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Capítulo 8 de 46

Grandeurs Comparees Des Planetes — parte 1 de 3

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

= Tamanhos comparados dos planetas.

II

Estudo Comparativo dos Planetas

Posição da Terra no sistema. — Condições de habitabilidade dos mundos. — Quantidade de calor e luz sobre cada planeta. — Número dos satélites; seu papel. — Habitabilidade da Lua; — do Sol; — dos cometas. — As atmosferas na superfície dos mundos; propriedades importantes; o ar e a água. — Tamanhos, superfícies e volumes; a Terra vista de Júpiter; nosso mundo comparado ao Sol. Densidade dos planetas. — Peso dos corpos na sua superfície. — O peso do Sol. — Conclusão tirada do estudo dos mundos planetários.

Ao abordar o estudo comparativo dos planetas, o primeiro ponto que reclama nossa atenção é a posição ocupada pela Terra em nosso sistema. Ora, fazendo a suposição, completamente gratuita, é verdade, de que conhecemos o número total dos planetas, restringindo por um instante nossas conclusões a este número determinado pela ciência de hoje em dia, e estabelecendo nossas considerações sobre esta base e sobre as distâncias respectivas dos planetas ao astro radioso, observaríamos de início que a Terra é a terceira em nove — os asteróides contando como um só — e que, por conseguinte, ela não é caracterizada nem por sua proximidade, nem por seu distanciamento, nem por uma posição mediana; diríamos, a seguir, que ela está quase três vezes mais afastada que Mercúrio e trinta vezes menos que Netuno, e que nem está situada no meio do raio adotado para o sistema solar, pois este ponto cai entre a órbita de Saturno e de Urano. Donde concluiremos que, sob este primeiro ponto de vista, a Terra não se distingue dos outros planetas.

Mas esta consideração, atendo-se a dados muito provavelmente incompletos, não tem outro objetivo senão subtrair aos nossos adversários o argumento no qual pretendem se apoiar quando pretendem combater, em nome da posição da Terra no sistema, a doutrina da pluralidade dos mundos, e sua medíocre importância se apaga diante das determinações a seguir. Considerando a quantidade de calor e de luz que os mundos planetários recebem do Sol, sabendo que a intensidade de cada um deles varia, todas as coisas mantendo-se iguais, na razão inversa do quadrado das distâncias, descobrimos que Mercúrio recebe 7 vezes mais luz e calor que nosso globo, Vênus 2 vezes mais, Marte a metade, os planetas telescópicos 7 vezes menos, Júpiter 27 vezes menos, Saturno 90 vezes menos, Urano 390 vezes menos e Netuno 900 vezes menos. Essas distâncias respectivas dos planetas ao foco solar, entre os quais a da Terra não representa nenhum privilégio, determinam uma diminuição gradual na temperatura de sua superfície, de Mercúrio até Netuno; essas distâncias devem ser tomadas como bases fundamentais em nossas

pesquisas sobre esta temperatura. Segundo os célebres trabalhos de Fourier, sabemos, sem dúvida possível, que o calor interior do globo, seja qual for o seu grau de intensidade, só tem fraca ação sobre o estado térmico da superfície, relativamente à ação do Sol. A teoria matemática do calor fez brilhantes progressos desde Buffon (1), e esses progressos não permitem mais crer hoje em dia que o fogo central tenha uma influência exclusiva sobre a temperatura da crosta resfriada. A existência de uma elevada temperatura no interior da Terra e de um centro ígneo foi reconhecida pelo aumento constante do calor a partir da superfície, seja qual for o lugar que se experimente, aumento que de modo algum existiria se apenas o Sol agisse sobre o globo. Demonstrada a existência desse calor interno, pode-se procurar avaliar sua influência na superfície do solo, medindo o grau de facilidade com o qual as camadas situadas imediatamente abaixo do solo permitem que este calor as atravesse.

