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Capítulo 6 de 46

Estudo Histórico — parte 4 de 4

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

"As mais famosas mentes do passado o creram, e algumas do nosso, forçadas pela aparência da razão humana; tanto que, nessa construção que vemos, não há nada que seja só e único, e todas as espécies se multiplicaram em algum número, pelo que não parece verossímil que Deus tenha feito essa única obra sem comparação e que a matéria dessa forma esteja toda esgotada nesse único indivíduo". (1)

(1) Essais de Michel de Montaigne, livro, cap. XII. "Sou de opinião", escrevia no final do século passado um outro pensador, filósofo célebre; (2) "sou de opinião", dizia ele, "que nem mesmo há necessidade de sustentar que todos os planetas são habitados, pois negálo seria um absurdo aos olhos de todos ou ao menos aos olhos da maioria. No império da natureza, os mundos e os sistemas são apenas a poeira dos sóis, em face da criação inteira. Um planeta e muito menos em relação ao Universo que uma ilha em relação ao globo terrestre. Em meio a tantas esferas, não há paragens desertas e desabitadas, senão aquelas impróprias a conter os seres racionais que estão no escopo da natureza. Nossa Terra mesmo existiu talvez mil ou maior número de anos antes que sua constituição lhe tenha permitido se guarnecer de plantas, animais e homens." (2) Emmanuel Kant, Allgemeine Naturgeschichte und Theories des Himmels, parte III.

"É possível crer", acrescentava mais tarde L. C. Despréaux, “que o Ser infinitamente sábio teria ornado a abóbada celeste com tantos corpos de tão prodigiosa grandeza só para a satisfação de nossos olhos, só para nos proporcionar um cenário magnífico? Teria ele criado sóis inumeráveis unicamente a fim de que os habitantes de nosso pequenino globo pudessem contemplar no firmamento aqueles pontos luminosos, dos quais mesmo a maior parte é tão pouco notada por nós e completamente imperceptível? Não se poderia fazer uma tal idéia se considerar que há por toda a natureza uma admirável harmonia entre as obras de Deus e os fins a que ele se propõe, e que, em tudo o que ele fez, tem por objetivo não somente a sua glória, mas ainda a utilidade e o prazer de suas criaturas. Teria ele então criado astros que podem dardejar seus raios até a Terra sem ter também produzido mundos que possam desfrutar de sua benigna influência?

Não: esses milhões de sóis têm, cada um, como o nosso sol, seus planetas particulares, e entrevemos ao nosso redor uma multidão inconcebível de mundos servindo de moradia a diferentes ordens de criaturas, e povoados,

como nossa terra, de habitantes que podem admirar e celebrar a magnificência das obras de Deus. (1)”. (1) Louis Cousin-Despreaux, Leçon de la Nature présentées a I’esprit et au coeur, livro VIII, Considération 321-325. Eis aí o que pensavam os filósofos de todas as escolas, de todas as crenças: Montaigne, o homem simples, "de coração aberto e boa-fé"; Kant, o pai da filosofia alemã; Cousin-Despréaux, um dos representantes da filosofia cristã, de quem os Bonald e os de Maistre viriam a ser os corifeus. Nosso estudo histórico degeneraria em relato de fastidioso comprimento se continuássemos a citar assim as numerosas peças que temos sob os olhos em apoio de nossa tese, e já devemos ser gratos ao leitor que houve por bem acompanharmos até aqui nesta obra.

