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Capítulo 13 de 46
Fisiologia dos Seres — parte 3 de 5
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
não sabemos nada, absolutamente nada d'Ele; melhor dizendo: nada podemos saber, porque somos a sombra, e Ele é a luz, porque nós somos o finito e Ele é o infinito. Seu esplendor ofusca nossa retina demasiado fraca; Sua maneira de ser é incognoscível para nosso pobre entendimento; as condições de Sua realidade são inacessíveis à nossa compreensão limitada, a ponto de nenhuma ciência parecer elevar-nos ao Seu conhecimento. É verdade, segundo a palavra célebre de Bacon, que pouca ciência afasta de Deus, e muita ciência, a Ele remete; mas não é verdade que uma ciência ou outra algum dia poderá nos fazer conhecer a Natureza do Ser incriado. Em uma só palavra, Ele é o Absoluto, e nós apenas somos, conhecemos e podemos conhecer relativos. É nos fortemente impedido criar uma imagem de Deus; é uma impossibilidade inerente a nossa própria natureza.
Não, não sabemos nada d'Ele; mas nós O contemplamos lá no alto, do fundo de nosso abismo, e apenas pensar em Sua eterna existência nos aterra e nos aniquila; mas nós O vemos clara e distintamente sob todas as formas dos seres, escutamos Sua voz em todas as harmonias da Natureza, e nossa lógica quer uma causa primeira e uma causa final nas obras criadas. Não quereis uma causa primeira, porque um nada anterior à criação vos pareceria incompreensível, e daí concluís a eternidade do mundo; não quereis causa final, porque a causalidade final permanece misteriosa e obscura, e conduz o homem a erros manifestos. Mas o que é que chamais e que todos nós chamamos de causas finais? Crede de boa-fé que as verdadeiras causas finais e o verdadeiro destino dos seres sejam os que alimentamos em nossos pequenos cérebros? Crede de boa-fé que o plano geral do imenso Universo possa ser conhecido por nós, pobres átomos? Ainda confundis a ordem universal dos seres com vossos sistemas de classificação?
Não imaginais que o homem e toda sua história, toda sua ciência, todo seu destino aqui, não é mais que o jogo efêmero de uma libélula esvoaçando por um instante sobre o oceano sem limite do espaço e do tempo, e que, para julgar as coisas em sua ordem verdadeira, ser-nos-ia preciso conhecer o conjunto do mundo?
Não, a verdadeira causalidade final não é a que o homem imagina; e se concebemos uma conformidade ao objetivo em toda criação, se queremos um destino dos seres na Natureza, é porque reconhecemos os traços de um plano divino na obra do mundo. Estudamos ao redor de nós formas de existência que se encadeiam e se perseguem mutuamente, vemos arranjos que se correspondem uns aos outros, reconhecemos uma solidariedade entre todos os seres, desde o mineral ao homem, assim como entre as diversas partes constituintes de cada indivíduo, a ponto que, sem o princípio das causas finais, as ciências fisiológicas não poderiam dar um passo, determinar a função de um só órgão. Se se quer que este estado de coisas seja obra da matéria, nós o concedemos, acrescentando até que toda outra criação levaria (e leva, de fato), tal como esta, o sinete da solidariedade universal; mas vemos, acima dessas forças físicas que tão inteligentemente dispuseram as coisas, a Inteligência primeira que põe em ação essas forças admiráveis.
Uma escola filosófica de nossos dias nos objeta que a conformidade ao objetivo só foi criada pela mente reflexiva, que admira assim um milagre que ela mesma criou. Dizem-nos que a Natureza é um conjunto de materiais e de forças cegas, cujas combinações variadas produzem indivíduos e espécies, mas não provam, de maneira alguma, a intervenção de uma inteligência. Repetem-nos que Deus é uma hipótese inútil, com a qual não se sabe o que fazer; que toda concepção de inteligência independente do mundo material é vazia de sentido e absurda; que "deve-se abandonar essas idéias vazias de teologia à sabedoria dos mestres-escolas, aos quais é permitido continuar esses inocentes estudos em meio aos ouvintes infantis que povoam suas salas. (1) E a sábia Escola que funda seus raciocínios sobre tais princípios não vê que está no cúmulo do ilógico! (1) Force et Matière, de Louis Büchner.
