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Capítulo 32 de 46

Apêndice — parte 2 de 9

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

três séculos. Devemos apresentar aqui resumidamente este sistema, ao qual muitos se apegaram e que pode ser visto não somente como a exposição das maiores dificuldades teológicas que se ergueram contra a Pluralidade dos Mundos, mas ainda como a síntese de todas as teorias pelas quais os teólogos adversos creram, crêem e crerão poder salvaguardar um dogma exclusivo. Tomando como tese os discursos de Chalmers, do qual combate a tendência conciliadora, ele começa declarando que acha extravagante e absurdo no mais alto grau acreditar ao mesmo tempo nas verdades da religião natural e revelada e numa multiplicidade de mundos. Chalmers tinha como objetivo responder às objeções dos adversários do cristianismo, que crêem na Pluralidade dos mundos; Whewell tem como objetivo mostrar aos cristãos que não devem nem podem admitir nossa doutrina, e para isso, procura fazer crer que a Pluralidade dos Mundos nada mais é que um mito.

"Quando nos dizem que Deus proveu e provê constantemente a existência da felicidade de todos os seres que povoam a Terra", diz ele (1), "podemos, por um esforço de pensamento e reflexão, crer que assim é. Quando nos dizem que ele impôs uma lei moral ao homem, o hóspede inteligente da Terra, e que ele o governa por um governo moral, podemos chegar à convicção de que assim é. Quando nos pedem, em seguida, para crer que o homem, tendo transgredido esta lei, a intervenção do Governador do Universo foi necessária para trazer remédio a esta transgressão e tornar a lei clara perante o homem, podemos ainda — quando sabemos que a raça humana ocupa o ápice da obra material de Deus, da qual ele é a coroação, que ela é o fim do resto da criação e o teatro escolhido para as manifestações divinas — conceber esta verdade e encontrar nela nossa satisfação.

Mas se nos dizem que este mundo nada mais é que um indivíduo entre Inumeráveis mundos que seriam todos, como ele, obra de Deus; todos, como ele, sede da vida; todos a morada de criaturas inteligentes, dotadas de vontade, submetidas a uma lei. capazes de obediência e desobediência, como nós; torna-se de imediato extravagante e inadmissível pensar que

nosso mundo tenha sido o teatro da complacência e da bondade de Deus, e mais, objeto de sua interposição especial, de suas comunicações e de sua visita pessoal. E escolher um dos milhões de globos espalhados pelo domínio imenso do espaço, e supor que esse mundo teria sido tratado de maneira especial e excepcional, sem que tenhamos outras presunções em favor de uma tal idéia senão o orgulho de que lá estamos nós. Reconheçamos que se a religião nos pede admitir que um canto do Universo foi singularizado desta maneira e que faz exceção às regras gerais que governam as outras partes do Universo, ela nos dirige a uma exigência que não pode deixar de ser rejeitada por aqueles que estudam e admiram as leis da natureza. A Terra poderia ser o centro do universo moral e religioso, quando não tem a menor distinção no universo físico? Não é igualmente absurdo sustentar uma tal afirmação quanto seria hoje sustentar a velha hipótese de Ptolomeu, que colocava a Terra no centro dos movimentos celestes?". Ai!

O Doutor Whewell não é hábil e defende mal sua religião! (1) On the Plurality of Worlds, an Essay. Londres, 1853. (Obra anônima, mas o nome do sr. Whewell nunca foi mistério para ninguém.) "Em lugar de considerar estas objeções como emitidas pelos adversários da religião", acrescenta o autor, "nós as consideraremos como dificuldades nascidas na mente dos cristãos quando contemplam a grandeza do Universo e a multidão dos mundos. Eles têm uma profunda reverência pela idéia de Deus; eles estão felizes de saber que estão sob a dependência perpétua de seu poder e de sua bondade; eles estão desejosos de reconhecer a obra de sua providência, eles recebem a lei moral como sendo sua lei, com humildade e submissão; eles vêem suas faltas contra esta lei como um pecado contra ele; e estão felizes de saber que têm um modo de reconciliação com ele quando se tornam estrangeiros, e que esse Deus está junto deles.

