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Capítulo 24 de 46
A Humanidade no Universo — parte 5 de 11
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
os pontos do espaço! Que infinidade de vidas encerradas nos campos do espaço, sob o sopro fecundante da Força da Vida! Mas mesmo que a observação terrestre não nos induzisse a reconhecer a variedade infinita nas riquezas da Natureza, a razão nos conduziria ao mesmo resultado, reportando-nos às origens e mostrando-nos na diversidade destas origens uma prova irrecusável de sua presente diversidade. Mesmo assim, os elementos atômicos seriam os mesmos para diversos astros; mesmo assim haveria uma unidade de substância para diversos mundos ou mesmo para todos, a homogeneidade e a identidade não existiriam nas combinações que se operam em cada mundo na sua primeira idade, pois as circunstâncias e as condições diferem para cada um dos astros. Aqui, o calor solar prevaleceu sobre o calor central planetário; mais adiante, este ficou mais forte. Aqui, as forças plutônicas sobrepujaram as forças netunianas, e se tornaram soberanas do mundo; ali, a operação foi oposta.
Sobre tal astro, combinações químicas permitiram que a eletricidade, gases, vapores, entrassem em ação simultânea; sobre um outro, estas combinações não puderam se produzir ou foram substituídas por combates entre elementos de uma natureza totalmente diferente. Acolá, tais influências reinaram sem a presença de outras; em outro lugar, foram equilibradas; mais longe, anuladas. Aqui, o oxigênio e o azoto formaram, por sua mistura, um envoltório atmosférico imenso que pode estender-se por toda a superfície do globo e cobri-la; nasceram seres, organizados para viver sob esta camada permanente. Mais longe, o carbono dominou, revestido de propriedades heterogêneas; alhures, a atmosfera foi uma combinação de gases diversos, em lugar de ser uma mistura; os líquidos aquosos foram um corpo simples em lugar de ser um composto, e toda a criação, desde o mineral inerte até a inteligência, apareceu sob uma forma e seguindo um modo em harmonia com o estado do mundo. Uma última dificuldade detém talvez as concepções de nossa mente, a de conceber um tipo humano diferente do nosso. Ora, esta dificuldade se refere, unicamente, como o dissemos, ao hábito fatal que temos de não
poder observar senão os seres de nosso mundo, e se temos alguma espécie de repugnância para admitir a existência de outros tipos, isto deve ser atribuído à nossa maneira de ver, limitada e puramente terrestre. Mas se consideramos que o organismo humano é, na Terra, a soma dos organismos animais que sobem até ele pelos degraus da zoologia terrestre, admitiremos da mesma maneira que, nos mundos em que o estado fisiológico difere fundamentalmente do nosso, e onde a animalidade teve que ser construída sobre um mundo diferente, o tipo humano, que deve resumir lá como aqui as formas das raças inferiores, difere no mesmo grau do nosso organismo terrestre. Seria retirar poucos frutos do estudo da Natureza, não querer compreender que ela age necessariamente segundo os agentes e forças que estão à sua disposição, e crer obstinadamente, contra o conjunto dos testemunhos os mais positivos, que ela seguiu uma regra abstrata e arbitrária para a criação das formas físicas.
Adiantar que ela verteu todos os homens e todos os mundos num mesmo molde, é falar contra sua maneira de agir em todas as coisas e contra as próprias leis que ela se impôs para o governo de seu império. Devemos acrescentar, porém que, toda negação sendo uma afirmação contra, seria contraditório em relação aos nossos próprios princípios negar absolutamente a possibilidade de individualidades humanas semelhantes à nossa sobre outras terras; malgrado as razões precedentes, não se deve perder de vista que sendo o plano divino profundamente misterioso para nós, não podemos com sensatez basear-nos unicamente no ensinamento da Natureza aqui embaixo para emitir uma assertiva rigorosa. Deus pode ter desejado que a substância da alma fosse uma e universalmente a mesma; que ela fosse a força agregadora e a forma substancial de todos os corpos; que um só tipo fosse revestido pela humanidade pensante, e ter ordenado as coisas de tal sorte que este tipo existisse por todos os lugares, mais ou menos modificado segundo os mundos. Mas ainda uma vez, esta idéia é puramente metafísica e não tem nenhum fundamento na ciência positiva.