Leipzig, 1860. Dizeis e afirmais que as forças naturais inerentes à própria essência da matéria garantem a vida e a estabilidade eternas do mundo; dizeis e afirmais que esta potência de manter indefinidamente o estado atual, ou de lhe fazer
sofrer transformações sucessivas, pertencem a essas mesmas forças naturais, e que elas têm por si mesmas a virtude de perpetuar a universal criação. Por si mesmas? Ei! Que sabeis? Tentai, se vos for possível, provarnos que essa virtude está na essência da matéria e não pertence a um poder superior que, se assim o quisesse, anularia sua ação primitiva, e deixaria todas as coisas recair no caos. Provai-nos que essa matéria, da qual exaltais a tal ponto a dignidade, existe por si só, e já que nos colocais no terreno científico, não vos contenteis em afirmar gratuitamente, demonstrai, por favor, as proposições que apresentais com tanta confiança.
Mas mesmo que o que afirmais fosse verdade; mesmo que as leis que regem o mundo carregassem dentro de si as condições de sua vida e de sua eterna estabilidade; mesmo que a intervenção incessante do Autor de todas as coisas fosse supérflua, e por conseguinte não o seria — o que nós vos concederíamos na aparência, uma vez reconhecido o princípio criador —, o que isso provaria, senão que esse Criador, cuja existência tão ilogicamente negais, teve suficiente sabedoria e poder ao mesmo tempo para não se limitar servilmente a pôr eternamente a mão em sua obra? Depois de ter descoberto a grande lei da atração universal dos astros, o imortal Newton emitiu a opinião que o Eterno relojoeiro devia de vez em quando dar corda na máquina dos céus; no século seguinte, Laplace veio mostrar que o sistema do mundo não é um relógio, e que ele está em movimento perpétuo até a consumação dos séculos; ora, achamos que Deus maior em Laplace do que em Newton.
O sinete do Infinito está marcado na Natureza; agrada-nos reconhecer a mão que o imprimiu. A criação proclama tão claramente a nossos olhos a existência de um Criador infinito, que a negação desta existência nos parece o cúmulo da loucura e da cegueira. Negar a Deus porque ele foi infinitamente sábio e infinitamente poderoso! Não reconhecer a ação divina, porque ela é sublime! Semel jussit, semper paret! Na verdade, estais bem atrasados, senhores, vós que vos dizeis os filósofos do futuro. Perguntai a Sêneca, que viveu há vinte séculos atrás, e ele não teria dificuldade em dar-vos resposta!
Como pretendeis sustentar um tal sistema? Não vamos apelar aqui à consciência universal e à autoridade do testemunho, estas não são mais sanções suficientes para nós; apelamos a vossos princípios mais elementares, os mais infalíveis da lógica; apelamos simplesmente ao vosso bom senso. Como! Quando inteligências tais como Kepler, Newton, Euler, Laplace, Lagrange, só chegaram, malgrado seu poderoso gênio que os eleva cem côvados acima da humanidade, a encontrar uma expressão das leis que regem o Universo; a dar apenas uma fórmula das forças do Cosmos; quando esses ilustres matemáticos foram incapazes de imaginar por si sós uma só destas leis, de tirá-la de seu cérebro de homem, não de colocá-la em ação, mas simplesmente de inventá-la, de lhe dar uma existência abstrata e estéril, deseja-se que essas leis não proclamem a Inteligência superior que criou e pôs em ação esses poderes de que o homem pode a custo balbuciar as fórmulas! Mas este é deveras um modo de raciocinar inexplicável!
E se, infelizmente, não tivéssemos perto de nós o exemplo gritante, não se poderia acreditar que se pudesse ater a provas tão manifestas de uma Inteligência ordenadora, e não reconhecer acima dessas leis admiráveis o Ser supremo, que pensou essas leis e as impôs ao Universo. Singular raciocínio de não acreditar em Deus, malgrado a evidência, porque vós não o compreendeis! Mas o que compreendemos? Sabemos ao menos o que é um átomo de matéria? Conhecemos a natureza do pensamento? Podemos analisar a essência das forças físicas? Sabemos o que é a gravitação? Sabemos se ela existe enquanto substância, ou se aí só existe o nome de uma propriedade desconhecida inerente à matéria?... Não compreendemos nada em sua essência, ou quase nada, isso reconheceis conosco. Portanto, que absurdo (servimo-nos desta palavra insuficiente, porque queremos continuar dentro da polidez), condenar Deus à morte, não querer saber d'Ele, negar ultrajantemente Sua existência, pela razão de que nós (Nós!) não O compreendemos! (1) (1) Aqui só pudemos aflorar esta grande questão da existência científica de Deus. Esperamos ter demonstrado, aliás, em nossa obra especial Dieu dans la nature, a presença e a
ação eterna da Inteligência absoluta no Universo, e ter tirado da própria ciência a base indispensável para nossa nova filosofia. Deus existe. E não foi sem objetivo que criou as esferas habitáveis. Às provas tiradas da analogia, acrescentamos as idéias que nos inspira a razão de ser do plano divino, para colocar a seguinte pergunta: A criação dos planetas tendo um objetivo, e as considerações precedentes tendo demonstrado que a Terra não tem nenhuma preeminência notável sobre eles, e que seria absurdo pretender que eles fossem criados unicamente para ser de tempos em tempos observados por alguns de nós; como este objetivo poderia ser preenchido se não há um só ser que os habita e que os conheça? A única resposta a esta pergunta, além da afirmativa em favor de nossa doutrina, é imaginar, a exemplo de alguns teólogos mal inspirados, que o Universo sideral possa ser apenas uma massa de matéria inerte disposta por Deus segundo as leis matemáticas para sua maior glória.
