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Capítulo 35 de 46

Apêndice — parte 5 de 9

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

universalidade das coisas uma dignidade que a eleva mil vezes mais que o privilégio da massa e da extensão material, e que uma gota de sangue divino a fez maior que todos os sóis juntos? (1) Notemos, para memória, que estas dúvidas sobre nossa doutrina não são pessoais do autor. Elas ainda estão na maioria das mentes. Lê-se em La Vie Future, do Sr. Th. Henri Martin: "A ciência não forneceu, até hoje, pró ou contra esta suposição (da Pluralidade dos Mundos), nenhum dado, não diria sequer certo, mas provável". — Não cabe a nós dizer se estas dúvidas eram fundadas até agora, e se nosso trabalho tem o poder de dissipá-las. Mas afinal deseja-se absolutamente que os planetas, os sóis, as estrelas tenham seus habitantes, capazes, como nós, de conhecer, de amar e glorificar o Criador? Apresso-me em proclamá-lo, isto não repugna ao dogma; não nega nem afirma nada sobre esta livre hipótese.

A economia geral do cristianismo concerne a Terra, nada mais que a Terra; ela abarca a humanidade, nada mais que a humanidade; a humanidade descendente de Adão e resgatada pelo Cristo. Fora desta grande economia do cristianismo que atinge a humanidade adâmica, deve-se admitir nos globos celestes naturezas inteligentes que tenham com a nossa alguma analogia? Joseph de Maistre, cuja austera ortodoxia não é mistério para ninguém, inclinava-se a crê-lo; grandes pensadores da catolicidade inclinam-se a isto, com ele: e importa pouco dizer-vos o que eu mesmo penso, para exprimir-vos sobre este ponto minhas preferências pessoais. Mas para o que concerne ao dogma católico, de que esta palavra quer sempre ser uma intérprete fiel, não somente ele não experimenta dentro desta grande hipótese nenhum embaraço, não receio dizer que ele encontra aqui um recurso para responder a vós mesmos e uma arma a mais para sc defender contra vossos próprios ataques.

"Há uma coisa que é para muitas inteligências uma pedra de escândalo que os detém no caminho, e uma arma de que se servem para melhor nos atacar, é o número relativamente pequeno dos justos e dos eleitos que atingem seu fim. Como Deus, que é a bondade, pode criar a humanidade, tendo perante seu infalível olhar a queda da maioria, se não da universal idade? Senhores, não vou discutir neste momento o valor intrínseco desta

dificuldade, mas pergunto-me, perante a hipótese possível da pluralidade da habitação dos Mundos, perante as perspectivas incomensuráveis que ela abre perante nós, o que se torna esse escândalo tão retumbante do pequeno número dos eleitos e do grande número dos danados. Se, como se pretende, todos os mundos carregam sua população de seres inteligentes proporcional a seu volume e a sua importância material; e se, como não nos é interdito supor, todos esses seres que permanecem fiéis à lei de sua vida devem atingir o objetivo de sua existência, que vem a ser a defecção da humanidade culpada no plano geral da Providência, senão como um desacordo mal perceptível no concerto universal?" Se esta última consideração satisfaz o Reverendo Padre, ela está longe de satisfazer nossa razão, e ainda menos nosso coração. Só vemos aqui uma bem pobre e singular consolação para os infelizes danados.

Talvez responda à dificuldade levantada por Voltaire em sua estatística dos danados e dos eleitos; mas não foi provavelmente com este objetivo que ela foi emitida, e, em qualquer caso, ela não detém a vibração da corda dissonante. Certamente, um desacordo na harmonia eterna não é admissível pela razão de que produz menos efeito no conjunto. Mas não nos afastemos de nosso assunto. Acabamos de ver, pelas páginas que precedem, como se conciliou o ensino do dogma com o ensino da ciência; e como se pode continuar um bom cristão e mesmo um bom católico ainda acreditando na Pluralidade dos Mundos. E o lado dos conciliadores, o mais forte e o melhor, segundo nós, o lado dos que já modificaram a interpretação do milagre de Josué, dos seis dias do Gênesis, da ressurreição da carne, três pontos de uma importância bem diversa, mas que de início concordavam tão pouco com a revelação das ciências.