Receamos ter apresentado citações por demais numerosas, citações que passam geralmente sob os olhos como os quadros de uma longa galeria, e que fatigam sem interessar nem instruir; mas ativemo-nos essencialmente a colocar na frente de nossa doutrina as autoridades previamente citadas. - Pode-se ver, todavia, que, malgrado seu número, os filósofos que citamos são os mais sérios, e não falamos das mil criações de mundos imaginários que poetas, romancistas ou sonhadores inventaram em todas as épocas. Ariosto, por exemplo, em seu Orlando furioso, imaginou sobre a Lua um vale onde poderíamos reencontrar, depois de nossa morte, as idéias e as imagens de todas as coisas que existem sobre a Terra; Dante, na sua epopéia da Idade Média, visita as almas que habitam as sete Esferas; é o último hino cantado em honra da predominância terrestre no sistema da criação; Marcelo Palingenius descreve muito seriamente em seu Zodíaco o mundo Arquétipo que ele supõe existir num lugar do espaço, assim como Platão colocara o teatro de sua República na misteriosa Atlântida; Hermes Trismegïsto distingue quatro mundos, o Arquétipo, o Espiritual, o Astral e o Elementar; Agrippa, em sua Filosofia oculta, descreveu seis, etc.; a imaginação dos metafísicos foi mais fecunda que a dos poetas para multiplicar os mundos quiméricos. (1) - Devemos encerrar aqui a história da pluralidade dos mundos; vamos terminá-la

coroando-a com algumas palavras que emitiram sobre o mesmo assunto dois dos mais ilustres astrônomos, astrônomos que não se acusará, certamente, de parcialidade pelas idéias místicas ou concepções imaginárias. "A ação benfazeja do sol", disse Laplace, (2) "faz eclodir animais e plantas que cobrem a Terra, e a analogia nos leva a crer que ela produz efeitos semelhantes sobre os outros planetas; pois não é natural pensar que a matéria, cuja fecundidade vemos se desenvolver de tantas maneiras, seja estéril num planeta tão grande como Júpiter, que, como o globo terrestre, tem seus dias, suas noites, seus anos, e no qual as observações indicam mudanças que pressupõem forças muito atives... O homem, feito para a temperatura que goza na Terra, não poderia, segundo todas as aparências, viver nos outros planetas. Mas não deve haver uma infinidade de organizações relativos às diversas temperaturas dos globos e dos universos'?

Se a única diferença de elementos e climas impõe tantas variedades nas produções terrestres, o quanto deveras diferir as dos planetas e dos satélites!" (1) Ver nossa obra: Les Mondes imaginaires et les Mondes réels, 2ª parte. (2) Exposition du Système du Monde, cap. VI. "Com que objetivo", exclama sir John Herschel, "com que objetivo devemos supor que as estrelas tenham sido criadas e que corpos assim magníficos tenham sido dispersos na imensidão do espaço? Isto não foi, sem dúvida, para iluminar nossas noites, objetivo que poderia ser melhor satisfeito por mais uma lua, que fosse a milésima parte da nossa, nem para brilhar como um espetáculo vazio de sentido e de realidade, e nos iludir em suas vãs conjeturas.

Esses astros são, é verdade, úteis ao homem como pontos de referência, aos quais pode tudo referir com exatidão; tuas seria preciso ter tirado bem pouco fruto do estudo da astronomia para poder supor que o homem seja o único objeto dos cuidados de seu Criador, e para não ver, no vasto e desconcertante aparato que nos cerca, moradas destinadas a outras raças de seres vivos. (1) (1) Sir John Herschel, Outilines of Astronomy. cap. XIII, § 592. — Este ilustre astrônomo nos escrevia, em 1863, a propósito da primeira edição do presente livro: "Num tema desta

natureza, cada um deve ser levado a tirar as probabilidades a priori da questão, e basear nisto a sua opinião. De minha parte, embora não pense que a Lua em particular seja habitada, sinto-me fortemente levado para o lado que o senhor defendeu: a crer que os planetas, ou ao menos muitos entre eles, são habitados." Esta exposição histórica nos preparou para um exame judicioso de nossa doutrina e nos deu o ensinamento sobre o qual é útil nos determos: que os homens eminentes de todas as eras, iniciados nas operações da natureza, impressionaram se profundamente com sua fecundidade prodigiosa, e compreenderam a demência dos que a circunscrevem a nossa única morada. Se a autoridade do testemunho e a concordância das opiniões são a base da certeza histórica, a doutrina que defendemos apóia-se sobre um argumento inviolável, que já contentou há muito tempo em física, astronomia e filosofia, e que ainda hoje serve de base a maioria de nossos conhecimentos.