Eis aqui, pois, a mais sábia e rigorosa conclusão que poderíamos tirar do espetáculo do mundo, e pela qual poderíamos resumir o nosso estudo: 1 — As forças diversas que estiveram em ação na origem das coisas deram nascimento, nos mundos, a uma grande diversidade de seres, seja nos reinos inorgânicos, seja nos reinos orgânicos; II — Os seres animados foram, desde o começo, constituídos segundo formas e organismos em correlação com o estado fisiológico de cada uma das esferas habitadas; III — Os homens dos outros mundos diferem de nós, tanto em sua organização íntima quanto em seu tipo físico exterior.
II
Inferioridade do Habitante da Terra
A Pluralidade dos Mundos é uma doutrina justa na ordem moral e necessária na ordem filosófica. — A idéia de Deus e o estado da Terra. — Otimismo e pessimismo. — A Terra é um mundo inferior; ela não pode ser única. — Hierarquia harmônica dos Mundos. — Estado incompleto e inferior do nosso. — Materialidade de nosso organismo; sua influência. — Habitação da Terra reduzida ao seu valor positivo. — Questões fundamentais do Belo, do Verdadeiro e do Bem; seus caracteres absolutos. — Princípios universais, aplicáveis a todos os mundos. — Axiomas da metafísica e da moral. — Os princípios absolutos e universais constituem a unidade moral do mundo e unem todas as inteligências à Inteligência suprema.
Os estudos que acabamos de percorrer no capítulo precedente tiveram como objetivo a natureza corporal e o estado físico dos habitantes dos outros mundos; eles fizeram passar uma de cada vez sob nossos olhos as opiniões mais ou menos bem fundadas que se emitiu sobre o gênero da habitação dos planetas; eles mostraram que todos os sistemas apresentados para a colonização dos outros mundos nada têm de sólido, e que todas as teorias que se poderia imaginar só repousariam sobre suposições arbitrárias. O exame comparativo da habitação dos mundos estabeleceu que uma grande diversidade de natureza reina entre os homens dos planetas. Voltemos agora ao domínio da filosofia, e prossigamos nossos estudos do lado da ontologia: reconheceremos que a diversidade que reina no universo físico, desde os homens dos mundos inferiores até os seres mais elevados entre os habitantes das esferas superiores, encontraram uma diversidade correlativa no valor intelectual e na elevação moral das raças humanas; e se
o conhecimento desta verdade não resultar tão diretamente quanto nossas conclusões precedentes do estudo demonstrativo do universo exterior, ela derivará de verdades de consciência tão reais e tão positivas quanto as precedentes. A Pluralidade dos Mundos é uma doutrina verdadeira, pois os gênios ilustres de todas as eras e, mais que isto, as grandes vozes da Natureza, ensinaram-na e proclamaram-na. Ela é uma doutrina admirável, pois o sopro da vida que ela propaga sobre o Universo transforma a aparente solidão e povoa os espaços com os esplendores da vida. Constataremos agora que ela é uma doutrina justa na ordem moral, e necessária na ordem filosófica; pois com sua tocha se dissiparão as trevas que envolvem ainda nossa vida no tempo e além do tempo, e os mistérios de nosso destino tornar-se-ão menos impenetráveis. Abramos a discussão sem preâmbulo e sem envolver a imaginação do leitor no mel das precauções oratórias. O argumento a apresentar e a discutir aqui se resume na seguinte comparação: O estado da humanidade terrestre colocado frente à idéia de Deus.
O que é o mundo terrestre e o que é Deus? Tal é a questão, difícil sem dúvida, mas necessária, e cuja solução é de importância capital. Há aqui dois termos que, por serem incomparáveis um com o outro, não devem por isso ficar sem cotejamento; são duas grandes interrogações que nunca serão satisfeitas por sofismas ou respostas evasivas, e às quais é preciso dar uma conciliação rigorosa; são, por fim, duas entidades reais e irrecusáveis, uma finita, a outra infinita, que existem simultaneamente e por conseguinte devem se satisfazer mutuamente. Não nos engajemos aqui em discussões metafísicas sobre a existência de Deus; não empreendamos pesquisas sem solução, e não venhamos a nos perguntar se a eliminação de Deus seria um método útil para nossos estudos. A questão não está aí; já colocamos como princípio esta existência suprema; nós a temos como indiscutível, e agora devemos considerá-la logicamente como um dos pontos absolutos e necessários colocados na própria base de nossa tese.
