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Capítulo 11 de 46

Fisiologia dos Seres — parte 1 de 5

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

Bios en Panti Há vida em tudo. Aristóteles.

Os seres sobre a Terra

Aspecto geral da vida na superfície de nosso mundo; a vida transforma suas manifestações conforme o tempo, os lugares e as circunstâncias: o que ela foi durante os períodos antediluvianos; o que ela é hoje. — Diversidade maravilhosa dos organismos vivos. — Relação íntima de cada um deles com os meios em que vivem. — Os seres diferem segundo a constituição dos mundos. — Análise espectral e composição química dos corpos celestes. — Se se pode estabelecer limites para a possibilidade de vida e para a aparição de seres vivos sobre um globo. — Meios, elementos e poder da natureza. — Digressão sobre as causas finais, destino dos seres, realidade de um plano divino e existência de um Deus criador.

Astronomicamente falando, a Terra não recebeu nenhum privilégio sobre os outros planetas. Mas, dir-se-ia, as determinações acima só se apóiam em dados cosmológicos que, apesar de irrecusáveis, não bastam para estabelecer a demonstração da habitabilidade dos mundos. Até aqui tendes passado completamente sob silêncio a questão fisiológica, que deveria entrar em boa parte na discussão de vossa tese. Se todos os planetas são, em aparência, tão próprios quanto a Terra como sede da vida, não quer

dizer com isso que realmente o sejam, e nada nos prova que as condições capazes de fecundar sobre um globo germes latentes de vida e ali entreter a existência tenham sido dadas aos outros planetas, como foram dadas à Terra. Ao contrário, o peso considerável e a dureza dos corpos, de um lado, a leveza e inaderência das moléculas do outro, um calor torrencial e uma luz cegante em outros mundos, um frio glacial e eternas trevas em outros, parecem opor-se invencivelmente à manifestação dos fenômenos da existência. O ponto de vista fisiológico é certamente muito importante para considerar aqui, e o primeiro fato que deve nos surpreender, como o veremos de imediato, é que a vida é o objetivo supremo da existência da matéria, e que as forças da natureza tendem em todos os lugares e sempre à formação, manutenção e conservação dos seres organizados. As objeções que se podem fazer contra esta tendência suprema, e que de início parecem sérias, são refutadas por si mesmas, assim que procuramos aprofundá-las.

Com efeito, não somente não é necessário atormentarmos nossa mente para reconhecer a sua fraqueza, e para compreender a possibilidade de existências totalmente incompatíveis com a vida terrestre, mas ainda bastanos dar um relance por nossa morada para conceber planetas povoados mui diversamente, e mesmo para estarmos certos que quase não é possível que uns e outros sejam habitados por seres semelhantes aos que vivem sobre a Terra. Que infinita variedade, por exemplo, entre os seres felizes que revoluteiam nas planícies do ar, e aqueles que rastejam na superfície do solo, ou aqueles que sulcam as regiões móveis do Oceano! Que diversidade em sua organização, em suas funções, em seu gênero de vida, em sua língua! Quem saberia contar os degraus desta escada da vida que começou com os zoófitos dos tempos primitivos, e da qual o homem ocupa o escalão superior! E mesmo dentro da humanidade, que diferença de constituição, de caracteres, de moral, de hábitos, de força física e moral, entre o europeu, cuja vontade transforma impérios, e o esquimó, incapaz de exprimir seu

próprio pensamento! Omitindo até fazer comparecer aqui a inesgotável variedade das espécies vegetais, apenas o espetáculo que nos oferecem os quadros tão diversificados da vida zoológica bastaria amplamente para nos convencer da impotência dos obstáculos devidos às condições biológicas, quando se opõem à fecundidade da natureza. Se, desde os mamíferos vertebrados aos moluscos e aos radiolários, passa-se em revista as diversas espécies de animais que povoam a Terra, começar-se-á a compreender o quanto os seres são adequados, em sua constituição íntima, às regiões e aos meios em que devem viver. Se se passar igualmente em revista as 100 mil espécies de plantas que ornam a superfície terrestre, saber-se-á ainda melhor que prodigioso poder da fecundidade foi dado a cada átomo da matéria.