Mas quando a ciência vem lhes apresentar uma longa fila de grupos, uma multidão, miríades de mundos que vemos daqui, a perturbação e a tristeza se apossam de sua alma. Eles pensavam que Deus estava perto deles, mas, por meio do estudo astronômico, Deus se afasta a cada passo e

se afunda cada vez mais longe nos céus. Seu novo conhecimento da Terra os fez, talvez, estremecer, vias a piedade de sua alma nada ganhou. Pois se Vênus e Marte têm também seus habitantes, se Saturno e Júpiter, globos tão grandes em comparação com a Terra, têm população proporcional, o homem não poderia ser negligenciado e perdido de vista? Ele seria digno de ser visto pelo Criador de um tal Universo? As almas mais piedosas não poderiam, não deveriam retornar à exclamação do Salmista: "O que é o homem, Senhor, para que te lembres dele?" E esta exclamação não seria seguida, sob o novo aspecto do mundo, por um enfraquecimento na crença de que Deus se lembra de nós? "O que será se continuarmos a nos educar no conhecimento astronômico do Universo? Logo o sistema solar inteiro não será mais que um ponto, a Terra desaparecerá mais e mais, e virá o momento em que ela seria completamente aniquilada. Chegado a isto, como o homem poderá esperar receber esse cuidado especial, privilegiado, providencial e pessoal que a religião nos faz conhecer?

Esta crença extinta, o homem não se sente doravante cheio de temor, infeliz, desolado e abandonado?" Tal é a eloqüência do sr. Whewell na exposição dos fatos astronômicos que abalam o edifício religioso. Esta eloqüência é enganosa, fala totalmente em favor de nossa doutrina, e é o pior serviço que poderia prestar à sua causa. Vejamos agora como ele levanta essas pesadas dificuldades. Segundo nosso douto negador, só há um planeta no mundo suscetível de ter recebido o dom da habitação, só há um planeta que esteja nas condições desejadas para ser a morada da vida e da inteligência, e este planeta, adivinhastes sem dificuldade, é a Terra que habitamos. Poder-se-á, sem dúvida, perguntar ao senhor Whewell sobre que razão se apóia esta afirmativa, que parece totalmente gratuita; poder-se-á perguntar-lhe quais são estas condições desejadas, que pertencem a nosso globo, à exclusão de qualquer outro; o sábio doutor ficará, no fundo, muito embaraçado para nos responder. Mas como as afirmações, as considerações, os raciocínios capciosos não lhe faltam, ele tomará a Terra como ponto de comparação

absoluta; e descobrindo que os outros mundos não estão em condição idêntica, concluirá muito simplesmente que esses outros mundos são inabitáveis. Do ponto de vista do calor e da luz solares, ele considera o grau inerente a nossa morada e declara, sem outra forma de processo, que Mercúrio é muito quente para receber seres vivos, Urano e Netuno são muito frios e escuros. Do ponto de vista da densidade, Saturno sendo muito menos denso que a Terra, ele o é muito pouco para abrigar seres sólidos. Do ponto de vista das causas finais, veremos a seguir sua maneira singular de dar conta delas. Mas escutemos antes o próprio autor, em seu raciocínio mais sério, em seu exemplo fundamental. Tratando da causa dos planetas e do mais importante entre eles: "Júpiter", diz ele, só pesa trezentas e trinta e três vezes mais que a Terra, o que, em razão de seu volume, dá-lhe uma densidade que é apenas um quarto da Terra; ela é, pois, inferior à das rochas que formam a crosta terrestre, e pouco acima da água.

É quase certo que a densidade de Júpiter não é maior do que se o seu globo inteiro fosse composto de água, se se atenta sobretudo à composição que as partes interiores sofreriam sob o peso das partes superiores. Não é, pois, uma conjetura completamente arbitrária dizer que Júpiter é apenas uma esfera de água. "Há, no aspecto de Júpiter algo que confirma esta maneira de ver", acrescenta este autor. "Este astro não é exatamente esférico, mas achatado, como uma laranja: esta forma é a que assume toda massa fluida levada por um movimento de rotação em torno de seu eixo. O achatamento de Júpiter é muito mais pronunciado do que o da Terra, pois seu diâmetro equatorial está para seu diâmetro polar como 14 está para 13. Temos aqui então uma confirmação de que este globo é composto de algum fluido de uma densidade equivalente à da água.