A.M.D.G.!(*) e para a glorificação de seu poder pelos anjos ou eleitos que seriam os únicos a poder contemplar essas maravilhas! Maravilhas de solidão e de morte, na verdade; como se uma dança de globos de terra nos vazios infinitos pudesse ser a manifestação do poder divino, e servir melhor à sua glória que um concerto de criaturas pensantes! Mas uma tal resposta não suporta ser discutida nem por um instante. Que nosso planeta tenha sido feito para ser habitado, isso é de evidência incontestada, não somente porque os seres que o povoam estão debaixo de nossos olhos, mas ainda porque a conexão que existe entre esses seres e as regiões onde vivem leva à conclusão inevitável de que a idéia de habitação se liga imediatamente à idéia de habitabilidade. Ora, este fato é um argumento rigoroso em nosso favor: sob pena de considerar o Poder criador como ilógico consigo mesmo, como inconseqüente com sua própria maneira de agir, é preciso reconhecer que a habitabilidade dos planetas reclama imperiosamente sua habitação.
Com que objetivo teriam eles recebido anos, estações, meses e dias, e por que a vida não eclodiria na superfície desses mundos, que desfrutam, como o nosso, dos benefícios da Natureza, e que recebem, como ele, os raios
fecundantes do mesmo Sol? Por que essas neves de Marte, que derretem a cada primavera e descem para irrigar seus campos? Por que essas nuvens de Júpiter, que espalham a sombra e o frescor por suas planícies imensas? Por que essa atmosfera de Vênus, que banha seus vales e montanhas?... Os mundos esplêndidos, que vogai longe de nós nos céus! Seria possível que a fria esterilidade fosse para sempre a imutável soberana de vossos campos desolados? Seria possível que essa magnificência, que parece ser vosso apanágio, fosse dada a regiões solitárias e nuas, onde apenas os rochedos se contemplariam uns aos outros em um morno silêncio? Espetáculo assustador em sua imensa imutabilidade, e mais incompreensível que se a Morte, em fúria, vindo passar sobre a Terra, ceifasse de um só golpe a população viva que se difunde por sua superfície, envolvendo assim numa mesma ruína todos os filhos da vida, e deixando a Terra rolar pelo espaço como um cadáver numa tumba eterna. (*) Ad Maiorem Dei Gloriam, lema dos jesuítas — Para a maior glória de Deus. (Nota do Editor.)
II
A Vida
O infinito na vida. — Visão microscópica e visão telescópica. — Geografia das plantas e dos animais; difusão universal da vida. — A maior soma de vida está sempre completa. — O mundo dos infinitamente pequenos. — Seu aspecto e seu ensino: a fecundidade da Natureza é infinita. — Como a pluralidade dos mundos é superabundantemente provada pelo espetáculo da Terra. — O que somos: um duplo infinito se estende acima e abaixo de nós. — Lei de unidade e de solidariedade. — Vida universal. — Elementos constitutivos das substâncias caídas do céu: a análise dos aerólitos coroa as demonstrações e os raciocínios anteriores.
