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Capítulo 33 de 46
Apêndice — parte 3 de 9
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
Saberemos então que a beleza e a simetria destes objetos é seu próprio fine, e que elas são o efeito necessário, e sem conseqüências, das leis da química e da mineralogia. Que seria, se examinássemos o mundo dos vegetais, e se puséssemos em evidência o paramento encantador das flores? Observai as nuances da rosa, da tulipa; imaginai o perfume do lírio, da violeta; contemplai essa maravilhosa textura das plantas, que leva em si o sinete do Poder infinito; e dizei para que servem essas belezas sem igual, dizei se sua riqueza não é seu fim por si mesmo, e se elas não são belas simplesmente porque agradou ao Criador que elas fossem belas. A beleza e a regularidade são necessariamente constituídas pelas próprias leis da Natureza, sem que para isso sirvam a qualquer fim. Para que servem, exclama o autor num nobre entusiasmo, para que servem esses círculos esplêndidos que decoram a cauda do pavão, círculos dos quais cada um ultrapassa em beleza os anéis de Saturno?
Para que serve a rara trama dos objetos microscópicos, mais surpreendentemente regulares que todo objeto descoberto pelo telescópio? Para que servem as suntuosas cores dos pássaros e dos insetos do trópico, que vivem e morrem sem que o olho humano jamais os tenha admirado? Para que servem os milhões de borboletas de diversas espécies, enriquecidas com seus bordados brilhantes e sua plumagem microscópica, da qual uma em um milhão não é percebida, ou só o é por um escolar vagabundo? Para que servem todas estas maravilhas? — Elas só têm o fim de provar o quanto é verdade que a beleza e a regularidade são os traços característicos da obra da criação. "E como assim é", acrescenta o autor, triunfante, "quaisquer que sejam a beleza e a harmonia dos objetos que o telescópio nos descobre, nem Júpiter, envolvido por suas luas, nem Saturno em meio a seus anéis, nem as mais regulares das estrelas duplas, aglomerados estelares e nebulosas, não podem ser vistos como os campos da vida, como os teatros do pensamento. São, como o poeta às designa, as pedras preciosas do manto da Noite, as flores dos campos celestes. Não seria possível encontrar a menor razão sólida para
permitir-se afirmar que esses astros sejam a morada da vida e da inteligência." Ouçamos a peroração de seu discurso. "Não atenuamos", diz ele, "a grandeza do homem criado, nem a majestade de seu autor. Não seria verdadeiro afirmar que o que nos parece diminuir ou engrandecer a Deus o faça na realidade, pois as opiniões de Deus não são as nossas. A ordem e a harmonia estão tão bem estabelecidas apenas em nosso mundo quanto numa multidão deles. E quando ficamos familiarizados com a idéia de um só mundo, esta idéia nos toca mais intimamente, nos agrada mais, porque ela nos mostra o Senhor mais perto de nós. A majestade divina não reside nos planetas nem nas estrelas, que não são, afinal, senão rochas inertes ou nuvens de vapores. Ao contrário, o mundo material é o mais nobre e o mais digno dos cuidados especiais do Criador; ele vale mais que milhões e milhões de astros, mesmo que estes fossem habitados por animais mil vezes mais numerosos que os que a Terra produziu.
Se se considera, por fim, o destino do homem em sua vida futura, se se encaram as verdades da religião revelada, e se se coloca perante si o dogma da verdade eterna, a conjetura da Pluralidade dos Mundos se dissolve e cai em ruínas." Que trabalho, grande Deus! Que esforço, quanto penar para servir tão mal à sua causa! Que dispêndio inútil de argumentos especiosos, de sofismas mais ou menos habilmente apresentados, e em suma, que brecha profunda feita nas antigas muralhas da cidadela sagrada! Se demos à teoria citada mais atenção do que ela parece merecer aos olhos do astrônomo é porque ela representa não o sistema de um só homem, mas o sistema obrigatório de todos os teólogos que querem sujeitar a natureza à sua obediência: Theologia humilis ancilla!
Sim, eis a que expedientes estão reduzidos àqueles que, achando inconciliáveis a grande filosofia da natureza e sua mesquinha interpretação religiosa, querem fazer dobrar a primeira sob a mão descarnada da segunda; eis em que abismo se perdem aqueles cujos olhos, fechados para a beleza do mundo exterior, sem cessar estão voltados para dentro de si mesmos, para a obscuridade, para o
vazio, para o silêncio. Tais sistemas não têm necessidade de comentários, tais argumentos não têm necessidade de refutações; eles não podem comover, nem menos ainda seduzir a alma esclarecida pela verdade; eles caem por si sós, como esses montes de areia que o capricho dos ventos edifica num dia perturbado, e sua ruína é funesta à doutrina que pretendiam consolidar e defender. Em lugar de desenrolar assim e pôr em evidência todas as dificuldades que se erguem entre o dogma e a ciência, seria mais prudente, em nossa opinião, sobretudo quando estas dificuldades parecem insolúveis, não provocar combate entre estes dois corpos, cujo estado lógico os colocaria numa busca comum da verdade, longe de ficarem antagonismo. Sem dúvida, a discussão é boa, sempre boa; mas como ela se exerce normalmente em benefício do mais forte, é no mínimo imprudente de parte do mais fraco provocá-la, mesmo que de longe.