Além deste fato, o aspecto de Júpiter nos apresenta faixas de nuvens, sombrias ou iluminadas, que correm paralelamente ao seu equador, e que mudam de lugar e de forma de vez em quando, o que fez quase todos os astrônomos considerarem que Júpiter estaria cercado de nuvens cuja direção seria determinada por correntezas

semelhantes aos nossos ventos alísios. Esta é prova evidente de que há muita água sobre Júpiter, e é confirmação de nossa conjetura de que este astro inteiro nada mais é que uma massa de água." "Por outro lado, um homem seria duas vezes e meia mais pesado em Júpiter do que sobre a Terra; seria, então esmagado por seu próprio peso. Um tal aumento da gravidade é incompatível com a constituição de grandes corpos animados; uma pequena criatura, um inseto, poderia correr, mesmo que fosse duas ou três vezes mais pesado, mas um elefante não poderia trotar com dois elefantes nas costas." Se, perante todas estas condições pertencentes a Júpiter, sua densidade, sua constituição fluídica, sua distância ao Sol, cinco vezes maior que a da Terra, se, perante este estado de coisas, pergunta-se que espécies de seres vivos podem aparecer na sua superfície, o sr. Whewell responderá que só podem ser massas cartilaginosas e glutinosas, provavelmente de pequenas dimensões, se bem que grandes monstros possam viver em um meio aquático.

"Não sei", acrescenta ele seriamente, "se os partidários da pluralidade dos mundos se contentarão com esta espécie de seres, mas eles precisam escolher entre esta criação ou nada. Pois imaginando que Júpiter só parece ser uma massa d'água, talvez com um núcleo de cinzas no seu centro, e um envoltório de nuvens ao seu redor, somos tentados a não lhe atribuir vida alguma." Talvez algum pensador, surpreendido com uma tal solução, se arriscaria a perguntar a nosso generoso teólogo para que serve o mundo de satélites que foi dado a Júpiter, e o que pensa desse magnífico cortejo de quatro luas que enriquece o céu desse vasto planeta. O teólogo responderá que as luas de Júpiter podem perfeitamente não servir para nada, e que, de resto, nossa pobre Lua não teria outras funções durante o longo período em que nosso globo estava coberto de água e povoado de monstros sáurios e de peixes cartilaginosos semelhantes aos habitantes de Júpiter. Assim raciocina o sr. Whewell, e as considerações para as quais Júpiter serviu de base são aplicadas, com variantes, segundo o mundo, aos outros

planetas do sistema. Saturno, ou não tem habitantes, ou só tem criaturas aquosas, gelatinosas, demasiado apáticas, de resto, para parecer vivas, flutuando em seus mares gelados, envoltas para sempre no lençol de seus céus úmidos... Pobres habitantes de Saturno! Mas não nos queixemos, pois o sr. Whewell nos assegura que eles não têm consciência de seu triste estado, que, se têm olhos (coisa de que muito dúvida), eles não podem ver nem o Sol, nem seu exército de satélites, nem mesmo seus resplandecentes anéis, que só se oferecem como espetáculo aos felizes habitantes da Terra. Os outros planetas são tratados superficialmente. Quanto às estrelas, em lugar de serem sóis, como o cremos, são na maioria, aglomerados de matéria luminosa difusa; assim é, por mais forte razão, com as nebulosas. Não vamos nos deter em refutações; seria preciso recomeçar nosso livro para responder a todos os argumentos gratuitos com que o autor esteou suas frases. Quando se é reduzido a tais suposições para sustentar um sistema, o pobre sistema está bem doente.

Não podemos, porém, resistir à necessidade de instruir nosso leitor sobre a maneira como o autor faz justiça a nossas crenças mais caras, a nossas crenças sobre a grandeza de Deus e sobre o esplendor de sua obra. Eis, em algumas palavras, o resumo de seu capítulo sobre o plano divino (The argument from design). O autor nos aconselha de início a não nos fiarmos na onipotência da Natureza e tampouco que ela tenha podido estabelecer, em outros mundos e com outros elementos, seres vivos constituídos diversamente daqui. Se, por exemplo, dizemos que, malgrado a sua pouca densidade comparativa, Saturno pode ser um globo sólido, servindo de lugar fixo para residência de criaturas ativas, ser-nos-á objetado que Saturno é apenas uma esfera de vapores, e se ali colocamos habitantes, agimos à maneira de poetas, de Virgílio, Tasso, Milton, Klopstock, sem outras bases mais sérias... e temos a mesma razão para encher com seres os espaços interplanetários, as caudas dos cometas etc.!

