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Capítulo 17 de 46
III — parte 2 de 2
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
(1) V. Les Terres du ciel, livro V, cap. I, A Terra, astro do céu. A teoria que acabamos de expor sobre a marcha e o valor das estações enfoca este problema sob seu ponto de vista mais importante: como uma das conseqüências da obliqüidade da eclíptica. Mas para ser mais completo, devemos acrescentar que esses tipos de estações não são os únicos a que a Terra e os planetas estão submetidos; há outras, menos apreciáveis para nós, mas mesmo assim, reais: são as que resultam da excentricidade das órbitas planetárias. Sabe-se que os planetas não se movem no espaço seguindo circunferências regulares, mas sim elipses, da qual o Sol ocupa um dos focos, e que, por conseqüência deste movimento, os planetas ficam ora mais afastados, ora mais próximos do astro solar. A distância que os separa deste astro varia de dia para dia, desde seu máximo, que ocorre no afélio, até seu mínimo, que ocorre no periélio.
Assim a Terra fica 1 milhão 260 mil léguas mais perto do Sol no periélio (solstício de inverno, para nosso hemisfério) do que no afélio (solstício de verão); dá-se o nome de excentricidade à metade da diferença que existe entre as distâncias do Sol nestes dois pontos extremos. Estas estações que dependem, como se vê, da distância variável dos planetas ao Sol, são pouco apreciáveis para a Terra, porque a sua própria excentricidade é fraca (0,01679), e porque as estações que dependem da inclinação de seu eixo são muito caracterizadas; mas elas têm um valor muito pronunciado nos planetas cuja órbita é muito alongada, e se aproxima das longas elipses cometárias. À parte os pequenos planetas situados entre Marte e Júpiter, dos quais alguns manifestam uma excentricidade considerável, mas aos quais não se deveria dar muita importância na teoria que nos ocupa, Mercúrio é o mundo sobre o qual este tipo de estação é mais caracterizado.
Sua excentricidade é treze vezes maior que a da Terra, e resulta que a distância do astro ao Sol varia, do periélio ao afélio, mais ou menos na razão de 4 para 7. A luz e o calor solares são, por isso, duas vezes mais intensos no periélio que no afélio; é como se aparecesse, numa certa época do ano, um segundo Sol a tomar lugar no céu ao lado de nosso Sol
habitual. Em Júpiter, nossas estações comuns não existem, e as estações dependentes da excentricidade são preponderantes. A excentricidade da órbita terrestre vai diminuindo, como a obliqüidade da eclíptica, e essa diminuição é extremamente lenta: ela varia apenas 0,00043 por século. Ela fica também entre limites muito pequenos. Poisson, em Connaissance des temps, de 1836, Arago, em seu Notices scientifiques, bem como outros geômetras, estabeleceram que a influência das variações seculares da quantidade de calor solar recebido por nosso globo sobre sua temperatura média está limitada a um movimento quase insensível. Como já dissemos, a condição astronômica da Terra é relativamente estável e permanente, ao menos ainda por milhares de séculos. Retomando a teoria das estações ordinárias no ponto em que a deixamos, é agora lugar de observar a diversidade que existe entre os outros mundos e a Terra, diversidade que lhes dá cada um dos elementos especiais, e cujo exame é de alta importância na questão de sua fisiologia geral.
Começando pelos planetas cuja condição difere mais da nossa, vamos nomear Urano, Mercúrio e Vênus, que têm estações e climas excessivos; depois, Saturno e Marte, cujas estações são quase análogas às nossas; Júpiter é um mundo à parte, privilegiado acima de todos os outros: goza de uma única e mesma estação durante seu lento período anual; o dia e a noite em todos os seus pontos são de igual duração; climas constantes típicos de cada latitude, descendo, em nuances harmoniosas, do equador aos pólos. Se aplicarmos nossas considerações à fisiologia dos satélites, acrescentaríamos que nossa Lua é altamente favorecida, pois seu eixo de rotação está inclinado apenas de 2 graus, o verão e o inverno se confundem, lá em cima, em uma só estação uniforme e permanente, igual à duração do mês (vinte e nove dias), e não ocorrem lá outras transições senão a do dia e da noite, que duram, cada um, uma meia revolução lunar, quer dizer, perto de quinze dias. Acrescentaríamos ainda que, do ponto de vista da lentidão dos períodos em que divide-se a vida, os habitantes dos anéis de Saturno (se pudessem existir) seriam talvez mais bem favorecidos que os selenitas, pois
contariam os anos em um só dia e uma só noite, anos iguais a trinta dos nossos. Mas as conseqüências destas condições e as hipóteses que se podem levantar sobre tais elementos desconhecidos saem por demais dos limites da ciência para que possamos lhes dar lugar aqui. Ora, dizíamos que de todos os planetas, o mais favorecido sob o aspecto do regime astronômico que examinamos aqui, como sob a maioria dos que examinamos precedentemente, é o gigantesco e magnífico Júpiter, cujas estações, graduadas em nuances insensíveis, ainda têm a vantagem de durar doze vezes mais que as nossas. Este é o tipo perfeito do mundo que as aspirações humanas imaginaram ao longo dos tempos, no passado ou no futuro; esse é o mundo superior do qual a Terra jamais atingirá a perfeição longínqua. Esse gigante planetário parece colocado nos céus como um desafio aos fracos habitantes da Terra, ou, melhor diríamos, como um símbolo de esperança que deve encorajá-los nos esforços da ciência e da virtude, fazendo-lhe entrever os quadros pomposos de uma longa e fértil existência.
