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Capítulo 31 de 46
Apêndice — parte 1 de 9
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
Nota A
A Pluralidade dos Mundos Perante o Dogma Cristão
A doutrina da Pluralidade dos Mundos sendo uma obra filosófica, construída sobre o terreno da ciência e independente de toda forma religiosa, pensamos que seria conveniente e ao mesmo tempo necessário considerá-la como uma questão puramente científica e não provocar o turbilhão de discussões teológicas que se ergue logo que se entra na liça dos dogmatizadores. Também se pôde observar que ao longo de toda a obra abstivemo-nos, não somente de toda discussão, mas ainda de toda alusão ao mistério cristão. Não fizemos eco aos sonhadores estupefatos que perguntavam ao Homem-Deus a razão de sua vinda ao nosso pequeno planeta; não julgamos dever discutir, em nome da ciência física, o privilégio inédito com o qual teria aprazado ao Eterno gratificar a Terra; quisemos deixar aos corações dos crentes a doutrina que os consola, como às almas felizes a paz que as sustenta e vivifica.
Mas a primeira edição desta obra, malgrado a rapidez com que desapareceu, mostrou-nos que certas mentes consideraram nosso ato de prudência como uma lacuna que exigia ser cumulada. No campo dos incréus como no dos cristãos, fizeram-nos entender que era nosso dever exprimir nossa maneira de pensar sobre este assunto. Nossa própria maneira de pensar não nos parece, num tal assunto, possuir em si a autoridade suficiente para determinar e fixar a opinião alheia. Por esta razão, e por algumas outras, convém que mantenhamos aqui nossa independência. Nosso dever é, pois, expor imparcialmente o estado da questão, de apresentá-la sob seus diversos aspectos, com os elementos que a constituem e os julgamentos que foram sustentados em relação a ela, depois deixar a cada um o cuidado de decidir por si mesmo.
Eis a consideração que, não o dissimulemos, é há um tempo o argumento dos filósofos anticristãos e a dificuldade dos crentes: a Terra que habitamos não sendo mais que um átomo insignificante na universalidade dos mundos, sobre que se fundaria o privilégio com que se a gratifica de ter sido objeto especial da complacência divina, de ter recebido em sua habitação o Eterno em pessoa, que não teria desdenhado encarnar-se num pouco de poeira terrestre? Favor infinito, para algumas orgulhosas tribos humanas, que não o merecem nem o compreendem! Tal é a expressão da grande dificuldade; tal é a interrogação formidável que se ergue nas almas crentes e descrentes, quando são esclarecidas sobre a grandeza do Universo e sobre a insignificância de nosso planeta; dificuldade a que se tentou esquivar por circunlóquios, que se quis estudar por capciosos sofismas, que outros, melhores amigos da verdade, procuraram explicar perante o tribunal dos fatos científicos.
Vamos examinar estes diversos arrazoados; não vamos cortar o seu nó, como o fez outrora Alexandre, o que é uma forma ruim de terminar as coisas; procuraremos desvencilhar os fios inextricáveis que se embaraçam mutuamente e, estabelecida a exposição, cada um, julgando com conhecimento de causa, poderá deter-se na solução que satisfaça à sua mente e ao seu coração. Acabamos de apresentar o argumento fundamental que constitui a dificuldade do mistério cristão perante o ensino da ciência. A este argumento se acrescente um outro que deriva, não do mistério cristão, mas da doutrina cosmológica encerrada nos Livros sagrados, ou ensinado segundo eles pela tradição e fundamentado neles. Este novo argumento pode ser expresso como segue: A doutrina religiosa dos Livros Santos ensina a unidade da Terra, da humanidade adâmica, da família resgatada pelo sangue divino; ela nos mostra a Terra como o único local de provação para as almas, o céu como o lugar das recompensas aonde às almas vêm receber, por toda a eternidade, o lugar reservado a suas virtudes. Dogmas em contradição, ao menos aparentes, com a doutrina da pluralidade dos
mundos. — Tal é a expressão da segunda dificuldade que nossa doutrina encontra no campo dos cristãos. Distinguimos estas duas ordens de discussão, a fim de levar a maior clareza possível a este assunto por demais delicado e que muitas mentes consideram mesmo como gravíssimo; a distinção que estabelecemos aqui não existe, de fato, de maneira absoluta, pois estes dois pontos de vista se unem e se confundem na unidade religiosa; mas muitas vezes é necessário divisar estes objetos para que nossa mente possa sem dificuldade concebêlos e estudá-los separadamente. Examinaremos, pois, estas duas dificuldades. uma depois da outra. Comecemos pela primeira.