Talvez isto nos fará observar que o mesmo modo da criação não presidiu ao estabelecimento de todos os seres da Terra; talvez nos objetem que esse número incalculável de seres diversos não impede que sua organização geral repouse sobre um mesmo princípio: o de ser adaptado ao meio vital que nutre toda produção da Terra. Nós o reconhecemos; mas acrescentamos que todo outro meio vital cumpriria as mesmas funções que o nosso, fosse composto de elementos heterogêneos sem nenhuma relação com os elementos que constituem nosso ar atmosférico; diremos que em cada mundo todo ser é necessariamente organizado segundo o seu meio vital, qualquer que seja a natureza deste. Não adiantamos aqui uma proposição gratuita, só tiramos uma conclusão lógica que decorre incontestavelmente do estudo da natureza. A história de nosso planeta é que fala eloqüentemente em nosso favor.

Para tomar um exemplo em relação direta com nosso assunto, lembremos que, durante as épocas primitivas do globo, em que o calor e a instabilidade da superfície terrestre interditavam a existência dos animais e vegetais atuais, uma outra vida proporcionada a essas primeiras eras se propagou sob a ação de forças prodigiosas. A atmosfera espessa e tumultuosa estava sobrecarregada de ácido carbônico, que se soltava do solo primitivo e escapava incessantemente dos vulcões inflamados; este

ácido impedis a eclosão da animalidade sobre a Terra: foram criadas plantas, que se nutriam dos elementos existentes, e se encarregaram de absorvê-los em proveito da economia do globo. A terra firme não existia; as águas se estendiam em seu domínio absoluto, o oxigênio ainda não fora liberado: foram criados animais que, por sua organização completamente aquática, se nutriram, malgrado a raridade do oxigênio, e consumiram seus dias numa água saturada de azoto e de carbono, morada mortal para os animais superiores. Nem as revoluções gerais de um globo recente, cujos pólos não sofriam menos de 40 graus de calor, nem os dilúvios sucessivos, o abaixamento das costas, o inchar dos vales e o fluxo dos mares; nem os rompimentos da crosta mal-e-mal consolidada e o jorro das substâncias vulcânicas ardentes; nem a heterogeneidade do meio ambiente, mistura de gases deletérios, representaram obstáculo às manifestações da vida.

A Natureza dominou com toda sua força virtual os elementos que se tornaram perniciosos nos tempos mais próximos daqueles em que o organismo foi modificado, e propagou em seu seio os germes de uma fecundidade desconhecida. Por um lado, uma vegetação poderosa, samambaias que não mediam menos que sete pés de diâmetro, fetos arborescentes dos quais apenas o equador conservou vestígios vivos, estenderam-se ao longe em terras ainda pantanosas, e prepararam, há milhões de anos, a atmosfera oxigenada atual e a formação do carvão. Por outro lado, nasceram os representantes do reino animal, que encontramos nos sedimentos da era primária, especialmente nos calcários; esses seres filamentosos que de animal só têm o movimento espontâneo, esses infusórios que podem suportar uma temperatura de 70 a 80 graus; essas holotúrias, esses acalefos, esses cefalópodes, que abriram tão modestamente o período da animalidade na Terra, e todos aqueles animais microscópicos que construíram, no seio de um calor muito elevado, montanhas inteiramente formadas de seus restos mortais, animais tão pequenos que se poderia colocar 3.000 deles num comprimento de 2 milímetros, e cujo número é tão prodigioso que, num só grama, Ehrenberg e outros geólogos contaram 128.000! Durante aquelas

épocas, as combinações químicas que se efetuavam no vasto laboratório da Natureza liberaram a imensa quantidade de azoto que constituem mais de três quartos de nossa atmosfera. A esses seres, cuja simplicidade orgânica estava em harmonia com a novidade do globo, sucederam vegetais mais ricos e elegantes, que apresentam flores, e os animais mais elevados na economia vivente, cuja vitalidade era tão prodigiosa que suas raças eram insensíveis às convulsões do solo, tão freqüentes naquela era primitiva. É desta era que data a aparição dos radiolários e dos pólipos que, quebrados e divididos, vivem e se reproduzem ainda; anelídeos, dotados, como eles, de uma grande força vital, e mais tarde, crustáceos, cujo corpo, protegido por uma couraça, conservou ainda uma última herança da previdência da Natureza, que age sempre conforme os lugares e conforme os tempos.

