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Capítulo 16 de 46
III — parte 1 de 2
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
A Habitabilidade da Terra
Condição astronômica da Terra. — As estações em nosso mundo e nos outros planetas, sua influência sobre a economia do globo e sobre os organismos vivos. — Valor e oscilações da obliqüidade da eclíptica. — Da excentricidade das órbitas planetárias. — Sobre a suposição de uma primavera perpétua, de uma superioridade do estado primitivo da Terra e de uma melhoria para as eras futuras. — Condição inferior de nosso mundo; antagonismo da natureza; desacordo entre o estado físico do mundo e as conveniências do homem; dificuldades da vida humana. — Constituição fluídica interior; ligeireza do envoltório sólido sobre o qual residimos; seu estado de instabilidade, seus movimentos parciais e as revoluções do globo. — Mundos superiores. — Comparações e conclusão.
Completemos estes estudos fisiológicos por considerações tiradas da habitabilidade intrínseca de nosso globo. Não somente a Natureza colocou em nossa mente a idéia da pluralidade dos mundos; não somente ela nos confirma nesta idéia nos ensinando que a Terra não é favorecida entre os outros planetas, que ela constrói habitáveis como o nosso, e que, ademais, está em sua essência propagar a vida por todos os lugares, e, em suas leis, não fazer nenhum privilégio arbitrário; ela ainda quis satisfazer totalmente nossa certeza e remover uns depois dos outros todos os argumentos de nossos antagonistas, demonstrando-nos
inclusive que, para a existência humana, a Terra não é o melhor dos mundos possíveis. Dizemos: mesmo para a existência humana, pois supondo que nosso tipo geral de organismo seja reproduzido em outros mundos, reconheçamos que mesmo para este tipo há mundos preferíveis ao nosso. Não pensemos por isso que esta existência deva ser tomada como base absoluta de uma comparação geral, longe disso; mas nós o fazemos aqui para dar um ponto de partida a nossas opiniões, e para responder com uma argumentação àqueles que, fundando-se em nosso organismo, pretendem que nossa Terra é o melhor dos mundos, e mesmo o único. Na verdade, a natureza dos habitantes da Terra não é o modelo sobre o qual são construídas as humanidades estrangeiras e isto seria, como veremos (1), cair num grande erro que é o de tomar nosso mundo como tipo absoluto na hierarquia dos astros. Os homens desconhecidos nascidos nessas pátrias diferentes diferem de nós em sua organização física, em seu estado intelectual e moral, nas funções de sua vida individual e em sua história.
No interior do estreito círculo de observações ao qual estamos circunscritos, seria loucura pretender determinar o modo de organização desses seres segundo o grau de semelhança de seu mundo com o nosso. É pois importante precisar aqui que nossas considerações devem ser tomadas em seu valor genérico, e não desviadas para aplicações particulares. (1) Livro V, I: Os habitantes dos outros mundos. Recordemos de início um fato biológico da mais alta importância: é a repetição muito freqüente dos atos da vida e a imensa disparidade dos períodos que atravessam esta vida a causa mais ativa do esgotamento das funções vitais; de modo que quanto mais as estações e os anos têm extensão e semelhança, mais os organismos vivos ali encontram condições favoráveis ao prolongamento de sua vida. É evidentemente o inverso nos astros onde os períodos se encadeiam em curtos intervalos. Ora, dizíamos que, sob este novo ponto de vista, a Terra não desfruta das mesmas
vantagens que certos planetas, e que ela está longe de ser o mundo mais favoravelmente estabelecido para a vida humana. Sabe-se que a inclinação dos eixos de rotação das esferas celestes no plano de suas respectivas órbitas é a causa astronômica da diferença das estações, climas e dos dias. Se o eixo de rotação fosse perpendicular a este plano, a zona tórrida não se estendendo além do equador e a zona glacial ficando circunscrita aos pólos, os efeitos do calor e da luz se enfraqueceriam sensivelmente a partir do círculo equatorial até os círculos polares, o que daria um clima temperado e habitável a todas as regiões do astro. Uma só estação reinaria perpetuamente em toda superfície do globo, e uma temperatura especial e permanente seria característica de cada latitude. Pode-se julgar assim sobre a fertilidade de um planeta assim favorecido, sobre a facilidade com a qual as mais ricas produções do globo se desenvolveriam na sua superfície e sobre a influência de uma tal morada sobre a vida tanto material quanto intelectual dos seres pensantes.