Mas não ignoramos que quando se trata de doutrinas especulativas, bem como das ciências da observação, o grande número ou mesmo a gravidade das opiniões e testemunhos não são garantia suficiente da verdade dessas doutrinas, e que é preciso saber usar largamente o exame da razão e só se render à evidência, ou pelo menos a certeza filosófica. Por isso contentar-nos-emos com a conclusão seguinte, para todos os fatos estabelecidos precedentemente: O estudo da natureza engendra e confirma na mente do homem a idéia da pluralidade dos mundos. Huygens dizia, há mais de cento e cinqüenta anos: "Homens que jamais tiveram qualquer tintura de geometria ou das matemáticas crerão apenas que há vaidade e ridículo no desígnio que nos propomos; e lhes parecerá que é coisa incrível que possamos medir a distância dos astros, seu tamanho etc. Que responder a eles? Se se tivessem outra opinião, se tivessem se aplicado a essas ciências e a contemplar a disposição das obras que se encontram na natureza.

Um grande número de homens não pôde aplicar-se nisso, seja por sua falta de disposição, seja por falta de oportunidade, seja enfim porque foram desviados disso por alguma razão. Não os censuramos de nada; mas também, se imaginam que se deve condenar o cuidado com que nos dedicamos a tais pesquisas, apelamos ajuízes mais instruídos."

Repetimos ainda hoje estas palavras, dirigindo-as indiretamente, por intermédio de nossos leitores, àqueles que fazem objeções a todo e qualquer estudo que lhes pareça novo. Há os que objetam que essas são coisas das quais Deus reservou para si o segredo, que ele não quis que conhecêssemos: esta objeção cai e desaparece por si mesma perante a história triunfante das ciências. Outros ainda pensam que nossos cuidados tendem a pesquisas inúteis: a estes perguntamos quem conhece melhor a importância relativa e o valor real de seu país, se é aquele que pode compará-lo a outras nações que visite e estude, ou quem fica adormecido em sua aldeia natal: e se vale mais viver na ignorância ou procurar saber o que é a Terra e o que somos nós.

Poderemos agora abordar diretamente uma das questões mais curiosas, mais interessantes e mais importantes de toda a filosofia; poderemos explorar esta questão sob todas as suas facetas, a fim de não sermos reduzidos a probabilidades que nada têm de sólido, mas adquirir, ao contrário, uma convicção profunda; poderemos expor as causas que a colocam em evidência e só apoiar nossas demonstrações sobre os dados positivos da ciência; poderemos, enfim, pisotear aquela antiga e pretensiosa vaidade do espírito humano, que fazia vãmente rebrilhar sobre nossas testas a coroa da criação; preferindo aprofundar nosso nada para melhor fazer brilhar a majestade do Universo, ao invés de nos colocarmos orgulhosamente, nós, miseráveis pigmeus, de pé, ao lado daquele gigante incomparável que nomeamos Poder criador. Vamos pois, na parte astronômica que se seguirá, considerar sucessivamente o conjunto do sistema solar e dos astros que o compõem, as analogias e dessemelhanças que reúnem ou distinguem os mundos entre si, as condições de existência que os caracterizam e no grau de habitabilidade de nosso globo.

Examinaremos a seguir, sob o aspecto da extensão, as órbitas planetárias e suas posições no espaço: a excessiva exigüidade da Terra nos mostrará que ela só acrescenta uma flor bem pálida e pobre ao rico canteiro da criação, e que o universo físico não perderia, com sua

desaparição, o mesmo que ela mesma não perderia com a desaparição de um grão de poeira ou de uma gota d'água. Segundo este duplo ponto de vista, a habitabilidade dos mundos e a exigüidade da Terra, surgirão conclusões que elevarão a certeza filosófica a idéia da Pluralidade dos Mundos, vista até hoje como simples possibilidade. Erguendo-se de vaga possibilidade a probabilidade racional, e depois a certeza, a opinião da vida universal tornar-se-á doutrina e transformara radicalmente para nós a concepção do Universo.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.