neste trabalho uma filosofia positiva das ciências e dar uma refutação não Teológica do materialismo contemporânea. Possa esta obra, fundada sobre observação, seguir e mostrar o caminho do espiritualismo racional, a igual distância do ateísmo e da superstição religiosa. Paris, maio de 1867

Prefácio da 2ª edição

A aceitação, tão favorável, da primeira edição deste livro ultrapassou de longe nossas esperanças; isto testemunha a grande oportunidade das idéias que expôs, sua grande utilidade e sua influência sobre a marcha progressiva da filosofia. Esta benquerença do público por nosso trabalho, longe de nos acalentar e adormecer no frívolo triunfo de um sucesso passageiro, foi considerada por nós como um engajamento implícito na obra por nós iniciada. Chegou à época em que o homem pode se despojar daquele manto púrpuro com que estivera orgulhosamente vestido até aqui, em que, examinando sua verdadeira condição e sua verdadeira grandeza, ele sente o ridículo de suas idéias de outrora e não considera mais sua pequena personalidade a meta da obra divina. A filosofia deu um grande passo. Ela dormia, antigamente, numa calma enganosa, logo após um período agitado; veio a tempestade, que a sacudiu até suas camadas mais profundas.

Hoje o homem, de pé, observa-se e sonha; procura, enfim, a explicação do enigma do mundo; examinar que lugar ocupa na ordem dos seres, qual é sua relação na solidariedade universal, qual é seu destino no plano geral procura a razão das coisas. Perante a grandeza do resultado a alcançar, quem não estaria cheio de alegria ao poder oferecer um elemento a mais mesmo que fosse infinitesimal -, para o progresso de nossa família humana bem-amada? Nossa primeira edição não foi mais que o germe da abra que hoje publicamos; ela foi inteiramente refundida. Entregamo-nos a um estudo novo e aprofundado da questão considerada sob todas as suas facetas, ao exame dos documentos que podem servir para sua história e para o estabelecimento dos grandes princípios sobre os quais se alicerça nossa doutrina filosófica. Fizemos nossos esforços para apresentar aqui um livro digno dos filósofos e pensadores, e que possa, ao mesmo tempo, ser lido por todo o mundo que se interessa por estes assuntos, a um tempo curiosos e cheios de importância.

Nossos sinceros agradecimentos a todos aqueles que, penetrados como nós da grandeza da questão, houveram por bem secundar nossos esforços com suas pesquisas, instruirmos com seus sábios conselhos, e nos esclarecer com suas críticas e as discussões que conosco encetaram. Que nos seja permitido citar um nome caro à filosofia, e deixar cair aqui as nossas profundas lamentações sobre a tumba recentemente fechada do nosso mestre e amigo, Sr. Jean Reynaud, que trabalhou valentemente pelo edifício do futuro. Todos os que o conheceram sabem que ele era uma das mais belas almas de nossa época tão atormentada, da qual foi uma das mentes mais profundas e um dos maiores corações. Paris, maio de 1864

No momento em que lançamos esta quarta edição, queremos agradecer aos filósofos e ao público pela simpatia que continuam a testemunhar para com nossa obra; fizemos nossos esforços para merecer cada vez mais tal aprovação. Nosso desejo é manter, sem cessar, este livro à altura da ciência, para que continue digno da estima com o qual ele é honrado, e mantenha o mesmo lugar na mente daqueles que compartilharam de nossas convicções: é também guardando a mesma integridade intelectual e o mesmo caráter de argumentação que esperamos ampliar sem cessar, ao menos no domínio de nossos estudos favoritos, a utilidade filosófica do ensino das ciências. Novembro de 1864.

