[user_registration_my_account]
Capítulo 30 de 46
A Humanidade no Universo — parte 11 de 11
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
mas por numerosas vidas continuando uma após a outra; vocês a conquistaram não como um campo de repouso aonde se vai dormir após a batalha, mas como uma terra prometida na qual vocês entraram e onde realizam agora as obras de uma existência gloriosa. Vocês desenvolvem agora as faculdades brilhantes das quais a Terra não conheceu mais que o germe, e que exigiram, para desabrochar, outros sóis mais fecundos que o nosso; vocês dão livre curso às aspirações sublimes que apenas se adivinharam nesta terra onde nenhum objeto era realmente digno de atraílos, onde nenhuma força era capaz de sustentá-los; vocês prosseguem, enfim, na atividade incessante de seu espírito, o objetivo mais caro a cada um de vocês. É aí que vocês estão, neste céu calmo que nos domina, em meio às luzes inalteráveis que constelam o éter. Nós os contemplamos daqui nessas longínquas moradas, e sentimos com amor que esses mundos silenciosos não nos são estrangeiros, como os julgamos outrora.
Mais felizes que nós, que ainda somos sacudidos pelas ondas da incerteza, vocês levantaram os véus do Universo; talvez vocês percebam lá do alto nosso pequeno Sol, e distingam a pequena mancha que se chama a Terra e que reconhecem como sua antiga moradia. Talvez coloquem em ação as forças do pensamento e conheçam suas leis, e talvez escutem de seu lar a prece cheia de admiração daqueles que os veneram! Seja como for, e apesar da obscuridade que nos envolve ainda quando tentamos visitar em espírito esse mundo misterioso, devemos, discípulos fiéis da filosofia natural, nos esforçar por compreender em sua simplicidade e grandeza o ensinamento sempre unânime da natureza. Pluralidade dos mundos, pluralidade das existências: eis dois termos que se completam e iluminam um ao outro. Nós poderíamos tratar de descobrir agora se o segundo não é tão racional, tão admissível, tão sedutor mesmo quanto o primeiro; mas nós atingimos o objetivo desta obra demonstrando este.
Cabe ao leitor interrogar sua consciência na sinceridade das indagações de boafé; cabe a ele libertar sua alma de todo entrave que poderia ainda se opor à inteira manifestação de sua liberdade; cabe a ele confiar-se ao vôo
instintivo desta alma, que se conduzirá ela mesma às regiões luminosas da verdade. A doutrina da Pluralidade dos Mundos nos conduziu às portas de uma crença religiosa erigida sobre o verdadeiro sistema do mundo; a missão deste livro não é entrar na arena e discutir os elementos desta crença; mas então pararemos aqui, felizes e satisfeitos por termos vindo ao domínio religioso e ter-lhe aberto às portas. A Astronomia tem nas mãos as chaves deste domínio; ela assentou os fundamentos da filosofia do futuro: nós o reconhecemos com entusiasmo, e agradecemos à Ciência do Universo o ternos conduzido até lá. Mas não cabe a esta Ciência construir as cidades da metafísica; vieram já filósofos que se impuseram o cumprimento desta empreitada, outros virão em breve que continuarão a obra e expulsarão as últimas trevas que pesam ainda sobre as verdadeiras ciências da teologia e da psicologia. (1) (1) Ver Pluralité dês Existences de I’Âme, conforme à Ia doctrine de la Pluralité des Mondes, de André Pezzani (1865) — e também nossas obras Dieu dans la Nature (1867), Récits de I’lnfini e o último capítulo de Mondes lmaginaires, onde se resumem os escritos recentes sobre o mesmo tema.