Ora, todas as observações coletadas e discutidas mostraram que a influência do calor central é atualmente quase insignificante, na superfície da Terra. (1) V. nota C do Apêndice, sobre a Temperatura dos Planetas. Nos tempos primitivos, nosso planeta se ressentia ainda de sua origem ígnea, e sua temperatura exterior era sem comparação com aquela que observamos desde os tempos históricos. Mas a imaginação pode, com dificuldade, formar uma idéia das eras que se passaram desde as primeiras épocas da natureza. A relação que existe entre a duração do dia e o calor do globo nos ensinou que o volume da Terra diminuía enquanto sua massa esfriava, todo decréscimo de temperatura correspondendo a um acréscimo da velocidade de rotação; ora, resulta, das observações astronômicas, que desde Hiparco, quer dizer, há 2 mil anos, a duração do dia não diminuiu nem um centésimo de segundo; pode-se afirmar, a partir disto, que a temperatura média do globo só variou 1/170 grau em 2 mil anos. Parece, de resto, demonstrado que a terra não esfria numa quantidade apreciável num intervalo de 1 milhão e 280 mil anos. Pode-se avaliar por isto há quanto

tempo a Terra está sujeita ao regime atual, regime durante o qual, como dissemos, a influência do calor central é quase insignificante na superfície. As conclusões obtidas por experiências feitas em nosso planeta podem ser aplicadas aos outros mundos de nosso sistema, tudo convidando-nos a crer que estes mundos têm a mesma origem que o nosso. A causa preponderante do calor na superfície dos planetas corresponde a suas distâncias respectivas ao astro do dia. Mas, sempre dando a este valor a parte que lhe faz jus aqui, não se deve perder de vista que nossas determinações se aplicam implicitamente ao globo terrestre, que substituímos, sem dúvida, por cada um dos planetas estudados. E possível que em certas terras do espaço, o fogo central tenha ainda uma ação poderosa sobre os fenômenos orgânicos que se operam na superfície, assim como em certos planetas a criação pode estar apenas no início de sua obra, e o homem ainda não apareceu.

Para resolver este problema do calor na superfície dos mundos, seria preciso termos dados que ainda nos faltarão por um bom tempo. Seria preciso que conhecêssemos, por exemplo, a diafaneidade, a densidade, a composição química e as propriedades físicas das atmosferas ambientes; pois sabe-se que elas agem como imensas estufas quentes, que deixam passar em maior ou menor quantidade os raios solares para aquecer seus planetas, e que se opõem, em seguida, com maior ou menor eficácia, a que este calor escape pela radiação; esta propriedade, convenientemente proporcionada às distâncias, bastaria para dar uma mesma temperatura média a mundos diversamente afastados do Sol. Seria também preciso que conhecêssemos a natureza dos materiais que constituem cada um dos corpos planetários, e que não têm a mesma capacidade quanto ao calor, configuração orográfica e oceânica, e as circunstâncias próprias para fazer variar notavelmente o calórico absorvido ou refletido, a cor geral e os tons locais das diversas superfícies, o grau de secura ou umidade ordinária do solo, ou a evaporação mais ou menos freqüente das massas líquidas, a altura das montanhas, a higrometria e a isotermia dos globos, seu estado elétrico e magnético, enfim, o estado

calorífico próprio de cada uma das esferas celestes; seria preciso também que conhecêssemos mil causas influentes das quais não podemos fazer a menor idéia, julgando toda a criação pelos fenômenos terrestres, os únicos que podemos observar, e encontrando-nos na impossibilidade de imaginar as causas das quais não temos ao menos uma noção, aqui embaixo. Que nos baste compreender que todas as objeções que derivam do afastamento ou da proximidade do Sol, e que parecem impedir a existência de seres vivos em certos mundos porque seriam queimados, e em outros porque seriam congelados, não são de nenhum valor, quando são opostos ao poder eficaz da Natureza (1), e que, em conseqüência, seja que esta toda poderosa Natureza produza nessas regiões seres organizados para o estado normal do planeta, ou que ela atenue as circunstâncias extremas que são geralmente desfavoráveis às funções dos organismos vivos, não é menos certo que, sob este novo ponto de vista, a posição da Terra não a distingue em nada dos outros mundos planetários. (1) A fim de que não se de uma interpretação panteísta a esta palavra, Natureza, que reaparecerá com freqüência nestes estudos, diremos que: Consideramos a Natureza, quer dizer, a universalidade das coisas criadas e das leis que as regem, como a expressão da vontade divina.— (V. nossa obra Dieu dans la nature.)