Ora, eis aqui a proposição a resolver. De um lado, o estado do mundo terrestre é incompleto; sua humanidade está cheia de limites, fraquezas, misérias; o homem é um ser inferior, pois a instintos grosseiros une paixões cuja tendência manifesta impele-o para o Mal. De outro lado, apenas a noção da natureza de Deus implica no completo, no perfeito, no belo e no Bem. — Eis dois termos contrários em presença um do outro. A análise do estado do mundo terrestre nos torna pessimistas, ao passo que a contemplação do ideal nos torna otimistas. Trata-se de concordar a dissonância da Terra com a harmonia necessariamente perfeita da obra divina. Todo homem é pessimista perante o estado do mundo. O lobo devora eternamente o tímido cordeiro; a força-brutal prevalece sobre a fraqueza oprimida; as paixões ambiciosas dominam uns, a perversidade envenena outros. Como no tempo de Brutus, os homens virtuosos podem ser contados. — Todo homem é otimista perante a idéia de Deus.
Quando nossos pensamentos se elevam à noção do Ser Supremo, eles descobrem neste tipo desconhecido o esplendor da verdade, a revelação do poder, a sanção da justiça, e um inefável sentimento de ternura que cai do alto como uma radiação do Pai universal; e esta radiação do Sol eterno fala a nossas almas, nos ensinando que a obra divina é bela em seu conjunto e perfeita em seu objetivo. Estas duas idéias, digamos melhor, estes dois fatos — a imperfeição do mundo terrestre e a perfeição de Deus — se combateram mutuamente desde as origens da filosofia. Desde Kali e Arimã até Satã, esta oposição deu nascimento a sistemas explicativos de todo gênero. Ora a idéia da perfeição de Deus dominou a da imperfeição do homem, e fechou os olhos a seus partidários, que se dissimularam em relação ao estado real da humanidade sobre a Terra; ora a segunda dominou a primeira e conduziu seus partidários não somente a falsas idéias sobre a natureza da Divindade, mas ainda à negação do Ser Supremo (1). Esta oposição manifesta, que ninguém jamais sequer sonhou em colocar em dúvida, cada um, os filósofos e as
religiões sucessivamente procuraram explicar; um de cada vez, sábias escolas, seitas estudiosas e profundos pensadores cavaram friamente o abismo, aplicando-se, por uma severa análise, a dar conta do paradoxo; mas os homens passaram com suas crenças ou suas teorias, as obras mais destacadas do pensamento humano se apagaram no curso regressivo dos séculos, e a insuperável dificuldade permaneceu, ponto de interrogação que mão alguma pode apagar do grande livro da criação. (1) Para citar apenas um exemplo entre mil das obras, em tão grande número, que se apoiaram no estado imperfeito do mundo para negar a existência de Deus, mencionaremos aqui a famosa obra de Holbach: Le bon Sens, ou le Testament du cure Meslier. Eis um extrato do capitulo escrito sobre nosso assunto: "Desde a criação do homem, as nações sob diversas formas experimentaram sem cessar vicissitudes e calamidades aflitivas; a história nos mostra a espécie humana atormentada e desolada todo o tempo por tiranos, guerras, fomes, inundações, epidemias etc. Provações tão longas são de natureza a nos inspirar uma grande confiança nos caminhos ocultos da Divindade?
Tantos males tão constantes nos dariam uma tão afta idéia?... Há dois mil anos as boas pessoas esperam uma solução razoável destas dificuldades, e nossos doutores nos ensinam que elas só serão removidas na vida futura!" A negação de Deus é o abismo em que caiu a maioria daqueles que acreditaram poder julgar o Criador sobre o estado unicamente do mundo terrestre. Se colocamos aqui esta questão tão misteriosa, não é com a pretensão ilusória de dar a tão desejada solução, que o mundo procura em vão desde há séculos. Por mais fervoroso que seja o nosso desejo, a modéstia nos cabe melhor e nos é mais necessária aqui que em todos os outros lugares; ela é o único direito e o primeiro dever do fraco.