E bem a ele que devem ser aplicadas as palavras de Brewster: "Num planeta mais magnífico que o nosso", perguntava-se o célebre físico (1), “não poderia existir um tipo de inteligências das quais a mais fraca seria ainda superior à de Newton? Seus habitantes não se serviriam de telescópios mais penetrantes ou de microscópios mais poderosos que os nossos? Não teriam eles procedimentos de indução mais sutis, meios de análise mais fecundos e combinações mais profundas? Lá talvez não estaria resolvido o problema dos três corpos, explicado o enigma do éter luminífero, e envolvida a força transcendente do espírito nas definições, axiomas e teoremas da geometria? Esses homens desfrutam sem dúvida de um elevado poder da razão, que os conduz a uma mais sadia apreciação e a um mais perfeito conhecimento dos desígnios e das obras de Deus!
Mas sejam quais forem suas ocupações intelectuais, quem pode duvidar que eles estudam e desenvolvem as leis da matéria, que estão em ação ao seu redor, acima deles e entre eles, nos céus"? (1) More worlds than One, cap. IV.
Se bem que ignoremos se Júpiter esteja atualmente nas condições de habitação intelectual, ou se, graças à temperatura elevada que ele parece ter conservado até nossa época, ainda está no estado em que se encontrava a Terra no começo dos períodos geológicos; porém, como não há passado nem futuro para a Natureza e como nela o presente é eterno, a época é relativamente indiferente, e este mundo é ou será, em todo caso, muito superior ao que nós habitamos. Para nós, presos à bolinha terrestre por cadeias que não nos foi dado romper, vemos estender-se sucessivamente nossos dias com o tempo rápido que os consome, com os caprichosos períodos que os dividem, com as estações diversas cujo antagonismo se perpetua na desigualdade contínua do dia e da noite e na inconstância da temperatura. Quanto a condição da Terra está afastada daquela desse mundo que considerávamos inicialmente, onde os dias sucedem aos dias, os anos aos anos, segundo períodos iguais e constantes!
Mundo do qual se aproxima no mais alto grau o esplêndido Júpiter, mundo que existe certamente na multidão dos planetas que circulam em torno dos sóis do espaço, mundo onde, ao abrigo das transições de calor e de frio, de secura e de umidade, e das variações incessantes do equilíbrio da temperatura, as funções da economia viva se cumprem sem perturbação e, longe de se opor às operações do pensamento, se erigiram em protetoras da inteligência! Longe de nós o pensamento de terminar este estudo com lamentações sobre nossa pobre condição humana! Mas não seria, mesmo assim, inútil constatar aqui, por fatos irrecusáveis, que a Terra está longe de ser o melhor dos mundos possível. De todos os lados, a Natureza luta contra o homem, em lugar de ajudá-lo em seus objetivos: é muitas vezes um adversário que devemos dominar com todas as nossas forças e sobre o qual devemos estender o nosso império.
"Nosso regime" diz um filósofo contemporâneo numa obra que todos deviam conhecer (1) pode se traduzir por um único fato: que fomos obrigados a abandonar o ar livre dos campos para nos refugiar em lugares mais agradáveis. A natureza terrestre só nos dá uma
péssima hospitalidade: não somente ela não nos oferece belezas que não sejam em algum lugar prejudicadas por feiúras, mas, sem consideração por nossas necessidades, depois de se comprazer em nos acariciar por um instante, caprichosamente se dedica a excessos climáticos que não podemos suportar sem dor, e nos reduz a nos proteger de seus ataques, tentando conservar os seus benefícios. Eis que chegamos, graças à força de nosso trabalho, ao interior de casas bem construídas. Aqui, fazemos um mundo à parte, submetido às nossas leis, tão independente do exterior quanto o exigem nossas conveniências, e no qual, desafiando as intempéries, deixamos escoar à vontade dias agradáveis... Todavia, nossa habilidade não impediria que, se quiséssemos desfrutar de todo o território que nos é atribuído, precisaríamos agüentar, ao sabor da Natureza, o frio e o calor. É uma das fatalidades de nossa atual morada, e não parece que nossa força crescerá o suficiente para reprimi-lo.
