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Capítulo 14 de 46

Fisiologia dos Seres — parte 4 de 5

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

infinito e se manifesta por todos os lugares onde estão reunidas as condições de sua existência. Nossas classificações artificiais não bastam para compreender a extensão das espécies vivas. A vida brinca com a substância e a forma, e parece desafiar todas as impossibilidades. A luz, o calor, a eletricidade, criam-lhe mil mundos, abrem mil caminhos para sua extensão. A água fervente e o gelo não são um obstáculo insuperável. Vibriões secos sobre os tetos, expostos ao sol forte do verão e cobertos de gelo no inverno, renascem após anos de morte aparente, se as condições de sua existência se encontram momentaneamente realizadas no ponto imperceptível onde jaziam. O átomo de poeira que se equilibra num raio de sol, e que um turbilhão arrebata pelos ares, é todo um pequeno mundo povoado por uma multidão de seres agentes. A vida está por todos os lugares, encontra-se do equador aos pólos, diversa, transformada, etapa por etapa.

Não há provavelmente um só lugar do globo onde ela não tenha penetrado algum dia, e detendo-nos mesmo no espetáculo atual da Terra, considerando apenas a época determinada na qual observamos, época que só representa um segundo insensível na insondável duração das eras geológicas, vemos essa maravilhosa força de vida por todos os lugares em atividade, por todos os lugares em movimento, por todos os lugares em vias de criação. Analisemos o sangue dos menores animais, e ali encontraremos animálculos; ergamo-nos nos ares e nas nuvens de poeira que muitas vezes perturbam a transparência, e encontraremos uma infinidade de infusórios poligástricos de carapaça silicosa. (1) Livro III, p. 114, nota. Malgrado as sábias e perseverantes pesquisas dos fisiólogos de hoje em dia, o antigo problema da geração espontânea não foi ainda resolvido. Mas se a heterogeneidade ainda está no berço, os trabalhos que a fizeram nascer e as discussões que ela encetou não aumentaram especialmente o campo de nossos conceitos sobre a essência e a propagação da vida. Sabemos agora o quanto é fecundo o seio dessa bela Natureza, sempre na seiva de sua virilidade sem idade, sempre no esplendor de sua força e de sua juventude.

Os mistérios íntimos da geração se desvelam, e nosso século analisa os recursos ocultos da vida embriogênica e seu funcionamento, segundo os indivíduos, segundo os sexos, segundo as famílias e segundo as espécies, e se ainda não conhecemos, começamos a conhecer, e compreendemos que há no embrião e no animal microscópico um infinito de vida, força inicial que nasce segundo o concurso de alguns elementos, e que se desenvolve segundo o impulso de sua própria essência, secundada pelas influências saídas do mundo exterior. A força da vida é uma propriedade inelutável que pertence à matéria organizada; ora, os elementos simples da matéria, ou as mônadas, passam do mundo inorgânico ao mundo orgânico, de modo que toda matéria é suscetível de ser organizada, e serve, com efeito, sucessivamente à composição dos diversos organismos, e que a força de vida é inerente à própria substância do mundo.

Segundo a idéia de Leibniz, as coisas são ordenadas de tal maneira que a maior soma de vida é sempre completa, e a qualquer instante dado o máximo das existências individuais é realizado. Darwin estabeleceu, pela demonstração da lei de Malthus tomada na sua expressão mais simples, que, desde os tempos mais recuados de nossas longínquas origens, as espécies vivas se sucederam por direito de conquista, combatendo na imensa batalha da vida, segundo a soma de sua força vital recíproca, triunfando das espécies empobrecidas e mais fracas, e estabelecendo sobre a Terra uma dominação que fosse sempre a mais completa possível. Para guardar o seu lugar sob o sol e para prolongar sua vida específica, os seres estabeleceram entre si — e continuam — uma concorrência, uma luta universal, de onde resulta a eleição natural das raças e dos indivíduos melhor adaptados às circunstâncias de tempo e lugar; o campo semeado pela natureza está, por isso, sempre rico com suas mais belas produções; a taça da vida sempre está cheia, ou melhor dizendo, ela sempre transborda, pois os seres mais perfeitos continuamente sobrepujam os seres menos perfeitos. Todavia, estes não desaparecem até que sejam impiedosamente suplantados, que as condições mutáveis do globo se

