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Capítulo 19 de 46

Os Céus — parte 2 de 2

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

Lembremo-nos de início que, para facilitar a indicação do brilho das estrelas, elas foram classificadas por ordem de grandeza, segundo este mesmo brilho. Sabe-se que esta denominação de grandeza não se aplica às dimensões das estrelas, que nos são desconhecidas, mas somente a seu brilho aparente, e que (em tese) as estrelas que nos parecem menores devem ser consideradas as mais distantes. Ora, contam-se, nos dois hemisférios, 18 estrelas de primeira grandeza, 60 de segunda, perto de 200 da terceira. Vemos que a progressão é rápida. A quarta grandeza encerra 500 estrelas, a quinta, 1.400, a sexta 4.000. Aqui se interrompe o número das estrelas visíveis a olho nu; mas a progressão continua na mesma relação além deste limite e aumenta da mesma maneira, à medida que consideramos as menores grandezas. — Pode-se imaginar mais facilmente este crescimento, se se reflete que as estrelas nos parecendo, como já o dissemos, tanto menores quanto mais afastadas estão da Terra, o círculo ou a região que elas ocupam em relação à Terra abarca tanto mais espaço quanto esse círculo está afastado de nós. — Além da sexta, contam-se ainda dez grandezas de estrelas visíveis apenas ao telescópio.

Para dar uma idéia do crescimento numérico dessas estrelas, diremos que a oitava grandeza contém 40 mil; a nona, 120 mil; e a décima, 360 mil. A progressão continua... Arago contava 9 milhões e 566 mil estrelas da décima terceira grandeza; 28 milhões e 697 mil da décima quarta, e avaliava em 43 milhões o número total das estrelas de todas as grandezas visíveis até a décima quarta. Para as dezesseis grandezas, pode-se já avaliar numericamente a cifra em 75 milhões de estrelas visíveis; e talvez se eleve a 100 milhões. (1) Este número é a soma da seguinte progressão geométrica: 18+18.3+18.32+18.33+18.34+18.35+18.36+18.37+18.38+18.39+18.310+18.311+18.312+18. 313. É o número de astros visíveis, quer dizer, daqueles que estão próximos o suficiente das regiões do espaço em que estamos, para que os seus raios possam chegar até nós. Além deles, o número continua a crescer, nas regiões do invisível.

Compreender-se-á facilmente perante esse quadro, e reportando-se às distâncias recíprocas das estrelas disseminadas pela imensidão, que a luz de certas estrelas emprega 1.000, 10.000, 100.000 anos para chegar até nós, mesmo percorrendo 75 mil léguas por segundo. Pérolas esplêndidas incrustadas no imenso e móvel escrínio da gravitação, sob os liames dessa lei universal, as estrelas vão planando pelos espaços, filhas de uma mesma nação, irmãs de uma mesma família. Aqui nós as vemos aglomeradas aos milhares e suspensas no espaço como um arquipélago de ilhas flutuantes; mais longe, reunidas em sistemas siderais, erguer-se ou descer juntas em redor de um centro invisível. Um grande número de estrelas — cerca de uma em quarenta —, que parecem simples a olho nu, ou no campo visual de uma luneta comum, descobriu-se que eram duplas, quando se dirigiu sobre elas o olho penetrante dos telescópios de Herschel, de Struve e de lord Rosse; e ali onde se percebia só um astro fixo nos céus, agora se estuda um sistema de dois sóis rolando juntos em torno de um centro comum de gravidade.

Da mesma maneira observou-se estrelas múltiplas, triplas e sistemas quádruplos de mundos. Estes sistemas são movidos, como o nosso, pela força de atração, e cada um dos sóis que os compõem pode ser visto como o centro de um grupo de planetas, cujas condições de habitabilidade devem ser muito diferentes das nossas, tendo em vista a coexistência de dois ou muitos focos caloríficos e luminosos, e às combinações variegadas de seus movimentos no espaço. As revoluções destes sóis em torno de seu centro comum de gravidade se cumprem em tempos muito diferentes, conforme os sistemas: um par, como o de epsílon de Hércules, gira em 34 anos e 6 meses; um outro, como o de gama da Virgem, em 175 anos; ainda um outro, o de epsílon do Aquário, emprega mais de 1.500 anos para percorrer sua órbita. Estes grupos binários são, para os mundos próximos deles, que podem observar seus movimentos, gigantescos relógios estelares marcando no céu períodos seculares perante os quais os anos da longevidade humana passariam desapercebidos. Que panorama soberbo se ergue perante nós, quando contemplamos esses sóis