Foi o que compreendeu perfeitamente a corte de Roma desde o ano do Senhor de 1633, e não achamos que um livro da natureza daquele que acabamos de examinar jamais seja aconselhado ou aprovado pelos príncipes da Cidade Eterna. Assim como preferimos os sentimentos de Chalmers às singularidades do doutor Whewell, também preferimos a todas a teologia mais científica que sir David Brewster lhes deu em resposta. "É tão injurioso," diz ele (1), "para os interesses da religião quão aviltante para os da ciência, ver os partidários de uma e outra se colocarem num estado de mútuo antagonismo. Uma simples dedução ou hipótese deve sempre ceder o passo a uma verdade revelada; mas uma verdade científica deve ser mantida, mesmo que pareça contraditória em relação às doutrinas mais queridas da religião. Discutindo livremente o assunto da Pluralidade dos Mundos, não observaremos nenhuma colisão entre a razão e a revelação.
Cristãos tímidos e mal informados, em diversas ocasiões, recusaram-se a aceitar certos resultados científicos que, em lugar de serem opostos à fé, tornam-se os seus melhores auxiliares; escritores céticos, tirando vantagem desta falha, desdobraram as descobertas c as deduções da
astronomia contra as doutrinas fundamentais da Escritura. Esta controvérsia inconveniente que em outros tempos já se irritou contra o movimento da Terra e a estabilidade do Sol, e mais recentemente contra as doutrinas c as teorias da geologia, termina naturalmente em favor da ciência. As verdades da ordem física têm uma origem tão divina quanto as verdades da ordem religiosa. No tempo de Caldeu, elas triunfaram sobre o casuísmo e o poder secular da igreja, e em nossos dias, as verdades incontestáveis da vida antediluviana arrebataram as mesmas vitórias sobre os erros de uma teologia especulativa e de uma falsa interpretação da palavra de Deus. A ciência sempre foi e deve ser sempre o auxiliar da religião. A grandeza de suas verdades pode ultrapassar nossa razão vacilante; mas os que estimam e tomam como ponto de apoio verdades igualmente sublimes, mas certamente mais incompreensíveis, devem ver nas maravilhas do mundo material a melhor defesa e a melhor explicação dos mistérios de sua fé." (1) More Worlds than One, the creed of the philosopher and the hope of lhe Christian, cap. IX, Religious difficulties.
Chegando à grande dificuldade da encarnação do Verbo, sir David Brewster começa estabelecendo que, segundo toda probabilidade, um grande número de humanidades foi, como a nossa, submetida à influência do mal. Contrariamente, pois, à hipótese do americano Chalmers que, na suposição de um só mundo prevaricador, mostra qual é a ternura do Pai eterno por esta família, quando prefere o sacrifício de seu Filho à perda de suas criaturas. O sr. Brewster procura explicar a redenção possível de todas as humanidades culpadas. Eis sua proposição: "Quando, no começo de nossa era, o grande sacrifício se cumpriu em Jerusalém, foi pela crucificação de um homem, de um anjo ou de um Deus. Se nossa fé é a dos arianos e dos socinianos, a dificuldade religiosa cética está levantada: um homem ou um anjo podem ser igualmente enviados para o resgate dos habitantes dos outros planetas. Mas se cremos, com a Igreja cristã, que o Filho de Deus foi necessário para a expiação do pecado, a dificuldade se apresenta sob seu aspecto mais formidável.
"Quando nosso Salvador morreu, a influência de sua morte estendeu-se para trás, no passado, a milhões de homens que jamais escutaram seu nome, e para a frente, para o futuro, a milhões que não deviam jamais escutá-lo. Mesmo se irradiando da cidade santa, a Redenção se estendeu às terras mais afastadas e a todas as raças que viviam no Antigo e no Novo Mundo. A distância, no tempo ou no espaço, não atenuou sua virtude salutar. Foi uma força impalpável para os pensamentos criados que a distância não modificou. Onipotente para o ladrão sobre a cruz, em contato com sua fonte divina, ela conservou o mesmo poder descendo pelas eras, seja para o índio e o pele-vermelha do ocidente, seja para o árabe selvagem do oriente. Por um poder de misericórdia que não compreendemos, o Pai celeste estendeu até eles seu poder salutar.