oponham à sua sobrevivência, e que eles não possam encontrar um último refúgio numa emigração para longe de seus vencedores; neste último caso, aumentam ainda a soma da vida, onde esta puder ser aumentada. Tal é o espetáculo oferecido por nosso mundo há milhões de anos, desde séculos de séculos em que as espécies vivas se sucedem numa majestosa lentidão; tal é o espetáculo que nos oferece ainda hoje esse mundo cuja fertilidade e abundância são o eterno patrimônio. Outrora, nossos pais tomavam o oução como modelo do infinitamente pequeno e como limite inferior da vida animal: o oução, esse ácaro do tamanho de um grão de areia, e que se alimenta de substâncias corrompidas. Mas depois, o microscópio veio abrir-nos as portas da vida oculta; entramos, e agora fazemos longas e interessantes viagens em países de um milímetro quadrado. Leuwenhoeck demonstrou que bilhões de infusórios descobertos na água comum pela visão microscópica formam uma massa com o volume de um grão de areia, ou de um oução.

Ehrenberg estabeleceu que a vida está difundida pela natureza com uma tal profusão que, sobre os infusórios de que acabamos de falar, vivem como parasitas infusórios ainda menores, e que estes mesmos pequenos infusórios por sua vez servem de morada a infusórios ainda menores. Eu mesmo fiquei admirado, colocando uma gotícula de água sobre um prisma de cristal no foco de um microscópio solar, que dava a esta gotícula um diâmetro aparente de doze pés, ao ver aparecer subitamente uma população imensa de animálculos de todo tamanho, população por vezes tão compacta que em toda esta extensão de doze pés seria impossível colocar a ponta de uma agulha sobre um local não ocupado. Estes efêmeros nascem para viver alguns minutos; nossas horas seriam, para eles, séculos; o infinitamente pequeno de seu volume tem suas correlações com o infinitamente pequeno de suas funções vitais e dos diversos fenômenos de sua existência.

Neste mundo novo, há um infinito, ou pelo menos um indefinido, que nossas inteligências não podem compreender em seu poder mais alto de concepção; no entanto, este é apenas o limiar de um universo microscópico; indo mais longe, observamos

numa polegada cúbica de trípoli 40 bilhões de galionelas fósseis; mais ainda, descobrimos num igual volume de substância análoga até 1 bilhão e 800 milhões de carapaças ferruginosas fósseis. Se portanto, encontramos em alguns grãos de poeira restos de seres que ali passaram suas vidas em número maior dos homens que houve e do que talvez haverá em toda a Terra, que dizer das camadas imensas de terrenos cretáceos que se estendem ao longe pelo litoral afora, com uma espessura de vários milhares de pés, e do que cada grama encerra milhares de foraminíferos? Que diríamos desses pólipos de ramificações imensas, centenas de vezes centenários, que formam ilhas inteiras do grande oceano; desses bilhões de animais e vegetais microscópicos que, sozinhos, construíram montanhas, e que exerceram uma ação mais eficaz sobre a estrutura da Terra que essas massas monstruosas de baleias e elefantes, que esses enormes troncos de figueiras e baobás? Que diríamos, sobretudo, da vida oculta nas planícies e nas florestas do mar?

"Ali", escrevia Humboldt, "sente-se com admiração que o movimento e a vida a tudo invadiram; nas profundezas que ultrapassam as mais poderosas cadeias de montanhas, cada camada de água está animada de poligástricos, ciclídeos e ofridinos. Ali pululam animálculos fosforescentes, os mammaria da ordem dos acalefos, os crustáceos, os peridínios, as nereidas, que andam em círculos, cujos inumeráveis enxames são atraídos à superfície por circunstâncias meteorológicas e transformam cada onda em espuma luminosa. A abundância desses pequenos seres vivos, a quantidade de matéria animalizada que resulta de sua rápida decomposição é tal que a água do mar se torna um verdadeiro líquido nutritivo para os animais maiores. Por certo, o mar não oferece nenhum fenômeno mais digno de ocupar a imaginação que essa profusão de formas animadas, esta infinidade de seres microscópicos, cuja organização, por ser de ordem inferior, não é menos delicada e variada." Onde encontrar, pois, um limite para a fecundidade da Natureza; como circunscrever seu poder à nossa pobre morada, quando sabemos que a vida