Por fim, uma divisão sempre igual entre a duração do dia e da noite acabaria por dotar um tal mundo com as vantagens mais preciosas para a prosperidade, felicidade e longevidade de seus habitantes. A poesia dessa primavera eterna nos transporta à idade de ouro da mitologia antiga, ao paraíso terrestre da Bíblia... Mas é preciso descer destas regiões afortunadas para considerar simplesmente as vantagens reais relativas à habitabilidade presente dos mundos. Se o eixo de rotação estivesse deitado sobre o plano da órbita e coincidisse com ele, ver-se-ia analogamente que a região temperada que, na posição precedente, se estendia sobre toda a superfície do planeta, desapareceria completamente no caso atual. O Sol passaria sucessivamente no zênite de todos os pontos do globo, ao qual daria as estações mais díspares e os dias mais desiguais, e propagaria alternativamente em cada hemisfério uma luz contínua e trevas permanentes, um calor tórrido e um frio glacial. Cada país seria exposto a isto de cada vez, ao longo do ano, a essas alternâncias intoleráveis, e só daria em partilha a seus habitantes as
condições mais perniciosas para o progresso e mesmo para a estabilidade de uma civilização primitiva. Estas são as duas posições extremas do eixo de rotação de um planeta, entre as quais há uma multidão de posições intermediárias. Se baixarmos os olhos sobre a posição da Terra no plano de sua órbita, observaremos que ela está longe de rolar perpendicularmente, mas que está, ao contrário, obliquamente sobre esse plano. Seu eixo de rotação está, de fato, inclinado de mais de 23 graus em relação à perpendicular ao plano no qual se move ao redor do Sol, o que dá a nosso globo três regiões bem distintas e caracterizadas por climas especiais: a zona tórrida, as zonas temperadas e as zonas glaciais.
Estas diversas regiões estão longe de estarem igualmente habitadas: de um lado os calores do equador se mostram pouco propícios à manutenção e à longa duração da vida, e cujos recursos, incessantemente fatigados por um calor avassalador, se esgotam em pouco tempo; por outro lado, o rigor dos climas polares é incompatível com as funções da vida humana e com as necessidades da organização, tanto animal quanto vegetal. A obliqüidade do equador terrestre sobre a eclíptica (plano no qual a Terra se desloca), que resulta da inclinação do eixo de rotação sobre a perpendicular a este plano, exerce influência fundamental sobre as condições da vida dos seres vivos, e por conseguinte sobre as condições de nossa própria espécie, malgrado nossa natureza mais pessoal, mais independente e mais ativa; esta influência se faz reconhecer sob um duplo aspecto: nas vicissitudes das estações e na diversidade dos climas.
Ora, uma mudança notável nesta obliqüidade, uma aproximação do eixo em relação à perpendicular, diminuiria correspondentemente a diversidade das estações e dos climas, e indicaria, para a economia geral dos mundos onde se realizasse, condições de habitabilidade preferíveis às do nosso. É o que existe, na verdade, em outros planetas, onde a obliqüidade é menor que a da Terra, e é o que torna manifesta a inferioridade de nosso estado astronômico. "Resignando-se a uma ordem que ela não pode modificar", escrevia um filósofo que seria maior hoje em dia se não quisesse ter sido
tão grande durante sua vida, e sobretudo no fim dos seus dias (1), "a humanidade não lhe reconheceria a perfeição absoluta que exigia naturalmente o otimismo teológico; isto porque melhores disposições podem ser facilmente imaginadas, e se encontram até mesmo estabelecidas alhures. Em vão a filosofia antiga tentaria esquivar-se a esta evidente dificuldade, alegando a pretensa solidariedade de nossa real obliqüidade da eclíptica com a economia geral do nosso sistema solar; uma sã apreciação direta, especialmente confirmada pela mecânica celeste, demonstra claramente que um tal elemento constitui, em cada planeta, um dado essencialmente independente de todos os outros, e, por mais forte razão, um dado sobre a disposição efetiva do resto do mundo...
Em relação aos climas, ainda mais que no que se refere às estações, nenhum bom intelecto pode contestar hoje que se os esforços materiais da humanidade combinados pudessem algum dia endireitar o eixo de rotação de nosso globo sobre o plano de sua órbita, as disposições existentes seriam realmente melhoradas, desde que este aperfeiçoa-mento fosse operado com toda a sabedoria, pois que a Terra assim viria a ser mais habitável. Reconhecendo que nossa ação, sempre mais limitada que nossa concepção, cumprisse uma tal operação mecânica, importa que nossa resignação a inconvenientes que não podemos evitar não degenere em uma admiração tola das mais evidentes imperfeições." (1) Auguste Comte, Traité philosophiquc d'Astronomie populaire, 1ª parte, caps. II e 111. Palavras judiciosas, seguramente, mas às quais não se deve dar uma importância exagerada em sua aplicação exclusiva a Terra, pois aqui há uma questão fundamental de fisiologia a examinar e a resolver.