A constituição fundamental da Terra não nos deixa alternativa senão escolher entre duas escravidões: a das estações, ou a da casa." (1) M. Jean Reynaud, Terre et Ciel, philosophie religieuse, pp. 55 e 59. Abarquemos, se possível, com um só olhar, a população humana que cobre a Terra, e constatemos que este globo está longe de ser conveniente para o Homem e que a esterilidade de seu planeta o força, a este rei da Terra, a empregar a maior parte de seu tempo à aquisição dos meios de subsistência. As plantas de que se alimenta devem ser semeadas, cultivadas e preparadas; os animais de que se serve para suas numerosas necessidades devem ser abrigados por ele contra a intempérie das estações; ele precisa construir casas, preparar seus alimentos, dedicar-se a cuidados assíduos e tornar-se um escravo. Só, em meio à natureza, o Homem não recebe dela o menor auxílio direto; ele utiliza dela o melhor possível suas forças cegas e, se encontra com o que viver sobre a Terra, é por um trabalho contínuo e não em virtude das boas disposições da natureza. Nós a vemos, essa mesma natureza terrestre, engolir, a cada ano, milhares de homens que vão procurar a alimentação do progresso no ultramar, sacudir e destruir num piscar de
olhos as cidades onde estabeleceram centros de civilização, dessecar os produtos da terra por um calor tórrido ou inundá-la com chuvas torrenciais e com o transbordamento dos rios, ou semear a morte sobre vastas regiões açoitando-as com as mais temíveis tempestades (1). Contemplemos essas multidões ofegantes e curvadas para a terra, fatigadas por um trabalho muitas vezes estéril, e cuja inteligência está fechada para as belas e nobres aspirações do pensamento pela implacável Necessidade! Passemos nossos olhares perscrutadores sobre a superfície do globo terrestre: em todos os lugares, o mesmo e desolador espetáculo. E se encontramos aqui e ali palácios onde o luxo rebrilha, interroguemos este luxo para saber a que preço ele foi reunido; analisemos, se possível, as fadigas que custou.... e nos mesmos palácios onde resplandece sua suntuosidade, que nossos olhares penetrem esses revestimentos de ouro, e encontraremos olhos que choram!
Saberemos então que a inteligência humana, de vastos pensares, ainda não estabeleceu o seu reinado cá embaixo, onde tudo obedece às exigências da matéria; constataremos que a imensa maioria dos homens sofre para dar a um pequeno número as comodidades da vida, continuando, essa maioria, em entristecedor infortúnio; aí reconheceremos a inferioridade manifesta do mundo em que estamos! (1) Quantos exemplos poderíamos recordar sobre as condições inospitaleiras da natureza terrestre! Para citar um só, o ciclone que devastou Bengala no mês de setembro de 1876 destruíram, em duas horas, duzentos e quinze mil seres humanos. No entanto, isto é apenas um detalhe da meteorologia terrestre. Se as reflexões acima não são suficientes, consideremos que além desta inimizade da natureza exterior, há ainda uma outra, mais temível, que nos é dirigida pelas forças interiores que regem este mundo.
A constituição geológica do globo terrestre não tem nada de reconfortante para nós, e se bem que os grandes fenômenos da natureza se cumpram ordinariamente com gradação e lentidão, por mais que as revoluções mais importantes do globo pareçam se operar com calma e periodicamente, a história está aí para mostrar que muito freqüentemente funestos cataclismos vieram lançar a perturbação sobre o cenário do mundo. Nossos campos, nossas cidades e
nossas casas podem ser levados sobre um oceano de matéria incandescente que, de um século para outro, podem se abater e engolir todo um povo em suas ígneas profundezas. As observações termológicas e metalúrgicas sobre o aumento progressivo da temperatura, à medida que se vai descendo para o centro da Terra, e os fatos geognósticos que se constatou universalmente nos dois hemisférios, estabeleceram que a crosta sólida do globo não tem mais de dez léguas de espessura (1). Um tal fato, diz Arago, nos mostra as reações incessantes exercidas contra as partes fracas do envoltório sólido de nosso planeta pelas matérias fluidas interiores. A uma dezena de léguas abaixo da superfície que habitamos, as substâncias conhecidas por sua maior resistência à fusibilidade estão em fusão, e sabemos que abaixo se estendem regiões perpetuamente atormentadas pelas reações centrais, e que este envoltório tão ligeiro do globo terrestre está constantemente em agitação pela atividade incessante das forças subterrâneas, a ponto de as revoluções interiores produzirem muitas vezes na superfície terríveis tremores de terra, e uma flutuação mais forte poderia, num dado momento, erguer o leito dos mares e, vertendo suas águas sobre nossos países, nos engoliria, ao mesmo tempo que deixaria expostos seu leito, transformado em continente.