Também é daí que datam, numa época mais próxima de nós, os animais recobertos de escamas e de envoltório coriáceo resistente; aqueles sáurios gigantescos, então únicos senhores da criação viva, aqueles pterodátilos de asas membranosas, os mais monstruosos dos monstros antediluvianos, aqueles megalossauros couraçados cujas formidáveis mandíbulas podiam, sem esforço, dar passagem a um animal do tamanho de um boi; aqueles iguanodontes de cem pés de comprimento, que parecem ter servido de tipo para os vampiros legendários, e todos aqueles colossos estranhos do reino animal, que dominaram durante milhares de anos, nas regiões onde o homem deveria aparecer um dia. Lembremo-nos que desde o berço do mundo terrestre até a aparição do último ser criado, multidões de espécies, tanto animais quanto vegetais, se sucederam na superfície do globo, à medida que se transformou o estado do solo e do meio atmosférico, nascendo, desenvolvendo-se e desaparecendo com períodos seculares, para dar lugar a outras espécies que renovaram sucessivamente o mesmo cenário.

Lembremo-nos também dos grandes movimentos anímicos que tantas vezes mudaram a face do globo desde sua antiga origem. Concluiremos então que o poder criador é infinito, e que não podemos opor razoavelmente nenhum obstáculo à manifestação

da vida, desde que este obstáculo não esteja em contradição formal com as leis que regem o mundo. Poderiam objetar-nos, neste ponto, que no momento em que colocamos em jogo o poder infinito da Natureza, saímos da argumentação científica e não provamos nada. Poderiam nos dizer, com o doutor Whewell (1), de que se acreditarmos na habitação dos planetas pela razão de que o poder criador pode ter levantado todo obstáculo, poderíamos dizer igualmente que os cometas, os asteróides, as pedras meteóricas, as nuvens etc. são habitados, pois se o tivesse desejado, o Criador teria podido povoar todos estes objetos. Este raciocínio seria sinal de uma interpretação maliciosa de nossos argumentos; diremos mais, que seria sinal de má-fé. Todo homem de boa-fé reconheceria sem esforço, assim o esperamos, que procuramos compreender a Natureza na simplicidade de sua obra e repetir fielmente suas lições. Quando temos sob os olhos mundos habitáveis, pensamos que esta habitabilidade deve ter a habitação como complemento.

Quando os mundos nos parecem inabitáveis, examinamos de início se esta aparência é com certeza a expressão da realidade, e neste caso somos levados a crer que estes mundos são efetivamente habitados. Mas antes de nos pronunciarmos com rigor contra a habitação, queremos que o obstáculo que nos parece se opor à manifestação da vida esteja em contradição formal com as leis que regem o mundo. É a Natureza que estudamos; é a Natureza que é a base de nossas pesquisas, assim como ela é nossa regra e nossa bússola. (1) A Dialogue on lhe plurality of Worlds, being a supplement to the Essay on that subject. Traçamos o quadro dos tempos primitivos para destacar o princípio importante sobre o qual ele repousa, a saber: que a vida muda de forma segundo as forças que a fazem aparecer, mas não fica eternamente latente nos elementos da matéria. Apliquemos este princípio à generalidade dos astros, e concluamos que os mundos são povoados, uns por espécies que podem oferecer alguma analogia com as que vivem sobre a Terra, outros por espécies que não poderiam viver aqui conosco. Esse quadro do mundo primitivo é, de resto, malgrado a importância do assunto e da aplicação

imediata que se pode fazer dele, uma prova que não nos era necessária, na abundância em que estamos de demonstrações semelhantes, fáceis de tirar dos fatos cotidianos que se passam ao nosso redor. Consideremos, com efeito, a Terra de nossos dias, e reconheçamos que ela fala em nosso favor com a mesma eloqüência que a Terra dos primeiros dias.

Para dizer em poucas palavras: as provas abundam por toda parte nas operações atuais da Natureza, e nos mostram, pela diversidade das produções terrestres, que variedade pode ter sido propagada pelos céus: quer do ponto de vista dos meios e dos princípios vitais, quando vemos espécies sem número de animais aquáticos compartilhar uma existência incompatível com a de todas as outras produções do globo (Cuvier), e anfíbios viverem, como os jacarés e as serpentes, numa atmosfera mortal para os homens e para os animais superiores (Humboldt); quer do ponto de vista da luz, quando vemos os condores e as águias, que residem nas elevadas regiões do ar e sobre neves ofuscantes, manterem, com o auxílio de um recurso muito simples, o olho fixo perante o astro refulgente do dia (Lenorman), e certas espécies de peixes gozarem dos benefícios da luz (1) ou dispensar seu órgão, que se atrofia na espessa obscuridade das profundezas oceânicas, onde reinam eternamente trevas tais como nunca as apresentam a mais profunda noite na superfície da Terra (Biot); seja, por fim, do ponto de vista do

