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Capítulo 20 de 46

A Humanidade no Universo — parte 1 de 11

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

Variedade dos seres: unidade do todo.

Os Habitantes dos Outros Mundos

Opiniões diversas sobre os homens dos planetas. — Romances científicos. — Os habitantes da Lua. — Astros subterrâneos circulando no interior da Terra. — Lei hierárquica de Kant e de Bode sobre as humanidades. — O que se pensa de Saturno. — Porte dos habitantes de Júpiter, segundo Wolff. — Cosmogonia de Fourier. Singularidades da analogia passional. —Aspecto dos planetas para seus habitantes. — Descrição de Vênus por Bernardin de Saint-Pierre. — Viagens de Swedenborg às terras do mundo astral. — Conjeturas de Huygens sobre os homens dos planetas. — Dificuldade da questão. — Erro geral. — O antropomorfismo é nossa grave ilusão; tudo é relativo. — O infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Nada de absoluto na física. — Diversidade infinita dos Mundos e dos Seres.

Ao espetáculo grandioso do universo sideral e de suas criações sem número, vão agora se suceder considerações menos graves, que se aproximam antes dos temas de estudo ordinário do que das operações transcendentes da uranografia. Elas servirão de transição natural à parte científica que precede, e à parte filosófica que deve terminar nossa obra, ao mesmo tempo que repousarão a mente de seu estado contemplativo, e a prepararão para receber as conclusões morais de nossa doutrina.

Falaremos aqui do que se disse de todo gênero, e do que se pode dizer de mais racional sobre a Natureza, sobre o modo de vida e sobre as faculdades dos habitantes dos outros Mundos. Desde há muito os homens dos planetas são outros tantos pontos de interrogação soberbamente colocados perante a mente do filósofo e do sonhador; desde há muito eles intrigam nossas almas investigadoras, sem deixar cair entre nossas mãos a chave de sua misteriosa existência; a questão, de resto, por mais enigmática que seja, e precisamente por isto, atraiu o interesse ou a curiosidade de grande número; nosso dever é pois tratar dela aqui, e se não a resolvermos inteiramente (longe disso!), talvez nossas palavras servirão ao menos para pôr em guarda os intelectos mais flexíveis contra soluções prematuras. A ardente curiosidade desenvolvida em nossa alma pelo estudo das coisas ocultas, e esta espécie de distante simpatia que desperta em nós quando nosso pensamento se transporta às outras Terras do espaço, seriam magnificamente coroadas, com efeito, se nos fosse permitido entrar em relação com os habitantes daquelas esferas desconhecidas.

Se ao menos tivéssemos alguns direitos legítimos de esperar que, com o auxílio dos aperfeiçoamentos da óptica, pudéssemos algum dia a ver de perto esses campos povoados por outros seres, essas cidades construídas por outras mãos, essas casas abrigando outros homens que não os de nosso grupo terrestre, seria uma bem preciosa recompensa para os trabalhos dos observatórios e para os esforços dos filósofos. Mas, no estado atual de nossos conhecimentos, seria vão e pueril acalentar semelhante esperança para nosso tempo, e nossos descendentes deverão dar-se por muito contentes se os progressos da ciência lhes derem um dia o privilégio de levantar o véu tenebroso das distâncias. De tudo o que se escreveu sobre os meios possíveis de se comunicar fisicamente com os outros Mundos; de tudo o que se imaginou em astronomia especulativa sobre a natureza dos habitantes do espaço; de tudo o que se criou relativamente às humanidades planetárias, não há uma só palavra séria e científica. E isto se compreende facilmente. Quando não se

tem nenhuma base sólida sobre a qual se possa apoiar suas conjeturas; quando não se tem, para as excursões caprichosas da imaginação, senão o terreno movediço do possível, ou mesmo do verossímil, só se poderiam construir castelos de fadas, que o vento leva com a mesma facilidade com que se os constrói. Mas, afortunadamente, os autores deste tipo de teorias as apreciam ordinariamente por seu justo valor, e só as apresentam a título de romances — que só têm de científica a idéia primeira sobre a qual foram bordados. Em seu curso de astronomia professado no Observatório, Arago contava, há cerca de vinte anos, uma singular proposição de um geômetra alemão para entrar em correspondência com os habitantes da Lua. O plano deste geômetra consistia, como se recorda, em enviar às imensas estepes da Sibéria uma comissão científica encarregada de dispor sobre o terreno, segundo figuras geométricas determinadas, um certo número de espelhos metálicos refletores, recebendo a luz do Sol, e projetar a imagem do astro luminoso sobre o disco lunar.