Uma revolução geológica poderia assim, num belo dia, romper em mil pedaços esse envoltório frágil sobre o qual nos julgamos em segurança, e dispersar seus restos pelo espaço. São tais considerações que são bem próprias para atenuar em nós o sentimento de segurança sobre o qual repousamos com tanta confiança, e só temos uma razão a invocar em nosso favor: a lentidão dos movimentos geológicos. Mas mesmo que nos animemos ao pensar que esses fenômenos só ocorrem em grandes intervalos, perante os quais a duração de nossa vida é completamente insignificante, isso não impede, porém, que eles ocorram realmente e não permaneçam como eternos inimigos de nosso progresso e de nossa felicidade. Ora, depois destas reflexões, pode-se pretender ainda que este globo seja, mesmo para o homem, o melhor dos mundos possíveis, e que um grande número de outros corpos celestes não possa ser infinitamente
superior, e reunir melhor que ele as condições favoráveis ao desenvolvimento e à longa duração da existência humana? Longe de colocar nosso planeta acima dos outros astros, é de surpreender que a vida aqui tenha estabelecido residência, e deve-se afirmar que se ele é assim tão povoado, é porque a Natureza é prodigiosamente fecunda, que engendra seres mesmo onde o homem jamais ousaria imaginar. Compreende-se então que ela povoou a Terra porque está em sua essência produzir a vida em todos os lugares onde haja matéria para recebê-la, e longe de pensar que ela secou sua fonte inesgotável multiplicando assim os seres em sua superfície, encontrar-se-á na diversidade e na infinidade de suas produções uma prova eloqüente de que ela não se esgotou decorando os outros mundos com uma multidão inumerável de criaturas, pois que ela pôde produzi-las em grande número cá embaixo. (1) V. Apêndice, nota E. Sobre a constituição interior do globo terrestre.
Destarte, não somente a posição astronômica da Terra sobre a órbita que percorre, mas também as disposições normais de sua natureza e sua constituição geológica e climatológica provam-nos que ela está longe de ser o mundo mais favoravelmente estabelecido para o sustento da vida. As diferenças de idade, de posição, de massa, de densidade, de tamanho, de meio, de condição biológica etc. colocam um grande número de outros mundos num grau de habitabilidade superior ao da Terra, no imenso anfiteatro da criação sideral. Nosso estudo sobre os Céus vai conduzir-nos a esse panorama esplêndido. Mundos superiores, moradas magníficas de altas inteligências, constelam a extensão inexplorada dos longínquos espaços. É nestes mundos que a humanidade vive tranqüila e gloriosa, protegida por um céu puro e benfazejo, no seio de uma temperatura constantemente em harmonia com as funções do organismo, e desfrutando em paz das disposições amigas da natureza. Uma primavera eterna, talvez mais diversificada por encantos sempre renovados do que as nossas estações mais variadas, decora esses mundos afortunados, onde o homem fica livre de toda ocupação material, e isento das necessidades grosseiras inerentes ao
nosso organismo terrestre; onde, em lugar de mendigar seu alimento em meio aos restos de outros seres, está dotado de órgãos que o aspiram insensivelmente do meio vital; onde, em lugar de estudar penosamente a ciência do mundo, sentidos mais delicados e um entendimento mais perfeito revelam as maravilhas da criação e suas leis universais. Ali, os liames dourados do amor reúnem todos os membros da humanidade como uma imensa família, o irmão não sendo escravo do irmão, nem as rivalidades sangrentas da glória guerreira, nem as discórdias da inveja perturbam a paz eterna; — talvez o veneno da morte não circule nas veias dessas humanidades superiores, e nossa gelada morte não seja para eles senão a partida de uma alma para os familiares amados. Ali, o gênero humano chegou ao campo da Verdade: religião, ciência e filosofia dão-se as mãos. Deus também não está tão longe: é adorado sem se encerrar sob um céu de pedra; a natureza é o templo, e o Homem é o sacerdote. Ali, por fim, o homem contempla sem véu o panorama soberbo dos céus infinitos, segue com sua vista penetrante as peregrinações dos mundos, e conversa com faculdades maravilhosas com os habitantes das esferas vizinhas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.