distantes, fontes maravilhosas de um novo mundo de cores! Terras iluminadas por dois sóis diversamente coloridos, dos quais um resplandece como imenso rubi luminoso, e o outro como esmeralda límpida! Naturezas desconhecidas onde a púrpura reveste todas as coisas, onde a safira e o ouro se casam segundo a posição de um segundo ou um terceiro sol azul ou amarelo. Dias laranjas, dias verdes; noites iluminadas por luas coloridas, espelhos fiéis dos sóis múltiplos; aspectos estranhos, que nenhum conceito terreno poderia fazer surgir em nossa mente. Quem pode duvidar que os elementos desconhecidos com que a Natureza decorou esses astros longínquos; que as condições de existência que caracterizam seus planetas respectivos; que o modo de ação das forças cósmicas, do calor e da luz combinados de vários sóis; que a sucessão misteriosa de dias talvez sem noites e de estações indecisas; que a presença de vários focos elétricos, a combinação de cores novas e desconhecidas e a associação de tantas ações simultâneas não desenvolve na superfície desses mundos uma vasta e magnífica escala de vida, tipos inimagináveis para nós, que só conhecemos um ponto isolado do Universo?

Quem pode sonhar sobretudo que a harmonia destas esferas, que, nas regiões ignoradas, vibram como as nossas sob o sopro divino do grande Ordenador, tenha-se desenvolvido sem causa e sem objetivo nos desertos do vazio? E quem ousaria sustentar que esses imensos sóis só foram criados para girar eternamente um em torno do outro?

Nebulosas 1. Nebulosa da Virgem. - 2. Nebulosa dos Cães de Caça. - 3. Acúmulo do Tucano

Digamos agora que a maior parte das estrelas que vemos no Céu, e especialmente aquelas que pertencem à Via Láctea ou que se encontram nas regiões vizinhas, formam um mesmo conjunto, um mesmo grupo, designado em astronomia estelar sob o nome de nebulosa. Nosso Sol — e conseqüentemente a Terra com os outros planetas — pertence ele mesmo a esta enorme aglomeração de astros semelhantes a ele, aglomeração da qual as camadas equatoriais se projetam em nosso céu sob a forma de uma vasta faixa luminosa que cruza a esfera estrelada; ela está situada perto do meio desta camada de estrelas, não longe da região em que ela se bifurca em dois ramos; ele ocupa assim uma parte central da Via Láctea. Se se quer saber quantos sóis há só neste plano equatorial perto de cujo meio estamos, diremos que avaliando essa porção do céu com o auxílio de seu grande telescópio, William Herschel via passar no curto intervalo de um quarto de

hora, e num campo de quinze minutos de diâmetro (um quarto da superfície aparente do Sol), o número prodigioso de 116 mil estrelas; e que aplicando estes cálculos à totalidade da Via Láctea, ele encontrou pelo menos 18 milhões de sóis. É o número que se contou na camada equatorial da nebulosa de que o nosso Sol é apenas uma unidade bem insignificante, e na qual nossa Terra e todos os planetas estão invisivelmente perdidos. Quanto à forma e à extensão desta nebulosa, considerar-se-á como um acúmulo de estrelas lenticular, achatado e isolado por todos os lados, com um comprimento de 5 mil vezes à distância da estrela mais próxima, quer dizer, mais de 40.000 trilhões de léguas.

Isto nos parece ser uma vasta e opulenta nebulosa, uma região estelífera mais rica em sóis que as minas da Terra em pedaços de hulha ou ferro; esse imenso aglomerado de estrelas nos parece ser a mais bela riqueza da criação, para não dizer de toda a criação; no entanto, nosso julgamento aqui é apenas o resultado do hábito que temos de tudo relacionar às grandezas mesquinhas de nosso pequeno mundo. Esta é uma ilusão que importa abandonarmos reconhecendo que, longe de ser a única no Universo, esta nebulosa é apenas a humilde companhia de uma multidão de outras não menos esplêndidas, que constelam tão brilhantemente, e talvez mais, as regiões etéreas. Há no céu um grande número de vias lácteas semelhantes à nossa, afastadas a tais distâncias que se tornam imperceptíveis a olho nu. Se se perguntar a que distância a nossa deveria ser transportada daqui, para nos oferecer o aspecto de uma nebulosa ordinária (subtendendo um ângulo de 10'), responderíamos, com Arago, que seria preciso se afastar a uma distância igual a 334 vezes o seu comprimento.

Ora, este comprimento (mencionado acima) é tal que a luz emprega mais de 15 mil anos para cruzá-lo. À distância de 334 vezes esta dimensão, nossa nebulosa seria vista da Terra sob um ângulo de 10', e a luz empregaria, para chegar até nós, 334 vezes 15 mil anos, ou 5 milhões e 10 mil anos: um pouco mais de 5 milhões de anos. Tal é, provavelmente, a distância de muitos aglomerados de estrelas que estudamos no campo visual de nossos telescópios.

