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Capítulo 27 de 46
A Humanidade no Universo — parte 8 de 11
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
Se a forma que reveste transitoriamente as inteligências encarnadas sobre cada um dos mundos pode variar segundo o estado natural desses mundos, não ocorre o mesmo com o senso moral íntimo, que dá a cada consciência humana seu caráter de criatura responsável. O revestimento exterior dos seres, o aspecto físico do Universo, submetem-se às forças da matéria, cujas manifestações nada têm de absoluto, não têm mais que uma existência contingente, e suportam todas as vicissitudes às quais a própria matéria está submetida. A unidade física do mundo pode existir em meio às transformações perpétuas dos corpos, e a variação incessante dos elementos materiais não impede o Cosmos de formar um conjunto ao mesmo tempo uno e contínuo. Mas para que a unidade moral da criação subsista, é preciso que todas as inteligências estejam ligadas à Inteligência suprema por laços indissolúveis.
Ora, podemos chegar a reconhecer que esses laços são formados pelos princípios fundamentais da estética, da metafísica e da moral, e que todas as almas humanas do espaço devem ter sobre esses princípios noções suficientes para se elevarem à verdade — noções mais ou menos claras ou confusas, segundo o grau de progresso dessas almas e dos mundos que elas habitam. Para isso, examinaremos nelas mesmas as idéias do Belo, do Verdadeiro e do Bem que estão em nós, e tentaremos distinguir o belo físico do belo ideal e conceber este último em sua realidade. Comecemos observando antes que, se a idéia do belo é a mais relativa das três idéias fundamentais de que falamos, já que em certos pontos liga-se à aparência dos seres, que nada tem de absoluto, podemos encontrar em nós mesmos, contudo, alguns princípios irredutíveis que formam a base de nossas concepções e oferecem os caracteres de absoluto e universal. Vejamos de início como a idéia do belo é relativa, ao estar ligada aos objetos exteriores. Tomemos, como antes, a natureza terrestre como exemplo e base de nossos raciocínios. Alguns instantes de excursão etnológica bastarão para nos mostrar que diferença separa as diversas apreciações do belo em cada
povo do mundo, e para estabelecer que tais apreciações constituem uma relatividade e não um absoluto. Nós temos sob os olhos o tipo da beleza grega, a circassiana no esplendor de sua graça e perfeição, seja a Vênus de Dresden ou a do Capitólio, vemos o tipo chinês de beleza, essa mulher supernutrida de pés ridiculamente falsificados; juntemos a este grupo a Vênus hotentote que todos podem ver em Paris, essa criatura horrorosa e repugnante da qual desviamos o olhar com aversão, e julguemos o intervalo enorme que separa a apreciação da beleza nas três raças, branca, mongólica e africana. Ocorre o mesmo com todos os detalhes do gosto. Os xeques das tribos africanas acham bonito tatuar a pele, cobrir-se de plumas e conchas, pendurar argolas no nariz, cortar a parte superior das orelhas etc. Os habitantes do Taiti amassam o nariz e tingem os cabelos de vermelho. Para que uma jovem seja apresentável entre os botocudos da América, é preciso que quebre os dentes incisivos do maxilar superior.
Ainda há mais, entre os negros que habitam perto das nascentes do Nilo: toda mulher, para ser bonita, deve ser tão gorda que só possa se movimentar de quatro. Muitos habitantes da Índia alongam a boca em forma de bico, e põem cravos de madeira no lábio inferior. Os cingaleses mascam bétele para manter os dentes pretos, e os dentes brancos lhes inspiram aversão; ocorre o mesmo entre os javaneses, que não querem ter os dentes "brancos como os dos cães", etc., etc. A lista seria comprida, se quiséssemos passar em revista todos os caprichos do gosto que, de acordo com os povos e as idades, constituíram sucessivamente a moda de beleza do momento. Acabamos de pronunciar uma palavra que caracteriza suficientemente o valor caprichoso de certas apreciações do belo. De fato, nada é mais instável que a moda, e nada está sujeito a tantas eventualidades e variações.
E se levou-se a ver, nos exemplos precedentes, o índice de gostos iniciais, ainda não formados, e que não podem ser tomados por julgamentos verdadeiros, porque pertencem a povos menos avançados que nós, apresentaríamos aqui nossas próprias apreciações que constituem a moda de cada ano, e perguntaríamos se é possível imaginar algo de mais mutável,
mais incerto que essa moda. É bem o caso de dizer, com Pascal: verdade para cá dos Pirineus, erro do lado de lá. Tudo de que a nação era entusiasta há dez anos é julgado ridículo hoje em dia, e voltará à cena algum dia para gozar de seu renome primitivo. O que os alemães admiram passa por detestável deste lado do Reno. E a forma, a cor, a natureza, tudo muda de uma latitude para outra. Sem dúvida não é preciso tomar como exemplos do belo esses que nos são oferecidos pelas raças inferiores e primitivas; devemos ainda menos procurar, com Jean-Jacques, a idéia natural do belo no estado selvagem; devemos reconhecer, ao contrário, que apreciações deste gênero são tão mais justas e verdadeiras quanto os povos sejam mais avançados no cultivo das coisas do espírito, e que nosso belo é realmente mais digno deste nome que aquele das grosseiras tribos africanas.