universal é sua eterna divisa; quando basta um raio de sol para fazer pulular animálculos vivos numa gota d'água, e para disto fazer todo um mundo; quando sabemos que uma só diatomácea pode, no intervalo de quatro dias, produzir mais de 150 bilhões de indivíduos de sua espécie? Onde encontrar as fronteiras do império da vida, quando vemos que não somente na vida mineral, onde formigam legiões de seres, não somente na vida vegetal, onde os animais passeiam sobre as folhas das plantas como os animais em nossas pradarias; mas ainda na vida animal considerada por si só: a Natureza, não contente de propagar as espécies por todo lugar onde a matéria existe, amontoa-as ainda umas por sobre as outras; forma uma vida parasita que se desenvolverá sobre a primeira, deposita ainda sobre ela novas sementes e novos germes chamados a perpetuar assim múltiplas existências sobre a própria existência —ensinando-nos assim que ela opera sobre os mundos planetários, pois que ela é a mesma para esses mundos, assim como o é para o nosso, e que aqui, ao invés de se cansar de produzir, ela propaga a existência em detrimento da própria existência?

E ao passo que ela lançou sobre a Terra uma página tão eloqüente, enquanto ela nos representa com uma tal evidência que a morte foi expulsa de seu império, e que só encontra prazer em propagar a vida por todos os lugares; enquanto, do alfa ao ômega dos tempos, sua ambição suprema é verter em torrentes as vagas da existência até os confins do mundo, julgarnos-íamos no direito de fechar os ouvidos a esse grande e imponente espetáculo? Ousaríamos pretender que as regiões afortunadas dos mundos planetários, que são como nossos campos terrestres, submetidos às mesmas leis, e como eles, sob o olhar ativo da mesma Providência, seriam mornos e inúteis desertos, praias incultas e estéreis? Que todas as maravilhas da criação estariam enfurnadas neste canto da imensidade que chamamos de Terra, e que a Natureza, tão pródiga de existência cá embaixo, teria sido por todos os outros lugares de uma avareza sem igual? Ousaríamos dizer que todos os mundos, exceto um, que o Universo inteiro, enfim, não seria outra coisa senão um amontoado de blocos inertes flutuando no espaço,

recebendo todos os benefícios da existência, e dados em apanágio do nada, cumulados de todos os dons da fecundidade e rejeitados por uma Natureza madrasta, dispostos para serem o lar da vida e votados eternamente à morte! Ousaríamos pensar que, porque estamos aqui reunidos em nosso grão de poeira, e que nossos olhos são demasiado fracos para perceber os habitantes dos outros mundos, é preciso que toda criação esteja acumulada aqui; que tantas esferas magníficas sejam imensas e profundas solidões, onde nenhum pensamento, nenhum suspiro, nenhuma aspiração da alma se erguem para o Criador dos seres; que o poder infinito, em uma palavra, tenha-se esgotado em revestir nosso pequeno globo com seu paramento! Ei! Quem, pois, dentre os pensantes, ousaria ainda lançar um insulto tão grosseiro à face radiante do Poder infinito que moldou os mundos? Na erudita obra que publicou em resposta a negações singulares do teólogo Whewell, sir David Brewster emite a este propósito as seguintes judiciosas idéias (1): (1) More worlds than One, lhe creed of the philosopher etc., cap, XII.

"Os ‘espíritos estéreis’ ou ‘almas vis’, como os chama o poeta, que podem ser levados a crer que a Terra é o único corpo habitado do Universo, não teriam nenhuma dificuldade em conceber que ela poderia igualmente ter sido privada de habitantes. E mais, se tais espíritos forem informados das deduções geológicas, devem admitir que ela esteve sem habitantes durante miríades de anos; e aqui chegamos a esta conseqüência insustentável de que, durante miríades de anos, não houve nenhuma criatura inteligente nos vastos Estados do Rei universal, e que, antes da formação das camadas protozóicas, não houve nenhuma planta e nenhum animal na infinidade do espaço! Durante este longo período de morte universal, em que a própria Natureza esteve adormecida, o Sol, com seus belos companheiros, os planetas com seus fiéis satélites, as estrelas em seus sistemas binários, o próprio sistema solar, cumpriam seus movimentos diurnos, anuais e seculares, desapercebidos, desconhecidos e sem preencher o mínimo desígnio concebível! Tochas que iluminavam coisa alguma —