Mas não podemos impedir-nos de exprimir aqui o quanto é doce ver o Universo tal como o vemos agora, em sua beleza real, em sua grandeza, em seu objetivo e em seu destino. As nuvens que o obscureciam se dissiparam, nossos olhos se purificaram do que confundia nossa visão, e contemplamos em sua claridade natural a obra sublime da criação. Ora, essa revelação da ciência traz consigo os caracteres da verdade. Ela atende às aspirações inatas de nossa alma e satisfaz às afeições de nosso coração; eis aí um privilégio que só cabe à verdade. Uma vez que a tenhamos concebido, esta idéia da criação, nada nos pode separar, nada pode tirar-nos a simpatia que ela conquistou desde o primeiro instante; sentimos que ela toca nossos destinos supremos, nossos mais caros interesses, todas as funções de nosso ser; sentimos nela a lei sagrada que nos domina a todos, não uma dominação onerosa à qual se desejaria escapar, mas uma dominação benfazeja que assegura nossa liberdade; novo privilégio que também não
poderia pertencer senão à verdade. Por essa lei, os atributos invioláveis da Divindade são salvaguardados ao mesmo tempo que os interesses dos seres criados, e o Mundo, obra divina, resplandece sob seu duplo aspecto em toda a sua grandeza. Sim, nossa doutrina traz consigo todas as características da verdade natural; além disso, ela nos cativa por sua beleza, ela é cheia de devoção, cheia de êxtase. Assim que a contemplamos, e assim que nos deixamos penetrar pelas idéias que ela inspira, experimentamos a felicidade íntima derramada em nós pela contemplação solitária da natureza, e sentimos instintivamente nela o elemento da vida de nossa alma. É uma doutrina santa, que dá a toda criatura sua posição verdadeira e ao mesmo tempo enobrece todos os seres diante de nossa fé. É uma doutrina inefável que transfigura o Universo e dá a nosso espírito um novo sentido através do qual entra em comunicação com todos os filhos da natureza. Ela é bem a mais bela e grandiosa expressão da obra divina.
Não é um sistema erigido pela mão dos homens, nem uma teoria imaginada pela fantasia caprichosa de nossos espíritos, ela não foi inventada pelos filósofos nem sonhada pelos sonhadores, ela não foi feita, mas sim encontrada; pois ela é uma verdade preexistente a nós. Ela é a Palavra que cai do céu estrelado durante a noite escura, e que toda alma bem-disposta pode receber e compreender. Nós escolhemos, para abrir esta obra, a cena que convinha melhor à natureza de nosso tema: nós nos transportamos em pensamento a essas noites esplêndidas onde reina uma paz profunda, uma calma inalterável. Em meio a esse espetáculo, nos pareceu que um sentimento indefinível de melancolia ocupava o fundo de nossa alma, porque nós nos acreditávamos estrangeiros neste Universo magnífico, que nos atraía como um abismo, sem satisfazer nossa sede de conhecer. Terminando essas considerações, deixamos nosso espírito retornar à solidão que ele aprecia, à contemplação dos céus. Agora nossos olhos levam a mais longe, comparam com mais justiça e apreciam melhor a extensão que nos cerca; nosso espírito, melhor
esclarecido e mais francamente acessível às impressões do mundo exterior, julga os objetos celestes em sua verdadeira grandeza. Sabemos agora onde estamos, conhecemos o valor real de nossa pátria, visitamos as nações circunvizinhas, e levamos nossas observações às regiões longínquas que se sucedem no espaço. A observação e o estudo da extensão nos instruiu sobre nosso duplo estado, espiritual e material. Nossa ciência e nossa filosofia, mergulhadas numa nova vida, estão renovadas, e tomaram por base uma verdade demonstrada, que será doravante a pedra angular do edifício de nossas crenças. Por isso não é mais agora um sentimento de tristeza que resulta em nós da doce contemplação do céu, mas um sentimento de felicidade íntima, cujos traços ficarão marcados por um perfume de esperança.
Nós nos reconhecemos da grande família dos astros; sabemos que esses mundos distantes não nos são mais estranhos, e que a solidão aparente que os envolve é só uma ilusão causada pela distância, como ocorre com nossas cidades mais laboriosas e mais ativas, cujo brilho e ruído se apagam e desaparecem a distância. Sabemos que nos aproximando deles reconheceremos a vida no esplendor de sua força e sua atividade, e que, como a Terra, eles são as oficinas do trabalho humano, as escolas onde a alma que cresce vem progressivamente se instruir e se desenvolver, assimilando passo a passo os conhecimentos aos quais tendem suas aspirações, aproximando-se assim cada vez mais do propósito de seu destino. A noção do Universo fez desaparecer em nós as incertezas que por tempo demais nos envolveram com suas sombras: ela fixou nossa filosofia.
A concepção da Unidade dos Mundos à qual nos elevamos nos permitiu enfim sentir os laços misteriosos que ligam nossa colônia às outras colônias do celeste arquipélago; ela é por sua vez a base de nossas crenças religiosas, a bússola indicadora dos pontos cardeais, a abertura através da qual entrevemos o campo etéreo aonde o ardente impulso de nossas almas as conduzirá no futuro. Eis aí erguido nosso edifício, ao menos em seu conjunto. Exegi monumentum sere perennius, dizia Horácio, cujo edifício, mais opulento
que o nosso, era construído em mármore e decorado com mosaicos preciosos. Não é com o mesmo sentimento que damos aqui a ultima mão em nosso trabalho; não temos quaisquer direitos ao orgulho com que se pavoneava o poeta epicurista, e nossa Musa não é a dele. Todavia convém, antes de fechar o livro, rever sumariamente em conjunto os elementos fundamentais que serviram à edificação de nossa obra. Investigamos de início os arquivos da história humana para lá procurar os nomes e as idéias dos que ensinaram nossa doutrina, e reconhecemos que os gênios ilustres de todas as eras foram dela os apóstolos mais ou menos convencidos, mais ou menos eloqüentes, conforme o grau de ciência de que podiam dispor nas diversas épocas em que surgiram.
