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Capítulo 42 de 46
Extratos Filosóficos — parte 3 de 3
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
Os mais sábios foram aqueles que cultivaram a terra, sem se inquietar se ela era de vidro ou de argila, e que semearam sem saber se esta semente devia morrer para produzir espigas; e infelizmente, aconteceu que estes homens, sempre ocupados em se alimentar e em alimentar os outros, foram subjugados por aqueles que, não tendo semeado nada, vieram roubar suas colheitas, esgorjar a metade dos cultivadores e mergulhar a outra metade numa servidão pouco mais ou pouco menos cruel. Esta servidão subsiste hoje na maior parte da terra, coberta com os filhos dos ladrões e filhos dos servos. Uns e outros são igualmente infelizes, e tão infelizes, que há poucos que não tenham mais de uma vez desejado a morte. Porém, de tantos seres pensantes que maldizem sua vida, não há um em cem, cada ano, ao menos em nossos climas, que tire a própria vida, muitas vezes detestada com razão e amada por instinto. Quase todos os homens gemem, alguns jovens estultos cantam seus pretensos prazeres e choram-nos em sua velhice.
Pergunta-se por que os outros animais, cuja multidão ultrapassa infinitamente a de nossa espécie, sofrem ainda mais que nós, são devorados por nós e nos devoram. Por que tantos venenos em meio a tantos frutos nutritivos? Por que esta terra é de uma ponta a outra uma cena de carnificina? Fica-se espantado com o mal físico e com o mal moral que nos assaltam por todos os lados; fala-se disto, por vezes, à mesa; pensa-se nisso até profundamente em seu gabinete; procura-se encontrar alguma razão para esse caos de sofrimento, no qual está disperso um pequeno número de divertimentos; lê-se tudo o que foi escrito por aqueles que tiveram o nome de sábios; o caso redobra com esta leitura. Só se vê charlatães que vos vendem sobre seus tripés receitas contra o cálculo, a gota c a raiva; e morrem eles mesmos dessas doenças incuráveis que pretenderam curar, e são substituídos, de era em era, por novos charlatães, envenenadores do gênero humano, envenenados eles mesmos por suas drogas. Assim é nosso pequeno globo. Ignoramos o que se passa nos outros. Extrato de Micrômegas. — Que habilidade maravilhosa foi necessária a nosso filósofo de Sírius para perceber os átomos (os homens) de que acabo
de falar! Quando Leuwenhoek e Hartsoëker viram em primeiro lugar ou acreditaram ver o grão de que somos formados, não fizeram uma tão grande descoberta assim. Que prazer sentiu Micrômegas, vendo remexer essas pequenas máquinas, examinando todos os seus volteios, seguindo-os em todos as suas operações! Como se admirou! Como colocou, com alegria, um de seus microscópios nas mãos de seu companheiro de viagem! "Eu os vejo, diziam os dois ao mesmo tempo; não vede que levam fardos, que se abaixam, que se levantam?" Falando assim, suas mãos tremiam pelo prazer de ver objetos tão novos, e pelo temor de perdê-los. O saturnino, passando de um excesso de descrença a um excesso de credulidade, julgou perceber que eles trabalhavam para sua propagação. "Ah! dizia ele, tomei a natureza pelo fato." Mas ele se enganava com as aparências, o que acontece amiúde, quer se sirva ou não do microscópio.
Micrômegas, bem melhor observador que seu anão (o saturnino), viu claramente que os átomos falavam uns com os outros, e fez observar a seu companheiro que, envergonhado por ter-se enganado sobre o assunto da geração, não quis acreditar que tais espécies pudesse ter idéias. Ele tinha o dom das línguas, tanto quanto o siriano; não ouvia esses átomos falarem, e supunha que não falavam; além do mais, como seres assim imperceptíveis teriam voz, e que teriam a dizer? Para falar, é preciso pensar, ou quase; mas se eles pensavam, teriam o equivalente de uma alma; ora, atribuir o equivalente de uma alma a essa espécie, isso lhe parecia absurdo. "Mas, disse o siriano, vistes agora mesmo que faziam amor; acreditais que se possa fazer amor sem proferir uma só palavra, ou ao menos sem se fazer entender?