A Encarnação de Deus na Terra
O sacrifício do Calvário podia ser compreendido em sua simplicidade majestosa quando as mentes humanas só conheciam uma Terra e um céu. O homem, criatura que Deus fez a sua imagem, errou e caiu desde os primeiros dias de sua existência; Deus, cheio de uma bondade compadecida, desce ele mesmo para reerguê-lo. Eis uma crença suave e consoladora para o homem, que se pode apresentar sem muitos mistérios, e que as mentes mais simples podem aceitar e compreender. Mas não é mais assim desde que a revelação astronômica faz com que a Terra e o homens percam todo seu prestígio, ao mesmo tempo que eleva Deus a uma altura inacessível. Esta Terra privilegiada, o que disse eu? — esta Terra única estava antigamente envolvida por uma auréola resplandecente; mas eis que um dia nossos olhos se abriram, olhamo-la de frente, esta Terra cercada de glória, e súbito sua auréola brilhante se dissipou, o palácio dos homens perdeu sua riqueza aparente, afundou-se na obscuridade, e logo uma multidão de outras terras apareceram depois dele, enchendo os espaços sem
fim. A partir daí o aspecto do mundo mudou, e com ele as crenças que até então nos pareceram solidamente fundadas. Desde a época de Copérnico e de Galileu, percebera-se em toda sua profundeza as dificuldades que o nosso sistema do mundo ia suscitar contra o dogma do Verbo encarnado; e seja o que for que tenham dito certos comentadores, não se deve ver apenas um caso de ciúmes ou jesuitismo no memorável processo de Galileu. Não é a pessoa do ilustre toscano que se tinha em vista, mas os princípios de que ele se fazia defensor. Repete-se há oitenta anos, com Mallet Du Pan, que Galileu não foi perseguido como bom astrônomo, mas como mau teólogo e por ter desejado colocar o sentido das Escrituras de acordo com o novo sistema do mundo; esta é uma afirmação bem absoluta, e que teve a sua felicidade.
Não; não atribuamos esse grande acontecimento aos rancores de Maffei Barberini (Urbano VIII) que, além do mais, estimava seu velho amigo, nem ao orgulho do papel de Simplicius que parecem lhe atribuir os célebres Diálogos, nem à conspiração dos três monges: Caccini, Grassi e Firenzuola, comissários da Inquisição; não deixa de haver um pouco de tudo isto neste caso razoavelmente complicado, mas há algo mais, há uma razão mais grave, à altura da causa debatida. Esta razão grave, esta razão oculta, esta razão surda, é a que fez colocar Bacon, Copérnico, Descartes, no índex, é a que exilou Campanella e fez Giordano Bruno ser queimado vivo no campo de Flore, em Roma, pela "heresia da nova ciência do mundo". Esta razão foi a que fez encarcerar o jesuíta Fabri, porque num discurso sobre a constituição do mundo, dissera que: O movimento da terra uma vez demonstrado, a Igreja deveria desde já interpretar em sentido figurado as passagens da Escritura que lhe são contrários.
Esta razão foi a que levou Ciampoli a prevenir a condenação de Galileu, escrevendo a este (fevereiro de 1615): "Colocai grande reserva em vossas palavras, pois onde estabeleceis simplesmente algumas semelhanças entre o globo terrestre e o globo lunar, um outro exagera e diz que supondes haver homens habitando a Lua, e aquele outro começa a discutir como podem ser descendentes de Adão ou saídos da arca de Noé, junto com
muitas outras extravagâncias com as quais jamais sonhastes". Esta razão é a que, no mesmo ano da morte de Caldeu, animava o Reverendo Padre Le Cazre, reitor do colégio de Dijon, quando procurava afastar Gassendi da crença no movimento da Terra e na pluralidade dos mundos, pela seguinte carta: "Sonhas menos no que pensas ser tu mesmo do que pensará a maioria dos outros que, arrebatados por tua autoridade ou por tuas razões, persuadir-se-ão de que o globo terrestre se move entre os planetas. Concluirão de início que, se a Terra é, sem dúvida alguma, um dos planetas, como ela tem seus habitantes, é bem de acreditar que eles existam também nos outros, e que não faltem nas estrelas fixas, que são até de natureza superior, e na mesma medida em que os outros astros ultrapassam a Terra em tamanho e em perfeição. Daí se erguerão dúvidas sobre o Gênese, que diz que a Terra foi feita antes dos astros, e que estes só foram criados no quarto dia, para iluminar a terra e medir as estações e os anos.