Em seguida observamos e estudamos detalhadamente cada um dos mundos planetários que formam parte do grupo ao qual a Terra pertence, mundos que reconhecemos habitáveis como o nosso; depois, discutindo os elementos especiais que caracterizam cada um deles, vimos que a vida pôde surgir neles como entre nós em harmonia com as suas próprias condições de existência. Examinando em seguida o estado da vida na superfície da Terra, tanto em suas eras antigas como em seu período atual, constatamos que uma diversidade maravilhosa distingue cada um dos seres, segundo os ambientes onde nascem ou devem viver, e que esses seres estão sempre em íntima correlação com o estado orgânico onde nasceram. Indo mais longe, analisando a força de vida e medindo-a em suas manifestações diversas sobre nosso mundo, nos refúgios mais ocultos e até no domínio microscópico dos infinitamente pequenos, nós reconhecemos que a fecundidade da natureza é infinita; que a maior soma de vida está sempre completa, e que, por toda parte onde os elementos dessa vida universal estão presentes, a própria vida aparece sob todas as formas possíveis.
Buscando então saber se essa universal difusão da vida na superfície da Terra não dependeria de urna fecundidade excepcional de nosso globo, examinamos as condições de habitabilidade deste globo, e vimos que, longe de ser o astro mais favoravelmente estabelecido para a aparição e sustento
de seres vivos, ele está, ao contrário, em condição extremamente inferior, tanto em seu regime astronômico quanto em sua constituição geológica especial; vimos que, se a vida nasceu aqui, é porque a natureza concebe seres por toda a parte onde haja moradia para recebê-los, porque ela não os criou somente para os mundos superiores, e porque não se cansa de povoar esses mundos com uma multidão de criaturas. — A doutrina da Pluralidade dos Mundos foi deste modo sucessivamente estabelecida sobre todos os fatos que constituem a ordem física do mundo. A contemplação geral do céu veio a seguir nos esclarecer sobre a posição ocupada pela Terra na criação sideral, e estabelecer que o globo que nós habitamos está invisivelmente perdido entre as miríades de astros que se sucedem na imensidão. Essa contemplação do céu apresentou a Terra, átomo, ante o infinito dos mundos. Passando da habitabilidade à habitação, nós investigamos quais podem ser a natureza física e o estado moral dos homens dos planetas.
O resultado geral foi que uma grande diversidade distingue as humanidades planetárias, tanto na constituição física dos corpos quanto no grau de elevação das almas. Mas nós reconhecemos que a unidade espiritual do mundo é tão verdadeira e necessária quanto sua unidade física; que essa unidade espiritual é constituída pelos grandes princípios absolutos do belo, do verdadeiro e do bem, que unem todas as inteligências à Inteligência suprema; que o conjunto dos mundos forma uma hierarquia progressiva, e que a Terra está assentada num dos degraus inferiores desse vasto conjunto. Tal é, sumariamente exposta, a demonstração que fizemos da doutrina geral da Pluralidade dos Mundos. Ora, após as observações, as provas, os exemplos, os fatos de todas as ordens, de todos os gêneros que nós sucessivamente fizemos comparecer diante de nós para discuti-los, analisá-los e aplicá-los à demonstração de nossa doutrina; após todos os elementos que reunimos, os argumentos que invocamos, contra os quais nenhuma objeção séria pode prevalecer; após esta síntese, enfim, cujo valor, esperamos, teve por resultado levar a certeza
moral ao espírito do leitor, alguns espíritos aziagos, como ainda se encontra em algumas seitas, ou esses homens céticos e realistas que não querem ou não podem ver nada além de sua grosseira pessoa, quereriam procurar um último refúgio numa razão que já não o é, alegando que, apesar da possibilidade incontestável do que adiantamos, nada prova que isto aconteça na realidade? — Se se tivesse a coragem de formular aqui uma objeção deste tipo, nós a colocaríamos em outros termos, e a formularíamos assim: Graças às descobertas da astronomia, conhecemos a grandeza comparativa do Universo e a exigüidade da Terra, a imensidão do espaço, a pluralidade dos mundos habitáveis, as distâncias dos astros e seu número incomensurável, as leis que os regem, as forças que os sustêm e animam; nós vimos o universo astral expor suas magnificências, e o infinito dos céus se entreabriu diante de nossos olhos.