fogueiras que não aqueciam nada —águas que a nada refrescavam — nuvens que propagavam a sombra sobre coisa alguma — brisas soprando sobre coisa alguma, e tudo na natureza, montanhas e vales, terras e mares, tudo existindo e servindo para nada! Em nossa opinião, uma tal condição da Terra, do sistema solar e do universo sideral seria semelhante à de nosso globo, se todos os navios comerciais e de guerra atravessassem os mares com camarotes vazios e as ferrovias estivessem em plena atividade sem passageiros e sem mercadorias — se todas as nossas máquinas continuassem a aspirar o ar e a ranger seus dentes de ferro, sem trabalho a cumprir! Uma casa sem locatários, uma cidade sem habitantes, apresentam à nossa mente a mesma idéia que um planeta sem vida e um Universo sem população. Seria igualmente difícil conjeturar por que a casa foi construída, por que a cidade foi fundada; ou por que o planeta foi formado, por que o Universo foi criado.

A dificuldade não seria menor se os planetas fossem massas informes de matéria em equilíbrio no éter, inanimados e sem movimento, como um túmulo; mas ela fica ainda maior quando vemos esferas enriquecidas da beleza inorgânica e em plena atividade física; esferas que cumprem seus movimentos próprios com uma precisão tão notável que nem seus dias nem seus anos erram um só segundo em centenas de séculos. A idéia de conceber um globo qualquer de matéria, seja um mundo gigantesco adormecido no espaço, ou um rico planeta equipado como o nosso, a idéia, dizíamos, de conceber um mundo cumprindo perfeitamente a tarefa que lhe foi designada, sem habitação em sua superfície ou sem estar num estado de preparação para recebê-la, parecenos uma dessas idéias que só podem ser acolhidas por mentes mal instruídas e mal ordenadas, por mentes sem fé e sem esperança.

Mas conceber, além do mais, um universo de mundos num tal estado, é, em nossa opinião, o sinal de um espírito morto para o sentimento e sob a influência daquele orgulho intelectual de que fala o poeta: ‘Perguntai-lhe por que os corpos celestes brilham; por que a Terra foi feita? — Foi para mim, responde o orgulho; o mar rola para me carregar; o Sol se ergue para

me iluminar; a Terra é meu escabelo, e o céu, meu pavilhão’. —Mas enganamo-nos ao pensar que o Universo estava morto. No início, ela ainda não havia nascido, essa bela crisálida terrestre, de onde a borboleta da vida deveria nascer; à ordem divina, apareceram as formas protozóicas; mais tarde, a primeira planta, o molusco elementar, o peixe, mais elevado, o quadrúpede, mais nobre ainda, apareceram sucessivamente; por fim, o homem, imagem de seu Criador e obra de sua mão, foi investido com a soberania do globo. A Terra foi pois criada para o homem, a matéria para a vida, e onde quer que vejamos outra terra, somos forçados a convir que ela foi, como a nossa, criada para a raça intelectual e imortal."

A única objeção que se poderia fazer a estas idéias tão belas em sua aplicação no estado atual do mundo, seria supor que houve um tempo em que efetivamente nada existia, e onde o Ser superior reinava só em sua glória, no seio dos vazios infinitos — e não seria o sr. Brewster a negar o ato da criação divina; mas o Universo não começou ao mesmo tempo que Deus, o efeito ao mesmo tempo que a causa, o ato ao mesmo tempo que a potência? O Ser poderia ficar inativo, por um só instante que fosse? Devemos remontar, pelo pensamento, a um princípio quase eterno (mesmo que esta expressão seja errônea em filosofia), e poderíamos proclamar que, na época recuada em que a Terra ainda não tinha saído de suas fraldas, as estrelas, cuja luz leva milhões de anos para chegar até nós, já brilhavam no seio de seus sistemas; e não estamos apresentando com isto uma proposição gratuita, pois vemos atualmente essas estrelas não como são, mas como foram há milhões de anos (1); podemos adiantar igualmente um universo sideral existindo muito antes do nascimento de nosso mundo, desdobrando seu paramento e resplandecendo nos vastos céus, naquela época sem nome em que os germes mesmos de nossas existências dormiam latentes no caos infecundo.

Durante as eras recuadas em que a Terra girava, ser sem vida, esfera de vapores, mundo informe e inacabado, estávamos bem longe dessa existência de que tanto nos orgulhamos hoje, e que cremos tão necessária. Nem nossa raça, nem os animais, nem as plantas tinham nascido: a vida não

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