Introdução

Basta observar com atenção o estado de espírito atual para se perceber que o homem perdeu a fé e a segurança dos tempos antigos, que nosso tempo é uma época de lutas, e que a humanidade inquieta está à espera de uma filosofia religiosa na qual possa depositar suas esperanças. Houve um tempo em que a humanidade pensante estava satisfeita com crenças que satisfaziam suas aspirações; hoje não é mais assim: os ventos críticos que acabam de soprar secaram seus lábios, privaram-na das fontes vivas da fé, onde ela umedecia de vez em quando seus lábios sedentos, onde ela se regenerava nos dias de fraqueza. Tomaram-lhe sucessivamente tudo o que constituía sua força e seu sustento. O que se lhe deu, no lugar disso? O vazio, infelizmente! O vazio escuro, insondável, onde se movem na sombra esses seres sem forma geradas pela dúvida - o vazio do abismo, onde a própria razão perde a força de que se gaba, onde ela se sente presa de vertigem e cai, desmaiada, nos braços do Ceticismo. Obra de destruição!

Um século antes deste ano, e o que fazíeis, filósofos modernos! Rousseau, escrevendo o Emílio, escutava os primeiros estalidos da revolução que se aproximava; D'Alembert riscava a palavra crença do dicionário; Diderot parodiava a sociedade com seu amigo, o Sobrinho de Rameau; Voltaire (perdoai-nos a expressão) demitia Jesus com um tapinha no ombro; os abades-cardeais rimavam, para suas amantes, madrigais floridos; o rei se ocupava de filigranas de alcova... Eis aí os que lideravam o mundo. Depois de nós, o dilúvio, diziam eles. Veio, de fato, esse dilúvio de sangue que engoliu o mundo de nossos antepassados; mas ainda não vimos no céu a pomba trazendo em seu bico o ramo verde de um mundo que renasce. O passado está morto; a filosofia do futuro não nasceu: está ainda envolta nos difíceis trabalhos do parto. A alma do mundo moderno está dividida e em contradição perpétua consigo mesma. Reflexão grave, a ciência, esta divindade poderosa de nossos dias, que tem nas mãos as rédeas

do progresso, a ciência nunca foi tão pouco filosófica, tão isolada quanto hoje. Temos, diante de nós, à frente das ciências, homens que negam arbitrariamente a existência de Deus e que eliminam sistematicamente a primeira das verdades. Temos outros, cuja autoridade não é menor, que não admitem a existência da alma e não conhecem nada fora da atividade das combinações químicas. Eis ali uma plêiade que proclama abertamente a questão da imortalidade como questão pueril, boa, no máximo, para o lazer de gente desocupada. Eis acolá uma outra que só vê em todo o Universo dois elementos, a força e a matéria; os princípios universais da verdade e do bem são letra morta para eles. Este aqui representa nossas individualidades humanas como outras tantas pequenas moléculas nervosas do serhumanidade; aquele ali nos fala de uma imortalidade facultativa. Ao longo de todo esse tempo, tivemos doutores católicos que ficaram isolados em seu status quo de há cinco séculos, que repudiam desdenhosamente a ciência, e que nos garantem seriamente que a fé cristã nada tem a temer!

O que poderia resultar desses diversos movimentos, que se agitam em todas as direções sob a sociedade, e que há meio século remexem o mundo como ondas atormentadoras? O resultado só podia ser o que temos perante os olhos: cada um flutua sobre a dúvida hoje em dia, esperando a calmaria que nunca vem; cada um procura ao longe uma praia, um porto feliz, aonde possa conduzir sua barca fatigada. Assim, e sobretudo há alguns anos, observa-se um movimento filosófico cuja natureza não enganará ninguém. Algumas cabeças de elite, curvadas e fatigadas por esse filosofismo negador, ergueram-se, cheias de aspirações latentes que estavam soterradas, e o culto da idéia conta com novos e fervorosos adoradores. As agitações políticas, as eventualidades financeiras e a indiferença da maioria dos homens pelas questões que ficam fora da vida material não embotaram a mente humana a ponto de impedi-la de cismar, de quando em quando, sobre suar razão de ser e sobre seu destino; os soldados do pensamento despertam, por todo lado, ao apelo de

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