Antes de passar ao campo dos teólogos inflexíveis que se entrincheiram num status quo cada vez menos sustentável, convidamos o leitor a comparar os sentimentos do padre Le Cazre, citados no começo desta nota, com os do padre Félix. E curioso ver que os temores de um são diametralmente opostos às afirmações do outro. Como o padre Le Cazre e o

padre Félix são o primeiro e o último dos jesuítas que trataram de nossa questão, pareceu-nos digno de interesse confrontá-los aqui um com o outro. Dissemos que o campo dos que se apegam à letra se restringe cada vez mais, pois a letra mata, já foi observado, enquanto que o espírito vivifica. Não daremos, pois, a este campo, mais importância do que tem na realidade, e não vamos registrar as mil puerilidades que se debitou sob o pretexto de comentar literalmente o ensinamento bíblico. Eis somente uma amostra curiosa do raciocínio desses profundos doutores; foi escolhido entre o imenso arsenal dos comentários teológicos que mentes aparentemente desocupadas se divertiram em costurar no Gênesis. Tomamos o quarto dia da criação, como sendo o que se relaciona diretamente a nosso tema. Texto: "Que corpos luminosos sejam feitos no firmamento". Comentário.

"A luz já existia", diz o autor (1); "a sucessão dos dias e das noites estava regulada; a Terra era fértil, tudo o que ela devia produzir estava formado; ela estava coroada de flores e carregada de frutos; cada planta e cada árvore tinham não somente a perfeição presente, mas também tudo o que era necessário para perpetuá-las e multiplicá-las. Que utilidade teria então o Sol, depois que o que atribuímos à sua virtude já estava feito? Que veio fazer no mundo mais antigo que ele e que o dispensou até então?" (1) Explication littérale de l'Ouvrage des Six Jours, pelo se abade Renart, doutor, etc. O autor não sabe, aparentemente, pois nem responde à sua própria pergunta. Arrisca somente esta explicação: "Deus provia até onde a razão do homem se obscureceria, e pensava que em lugar de subir até ele, se deteria no Sol.

Ora, ele quis que, pela própria história da criação (relatada por Moisés!), a família de Adão, e em seguida, a de Noé, só vissem o Sol como um recém-chegado ao mundo, menos necessário que qualquer dos efeitos que se lhe atribui. Uma tal instrução", acrescenta o ingênuo narrador, "não conservou contudo nenhum povo no seu dever, nem mesmo o povo judeu, que adorava o Sol sob o nome de Baal!"

"A fim de que separem o dia da noite." Comentário. "Se todos os dias fossem iguais e se houvesse só uma estação no ano, o curso do sol nos revelaria apenas imperfeitamente a sabedoria de Deus e sua atenção em conduzir o universo, mas nenhum dia, para falar exatamente, sendo igual ao que o precedeu, nem ao que o segue, é preciso necessariamente que todos os dias o sol corte o horizonte em seu nascer e em seu ocaso em pontos diferentes e que, segundo a expressão da Escritura, o dia leve ao dia que se segue uma nova ordem, e que a noite marque também para a noite seguinte em que momento deve começar e acabar, e que a natureza em suspenso aprenda a cada momento daquele que a conduz o que deve fazer, e até onde deve ir, etc., etc., etc." "Que sirvam de sinais para marcar o tempo, as estações (ou as reuniões solenes)." Comentário.

"Não foi somente para iluminar a Terra que Deus colocou o Sol e a Lua no firmamento, mas para regular as ocupações do homem, marcar para ele o dia para o trabalho e a noite para o repouso, ensinar-lhe a que obra deve destinar cada estação; mas também é para fazer com que os astros sirvam à religião. Mas não tiveram este uso por muito tempo, porque pecamos desde o começo. Esta religião primitiva tinha seus dias privilegiados: o último de cada semana e o primeiro de cada mês foram mais santos; o mês em que a Lua de Páscoa decidiu todas as outras solenidades foi honrado como o mais célebre; todas as tribos de Israel receberam ordem de se reunir nesse dia, em Pentecostes e na festa dos Tabernáculos; cada sétimo ano foi particularmente consagrado, e este número repetido sete vezes foi a figura do restabelecimento de nossa antiga herança e o ano do jubileu..." Em uma só palavra, eis para que servem o Sol e a Lua.

Uma última citação para fazer bem apreciar todo o valor dessas sapientes obras (1). (1) Estas singularidades não devem ser imputadas a uma aberração do autor, mas aos teólogos em geral. Mesmo Santo Tomás designa aos astros esta pobre destinação. V. Les Mondes immaginaires, 2ª parte, cap. IV.