Abordemos outros pontos de semelhança. Considerando os satélites como colocados no céu não somente para iluminar a noite, mas ainda para determinar o fluxo e o refluxo do oceano e da atmosfera, o movimento dos meteoros e a produção de diversos fenômenos atmosféricos, observaremos que certos planetas possuem até oito deles, e que a Terra está longe de ser privilegiada sob este aspecto. Aqui temos uma observação importante a dirigir a certos partidários das causas finais, que admiram, com razão, essas luminárias cuja suave claridade substitui, à noite, a ofuscante luz do dia, mas que erram ao pretender que a Lua e os satélites não serviriam para nada se não prestassem alguns serviços a seus planetas, e que esta é sua única razão de ser. Vamos fazê-los observar simplesmente que seu argumento pode ser voltado, com vantagem, contra eles. Com efeito, os habitantes destes pequenos mundos certamente têm um direito de se julgar

privilegiados e sustentar que a Terra e os outros planetas, que refletem muito mais luz, foram formados expressamente para iluminar suas noites tão longas; e esta maneira de ver é tanto mais fundamentada por os planetas ultrapassarem em muito os satélites em extensão reflexiva. Assim sendo, a Terra envia treze vezes mais luz à Lua do que ela nos dá, e, malgrado o número de satélites de Saturno, Urano e Júpiter, a diferença ainda é mais marcada. Seja qual for o lado pelo qual se examine a questão, não só a Terra é menos favorecida que os grandes planetas, mas o é ainda menos que os próprios satélites. Para dissipar completamente a oposição daqueles que invocam, neste sentido, a causalidade final e que a aplicam tão superficialmente às grandes obras da natureza, observaremos, com Arago, que, para satisfazer às suas opiniões, seria preciso que os planetas tivessem tantos mais satélites a seu serviço quanto mais afastados estivessem do Sol, o que não é verdade; com Laplace que, para uma iluminação permanente das noites de nosso mundo, seria preciso que a Lua, sempre em oposição, e a uma distância quádrupla daquela em que está, cumprisse em um ano sua revolução numa órbita abarcando a da Terra e no mesmo plano, o que não é verdade, nem poderia ser; com Augusto Comte, que o melhor para este, seria ter dois satélites dispostos de maneira que o nascer de um coincidisse com o ocaso do outro, o que aconteceria se estes dois satélites circulassem numa mesma órbita, ficando constantemente afastados um do outro em 180 graus de longitude — o que tampouco seria possível.

A nossos olhos, a Lua tem outro destino a cumprir que não o de rolar solitariamente em redor de nosso globo. Ou ela é habitada, ou foi habitada, ou virá a ser habitada. Que o telescópio nos mostra a solidão de suas paragens e a esterilidade de seu hemisfério visível, é fato da observação, é verdade, mas é um fato que não nos autoriza a negar nada, nem nos permite afirmar coisa alguma, no estado atual de nossos conhecimentos. E mesmo que a ausência de toda atmosfera, e portanto de todo líquido, na superfície deste hemisfério, esteja superabundantemente demonstrada, isto ainda não implicaria na desabitação do satélite. Há quase toda uma metade deste

satélite que nos é inteiramente subtraída, e que nos ficará eternamente desconhecida; lá, mares podem recortar continentes férteis, e florestas sombrias vestir as montanhas; lá, os animais podem ter encontrado um asilo e condições de vida; lá, uma humanidade pode viver e florescer sem que nos seja possível ter a menor suspeita dela. Mas mesmo fora desta hipótese, que reconhecemos ser completamente conjetural, a desabitação de nosso satélite não provaria que não tenha sido habitado outrora. Ele sofreu revoluções geológicas formidáveis, das quais seus inumeráveis vulcões conservam ainda hoje eloqüentes vestígios. Qual teria sido então a vitalidade deste astro vizinho? E será que todo tipo de vida seria impossível nas condições atuais? As diferenças essenciais que existem entre este mundo e o nosso devem nos dissuadir de poder julgar seu estado de habitação; a questão não pode ser atualmente resolvida, e o pró e o contra podem ser igualmente defendidos.

Ao proclamar a habitabilidade da Lua e dos satélites, estamos longe de lançar para a sombra as vantagens que estes astros secundários proporcionam a seus respectivos planetas. Dizemos, ao contrário, que a Lua é uma companheira bem útil da Terra; útil sob o aspecto da mecânica celeste, para os movimentos oscilatórios do globo; útil sob o aspecto da vida astral do planeta, para a sua meteorologia, ainda tão misteriosa; útil sob o aspecto de sua habitação viva, na iluminação de suas noites e nas influências que ainda se pode apreciar na economia dos seres, vegetais e animais. Dizemos, ademais, que as vantagens que recebemos de nosso satélite não foram reconhecidas em sua multiplicidade, nem apreciadas em toda sua extensão.

Mas se logo acrescentarmos que as visões da Onipotência não parecem parar aí, e que seria uma pretensão próxima do ridículo afirmar que somos o objetivo único da criação da Lua, e que este astro, sobre o qual foram distribuídas certas condições biológicas particulares, só teria, desde a sua formação, perspectivas de uma esterilidade permanente e uma morte eterna.