Ora, emanando do planeta médio do sistema, talvez porque o reclamasse mais que tudo, por que este poder não poderia se estender às raças planetárias do passado, quando chegou o dia de sua redenção, e às do futuro, quando a medida do tempo chegará ao fim?" Para melhor fazer entender seu argumento, o autor faz a suposição de que nosso globo, no começo da era cristã, foi partido em duas partes, como parece ter acontecido com o cometa de Biela, em 1846, e que suas duas metades, o mundo antigo e o novo, tenham viajado, seja como uma estrela dupla, seja independentemente um do outro. Nesta hipótese, os dois fragmentos não teriam se beneficiado da Cruz, o velho mundo e o novo não teriam tido o mesmo favor? O penitente das margens do Mississipi não teria recebido a mesma graça que o peregrino das ribeiras do Jordão?
Se, pois, os raios do Sol de justiça, levando a cura em suas asas, tivessem atravessado o vazio que então separou o mundo americano e o mundo europeu assim divididos, todos os planetas — mundos criados por este Deus mesmo, formados dos elementos materiais, banhados na auréola do mesmo Sol, não puderam participar igualmente do mesmo presente do céu? Eis uma teoria que nos parece de natureza a satisfazer os cristãos mais apegados a seu dogma, e que pode, a seus olhos, levantar mais facilmente as dificuldades que o sistema excêntrico do sr. Whewell. Esta teoria é ainda
preferível, segundo nós, àquela que apresenta um número de encarnações divinas igual ao número dos mundos pecadores e, que faz descer o Cristo- Deus em meio a outras tantas humanidades quantos houve de Adões desobedientes. Nesta última opinião, a Majestade divina e a Sabedoria eterna são tratadas com uma familiaridade um pouco demasiada. Quanto ao argumento que se apóia sobre a pobreza, sobre a exigüidade, sobre a insignificância da Terra, para enunciar que nossa morada perde seu valor primeiro perante o Deus do céu, quando as deduções astronômicas proclamaram a doutrina da Pluralidade dos Mundos, respondeu-se, com razão, que este argumento é sem valor e sem a menor autoridade. Como este assunto está fora das discussões dogmáticas, manifestamos completamente nossa opinião em relação a ele. Para nós, é ter uma noção falsa e incompleta da Onipotência imaginar nela graus maiores ou menores. O infinito nada tem em comum com as fraquezas do finito; e todas as vezes que emprestamos a Deus nossa maneira de sentir, atribuímos-lhe implicitamente as fraquezas de nossa natureza.
É preciso, sem dúvida, um grande esforço para nos elevarmos à idéia de um poder infinito, de uma ternura infinita, mas é preciso fazer este esforço ou nos abstermos de falar de Deus. Que aqueles que são levados a emprestar a Deus nossas idéias sobre as grandezas relativas, sobre o maior ou sobre o menor, sobre o fácil ou o difícil, sobre o longo ou o breve, que considerem o grão de trigo que germina sob a terra e digam se Deus não é tão grande na germinação desse grão de trigo quanto no governo de um Mundo. Que considerem o carvalho saindo da bolota, o lírio revestindo-se de sua brancura, a toutinegra dando o que comer a seus filhotes, o olho do homem contemplando o mundo exterior e levando à alma o espetáculo da Natureza; e que digam se a força que sustenta e anima todas as coisas não é infinita tanto na bolota que germina como na alma que percebe. Que estudem a natureza, e digam se é mais difícil para Deus iluminar um sol do que entreabrir uma rosa. Não, essa grande e universal Natureza ri das forças mais formidáveis, e para criar maravilhas, um sorriso lhe basta. Vede essas nuvens do ocaso, cujas bordas
purpúreas são delineadas pelo azul celeste; o que foi necessário para ali reunir num piscar de olhos e em profusão as cores mais ricas, os acidentes mais variados, as nuances mais harmoniosas? Que foi necessário para encher essas folhas com os raios crepusculares e fazer destacar um horizonte esplêndido? O que foi necessário para espalhar esses perfumes pela atmosfera tépida? O que foi necessário para acalmar esse mar tempestuoso e lhe dar a serenidade do céu? O que foi preciso ao Ser universal para desdobrar os esplendores de uma aurora boreal ou para estender uma nebulosa nos desertos do vazio? Basta-lhe menos que a nós para os trabalhos mais simples: basta-lhe querer. E, pois, sem razão alguma que se apresentaria a Terra como indigna da atenção divina, por causa da multidão inumerável dos mundos que vogam no meio do espaço; a presença universal e idêntica de Deus envolve a criação como o Oceano faz com uma esponja, ela a penetra, ela a preenche; ela é a mesma em todo lugar, e seu caráter de infinito lhe é inviolavelmente associado.