calor, dos climas, da gravidade, da pressão atmosférica etc., pois sabemos que certos infusórios não conhecem nem o frio nem o calor, que as mesmas espécies que vivem na China e no Japão foram encontradas no Mar Báltico (J. Ross); que as diatomáceas pululam nas fontes quentes do Canadá e se apresentam também nas regiões polares; que as que vivem na superfície do mar foram encontradas por meio de uma sonda, à profundidade de 1.800 pés, onde sofriam uma pressão de 60 atmosferas (Zimmermann); da mesma forma, o peso absoluto dos corpos, o frio ou o quente absolutos, a luz ou a treva absolutas não existem em lugar algum da criação, onde tudo é relativo, onde tudo é harmonia.

(1) O próprio homem, por um exercício prolongado, pode tornar seu olho tão sensível à menor impressão luminosa que chega a ler e a escrever onde um outro qualquer se julgaria na escuridão mais absoluta. Um prisioneiro da Bastilha fez esta triste experiência, relatada por Valérius. Encerrado por quarenta anos numa cela subterrânea, na aparência completamente privado de luz, chegou não somente a escrever, mas ainda a ler. Todavia, seus olhos se tornaram tão impressionáveis que, quando por fim lhe foi concedida à graça, solicitou como favor a permissão de voltar à sua prisão, pois era-lhe impossível se habituar de novo à luz do dia. Um outro fato, em relação direta com nosso texto, e que escolhemos entre mil outros, mostrará melhor ainda qual a influência do meio, e que modificações os órgãos podem sofrer sob esta influência. Não longe dos rios da América, existem lagos subterrâneos onde os raios do Sol jamais penetraram, onde reina escuridão permanente e mais profunda ainda que a do oceano.

Os peixes que vivem nesta noite eterna nada teriam que fazer com um órgão cia visão; ora, nunca existindo o inútil nas operações da Natureza, estes peixes perderam completamente a vista; compensam-na para seus movimentos por um sentido que se poderia chamar interno, e onde os olhos existem, entre os peixes da mesma espécie, distingue-se apenas um sinal oval brando sobre a pele escamosa, como se a Natureza ali tivesse escrito: Aqui existem olhos, naqueles que têm necessidade. Poder-se-ia objetar, talvez, que estes peixes sempre foram assim, e que é a seu nascimento, e não a seu meio que deve ser atribuída esta atrofia de órgão. Eis aqui um fato que dá a resposta, sem comentário. Todos os turistas que descem a rota fluvial do Ródano, de Genebra a Lyon, puderam observar e visitara "gruta de Baume", vasto lago subterrâneo que, como os da América, está num estado de obscuridade permanente. Este lago era desprovido de espécies vivas, há alguns séculos. Levaram-se peixes apanhados no Ródano, e hoje, estas espécies perderam completamente a visão.

Seus congêneres do Ródano continuam como demonstração visível do estado primitivo destes cegos. Um outro exemplo ainda, tão notável quanto o precedente, pode ser tomado no lençol de água subterrâneo de nível variável de Zirknitz, na Carniole. Este lençol oculto transborda, na estação das chuvas, e dá passagem a peixes e patos vivos. No momento em que o fluxo vivo os faz sair das fissuras do solo, estes patos são completamente cegos e quase inteiramente nus. A faculdade de ver retorna-lhes em pouco tempo, mas suas plumas (que crescem negras, exceto na cabeça) levam quase três semanas para chegar a um estado que lhes permita voar. Arago, a quem se comunicou este fato, duvidou de início que os habitantes desse mundo subterrâneo pudessem continuar vivendo, mas ele mesmo fez a constatação, e qualquer um pode fazê-la facilmente hoje, que o lago abriga realmente patos vivos, sem plumas e cegos. Foi nestas mesmas águas subterrâneas da Carniole que se encontrou o proteus anguinus, que excitou em alto grau a atenção dos naturalistas.

Sobre este fato particular, ver Arago, Annuaire du bureau des longitudes pour 1835; sobre a questão geral, ver a sábia obra de Darwin: On the origin of species by means of natural selection. Ora, se um tal ensinamento que nos dá aqui embaixo a Natureza, se sua inesgotável fecundidade, contra a qual nenhuma resistência pode nem

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