"Talvez haja pessoas que, mesmo não podendo resistir a força de nossos argumentos", acrescenta o autor (que modéstia), "só os aceitarão com ressentimento, e acreditando até agora que os planetas sejam habitados, verse-ão, com relutância, despojados desta crença, porque lhes parecerá que diminuímos a criação divina. Talvez estes sentimentos serão ainda aumentados se precisarem crer agora que poucas estrelas, para não dizer nenhuma, são o centro de sistemas habitados. Parecer-lhes-á que o campo da obra de Deus está diminuído, que sua bondade e seu governo se prendem, a partir daqui, a um objeto mesquinho: pois, em lugar de ser o senhor e governante de uma infinidade de mundos, recebendo a adoração das inteligências que povoariam esses milhões de esferas, não é mais que o autor de um pequeno mundo imperfeito.

Não negamos que hajam grandes e penosas dificuldades para o homem que crê na Pluralidade dos Mundos se despojar desta crença; não negamos que esta mudança lhe seja causa de perturbação e aversão, mas uma vez dado o passo (uma vez tomada a pílula), a religião fica satisfeita." O sr. Whewell espera, pois, que o leitor receba com candura e paciência os argumentos que seguem: "Para começar, não há nada de mais repugnante em crer que a maior parte do Universo esteja vazia de criaturas, quando sabemos, pela geologia, que a Terra esteve neste estado durante milhões de anos. O homem só está sobre a Terra por um período limitado: antes de sua aparição, este globo só foi habitado por brutos, peixes, sáurios, pássaros, todos os animais desprovidos de faculdades intelectuais. Só temos de nos familiarizar com esta consideração, e logo os outros planetas nos aparecerão sob a mesma luz. E preciso nos resignar; e de resto, não é a primeira resignação deste tipo que nos é pedida.

Antigamente, acreditava-se que o universal Ordenador dirigia as esferas por intermédio de seus anjos: cada um estava preposto à direção de uma esfera. A proporção, o número, as dimensões destas esferas constituíam ao mesmo tempo uma harmonia, não percebida por nós. Veio o dia em que estas crenças precisaram desvanecer-se. Foram

substituídas pela hipótese da pluralidade dos mundos; hoje, abandonamos esta, como abandonamos a outra". Se aqueles que estabeleceram alguma doutrina espiritualista sobre o esplendor visível dos céus não estão satisfeitos com esta maneira de proceder, não devem ser tomados a sério por causa disto; eles só provam um fato: "é a natureza religiosa do homem e a necessidade invencível de erguer sua alma para a idéia de Deus que se manifesta em cada parte do Universo. E o Universo não deixa de ter sua grandeza porque o privamos de habitantes: os maiores objetos da natureza são desprovidos de vida. As montanhas alpestres que se erguem na região das neves eternas, e as nuvens esplêndidas das mil nuances, e o oceano tumultuoso com suas montanhas em forma de ondas, e a aurora boreal, com seus misteriosos pilares de fogo, todos esses objetos inanimados são sublimes e erguem a alma para o Criador. Assim é com o belo Júpiter, com Saturno, dos anéis misteriosos".

Mas talvez ainda se objetará que os corpos celestes que mostram em sua simetria, em suas formas, em seus movimentos, em seus elementos harmônicos a prova evidente da mão divina que os moldou, devem por isso mesmo ser objeto especial do cuidado do Criador. Tais leis, tal ordem, tal beleza, implicam aparentemente em que esses astros sejam o objeto de algum nobre desígnio. — Nada disso, responderá o doutor, evitemos uma tal idéia. Temos na natureza terrestre a prova do contrário. Objetos podem ser belos e moldados pelas leis que regem as moléculas, sem servir a nenhum desígnio conhecido. Vejamos, por exemplo, essas pedras triangulares, quadradas, hexagonais, essas magníficas formas cristalinas que revestem as gemas, os minerais, as piritas, os diamantes, as esmeraldas, os topázios e a multidão das pedras preciosas onde o olho do cristalógrafo descobre uma geometria admirável. Vejamos essas espécies minerais que, como o espato calcário, apresentam centenas de formas, todas rigorosamente regulares, esses cristais de gelo, constituídos pelas mesmas leis de agregação molecular, essas formas incomparáveis que os viajantes encontraram nas regiões árticas, esses magníficos flocos de neve.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.