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Capítulo 23 de 46

A Humanidade no Universo — parte 4 de 11

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

verdade da pluralidade dos Mundos, igualmente repudiamos o título de colonizador de planetas. E sustentamos que, no estado atual de nossos conhecimentos, é impossível encontrar a solução do problema. (1) (1) O estado de nossos conhecimentos fez um progresso imenso e inesperado desde a primeira edição desta obra (1862), graças à análise espectral dos planetas e ao aperfeiçoamento dos instrumentos de óptica, de um lado, e por outro lado graças às conquistas realizadas na química orgânica e na fisiologia geral. A obra que acabamos de publicar, Les Terres du Ciel tem precisamente o objetivo de estudar as condições de vida dos habitantes dos outros mundos, e se evitamos supor as formas desses seres, pelo menos procuramos saber as adaptações orgânicas que parecem as mais prováveis. (Nota de 25ª edição.) Nosso estudo fisiológico mostrou o quanto às produções da Natureza cá embaixo estão em correlação com o estado da Terra, o quanto os diversos seres que habitam este mundo estão em harmonia com os meios em que vivem, e os exemplos não deixaram de estabelecer a incontestável verdade desta proposição.

Aqui seria o lugar de acrescentar que as produções desta natureza podem variar e variam, segundo os degraus de uma escala incomensurável. A começar pelos mínimos detalhes de nosso organismo, não há um só que não tenha sua razão de ser e sua utilidade na economia viva, e até os apêndices que parecem os mais insignificantes, tudo tem seu papel no organismo individual. Alterai um elemento na física terrestre, subtraí uma força à sua mecânica, fazei em nosso mundo uma modificação qualquer em sua natureza íntima, e eis o que resultará: as condições de habitabilidade uma vez modificadas, a habitação atual dará lugar a uma outra. Atenuai sucessivamente a intensidade da luz solar até torná-la igual, por exemplo, à que é na superfície de Urano ou de Netuno, e logo em seguida nossos olhos perderão a faculdade de ver sem ofuscamento os objetos expostos à nossa iluminação atual. Aumentai, ao contrário, esta intensidade, e não veremos mais claramente em plena luz do dia.

Fazei com que o som não se propague mais no ar, e nossas gerações futuras não possuirão senão surdos-mudos, falando a linguagem dos sinais. Somos carnívoros e herbívoros ao mesmo tempo: imaginai uma transformação

lenta e progressiva em nosso regime alimentar, e uma transformação correlativa se operará em nosso mecanismo orgânico. O mundo caminha por oscilações, e seus elementos variam entre dois limites extremos em torno de uma posição média, é a lei da vida; ela é reconhecida em tudo, desde a revolução do pólo terrestre em torno do pólo da eclíptica, em 25.765 anos, até os períodos diurnos e horários da agulha imantada. Se a vida em cada globo depende da soma dos elementos especiais em cada mundo, ela varia como este mundo, entre esses limites extremos, além dos quais ela se extinguiria, e entre os quais ela sofre modificações graduais. Se a vida é inerente à própria essência da matéria, ela é suscetível de uma diversidade ainda maior que no caso precedente; pois ela aparece inevitavelmente, quaisquer que sejam as condições acidentais que sofram certos mundos ou certas regiões nos mundos. Seja como for, as modificações causadas nas condições de vida reagem sobre o organismo dos indivíduos e sobre a geração das espécies.

O raciocínio que sustentamos agora relativamente a essas modificações e à sua influência sobre nós mesmos pode ser continuado e aplicado a todos os nossos órgãos, a todos os nossos sentidos, a todos os nossos membros, a todas as partes internas e externas de nosso corpo; pode-se assegurar que estes órgãos existem tais ou quais, em nós, porque preenchem tais ou quais papéis, e inferir que são completamente outros em outros mundos, onde as mesmas funções não podem ser preenchidas, e mesmo que não existem, onde não têm nenhum papel a desempenhar. E o modo pelo qual procede a Natureza, alhures, tal como aqui; é o modo que ela seguiria, se as condições terrestres viessem a sofrer uma alteração que não fosse violenta o suficiente para destruir a habitação da Terra; é o modo que seguiu outrora para a sucessão das espécies na superfície de nosso globo durante seus períodos primitivos; e é provavelmente o modo que segue atualmente para a manutenção da vida na Terra e nos outros mundos. Para raciocinar sobre a criação na superfície dos planetas, e para emitir alguns julgamentos sobre as formas de que a vida lá pode se revestir, seria