Por pouco que os selenitas fossem inteligentes, dizia ele, reconheceriam sem dificuldade que essas figuras geométricas regulares não poderiam ser efeito do acaso, mas que deveriam ser produzidas pelos habitantes da Terra. Este primeiro passo dado, eles mesmos deliberariam sobre o meio de se certificar da existência desses habitantes, respondendo àquelas figuras, que se diversificaria, e que poderia fazer às vezes de uma língua metafórica ou ideográfica. Assim se estabeleceria entre os dois astros uma comunicação por meio da qual se conversaria sobre todas as coisas. À parte esta idéia ousada e algumas ligeiras veleidades imperdoáveis de navegação aérea, não se imaginou outro meio físico de conversar com os homens dos outros Mundos. Felizmente, para a história das pequenas utopias. Mas, em compensação, quantas conjeturas foram imaginadas sobre a população dos astros, e quantos seres foram criados em sonho sobre as Terras de nosso grupo solar, desde o ilustre Kant, que construiu, como

veremos, todo um sistema sobre um princípio arbitrário, até o pobre Hennequin, o triste comentador de Fourier; do extático Hervas e Panduro até o autor da Nova Jerusalém! Uns, atiçados pelas maravilhas da mitologia antiga ou pelos arcanos da astrologia; outros absortos por uma idéia fixa, ou encerrados num círculo de sistemas; outros ainda, levados para cá e para lá por fantasias sem fundamento e sem solidez. Que se edifique um romance lunar sobre uma idéia filosófica, como o fez no passado Cyrano de Bergerac, ou que se sirva de uma ficção deste gênero para defender uma causa justa e útil, como já se fez algumas vezes, pode ser uma obra importante, às vezes de alto valor e considerável alcance; mas que se construa uma estrutura de teorias imaginárias sobre um sonho vazio, isto só é permitido aos Asmodeus ou as Scherazades. Esses tipos de conceitos, todavia, por vezes são curiosos e dignos de um certo interesse. (1) (1) Encontrar-se-á a descrição destes romances, mais numerosos e mais variados do que se poderia julgar, em nossa obra Les Mondes imaginaires et les Mondes réels.

Há idéias científicas, entre as quais se encontra a da pluralidade dos Mundos, que oferecem um lado pitoresco mais acessível que qualquer outro à imaginação, e a partir do momento em que nos deixamos arrebatar por esta inclinação doentia ao maravilhoso, que nos leva a todos para as vagas regiões do desconhecido, já é o primeiro passo feito no caminho do erro. Citaremos algumas dessas teorias imaginárias construídas a propósito de idéias científicas; elas abrirão a história conjetural das assertivas mais ou menos audazes que se emitiu sobre os homens planetários. Eis de início um episódio das viagens de Alexandre von Humboldt. Este ilustre autor conta em seu Cosmos (tomo I) que as determinações geognósticas de Lésbio sobre a esfera terrestre, que este suponha ser oca, acarretaram concepções fantásticas por parte das mentes estranhas às ciências.

Chegou-se não somente a admitir a idéia de Lésbio como a expressão da realidade, mas ainda a povoar com seres diversos esta esfera oca, e ainda mais: fazer ali circular dois astros iluminadores: Plutão e Prosérpina — nomes bem apropriados à circunstância! Indicou-se mesmo

que no 82° grau de longitude encontrava-se uma abertura de comunicação, que podia servir aos habitantes da superfície para descer para lá. Melhor que isso, Humboldt e seu colega sir Humphry Davy foram insistente e publicamente convidados pelo capitão Symmes a empreender essa expedição e visitar o interior da Terra!... Estas idéias têm alguns pontos em comum com aquelas com que éramos assustados em nossa infância, sobre o Poço do Diabo, abertura situada nas profundezas de uma cratera extinta, pela qual se podia penetrar nos infernos. Lembramos, quanto a este assunto, a engenhosa explicação do movimento da Terra dado pelo monge de que fala Cyrano. As chamas dos vulcões nada mais seriam, segundo esta teoria, que o fogo do inferno escapando por respiros abertos através da crosta terrestre. O centro da Terra seria o foco. Ora, os danados, procurando afastar-se ao máximo deste lugar de tortura, até mesmo escapar, se possível, aglomeram-se em multidão sob a superfície da Terra ou, melhor dizendo, agarram-se à crosta sólida que forma esta superfície.