As considerações que precedem estabelecem uma dupla certeza e seriam mais que suficientes para questões ordinárias e puramente humanas; mas a Natureza não quis deixar aos homens o cuidado de explicar a obraprima da criação. O Rei dos seres lançou um véu misterioso sobre esta prova sublime de sua onipotência, e reservou levantá-lo ele mesmo, a fim de confundir o orgulho dos homens, ao mesmo tempo que aumentasse a esfera de sua inteligência. Para chegar a este fim, antes que a ciência descobrisse as maravilhas de sua fecundidade prodigiosa, a Natureza colocou na mente daqueles que estudaram a noção da pluralidade dos mundos que uma só terra habitada não conviria nem à sua dignidade, nem à sua grandeza. Depois, deixou à ciência o cuidado de desenvolver esta idéia primitiva, permitindo ao homem penetrar no santuário de seu eterno poder. Enquanto os antigos, que podiam adorar a infinidade do Criador e se prosternar perante sua glória contemplando a imensidade da Terra, a riqueza de seu paramento e a variedade de suas produções, compreendiam, porém, quão pouco digna esta Terra seria, por si só, de saciar Seu olhar, e o
quanto as maravilhas que a decoram estão abaixo da majestade divina, os modernos, por conseqüência do progresso das ciências, não deviam ficar reduzidos a encerrar essa majestade suprema num mundo onde começam a se sentir eles mesmos apertados, onde, graças a novos Pégasos, mais rápidos que os do Olimpio, as mais longas viagens não são para nós senão viagens de recreio, onde o relâmpago submetido nos permite conversar em voz baixa com nossos vizinhos, os antípodas, num mundo, enfim, que hoje rolamos entre as mãos como um brinquedo. É então que, enquanto a Terra perde seu esplendor primitivo deixando-se melhor conhecer, e recuando cada vez mais seu horizonte perante nossos olhos, o mundo sideral desenrola em gigantescas proporções sua incomensurável extensão e cresce, à medida que conhecemos melhor a exigüidade de nosso globo.
É então que, enquanto o microscópio nos ensinava que a vida transborda por todo lado em nossa morada e que a Terra é demasiado estreita para contê-la, o telescópio nos abre no céu novas regiões onde esta vida não é mais limitada como cá embaixo, onde ela se propaga em planícies férteis e verdadeiramente dignas dos obséquios da Natureza. É então que as descobertas microscópicas vêm para anunciar que o poder criador se deu ao trabalho de nos fazer conhecer a menor parte dos seres existentes, nos revelando que a vida invisível é infinitamente mais extensa sobre os continentes e nas águas que a vida aparente, e que, apenas no nosso mundo, a soma dos seres percebidos e suscetíveis de serem estudados com o auxílio de nossos sentidos não é comparável à soma dos seres que estão além dos nossos meios de percepção. A geografia das plantas e dos animais nos mostra a universal difusão da vida na superfície do globo; cada região nos abre um campo de uma nova riqueza, cada região desenrola sob nossos olhos uma nova população.
Se nos erguemos dos mais profundos vales aos cumes das mais altas montanhas, as espécies de vegetais e de animais se sucedem, definidas e revestidas de caracteres especiais, segundo as altitudes, e subindo até os últimos limites onde as funções da vida ainda podem operar. Se se dirige do
equador aos pólos, vemos a esfera da vida se estender e se diversificar desde as formas gigantescas dos trópicos até o mundo dos infinitamente pequenos, que habitam as latitudes extremas. "Perto dos pólos", diz Ehrenberg, um dos mais laboriosos naturalistas, "onde os maiores organismos não poderiam existir, reina ainda uma vida infinitamente pequena, quase invisível, mas incessante; as formas microscópicas recolhidas nos mares do pólo austral, durante as viagens de James Ross, oferecem uma riqueza toda especial de organismos que eram até então desconhecidos, e que são, muitas vezes, de uma elegância admirável; nos resíduos dos gelos derretidos que flutuam perto de 78 graus de latitude, encontrou-se mais de cinqüenta espécies de poligástricos silicosos, e coscinodiscos cujos ovários ainda verdes provam que viveram e lutaram com sucesso contra os rigores de um frio levado ao extremo; a sonda capturou, no golfo do Erebo, de 403 a 526 metros de profundidade, sessenta e oito espécies de poligástricos silicosos e de phytolitharia."
Nem a diversidade dos climas, nem a extensão das distâncias, nem a altura, nem a profundidade, puseram obstáculo à difusão dos seres vivos; eles invadiram as regiões mais ocultas, no alto, embaixo, por toda parte; cobriram a Terra com uma rede de existências. A economia do globo está disposta para isso. As plantas confiam aos ventos seus leves grãos e vão renascer a distâncias imensas; os animais emigram em tropas ou penetram individualmente regiões que parecem impenetráveis. Já observamos (1), os lagos subterrâneos, aos quais as águas de chuva parecem ser as únicas capazes de descer, alimentando não somente os infusórios e os animálculos que nascem por todo canto, mas ainda grandes espécies de peixes e aves aquáticas, como o testemunham os palmípedes da Carniole. As cavernas naturais, na aparência completamente fechadas, dão acesso às espécies vivas, as quais se multiplicam lá e propagam uma vida subterrânea especial. As geleiras dos Alpes alimentam poduromorfos. As neves polares recebem chionoea araneoides. A 4.600 metros acima do nível do mar, os Andes tropicais estão enriquecidos com belos fanerógamos. A vida é variável ao
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.