necessário pelo menos ter um princípio absoluto como base. Com o auxílio deste princípio absoluto, poder-se-ia, dentro de certos limites, comparar e concluir. Mas que temos de absoluto, em toda a extensão de nossos conhecimentos? Diremos melhor: o que há de absoluto na física? — Nada! O Universo tem como dimensão o espaço: o que é o espaço? — O indefinido; ou melhor, para evitar qualquer sofisma, o espaço é um infinito. Ora, em termos absolutos, não há menos espaço daqui até Roma que daqui até Sírius, pois a distância daqui até Sírius não é parte maior do infinito que a distância daqui até Roma; se, tomando a Terra como ponto de partida, viajamos durante cem mil anos com a velocidade da luz rumo a um ponto qualquer do céu, chegando ao termo, não teríamos avançado, na verdade, um só passo no espaço... Sob um outro aspecto, o do tempo, consideremos a extensão absoluta da sucessão das coisas; esta extensão é a duração eterna.

Ora, cem bilhões de séculos e um segundo são dois termos equivalentes na duração eterna. O absoluto não existe na física, tudo é relativo. Se, por um fenômeno qualquer, a Terra toda, com sua população, se reduzisse progressivamente ao tamanho de uma bola de bilhar; se todos os elementos que caracterizam o corpo, o peso, a densidade, a força orgânica, o movimento, a intensidade da luz e das cores, o calórico etc., se atenuassem na mesma proporção; se o sistema do mundo sofresse uma modificação proporcional a esta diminuição do globo terrestre; em uma só palavra, se todos os objetos que nossos sentidos percebem sofressem esta diminuição mantendo entre eles as mesmas relações, ser-nos-ia impossível perceber esta imensa transformação.

Seria um mundo dos liliputianos; as altas cadeias do Himalaia e nossas montanhas dos Alpes seriam reduzidas ao tamanho de grãos de cinza; nossos bosques, nossos parques, nossas casas, nossos apartamentos seriam menos que tudo o que conhecemos atualmente, e nós estaríamos do tamanho dos animais que chamamos de microscópicos; a Terra inteira poderia caber na mão de um homem do nosso tamanho atual; tudo seria transformado; e definitivamente, nada teria mudado para nós; nosso tamanho seria sempre de seis pés (nosso metro continuaria a ser a

décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre), nossas cidades e nossos campos, nossos portos e nossos navios conservariam as mesmas relações entre si, os objetos se apresentariam a nossos olhos sob o mesmo ângulo em que se apresentam atualmente, e todas as proporções continuariam as mesmas, e por mais maravilhosa que fosse, a metamorfose passaria desapercebida. Se se considera estas idéias muito ousadas, responderemos que, por um lado, são uma verdade matemática, e por outro desfrutam de uma notoriedade muito antiga em filosofia. Seria irrazoável, em nossa opinião, afirmar que elas sejam a expressão de realidades existindo em qualquer lugar do espaço: não é provável que a natureza tenha gerado esses mundos do tamanho de átomos; mas por vezes é útil apresentar exemplos exagerados para combater opiniões fundamentalmente errôneas. Muitos escritores, e dos mais renomados, não contentes em formular simplesmente estas idéias, consideraram-nas como representando um estado de coisas vigente na criação. Citaremos aqui Jean Bernouilli e Leibniz; eis o que o primeiro escrevia ao segundo numa dissertação sobre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande na vida.

"Imaginai que um grãozinho de pimenta, no qual se percebe, por meio do microscópio, milhões de animálculos, tenha suas partes proporcionais em tudo às partes de nosso mundo, quer dizer seu Sol, suas estrelas fixas, seus planetas com os satélites, sua Terra, com suas montanhas, seus campos, suas florestas, seus rochedos, seus rios, seus lagos, seus mares e seus diversos animais; julgais que os habitantes desse grãozinho de pimenta, esses piperícolas, que perceberiam todos os objetos sob o mesmo ângulo visual, e, em conseqüência, com o mesmo tamanho que vemos os nossos, não conseguiriam imaginar que fora de seu grão não existe nada, pelo mesmo direito com que pensamos que nosso mundo encerra todas as coisas? Pois que razão, ou que experiência teriam eles que os persuadiria do contrário, e que fizesse conhecer a esses pequeninos animais que existe um outro mundo incomparavelmente maior que o deles, com habitantes