A partir daqui, semelhantes aos esquilos, que imprimem um movimento rotatório à sua gaiola móvel, subindo sem cessar por seu interior, os condenados vêem o globo fugir eternamente sob seus agarrões... Por certo, é difícil ficar sério perante tal explicação para o movimento da Terra. A estas criações romanescas, poder-se-ia acrescentar o Elixir do Diabo, do fantástico Hoffmann, como maravilhoso no qual o narrador expõe as peripécias de uma viagem subterrânea ao centro da Terra. O viajante cai um belo dia do fundo de um precipício, num abismo, abismo este que é o interior do globo terrestre. Continuando em sua queda, chega ao planeta Nazar, mundo que ocupa o centro dessas regiões interiores, e habitado somente pelas Árvores. Ele conta demoradamente os costumes, usos e condição social dos Cedros majestosos, Carvalhos ambiciosos, Mirtos elegantes... Seu exílio no primeiro satélite desta terra inferior, Martínia, habitado por macacos; depois, seu itinerário sobre os três outros satélites: Harmônica, povoado por instrumentos musicais vivos; Mezendor,

governado por Elefante X, e Kama, onde vivem homens muito semelhantes a nós, etc. É mais difícil calar-se do que falar sobre este capítulo inesgotável, e poder-se-ia, sem trabalho, manter um auditório em suspenso durante vários dias consecutivos, se este tipo de história pudesse cativar o suficiente à curiosidade sempre renovada dos ouvintes. Recordamos a propósito a aventura do famoso aeronauta Hans Pfaal, que, no relato de Edgar Poe, fez uma longa e interessante viagem às regiões lunares. Com o auxílio de um balão que reunia a leveza à solidez, e com um condensador para não faltar o ar respirável daqui até lá, subiu em dezenove dias de Roterdã à Lua; escreveu muito precisamente todas as fases de sua travessia, os fenômenos meteorológicos que teve a ocasião (raríssima) de observar à sua passagem, o aspecto sucessivo da Terra a diversas altitudes, e finalmente sua grande surpresa ao chegar aos Selenitas, liliputianos, e observando seus costumes singulares.

Isto foi possível saber pelo documento que um habitante da Lua trouxe a 30 de fevereiro do ano da graça de 1830 ao burgomestre Mynheer Superbus Van Underduck, presidente do colégio nacional dos roterdanianos... Lembremo-nos ainda do rumor propagado por uma pequena brochura, nos últimos meses de 1835, que fraudulentamente se assinou com o nome de Herschel filho e na qual se contava muito canhestramente as inépcias científicas mais grosseiras a respeito da Lua? Segundo este opúsculo, traduzido do jornal New York American, sir John Herschel, que acabava de ser enviado em missão ao Cabo da Boa Esperança para estudos astronômicos, teria observado sobre a Lua os espetáculos mais fantásticos, espetáculos tais, segundo as próprias expressões do autor anônimo, que a prosa mais hábil não poderia fazer deles uma descrição exata, e que a imaginação levada sobre as asas da poesia mal poderia encontrar alegorias brilhantes o suficiente para pintá-las! No meio dos locais mais pitorescos, viam-se sombrias cavernas de hipopótamos se erguerem no alto de imensos precipícios como fortalezas no céu, e florestas aéreas parecendo suspensas

no espaço. Brilhantes anfiteatros exibindo mil rubis ao Sol, cascatas prateadas, rendas de ouro virgem ornamentando as ricas franjas das verdes montanhas. Carneiros de chifres de marfim pastando nas planícies, cabritos brancos vindo beber nas torrentes, patos (sic) nadando nos lagos! Melhor que tudo: os homens da Lua eram grandes seres alados, de nosso tamanho, e cujas asas eram membranosas, como as dos morcegos; estes homenspássaros revoluteavam aos grupos, de colina em colina, etc., etc. Todas estas maravilhas foram vistas a 80 metros de distância! Esta mistificação fez barulho suficiente para que Arago se visse forçado a repudiá-la em nome do Instituto, na sessão de 2 de novembro de 1835. Mas ela carregava em si mesma o sinal de sua origem: entre outras impossibilidades, o autor não vira que todos os objetos, animados ou outros, que nos apareceriam sobre a Lua, seriam vistos da vertical, como o que observamos, embaixo de nós, do alto de uma alta torre ou a bordo de um balão! Malgrado o interesse do assunto, não iremos mais longe na história do romance científico.

Estas digressões se alongam um pouco em demasia, é verdade, do espírito desta obra; porém, ficaríamos surpresos talvez se disséssemos que de tudo o que se imaginou até agora sobre os habitantes dos planetas, não há nada de sério, no fundo, senão o mesmo que os contos inverossímeis já mencionados? Pode-se julgar pela exposição das próprias teorias. Começaremos por um dos primeiros filósofos, por um de nossos mais profundos pensadores. O pai da filosofia alemã, Emmanuel Kant, estabeleceu, em sua História geral da natureza, que a perfeição física e moral dos homens dos planetas aumenta conforme o afastamento dos mundos ao Sol. Esta lei é corroborada por uma outra, que está longe de ser aceitável: a matéria, diz ele, de que são formados os habitantes dos diversos planetas, animais e vegetais, deve ser de uma natureza tanto mais ligeira e mais sutil, e seu tipo de encarnação oferece vantagens tanto mais consideráveis quanto maior for a distância que separa estes habitantes e o Sol.