A Providência do passarinho é infinita como a Providência da Via Láctea, não é menos atenciosa, menos sábia, nem menos poderosa, infinita, em uma só palavra, no sentido único associado a este caráter. Era importante insistir sobre este ponto, a fim de afastar de certas mentes a idéia falsa que nossos estudos, se mal interpretados, teriam podido deixar nelas sobre este atributo sublime da Pessoa divina. Acabamos de ver quais são as explicações que se emitiu para conciliar a doutrina da Encarnação de Deus sobre a Terra com a doutrina da Pluralidade dos Mundos. Este foi o primeiro ponto desta nota. Passemos agora ao segundo.
II
Cosmogonia dos Livros Santos
Todos os teólogos reconhecerão esta antiga e solene figura, que lhes lembrará o capítulo de Ente Locomobili da Pars Physica de seus tratados seculares, e que os reportará à Idade Média, sua gloriosa época. Com efeito, extraímos esta figura de uma célebre obra impressa no ano de 1591, século de Copérnico; ela representa o sistema de Ptolomeu cristianizado, como essas "cartas mudas" que se batiza com nomes convencionais. No centro do mundo, está entronizada a Terra, morada do homem, teatro de suas provações, habitação de sua vida temporal. Sob a superfície terrestre, estão as regiões infernais, onde as pessoas de vista boa podem entrever o antigo Tártaro, conhecido atualmente sob o nome de Inferno. Além da Terra, erguendo-se para o Céu, encontra-se de início a esfera dos elementos, onde o fogo se sucede ao ar; depois, as esferas da Lua, de Mercúrio, de Vênus, visitadas sucessivamente por Dante na Sexta-Feira Santa do ano de 1300; depois, o Sol, Marte, Júpiter e Saturno, sétimo e último planeta. Mais alto, percebe-se o firmamento (firmus, sólido), onde estão presas as estrelas fixas
(1); depois o maravilhoso nono céu; a seguir, o Primeiro Móvel, ou cristalino; por fim, o Empíreo, ou morada dos bem-aventurados. (1) Os antigos não conheciam a impossibilidade mecânica de as estrelas girarem em 24 horas ao redor da Terra. Não somente a Terra é, em mecânica celeste, um ponto insignificante, completamente incapaz de ser o centro de tais movimentos; não somente as estrelas, isoladas e distantes umas das outras por toda a profundeza do céu, nunca poderiam ser arrastadas num mesmo curso, mas a velocidade com que mesmo os mais próximos desses vastos corpos teriam de ser arrastados ultrapassa toda quantidade concebível. Para que Sirius, por exemplo, girasse em torno da Terra em 24 horas, ser-lhe-ia preciso percorrer 3 bilhões de léguas por segundo! Este sistema é ensinado explicitamente pelas obras teológicas que, como a Summa de Santo Tomás de Aquino, trataram dos diversos assuntos em contato com o dogma cristão: são reconhecidos implicitamente pelos Livros santos que, sem se ocupar especialmente de cosmogonia ou de astronomia, sofreram, não obstante, a influência das idéias recebidas na época em que foram escritos.
Seja, pois, que se encontre o sistema de Ptolomeu exposto e defendido nestas obras, seja ele passado em silêncio, o fato fundamental sobre o qual importa se apoiar aqui, é que este sistema está no fundo da teologia antiga e da Idade Média. Acabamos de dizer que, no que concerne à cosmogonia, os Livros santos sofreram a influência das idéias recebidas na época em que foram escritos. Aqui está, com efeito, a base de nosso pensar. Estes livros nunca tiveram por missão ensinar a física ou a astronomia, nunca entraram no campo das discussões científicas: não era este o seu papel, mas sofreram tais opiniões e admitiram as teorias ensinadas em seu tempo. Na época em que o cristianismo lançou seus primeiros fundamentos, durante os séculos de lutas que sucederam ao apostolado evangélico, e até o estabelecimento definitivo, pelos Concílios, das verdades fundamentais da fé cristã, foi o sistema de Ptolomeu que representou o sistema do mundo. Não se tinha nenhuma noção do espaço, nem do tempo.
Acreditava-se medir a altura do céu dizendo, com Hesíodo, que uma bigorna, caindo do céu, levaria nove dias e nove noites para chegar a Terra, e outro tanto para chegar aos infernos. Achava-se singular que um filósofo ousasse afirmar
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.