incomparavelmente maiores que os deles? Ora, creio que possa existir na natureza animais que sejam, em tamanho, também superiores a nós e a nossos animais ordinários, como nós e nossos animais somos superiores aos animálculos. Vou ainda mais longe, e digo que podem existir animais incomparavelmente maiores que estes; e coloco outros tantos degraus subindo quantos encontrei ao descer, pois não vejo por que nós e nossos animais deveríamos constituir o degrau mais elevado." — "Quanto a mim", respondia-lhe Leibniz, "não receio asseverar que haja no Universo animais que estejam, em tamanho, tanto acima dos nossos quanto os nossos estão acima dos animálculos que se descobrem só com o auxílio de um microscópio; pois a natureza não conhece ponto final. Reciprocamente pode acontecer, e mesmo deve acontecer, que haja nos pequenos grãos de poeira, nos menores átomos, mundos que não sejam inferiores ao nosso em beleza e em variedade." (1) (1) Commercium philosophicum J. Bernouilli et C. Leibnitzii. Lausanne, 1745. Estas assertivas podem parecer singulares; o positivismo de nosso século nos manteve em guarda contra elas.

Poucos filósofos as aceitam hoje em dia; todavia, em princípio, elas são cientificamente admissíveis, pois as deduções a que elas nos levam repousam sobre fatos incontestáveis de micrografia e de análise. Digamos mais, afirmemos tudo, e não receemos colocar como princípio a relatividade essencial das coisas. Por que não dizê-lo? A ciência humana toda, do alfa ao ômega de nossos conhecimentos, é apenas o estudo das relações. Não há um só ponto absoluto no edifício de nossas ciências, por mais maravilhoso que isto possa parecer. A mente humana procura conhecer relações; eis tudo o que pode ousar; cada um de seus conceitos se encontra no meio de uma linha que se perde no alto e embaixo, no infinitamente grande e no infinitamente pequeno: é na medida do infinito que reside toda ciência, e é a comparação das coisas a uma unidade arbitrária tomada como base que resulta o valor de nossos conhecimentos. A física do Universo, sob a correlação de forças que sem cessar

transformam sua ação através da substância, não poderia nos fornecer um só elemento em repouso que pudéssemos tomar como ponto de partida absoluto em nossas pesquisas sobre a natureza. O que dissemos no tocante ao tamanho relativo dos corpos, devemos dizê-lo sobre seu peso, da intensidade da luz e do calor, dos fenômenos diversos do mundo, da duração dos seres e de todos os elementos que constituem o Universo. Em Netuno, supondo que a duração média da vida do homem conta o mesmo número de anos netunianos que a duração média de nossa vida conta de anos terrestres, uma criança ainda estaria com uma babá (se existem babás por lá) à idade de quatrocentos e vinte e dois anos, e se os costumes fossem relativamente os mesmos lá como aqui, um jovem se casaria habitualmente aos três mil novecentos e cinqüenta anos.

Se se pensa que as coisas provavelmente não se passam desta maneira em Netuno, por causa da distância deste planeta ao nosso pequeno sol, que não lhe envia o suficiente a luz e o calor geradores, não insistiremos; mas rogamos ao leitor que suponha um instante junto conosco que existe no espaço um sol mil vezes superior ao nosso e um sistema solar disposto como o nosso, mas trinta vezes maior, e imagine ao mesmo tempo que um mundo, situado à distância que Netuno se encontra de nosso sol e movido com semelhante movimento anual, receba o mesmo calor e a mesma luz que a nossa Terra recebe do Sol, e que sobre este mundo as coisas se passem relativamente como aqui; o que dizíamos acima de Netuno seria aplicável e entraria na ordem normal. A força é tão poderosa, a matéria é tão dócil que a diversidade na intensidade, na relação e na combinação de forças em ação sobre os diversos mundos não deixou de estabelecer uma diversidade nada menor no estado orgânico dos seres.