Por conseguinte, toda economia do Verbo encarnado e a verdade evangélica serão tornadas suspeitas. "Que digo eu? Acontecerá o mesmo com toda a fé cristã, que supõe e ensina que todos os astros foram produzidos pelo Deus criador, não para habitação de outros homens ou outras criaturas, mas somente para iluminar e fecundar a Terra com sua luz. Vê, pois, como é perigoso que essas coisas sejam difundidas para o povo, sobretudo por homens que, por sua autoridade, parecem merecer crédito. Não é portanto sem razão que, desde o tempo de Copérnico, a Igreja sempre se opôs a este erro e que, ainda recentemente, não alguns cardeais, como dizes, mas o chefe supremo da Igreja, por um decreto pontifical, condenou-o em Caldeu, e mui santamente (sanctissime) proibiu que o ensinasse no futuro, de viva voz ou por escrito". Sim, nossa filosofia da pluralidade dos mundos, que se entrevia desde a era copernicana, parecia inconciliável com o dogma cristão, "ela tornava suspeita a economia do Verbo encarnado", e nenhuma voz se ergueu em seu favor, que não tenha sido imediatamente amordaçada por medida de
prudência. Depois de três séculos, esta doutrina, apoiada sobre o granito da ciência, consolidou-se, ao passo que o julgamento do tribunal de Roma enfraqueceu com a idade; os cristãos podem dizer hoje o que Fontenelle não ousava asseverar: que os habitantes dos planetas são homens; e não se é herético pelo simples fato da crença no movimento da Terra: temos amigos no Colégio de Roma que observam os continentes de Marte e que crêem na pluralidade dos mundos. Virá o tempo em que todas as mentes instruídas e independentes saberão libertar-se dos preconceitos que pesam ainda sobre nossas cabeças e confessarão, com o acento de uma convicção inabalável, a doutrina da Pluralidade dos Mundos, mas hoje, grandes dificuldades de escolas ou seitas ainda se opõem. São estes preconceitos que cabe à filosofia dissipar. É deles que se deve libertar as almas adormecidas. E não se trata de uma missão tão rude nem penosa quanto nos séculos passados, pois o progresso intelectual propagou por todo lugar sua claridade benfazeja.
No tema que nos ocupa, em particular, as razões que se objeta em nome da fé não estão mais rodeadas da mesma autoridade; a razão as discute e verifica. A dificuldade do mistério cristão foi de início assim expressa: Se se admite a pluralidade das terras habitadas e das humanidades, é preciso admitir: ou que estas humanidades ficaram fiéis à lei de Deus, e não têm necessidade da descida do Redentor, ou que pecaram como a nossa e precisaram ser resgatadas. No primeiro caso, essas humanidades impecáveis, puras e livres da matéria, estão por isso mesmo livres, em nome do dogma, da lei do trabalho, e a partir daí seu desenvolvimento parece impossível; parece que são seres sem objeto de aperfeiçoamento, sem força de atividade.
"Ademais", acrescentou-se, "não há virtudes possíveis num tal paraíso; na morada da felicidade e da paz, a idéia da misericórdia não pode ter aplicação, nem mesmo ser nomeada; a justiça não pode ser compreendida, exceto onde se é injusto; e a verdade, onde houver mentira; os atributos morais do Ser supremo não podem ser compreendidos e representados senão onde existem a desonestidade e a falsidade; seu
poder, sua sabedoria e sua bondade só podem ser representados num mundo material, governado pelas leis da matéria, no qual o homem, em sua natureza física, esteja submetido à sua ação e ao seu controle." E assim a primeira parte do dilema precitado pareceu inaceitável. No segundo caso, se estas humanidades pecaram como a nossa e tiveram de ser resgatadas, o privilégio prestigioso da Redenção perde sua grandeza, pois se encontra repetido em milhões e milhões de terras semelhantes à nossa, e cai na lei comum, faz parte da ordem geral, seu esplendor sem par é eclipsado, e com ele o brilho divino de que se rodeara. Então surgiram várias proposições explicativas, tendo como objetivo, umas e outras, levantar a dificuldade e satisfazer a um tempo a razão científica e a fé religiosa. Estas proposições são em número de quatro. Na primeira, a mais controversa, e a que pareceu a menos aceitável, supõe-se que em virtude da faculdade especial da Ubiqüidade divina, inerente à própria essência de Deus, o Verbo se encarnou ao mesmo tempo em cada um dos mundos prevaricadores.