Por estas considerações sublimes tudo enobreceu, tudo se divinizou; o próprio Deus nos apareceu maior, mais poderoso, mais majestoso ainda; e sentimos toda a beleza, toda a verdade deste espetáculo. Mas eis uma idéia com a qual não havíamos ainda sonhado: se todo este esplêndido Universo, a despeito de seus milhões e milhões de mundos, não fosse mais que um universo de parada... uma perspectiva inútil de aparências mentirosas... Um universo de parada! Ou seja — perdoem-nos a expressão—uma imensa lanterna mágica! uma fantasmagoria feita de sombras e aparências! fantasmagoria, ai de nós! embriagadora e fascinante, colocada ante nossas almas para induzir-nos ao erro — maravilhosas imagens que o Ser supremo se diverte fazendo dançar diante de nossas beatas faces, como nos pequenos teatros ao ar livre se faz brincar personagens de papelão para divertir as crianças risonhas!!! Eis aí o último refúgio dos que ainda não desejariam a Pluralidade dos Mundos. Que aquele que se acredita grande o bastante para se colocar diante da obra divina e afirmar esta monstruosa interpretação, e que é insensato o
bastante para atirar tal sacrilégio à face do Ser supremo, se levante e aceite a responsabilidade de seu ato. Mas que aquele que compreendeu a verdade da criação e lhe admira a grandeza se incline diante dela e proclame conosco a doutrina da Pluralidade dos Mundos. Esta verdade nos precipitou num abatimento profundo e nos cobriu de obscuridade, nós que nos acreditávamos tão grandes na cena do mundo; nosso pedestal faustuoso dissipou-se como um sonho, e nós nos vemos bem pequenos e bem miseravelmente perdidos dentro do turbilhão das coisas. Mas se a doutrina da Pluralidade dos Mundos, com uma mão, mostrou a verdade de nossa presunção ridícula e nos abriu os olhos nas trevas, é para elevar-nos magnificamente com a outra, libertando nossas almas dos liames grosseiros que as prendiam à Terra. E eis que o brilho das regiões imortais as ilumina, essas almas até então tão cheias de inquietudes; eis que elas vão tomar seu impulso rumo às esferas amadas. Elas reconheceram sua inferioridade de agora na Ordem geral; mas entreviram a grandeza de seu destino.
Elas se viram bem baixo; mas ao mesmo tempo, sentindo suas almas fremirem, elas contemplaram com amor as regiões superiores; pois, ao infinito de suas aspirações, a Pluralidade dos Mundos abriu o infinito do Universo. Que mais desejam além disso? Elas estão seguras em suas doces e muito tímidas esperanças; elas são saciadas em seus mais ardentes desejos; elas são satisfeitas em seus votos mais caros. Oh! Elas compreenderam toda a grandeza da doutrina, e a ela sentem-se instintivamente ligadas. Retornaremos agora à sombra onde dormíamos ontem, e nos deixaremos cair de novo nos abismos da dúvida? E lá no alto que a luz brilha: fecharemos os olhos para não vê-la? Os astros falam, e sua palavra eloqüente desce até nós permaneceremos surdos a sua voz? Sejamos humildes para merecer compreender o ensinamento da natureza, mas sejamos sinceros quando o tivermos compreendido. Reconheçamos quem nós somos, e o proclamemos bem alto. Se foram necessários sessenta séculos e mais, antes que as ciências exatas pudessem aportar os elementos de nossa certeza, esclarecer-nos quanto à nossa posição e nos permitir
chegar ao conhecimento de nosso destino; se foi necessária essa longa e santa incubação dos anos para animar com o sopro de vida nossa bela doutrina e afirmar sua verdadeira grandeza; oh! guardemos preciosamente essa doutrina, como uma riqueza da alma; consagremo-la ao Deus das Estrelas — e quando, nas noites sublimes, nos envolvendo de magnificências, luzirem no oriente suas constelações diamantinas e, no céu sem limites, mostrarem seus misteriosos brilhos... através da imensidão dos Mundos, em meio aos céus estelíferos, sob o véu argênteo das nebulosas longínquas, nas profundezas incomensuráveis do infinito, e até para além das regiões desconhecidas onde se desenvolve o eterno esplendor... saudemos, meus irmãos, saudemos todos: são as Humanidades nossas irmãs que passam!
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.