Mas queremos formular de maneira elevada esta questão; queremos mostrar que o estado de que ela exige explicação é atestado e confirmado em nome da consciência universal; queremos recordar que as filosofias e as religiões concordaram em reconhecê-la, e que desde o Fédon de Platão até nossos dias, as tribos reunidas de toda a humanidade ao mesmo tempo adoraram a perfeição divina e compreenderam a inferioridade de nossa grande família. Isto feito, agora gostaríamos de saber se não se apreenderia a razão deste estado de coisas interrogando a própria Natureza, essa imensa Natureza que, nos campos do espaço, ordenou "o exército dos céus" com a mesma mão que
outrora tomou a terra estéril do seio do abismo para transformá-la em cornucópia da abundância. Interroguemos pois a natureza mesma. A Natureza nos ensina que ela tudo construiu segundo leis seriais; que sua obra não é um plano de criações coeternas ou saídas do nada no mesmo instante e no mesmo estado de perfeição, mas uma sucessão de seres mais ou menos avançados, segundo sua idade e segundo seu papel; ela nos ensina que a Harmonia não é constituída por uma certa quantidade de notas em uníssono, mas por sons de graus desiguais, saídos da série das gamas ascendentes, e que os números, essas sucessões divinas da antiga Cosmogonia, foram aplicados à profusão pelo Supremo Aritmético; ela nos mostra no conjunto dos seres vivos uma gradação insensível do mais baixo ao mais alto da escala, e seu método é tão incontestavelmente reconhecido, que um dos axiomas mais invulneráveis da história natural é o que exprime a seguinte lei das transições: Natura non facit saltum; ela nos atesta, enfim, que a beleza e a grandeza do sistema geral resultam de que a Ordem nunca foi perturbada por um acaso de caprichos irregulares, que esta ordem reina sobre o desenvolvimento sucessivo das coisas, e que ela domina soberana a Série universal dos seres.
Perante este ensinamento unânime, não seria permitido tomar na mão o fio da indução, e proceder, numa medida sábia e modesta, do conhecido para o desconhecido? Não seria permitido interpretar esta palavra tão eloqüente da Natureza, e tomar nela os elementos de solução que ela encerra? Ora, coloquemo-nos em face da universalidade dos mundos. Quem nos diz que estes mundos e suas humanidades não formam, em seu conjunto, uma Série, uma Unidade hierárquica, desde os mundos em que a soma das condições felizes de habitabilidade é a menor, até aqueles em que a natureza inteira brilha no apogeu de seu esplendor e de sua glória? Quem nos diz que a grande Humanidade coletiva não é formada por uma seqüência ininterrupta de humanidades individuais residindo em todos os
degraus da escada da perfeição? — Do ponto de vista da ciência, esta é uma dedução que decorre naturalmente do espetáculo do mundo; do ponto de vista da razão, não seria possível refutar, dizendo que esta maneira de encarar o sistema geral do Universo não seja preferível à que se contentaria em considerar a criação como uma aglomeração confusa de globos povoados com seres diversos, sem harmonia, sem unidade e sem grandeza. Digamos mais. O que vê um caos na obra divina ou numa parte qualquer desta obra, aproxima-se da negação da Inteligência negadora; ao passo que aquele que vê uma unidade nas criações da Terra, este compreende a Natureza, expressão da Vontade divina.
Certamente, se, fechando os olhos para o estado do mundo, quisermos pretender que a criação não é una; se se permite afirmar que os indivíduos não pertencem a gêneros, estes gêneros a espécies, estas espécies a ordens, e, de proximidade em proximidade, a uma ordem geral; se se pensa, contra tudo e contra todos, que os seres são entidades isoladas e que não há lei universal; a lógica nos leva inevitavelmente a admitir como conseqüência: Que todas as idéias de ordem, de plano, de unidade, só existem dentro de nós mesmos; que a ciência humana, em lugar de ser aplicada à interpretação da realidade, não é mais que uma ilusão regular; e, em outros termos: Que o mundo e a Natureza são desprovidos de ordem e razão, e que só há razão e ordem no entendimento humano!
Mas se, ao contrário, e como tudo leva a crer, a ordem preside ao cosmos das inteligências e ao cosmos do corpo; se o mundo intelectual e o mundo físico formam uma unidade absoluta; se o conjunto das humanidades siderais forma uma série progressiva de seres pensantes, desde as inteligências de embaixo, mal saídas dos cueiros da matéria, às divinas potências que podem contemplar Deus em sua glória e compreender suas obras mais sublimes, tudo se explica e tudo se harmoniza; a humanidade terrestre encontra seu lugar nos graus inferiores dessa vasta hierarquia, e a unidade do plano divino é estabelecida.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.