"Ele fez também as estrelas." Comentário. "Só cabe a Deus falar com esta indiferença. Et stellas: ele diz em uma palavra o que só lhe custou uma palavra. A expressão da Escritura é, porém, muito exata, não somente porque, segundo o sentido, o Sol e a Lua são as duas maiores luzes do firmamento, mas porque, segundo suas situações em relação a Terra, e segundo a maneira como iluminam, é certo que todas as estrelas juntas fazem menos efeito." O leitor poderá, como corolário do que precede, registrar a curiosa suputação que se segue, extraída do comentário sobre o primeiro dia: "O primeiro dia da criação foi certamente um domingo (pois que o sétimo foi um sábado); e estando mais perto do equinócio de outono, levando em conta a emancipação dos dias equinociais, deve-se fixar o primeiro dia do mundo no domingo, 23 de outubro, do ano O".

A obra de que acabamos de citar alguns fragmentos já tem uma certa idade; mas eis algo de novo, que data de 16 de abril de 1863; os que, surpresos com tais arrazoados, não ousariam dar fé, poderão edificar-se pelo que segue. Nunca palestra científica do Sr. J. Chantrel, redator científico do jornal Le Monde, foram emitidas idéias igualmente singulares, de fato, sobre o assunto que nos ocupa. Esta palestra, digamos para registro, foi escrita a propósito do Sr. abade Moigno. Este era, como se sabe, redator-chefe do jornal Le Cosmos. Dificuldades de mais de um gênero, diz o cronista, levaram a uma separação tornada necessária, e o sábio abade fundou uma nova revista científica que chamou Les Mondes. Sobre isto, o cronista permite-se uma pequena "chicana", a propósito da mudança de título, que consideraria como tradução exata da palavra Cosmos; ele acha, ademais, que Les Mondes não pode servir de emblema do jornal de um ortodoxo austero, e que um abade não poderia, sem se rebaixar, falar dos mundos, e ainda menos admitir a utopia da pluralidade dos mundos. "Todo sábio cristão", diz ele, "crê que um só espírito vale mais que os milhões de sóis materiais que brilham sobre nossas cabeças; ele não mede a

importância dos sóis ou dos planetas por seu tamanho ou por seu peso; ele reconhece que, tudo sendo criado para o homem no mundo material, e o homem por Deus, não é necessário imaginar humanidades para cada astro; ele crê sobretudo que a Terra, teatro das mais sublimes manifestações de Deus, que a Terra, cuja substância contribuiu para formar o corpo da Santíssima Virgem e a substância da divina humanidade de Jesus Cristo, que a Terra é certamente o astro mais importante do mundo material. A luz da revelação, o sábio cristão explica esta divisão tão perfeitamente científica de Moisés, que faz criar o Céu e a Terra ao mesmo tempo, colocando assim o Céu de um lado e a Terra do outro, como duas grandes criações quase iguais (quase!).

Explica-se por que o escritor inspirado associa mais importância à Terra do que a todo o resto do mundo físico, porque ele dá detalhes sobre a criação do Sol e da Lua, servidores da Terra, ao passo que se contenta em designar a criação de todos os outros astros por duas palavras: et stellas. Sabemos por que o Sol, por que a Lua, porque a Terra; quanto ao resto, a Santa Escritura nos diz também o seu objetivo: Coeli enarrant gloriam Dei. Será necessário, para isso, que a Terra seja o centro do universo material? Absolutamente não. E nós nos inclinaríamos a crer que nosso sistema solar se encontra antes na circunferência que no centro, se é verdade, como os astrônomos observam, que nosso Sol gira em torno de uma outra estrela mais central, que gira, talvez em torno de uma outra, e assim por diante, de maneira que todas giram em redor desse ponto que Deus quis que fosse o centro da criação material, c onde manifesta principalmente seu poder e sua glória." (1) (1) Jornal Le Monde, 16 de abril de 1863. Isto acaba de ser escrito perante nós, em 1863! Não iremos mais longe, o assunto não é sério, e recearíamos ofender nossos leitores com estas conversas infantis.