Colocaremos de lado, inicialmente, essa idéia romanesca de correção da obliqüidade da eclíptica; todo homem de ciência a repeliria a priori como uma utopia de primeira ordem, e não pensemos que o próprio Comte jamais a tenha levado a sério: nossos esforços para modificar a posição da Terra equivaleriam aos que produziriam as formigas, se extenuando para fazer girar a cúpula do Panteão.
Não vamos tratar aqui da realização de uma hipótese irrealizável, mas devemos examinar qual é a influência da obliqüidade da eclíptica sobre o estado da vida na superfície de cada mundo. O único exemplo que podemos tomar é o da Terra, único globo cujo estado de vida nos é conhecido. Ora, sobre nosso mundo, as funções da vida estão intimamente ligadas à sua condição astronômica. A natureza vegetal que serve de base para a alimentação dos animais e do homem se renova segundo o curso das quatro estações. Com a vinda do inverno, que representa um período de sono (sono aparente, durante o qual se cumpre um grande trabalho oculto de elaboração), a primavera vê o renascimento dos seres e mede sua juventude; o verão faz suceder os frutos às flores; o outono os amadurece e permite sua colheita. É a vida dos grandes vegetais que, sem perecer, vêem cair sua folhagem e desaparecer toda sua vestimenta antes do inverno, para se revestir, na estação primaveril, de um novo tosão semelhante ao precedente.
A vida das plantas menores está ainda mais intimamente submetida aos movimentos das estações, e sofre mais completamente a sua influência; o trigo, por exemplo, que alimenta na Europa um quarto do gênero humano; o milhete, o milho, outras gramíneas, que nutrem o sul da Europa, Índia e os países tropicais; o arroz, o doura e outras substâncias alimentares são outras tantas plantas chamadas anuais pelos botanistas, porque devem ao inverno a faculdade — muito preciosa para nós — de morrer para renascer na primavera. Sem o inverno, o trigo ou os outros cereais não dariam espigas e não permitiriam as úteis colheitas às quais devemos uma parte de nossa subsistência; este fato está fora de discussão, e temos o exemplo na diversidade da alimentação da qual se observa a sucessão de nossas latitudes até o equador. Mas não é só ao inverno que devemos nossas espigas de ouro do mês de julho e nossas opulentas colheitas, é ainda à estação oposta, o verão, que coloca uma distância correlativa entre sua temperatura média e a da primavera. O trigo exige, para amadurecer, 2 mil graus de calor, acumulados a longo prazo; a vinha, mais ainda; a cevada, apenas 1.200. Ora, apenas a temperatura de
nossos equinócios não seria suficiente para amadurecer estes cereais. Nossas plantas foram feitas para nosso globo e para a condição na qual ele se encontra, e tudo nos demonstra, segundo uma expressão do doutor Hoefer, "que todos os corpos da natureza devem suas propriedades às condições ordinárias nas quais se encontra o globo que habitamos". Liames indissolúveis associam os seres terrestres à Terra, e é incontestável que qualquer transformação na intensidade relativa das estações levaria a uma transformação imediata nos fenômenos da vida do globo. Esta vida, cuja relação com nossa condição astronômica é tal que todos os seres, animais e vegetais levam em si o instinto de prever as variações inevitáveis da temperatura e de agir segundo esta previsão, de viver apressadamente durante os últimos dias ensolarados, ou de se preparar para a morte passageira que deve acarretar sua próxima renovação; esta vida terrestre, dizíamos, é medida entre certos limites que ela mui provavelmente não poderia ultrapassar; ela oscila em torno de uma posição média, onde estão reunidos os elementos de toda sua plenitude; ela se afasta, até certas distâncias, mas parece sempre ficar ligada às condições inerentes ao nosso globo.