O espaço está salpicado de nebulosas tão afastadas da nossa, malgrado a extensão incomensurável que elas ocupam, que a luz dos sóis que as compõem só chega até nós depois de milhões de anos de viagem incessante a 75 mil léguas por segundo, e os instrumentos mais aperfeiçoados só as mostram a nós sob a forma de manchas esbranquiçadas perdidas no fundo desse espaço insondável (1). (1) Só podemos aqui fazer aflorar este vasto assunto. Acreditamos útil acrescentar, na intenção daqueles que se interessam pelos mistérios do céu, que encontrarão a exposição completa das últimas descobertas da astronomia sideral em nossa obra l'Astronomie populaire, bem como a reprodução exata, por meio de desenhos, de astros e objetos celestes tais como são mostrados atualmente pelos mais potentes telescópios. (Nota da 27ª edição.)

Quando imaginamos o número das estrelas, as distâncias que as separam umas das outras, a extensão das nebulosas e seu afastamento recíproco; quando se tenta ver claramente nesta imensidão sem nome; quando, além dos mundos, encontram-se sem cessar outros mundos, e quando, além destes, novas criações se ajuntam sem fim às precedentes; quando, perante nós, átomos, vemos o infinito se entreabrir... sentimos estremecer a alma no fundo do ser, e perguntamo-nos, com uma curiosidade ingênua e terrificada, o que é um tal Universo, que cresce à medida que nossos conceitos sobre ele aumentam, e que, mesmo que esgotássemos toda a série dos números para exprimir sua grandeza, se encontraria ainda infinitamente acima, e englobaria todas as nossas aproximações, como o faria o oceano com um grão de areia que cai e se perde nas águas. E em nossa mente que se encontram os limites; o espaço não sofreria com isto.

E quando nossas pesquisas nos levassem aos últimos limites das apreciações possíveis, e acreditaríamos conhecer o conjunto das coisas, este conjunto seria maior ainda, sempre maior, tão inacessível às concepções de nossa alma quanto o mundo sideral era de início inacessível à observação de nosso olhar. As últimas nebulosas que o olho penetrante do telescópio pode atingir, e que estão perdidas, pálidas e difusas, numa distância incompreensível, jazem nos limites extremos das regiões visitadas por nossos olhares, e

parecem terminar nestes confins as celestes maravilhas. Mas ali onde se detém a nossa vista, auxiliada mesmo pelos recursos mais poderosos da óptica, a criação se desenrola ainda majestosa e fecunda, e onde se abate o arrojo de nossas idéias fatigadas, a Natureza, imutável e universal, desdobra sempre sua magnificência e seus paramentos. Em torno da Terra, além do espaço onde estão perdidos os olhares pasmos dos mortais, além dos céus dos céus, o próprio espaço se renova, se renova sempre; ao espaço se sucede o espaço; à imensidão se sucede a imensidão; o poder criador desenvolve lá como cá o turbilhão incompreensível da vida, e incessantemente, através das regiões sem limites, sem elevação e sem profundeza do Universo, se sucedem os sóis e os mundos... Nosso impulso pode prolongar-se assim ao infinito...

Além dos limites mais distantes que nossa imaginação, recuando sem cessar, possa designar a essa natureza inconcebivelmente produtiva, a mesma imensidão e a mesma natureza existem sempre, sem nenhum fim possível, e encontramos no infinito, senão uma renovação de Mundos cheios de riqueza e de vida, ao menos um espaço sem limites onde estas flores do céu podem eclodir e se desenvolver: é o império do próprio Deus, no qual não podemos encontrar limites, mesmo que vivêssemos a eternidade para levar nossas investigações além de toda expressão imaginável!.. Leitor, detenhamo-nos; exprimamos aqui francamente a idéia que fazemos da Terra... Ah! Se nossa vista fosse penetrante o bastante para descobrir, ali onde só distinguimos pontos brilhantes no fundo negro do céu, os sóis resplandecentes que gravitam pelo espaço e os mundos habitados que os seguem em seu curso, se nos fosse dado abranger num relance geral esses milhares de sistemas-solidários, e se nós, avançando com a velocidade da luz, atravessássemos durante séculos de séculos esse número ilimitado de sóis e de esferas, sem nunca encontrar fim para esta imensidão prodigiosa onde a Natureza fez germinar os mundos e os seres; voltando nossos olhares para trás, mas não sabendo em que ponto do infinito encontrar esse grão de poeira que se chama de Terra, nos

deteríamos fascinados e confundidos por um tal espetáculo, e unindo nossa voz ao concerto da natureza universal, diríamos do fundo de nossa alma: Deus todo-poderoso! Como fomos insensatos ao crer que não há nada além da Terra, e que nossa pobre morada tenha, só ela, o privilégio de refletir tua grandeza e teu poder!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.