E verdadeiramente muito feliz para nossa doutrina que nosso mundo não seja o Sol, ou Júpiter, pois então, se há sobre esses astros esplêndidos argumentadores como os acima, terão lá ao menos uma boa razão para

invocar em seu favor; e se chegam mesmo aqui a ter partidários, o que seria então num mundo cujo estado astronômico autorizaria suas afirmações singulares? Como se ousa escrever ainda que as estrelas foram criadas para a satisfação de nossa vista e para nos inspirar bons sentimentos, quando se conhece a importância desses astros e quando se sabe que não vemos deles nem a milionésima parte? Poder-se-ia consentir com Bentley (2) que a alma de um homem virtuoso é de maior preço que o Sol e todas as estrelas do mundo, e que, por esta razão, as estrelas poderiam não ter outro fim senão servir ao homem, se fosse provado que elas lhe servem todas, como a estrela polar serve à navegação e como a Lua serve às marés e à noite.

Mas como os 18 milhões de estrelas da Via Láctea, os 60 milhões que estão além da sexta grandeza, até o fim da visão telescópica, o número desconhecido daquelas que nunca vimos e nunca veremos, as nebulosas longínquas, etc., etc., não nos prestam o menor dos serviços, o argumento cai por si só. Eis, de resto, uma reflexão ingênua que talvez não esteja deslocada: A Noite não foi feita para dormir? Não é o período em que a natureza convida o homem a fechar suas pálpebras? Se no Pensamento eterno as estrelas foram feitas unicamente para serem vistas, é provável que este paradoxo flagrante não existisse. Se se faz observar, agora, que elas dão aos contempladores da noite uma elevada idéia do Autor da natureza, que elas nos levam à sua veneração, que elas elevam nossos pensamentos para a oração, então está bem.

Mas estes excelentes sentimentos podem nascer em nós mesmo se crermos nas estrelas habitadas, e bem mais elevados ainda, quando admiramos nessas estrelas outros tantos centros de mundos, outros tantos focos de onde se irradia o esplendor eterno. (2) On the Origin and Frame of the World, pelo Dr. Bentley, professor do Trinity College, Cambridge. Tais são as opiniões que a teologia, a escolástica, a apologia cristã emitiram sobre a doutrina da Pluralidade dos Mundos. Quisemos fazer comparecer esta doutrina perante o mistério cristão, e apresentar os

argumentos que se cruzaram de um lado e do outro, a fim de que se pudesse apreciar seu valor respectivo e regular seus julgamentos por uma apreciação imparcial. Todos os pontos colocados em evidência, às mentes desejosas de uma hipótese satisfatória puderam fazer suas escolhas e cada um deter-se segundo sua simpatia. No entanto, não podemos nos impedir de dizer, terminando, que todas estas discussões metafísicas nos parecem supérfluas e estéreis: elas não são úteis nem à glória da Astronomia nem à autoridade da Religião. Discutir sobre o modo da encarnação divina nos planetas, sobre a ação do Verbo de Deus além da Terra, sobre a crença cosmogônica pessoal dos profetas, dos apóstolos e dos Pais da Igreja etc. é discutir no vazio. Tudo o que pode resultar destas discussões se limitará sempre à hipótese, ao arbitrário, ao conjetural, e só servirá para enfraquecer com pensamentos polêmicos o estado glorioso da Majestade divina. Por que se dar a tanto penar?

Os que têm o mistério cristão como indiscutível — e ele o é, com efeito —, os que fazem homenagem ao dogma de uma fé absoluta, não podem nem aumentar nem fortificar esta fé absoluta. Fica-se surpreso por sua maneira de agir. Tendes a palavra de Deus, foi-lhes dito, vós a venerais e a adorais; como ousais fazê-la descer à arena científica? Como ousais comparar à ciência de Deus nosso fraco e pobre saber? Quê! O Ser infinito se dignou ele mesmo vos revelar a verdade, e ousais argumentar perante ele, pesar suas leis impenetráveis, e comparar audaciosamente a poeira de nosso formigueiro aos adros de seu templo! A fé não quer saber de tais pretensões: ou ela é absoluta, ou ela não é. Cessai pois de ser ilógicos convosco mesmos; como sabeis de uma maneira certa conservar a verdade, guardai-a integralmente, a essa verdade; se há contradição entre ela e nossa pobre ciência humana, deixai a contradição subsistir, mas não vergai desrespeitosamente vossa verdade às exigências dessa ciência.

Mas se acontecer que nossa ciência humana, por mais fraca que seja, fizer de tempos em tempos uma brecha desastrosa em vosso edifício, este fato deve ser para vós um sinal inequívoco de que esse edifício não é eterno.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.