Quando se está convencido que este estado nada mais é que a resultante de todas as forças que concorreram para a manifestação da vida, admite-se sem dificuldade que um infinito de estados diversos é possível. Se tomamos um astro em particular, por exemplo Júpiter, os elementos deste globo, a brevidade de seus dias e noites, a

rapidez de seu movimento, a intensidade de sua gravidade, o grau de luz e de calor que recebe do Sol, o concurso, enfim, de todas as condições nas quais este mundo está colocado, esta reunião de elementos tão essencialmente distintos dos elementos terrestres constituiu em sua superfície uma ordem de existências incompatível com aquele ao qual pertencemos na Terra. Desde o primeiro elo da cadeia dos seres, a ação da Natureza foi diferente de sua ação nos primeiros dias de nosso globo. Vegetais, animais, reino orgânico são submetidos, como a matéria inanimada, à mecânica e à física dos globos, que regem como soberanas as funções e regulam com autoridade a disposição dos órgãos. É por elas que todo modo de vida está organizado, é delas que o ser recebe sua forma e sua lei de existência. Portanto, os habitantes de Júpiter, e portanto, os de todos os mundos, diferem de nós. O número e o grau virtual de nossos sentidos não dependem, eles mesmos, do mundo ao qual pertencemos?

O órgão da vista não está constituído segundo a intensidade da lua; o da audição segundo as ondulações do som no meio atmosférico; o odor e o paladar segundo os princípios olfativos e o modo de manutenção do sistema corporal? Não resulta que estes órgãos pelos quais ficamos em comunicação com o mundo exterior derivam do próprio estado do mundo? O que caracteriza a física de cada um dos mundos é, pois, de uma grande variedade, uma grande diversidade de natureza, quer em sua astronomia, quer em sua cosmogonia e em suas conseqüências, quer em sua geologia, quer, enfim, em todos os elementos específicos que os distinguem. Sem sair dos limites rigorosos traçados pelo ensinamento da Natureza, deve-se pensar que em geral os habitantes dos outros mundos diferem essencialmente e em todas as coisas dos habitantes da Terra; e este conceito amplo e indefinido deve se aproximar mais da verdade que todo sistema construído estreitamente sobre conjeturas. Quem poderá nos descrever a natureza desses planetas iluminados por vários sóis, dos quais cada um tem

o seu brilho, sua cor, sua intensidade, seu tamanho e seus movimentos próprios? Quem nos dará as características desses mundos obscuros em torno dos quais irradiam mundos luminosos de intensidades diferentes, mundos que traçam novamente em certos pontos do espaço uma imagem do falso sistema que antigamente foi inventado para a Terra? Quem nos dará a conhecer a climatologia e a biologia desses astros variáveis, que resplandecem e empalidecem sucessivamente, e as das estrelas que se acendem e se apagam alternadamente; em que condições de habitabilidade se encontram os planetas que lhes pertencem? E qual seria a uranologia dessa imensa multidão de criações astrais cuja existência ainda não pudemos adivinhar, porque nossos olhares só podem perceber as regiões luminosas mais próximas de nossa Terra? Bem temerário seria aquele que pretendesse designar um termo para as operações da Natureza, e bem abusado seria aquele que cresse ver no céu a imagem da Terra!

A analogia, este método seguro e fecundo, tem seus limites como todas as regras, limites além dos quais ela se torna inaplicável; é preciosa para nossa doutrina, pois lhe devemos argumentos rigorosos; mas não nos conduziria ao conhecimento dos caracteres particulares inerentes a cada um dos mundos do espaço. Mostramos nesta obra, no Livro da Fisiologia dos Seres, que variedade prodigiosa se manifesta nas produções da Terra; mostramos que todo ser nasce harmoniosamente organizado, segundo as condições de vida reunidas em torno de seu berço, e que, após o nascimento mesmo, no curso da vida, a ação dos meios influi poderosamente no organismo e modifica lentamente o estado primitivo original. É o ensinamento da natureza terrestre, da Terra, átomo infinitamente pequeno na universalidade dos mundos. Ora, se a Terra é tão rica em sua exigüidade, se a variedade de suas produções é tal que não existem duas folhas semelhantes, dois homens idênticos, qual não deve ser a opulência dos vastos céus e seus mosaicos de estrelas! Qual não deve ser o número de espécies que um poder tão maravilhoso multiplicou em todos

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.