Segundo esta teoria, os habitantes dos planetas inferiores, de Mercúrio e de Vênus, são demasiado materiais para serem racionais, e suas faculdades intelectuais não são desenvolvidas o suficiente para que tenham a responsabilidade por seus atos; os habitantes da Terra e de Marte estão num estado intermediário entre a imperfeição e a perfeição, em luta perpétua com a Matéria, que tende aos instintos inferiores, e o Espírito, que tende ao bem, sendo tanto mais verossímil que esses dois planetas, análogos em suas condições astronômicas, ocupem a mesma posição numa região média do grupo solar; os habitantes dos planetas afastados, de Júpiter aos limites do sistema que o ilustre filósofo, antecipando as descobertas futuras, coloca além de Urano, desfrutam de um estado de perfeição e felicidade superior; os dois versos seguintes, de Haller, podem ser-lhe aplicados: Talvez os astros sejam a morada de Espíritos glorificados; Assim como aqui reina o vício, lá no alto a virtude é soberana.

Sobre os habitantes de Júpiter, Kant faz observar que as condições de existência de que este planeta está revestido seriam incompatíveis com o estado dos habitantes da Terra. "No que concerne à duração do dia", diz ele, "o lapso de dez horas que o constitui mal seria o necessário a nosso repouso e a nosso sono. Quando encontraríamos nesse globo o tempo para dedicar a nossos negócios, para nos vestir, para nos alimentar? O que seria de um indivíduo, cujos trabalhos exigiriam prosseguimento sem cessar durante um certo intervalo? Todos os seus esforços seriam impotentes para lhe fazer obter um resultado útil depois de ter trabalhado por cinco horas, ele se veria de súbito interrompido por uma noite de mesma duração. Se Júpiter, ao contrário, é habitado por seres mais perfeitos, unindo, a um organismo mais perfeito, mais força e atividade na prática da vida, é permitido augurar que suas cinco horas lhes rendem tanto ou mais que doze horas de dia à nossa humilde humanidade terrestre."

Esta maneira de considerar a correlação que existe sobre Júpiter entre as condições fisiológicas deste mundo e a natureza dos seus habitantes é sem dúvida científica, e é a única que possa adotar todo homem bom

observador. Mas não é o mesmo com a doutrina geral de Kant, doutrina de que muitos filósofos compartilharam, com algumas variantes de sistema. Entre os astrônomos, o célebre Bode emitiu a mesma opinião no seu Considerações sobre a disposição do Universo. Segundo seu princípio, a matéria de que os seres dotados de razão, os animais e as plantas são formados seria tanto mais leve, mais fina e mais sutil, suas partes seriam melhor coordenadas entre si; em uma palavra: o envoltório corporal seria tanto mais apropriado para servir a alma, quanto o planeta fosse mais afastado do astro central. Considerando, pois, o conjunto do Universo como um vasto sistema composto de sistemas múltiplos, Bode viu do centro para as extremidades uma imensa escala de perfeição nas criaturas organizadas e nos seres dotados de razão. As criaturas colocadas abaixo da escala diferem pouco da matéria bruta; as que ocupam o degrau mais alto se aproximam dos seres que ocupam a última classe na ordem sublime das inteligências puras.

Este conceito do conjunto da criação é mais sedutora que bem-fundada; o princípio sobre o qual repousa está longe de ser provado, pois não há nenhum fato da observação que indique uma tal gradação nos mundos, segundo suas distâncias respectivas ao Sol: seríamos mesmo levados a crer que o rigor das condições extremas, como o frio, a escuridão etc., estabeleceria uma gradação oposta; mas não se tem aqui nenhuma base fundamental. Há, com certeza, um plano e uma unidade na Natureza; mas vimos, em nossas discussões sobre as causas finais, que esse plano e essa unidade não são aqueles concebidos pelos homens, e que a obra da Natureza se cumpre muitas vezes por caminhos ocultos, que talvez fiquem para sempre desconhecidos de nós. De resto, a doutrina que acabamos de resumir não se baseia sobre nenhum fato da observação, e não concorda de maneira alguma com os dados astronômicos que possuímos sobre cada planeta; ela é puramente imaginária. Natureza é uma palavra que deve exprimir, para a mente do filósofo, a ação permanente da força criadora, ou, para falar mais exatamente, a ação permanente das volições divinas; mas a

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