Ora, mesmo que pudéssemos dizer que se, por um fenômeno cósmico qualquer (o que pode acontecer, na ordem atual), a obliqüidade de nossa eclíptica fosse diminuída, e se uma lei lenta e progressiva, como todas as leis da natureza, aproximasse gradualmente nosso eixo de rotação da perpendicular, nossas estações assim seriam melhor harmonizadas, nossos climas melhor nuançados e mais constantes, nossos dias menos desiguais e menos díspares; não poderíamos não obstante afirmar que as condições da vida terrestre, assim transformada, se tornariam preferíveis para nós àquelas existentes atualmente: esta seria uma suposição um tanto arbitrária e sem dúvida contrária à realidade, pela razão de que a vida terrestre nasceu na superfície de nosso globo, em correlação estreita com a condição deste globo. Mas pode-se, sem se contradizer, afirmar que ali onde as condições são preferíveis, a vida apareceu num estado superior, correlacionado com estas mesmas condições, e onde o regime astronômico
constitui um grau de habitabilidade superior ao da Terra, as forças da vida se desenvolveram em força e energia, e deram nascimento a seres conformados para viver no seio de um constante esplendor, como nós o somos para viver no seio de uma indigência irregular. As estações, de que esboçamos em alguns traços as conseqüências biológicas para nossos climas, devem ser consideradas, sem que seja necessário nos estendermos sobre este assunto, como associadas aos dois hemisférios de nosso globo: ao nosso, que tomamos como termo de comparação, e ao hemisfério oposto. Sabe-se que elas se sucedem inversamente umas em relação às outras; que o pólo boreal e o pólo austral se apresentam um de cada vez ao Sol no intervalo de um ano, e enquanto temos aqui a primavera, o verão, o outono ou o inverno, os habitantes das latitudes diametralmente opostas têm o outono, o inverno, a primavera e o verão.
O movimento das estações, indicado para um lugar determinado, deve ser pois implicitamente aplicado a todos os pontos do globo, tendo-se o cuidado, todavia, de levar em conta a diferença das latitudes, pois este movimento, desprezível no equador, é tanto mais caracterizado quanto mais se afasta rumo aos pólos. Tais são as conseqüências básicas da obliqüidade da eclíptica, conseqüências fatais e absolutas, não importa o que tenham escrito certos teóricos abusados. Em oposição àqueles que esperam uma renovação do globo no futuro, muitos adiantaram, especialmente entre os antigos, que a Terra outrora girava perpendicularmente ao plano de sua órbita; que na época da primeira aparição do homem na Terra, uma primavera perpétua embelezava e enriquecia nosso globo, e, na seqüência das eras, esta Terra inclinou pouco a pouco até sua posição atual. Este é um sonho brilhante, muito bem engendrado para acompanhar as delícias da idade de ouro, uma magnífica decoração que se enquadra à maravilha nas sedutoras epopéias sob as quais os poetas quiseram representar o misterioso berço de nossa espécie. O epicurista Ovídio, no primeiro livro das Metamorfoses, e o pobre Milton, no canto IX do Paraíso perdido, estenderam-se prazerosamente
sobre este antigo privilégio, e concordaram mais sobre este fato do que de início se poderia esperar de um e outro; outros poetas cantaram ou, melhor dizendo, choraram como eles sobre a decadência imaginária de nosso mundo; e os filósofos adiantaram, seguindo Anaxágoras e Enópidas de Chios, que a esfera, primitivamente direita, se inclinou por si só depois do nascimento dos seres animados. Pode-se afirmar hoje que todas estas teorias não têm nenhum fundamento; os grandes trabalhos de Euler, Lagrange e Laplace estabeleceram que a variação do eixo terrestre está encerrada entre certos limites, e que a obliqüidade da eclíptica oscila apenas alguns graus em torno de uma posição média. Enquanto a mutação do eixo terrestre depende unicamente da influência do Sol e da Lua sobre o achatamento polar de nosso globo, o estado de obliqüidade da eclíptica resulta do deslocamento de todas as órbitas planetárias. Esta obliqüidade diminui atualmente, a cada ano, de cerca de meio segundo.
No 12 de janeiro deste ano (1862), ela era de 23° 27' 15",90; a 12 de janeiro de 1863, de 23° 27' 15,43; a 12 de janeiro de 1864, 23° 27'14",97 etc. Há um século, em 1762, ela era de 23° 28' 2",66; daqui a um século, em 1962, será de 23° 26' 29",11, etc. Mas esta diminuição (que é constante e que se pode calcular para uma série de séculos) está longe de ser invariável para um grande lapso de tempo; é uma série decrescente, e chegará uma época em que ela será completa-mente anulada, e em que a obliqüidade retomará movimento inverso, para crescer gradualmente até um certo limite. Se a obliqüidade diminui agora, é conseqüência da atual distribuição das órbitas planetárias; daqui a alguns milhares de anos, esta distribuição terá variado tanto que resultará um crescimento no sentido contrário. Assim este elemento astronômico é, como todos os outros, relativamente constante, e não é possível se apoiar sobre nenhum fato científico para afirmar que numa época recuada as condições de habitabilidade da Terra foram superiores às de hoje, assim como não se pode esperar para o futuro uma melhora de nossas condições físicas de existência. (1)
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.