Suponde, ademais, que seja mais difícil produzir um argumento que um filho? — Quanto a mim, um e outro me parecem grandes mistérios; não ouso crer, nem negar, disse o anão; não tenho opinião; é preciso examinar esses insetos, e vamos raciocinar depois. — Está muito bem dito", retomou Micrômegas; e de imediato sacou uma tesoura com a qual cortou as unhas, e com uma apara da unha de seu polegar, fez imediatamente uma trombeta falante, como um vasto funil cujo tubo pôs na orelha. A
circunferência do funil envolvia o barco e toda sua equipagem. A voz mais fraca entrava nas fibras circulares da unha; de modo que, graças à sua indústria, o filósofo lá de cima escutava perfeitamente o zumbido de nossos insetos lá embaixo. Em poucas horas ele chegou a distinguir as palavras, e por fim, a entender o francês. O anão fez o mesmo, se bem que com mais dificuldade. O estupor dos viajantes redobrava a cada instante. Escutavam percevejos falar coisas com sentido, e essa brincadeira da natureza lhes parecia inexplicável. Podeis bem imaginar como o anão c seu companheiro queimavam de impaciência para estabelecer conversa com os átomos; o anão temia que sua voz de trovão, e sobretudo a de Micrômegas, ensurdecesse os percevejos, sem ser entendida. Era preciso diminuir a sua força. Puseram na boca uma espécie de pequenos palitos de dentes, cuja ponta, muito afilada, vinha dar perto do barco. O siriano colocou o anão sobre os joelhos e o barco, com sua equipagem, sobre sua unha; falou baixo, e baixando a cabeça.
Por fim, com todas estas precauções e muitas outras ainda, começou assim seu discurso: "Insetos invisíveis que a mão onipotente do Criador houve por bem fazer nascer no abismo do infinitamente pequeno, agradeço a ele que se dignou desvelar-me os segredos que pareciam impenetráveis. Talvez ninguém se dignaria olhar-vos em minha corte; mas eu não desprezo ninguém, e ofereço-vos minha proteção". Se algum dia houve alguém tomado de surpresa, foram as pessoas que ouviram estas palavras. Não conseguiam adivinhar de onde elas partiam. O monge esmoler do navio recitou as orações de exorcismos, os marinheiros blasfemaram, e os filósofos do navio elaboraram sistemas; mas fosse qual fosse o sistema que elaborassem, jamais conseguiam adivinhar quem lhes falava. O anão de Saturno, que tinha a voz mais suave que Micrômegas, explicou-lhes em poucas palavras do se tratava aquilo. Contou-lhes a viagem de Saturno, colocou-os a par de quem era o senhor Micrômegas, e depois de se queixar por serem eles tão pequenos, perguntou se eles sempre estiveram naquele miserável estado, tão vizinho da aniquilação, e o que
faziam num globo que parecia pertencer muito mais às baleias, e se eles eram felizes, se se multiplicavam, se tinham uma alma, e outras perguntas desta natureza. Um raciocinador da tropa mais ousado que os outros, e chocado porque duvidavam de sua alma, observou o interlocutor com pínulas apoiadas sobre um quarto de círculo, interrompeu-se duas vezes, e na terceira, falou assim: "Acreditais, pois, meu senhor, porque tendes mil toesas da cabeça aos pés, que sois um.. — Mil toesas! exclamou o anão; justo céu! Como pode ele saber minha altura! Mil toesas! E ele não se enganou nem em uma polegada! Quê! Esse átomo mediu-me, ele é geômetra, ele conhece meu tamanho; e eu, que só o vejo através de um microscópio, não conheço ainda a altura dele! — Sim, eu vos medi, disse o físico, e eu mediria ainda vosso companheiro da mesma maneira." A proposta foi aceita; Sua Excelência se deitou, pois se ficasse em pé, sua cabeça ficaria demasiado acima das nuvens.
Nossos filósofos plantaram-lhe uma grande árvore num local que o doutor Swift nomearia, mas que evito chamar por seu nome, por causa de meu grande respeito pelas damas... Depois, por uma série de triângulos unidos, concluíram que o que viam era, com efeito, um rapaz de cento e vinte mil pés de rei. Então Micrômegas pronunciou estas palavras: "Vejo mais que nunca que não é preciso julgar nada por seu tamanho aparente. O Deus! que destes uma inteligência a substâncias que parecem tão desprezíveis, o infinitamente pequeno vos custa tanto quanto o infinitamente grande; e se é possível que haja seres menores que estes, podem ainda ter uma mente superior à daqueles soberbos animais que vi no Céu, de quem apenas o pé cobriria o globo onde desci". Um dos filósofos respondeu-lhe que ele podia, com toda segurança, crer que há, com efeito, seres inteligentes muito menores que o homem. Contoulhe apenas parte do que Virgílio disse de fabuloso sobre as abelhas, mas que Swammerdam descobriu e que Réaumur dissecou. Informou-o, por fim, que há animais que estão para as abelhas assim como as abelhas estão para os
homens, o que o próprio siriano era para esses animais tão grandes de que falava, e o que esses grandes animais são para outras substâncias perante as quais eles não parecem mais que átomos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.