A natureza, o modo e a duração desta Encarnação geral teriam sido fixados antecipadamente nos desígnios eternos. O Cristo teria nascido, teria sofrido e teria morrido ao mesmo tempo em todas as terras perdoadas pelo Ser ofendido e convidadas ao banquete divino. Esta hipótese parece suscitar insuperáveis dificuldades, e conta cone poucos partidários. Isto é o que fará com que não nos alonguemos mais demoradamente a seu respeito. Na segunda explicação, o Filho de Deus teria encarnado sobre todos os mundos pecadores, como se encarnou sobre a Terra, mas por um ato múltiplo, e não no mesmo instante. Teria, uma de cada vez, resgatado as humanidades culpadas, visitando-as umas depois das outras. A primeira hipótese faz Deus assemelhar-se a um príncipe que, por um decreto real, liberta de uma só vez, no dia de sua misericórdia, todos os prisioneiros aos quais sua graça foi concedida, com a diferença que os príncipes, não tendo o dom da ubiqüidade, só podem fazer executar seus decretos um de cada vez; a segunda representa Deus visitando sucessivamente as prisões de seu
Estado e pondo em liberdade os felizardos cuja vez chegou. Pode-se discutir longamente esta dupla questão, sem nunca chegar a sair da mais completa dúvida. Isto não impediu pessoas sérias (mas provavelmente desocupadas) de trabalhar longa e penosamente na solução destes mistérios. Uma terceira teoria supõe que a Terra é o único mundo onde a humanidade, por sua desobediência, incorreu na desgraça do Mestre, e procura explicar como o caráter da Majestade divina não foi obscurecido pela suposição de que Deus se tenha dignado a resgatar esta família culpada. Vamos expor como esta opinião foi sustentada pelo eminente teólogo Chalmers, seu defensor. A principal objeção do incrédulo consiste na consideração da classe ocupada pela Terra em meio à imensidão dos mundos, pela qual se torna inverossímil que Deus tenha enviado seu Filho eterno para morrer pelos habitantes de uma província insignificante, esta missão sendo um dom demasiado grande para a Terra, dom que muito provavelmente não lhe seria concedido.
Chalmers encarregou-se de responder a esta objeção. (1) Escutemo-lo: "Suponhamos", diz ele, "que entre as miríades inumeráveis dos mundos, um deles fosse visitado por uma epidemia moral que se estendesse sobre todo seu povo, levando-o a uma lei cujas sanções fossem inflexíveis e imutáveis. Não seria uma mancha sobre a pessoa de Deus se, por um ato de justa indignação, ele varresse esta ofensa para longe do Universo, se se deparasse cone ela. Não deveríamos nos surpreender menos se, entre a multidão dos outros mundos que encantam o ouvido do Altíssimo, com o hino de suas orações, com o incenso da pura adoração que sobe para seu trono, deixasse o mundo perdido perecer solitariamente na culpabilidade de sua rebelião. Mas dizei-me, ó! dizei-me se não seria um ato da mais rara ternura no caráter de Deus, se procurasse fazer retornar a si esses filhos seduzidos pelo erro. E por menos numerosos que fossem, comparados à multidão de seus adoradores, não conviria à sua compaixão infinita enviarlhes mensageiros de paz para chamá-lo e bem recebê-lo, antes que perder o
único mundo que se desviou do caminho reto? E se a justiça exige um tão grande sacrifício, dizei-me se não seria um ato sublime da Bondade divina permitir que seu próprio Filho suportasse o fardo da expiação, a fim de poder novamente olhar para esse mundo com agrado, e estender a mão do convite a todas as suas famílias?" (1) Astronomical Discourses. On the Christian revelation viewed in connection with the modern Astronomy. Discourse III: On the extent of lhe divino condescension. Assim responde o pastor Chalmers aos adversários da religião cristã que opõem a insignificância da Terra ao dom supremo da Redenção divina. resposta digna do assunto ao qual ela se aplica, que estimamos acima das outras que foram feitas à mesma objeção, mas que nos parece mais de molde a satisfazer as dificuldades que se elevariam entre as mentes cristãs do que convencer os incréus da realidade do sacrifício divino. O estilo terno do autor é de uma poderosa sedução; nossa tradução está longe de igualar a sua suavidade.
A quarta proposição conciliadora tem o objetivo de mostrar que a Encarnação divina, tendo a Terra como teatro, pode ter estendido seu poder redentora todos os mundos culpados. Como esta proposição foi emitida por sir David Brewster, o ilustre físico, em resposta à obra teológica do doutor Whewell contra a pluralidade dos mundos, será lógico expor de início as assertivas singulares ensinadas por esta obra, antes de dar a conhecer a resposta do sábio físico. Declaremos, para começar, que o Reverendo Whewell, achando impossível conciliar a doutrina da Pluralidade dos Mundos com o mistério cristão, julgou não ter nada melhor a fazer do que desnaturar o ensinamento da astronomia e construir um sistema a seu agrado para a comodidade de sua tese. Em lugar de raciocinar segundo a verdade demonstrada e colocar suas apreciações e seus julgamentos em harmonia com os fatos e as deduções lógicas que decorrem, o que teria sido modesto e conveniente, lançou uma nuvem sobre o Universo e iluminou a Terra com uma luz artificial destinada a enganar os olhos, exatamente como teria sido feito há
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