A questão das causas finais, levantada pela habitabilidade dos satélites, leva-nos ao terreno da questão da habitabilidade do Sol, dos cometas, dos astros que não parecem ter sido criados para si mesmos, mas tendo em vista outros mundos. O Sol, esta fonte abundante de luz e de vida que sustenta em nossos mundos tantas raças e seres organizados, este eixo central cujo domínio garante a estabilidade, a regularidade e a harmonia dos movimentos planetários; o Sol, como dizíamos, tem como objetivo principal a função bem determinada de sustentar o sistema nos vazios do espaço. Mas se se considera que uma grande multiplicidade de ações é ordinariamente efetuada nas obras da Natureza, e que este poder essencialmente agente tende constantemente à maior soma de trabalho útil, tirando proveito dai; forças, na aparência, as mais fracas, nos lugares onde menos se suporia sua presença ou a possibilidade de sua ação, admitir-se-ia que à indispensável utilidade do Sol como sustentáculo e foco dos mundos se acrescentaria ainda a utilidade mais admirável por seu luxo de ser a morada de inteligências elevadas, ocupando essa terra radiosa que não conhece as noites nem os invernos, cujo esplendor eclipsa todos os outros, e que fica suspensa como uma região magnífica, enriquecida, talvez, com as produções mais opulentas da natureza; as obras da criação concorrem sempre para o efeito mais útil c, no final, o mais completo.

Mas apressemonos em dizer que estas conjeturas são puramente hipotéticas, sedutoras, quem sabe, mas longe das razões e fatos sobre os quais se apóia a doutrina geral da pluralidade dos mundos. Seria vão, e sem sentido, querer tratar cientificamente a questão dos habitantes do Sol. O inglês Knight, em um livro onde tentou explicar todos os fenômenos da natureza pela atração e repulsão; o doutor Elliot, que foi absolvido num debate perante um júri por ter pretendido que o Sol era habitado e assim passado por louco; William Herschel, que veio, oito anos mais tarde, esposar essas idéias que valeram a seu autor o título de louco (e a vida), e proclamar a habitabilidade do astro solar; Bode, o astrônomo alemão, que redigiu uma dissertação sobre a felicidade dos solarianos; e muitos astrônomos de nosso século, no número

dos quais citaremos Humboldt e Arago, acreditaram, é verdade, nesta habitabilidade, e adotaram a teoria da constituição física solar que parecia permitir a habitação. Outros sustentaram não só que este astro era habitado, mas ainda, a exemplo de Bode, que era a imensa morada de delícias e longevidade, e que as vantagens biológicas mais preciosas foram dadas ao mais importante dos mundos do sistema, ao que domina todos os outros, que os governa, e que os envolve em seus raios benfazejos de calor e de luz. No entanto, quem quer que se dedicasse a especulações arbitrárias sobre seu grau de habitabilidade e sobre seu gênero de habitação, se engajaria no erro desde os primeiros passos. Pelo que vimos, os trabalhos mais recentes da astronomia física não nos autorizam a crer, como há vinte anos, com Arago, que a população do Sol possa ser análoga às planetárias; ela é, sob todos os pontos de vista, radicalmente distinta.

Esta não é razão para adiantar que não haja lá nenhuma espécie de ser; é apenas para crer que o Sol só poderia ser habitado por seres diferindo essencialmente de nós em todos os caracteres. Entre os corpos celestes cujo destino não parece ser o de sustentar a vida e a inteligência, e cujo estado cósmico parece até incompatível com os fenômenos da existência, mencionaremos esses astros cabeludos com caudas chamejantes, outrora o terror de todos, e agora o preferido dos curiosos. Os cometas, com efeito, não poderiam ter o menor lugar em nossas considerações sobre a pluralidade dos mundos. Sua origem, sua natureza, sua função na economia do sistema e seu objetivo final nos são desconhecidos. Hóspedes misteriosos do espaço, vemo-los errar de um mundo para outro, esquecer as distâncias, ignorar as fronteiras dos Estados celestiais, e franquear impetuosamente as grandes extensões em seu curso descabelado.

Alguns deles passaram perto de nós e permanecem cativos, sob a rede da atração solar; outros, semelhantes a gigantescos quirópteros abrindo suas asas vigorosas, desvencilharam-se dos liames e saíram esvoaçando pelas profundezas do infinito. Sombras ligeiras, vapores imensos, criações móveis, que são, e por que são? — Derham emitiu a

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.