Mas é precisamente esta graduação que põe em evidência a relatividade deste belo de convenção, pois este é sempre suscetível de um aperfeiçoamento, e se aperfeiçoa, de fato, na medida em que nosso ideal é mais depurado; e tanto devemos admitir essa relatividade, que seria pouco lógico fixar nossa beleza como representando o tipo superior e o limite da beleza física, e devemos conceber entre as ordens superiores à nossa outras imagens de beleza mais elevadas que a nossa. Nós mostraremos daqui a pouco como todos os nossos julgamentos sobre o belo só podem se aproximar da verdade à medida que nos aproximemos nós mesmos da noção do belo ideal absoluto, e que a beleza física não tenha características absolutas além das que possa extrair da beleza espiritual. Digamos antes, por um exemplo em relação direta com nosso tema, como essa beleza física é essencialmente relativa. A arte cujo objeto nos é mais intimamente ligado é a estatuária, que tem por objetivo a representação de nosso próprio ser. Tomemos então essa arte como exemplo, e, mais ainda, escolhamos suas obras-primas. Eis, de um lado, o Apolo do Belvedere, em frente à Vênus dos Médici: duas composições consideradas com justiça os modelos do belo na arte.
Contemplemos essas duas estátuas humanas. Na primeira, resplandece a juventude eterna de um deus; essa fronte é a sede do pensamento; essa atitude é cheia de majestade e de grandeza; esse corpo é animado por um espírito celeste que circula nele docemente. Esse deus tem a tranqüila convicção de seu poder; sua flecha mortal penetrou a serpente Píton: cheio de felicidade com sua vitória, seu olhar augusto parece já tê-la esquecido, e se perde ao longe no infinito. Mas como é admirável essa Vênus, mesmo ao lado do belo corpo de Apolo! Quanta graça nesse olhar, quanta harmonia, quanta suavidade nesses contornos ondulantes! Um reflexo divino a ilumina; parece que, como no dia de Pigmalião, as rosas vão colorir essa carne; o sorriso brota em seus lábios, e o frêmito da vida circula sob suas formas deslumbrantes. De todas as obras de arte, essas duas que acabamos de observar são as que nos parecem oferecer em mais alto grau as características da beleza absoluta.
Um julgamento imparcial, no entanto, nos esclarecerá melhor sobre esse gênero de beleza, e nos mostrará que, como toda a beleza física, esta ainda é relativa. Ela representa o modelo de beleza na Terra. De acordo. Mas tudo o que é absoluto é por isso mesmo imutável e universal: vamos ainda um pouco mais longe, e examinemos se esse Apolo e essa Vênus poderiam viver em outros mundos. Sabemos há muito tempo que nosso modo de existência está intimamente ligado à nossa morada, e não poderia ser transplantado a outras regiões do espaço sem sofrer enormes modificações orgânicas. Esses dois seres atraentes no clima temperado de Atenas ou de Roma, que viveriam com tanta dificuldade ao sol abrasador da África central ou nos gelos da Sibéria, e que perderiam nessas regiões toda a sua graça e beleza, seriam, com mais razão, totalmente incapazes de suportar as condições estranhas a que teriam de se submeter, transportados a outras residências?
Feitos para viver sobre a Terra, sua organização física está em correlação com o estado de nosso mundo, e é precisamente isso que constitui sua beleza; mas o que se tornariam no tórrido calor de Mercúrio, que os abateria
instantaneamente, e no frio de Urano, que lhes congelaria o sangue nas veias? Como agiria o mecanismo de seus pulmões numa atmosfera cem vezes mais densa que a nossa ou num meio cem vezes mais rarefeito? — Ora, mudados os pulmões, nossa caixa torácica muda, e com ela a forma de nosso corpo. Para que serviriam seus dentes, seu aparato de nutrição e todos os órgãos que servem à nossa alimentação diária, lá onde se fosse puramente herbívoro, ou puramente carnívoro, ou nem uma coisa nem outra, e onde as funções vitais não tivessem qualquer característica em comum com as nossas? Ora, se o aparelho digestivo muda, o resto de nosso corpo muda ao mesmo tempo. Nossos olhos são construídos para distinguir os objetos próximos, com os quais estamos em relação perpétua; para que serviriam, onde nosso trabalho não se exercesse sobre objetos desse tipo, onde viajássemos nos planos do ar ou sob as ondas do oceano? Questões semelhantes podem referir-se a todos os órgãos de nosso corpo.
Que se responderia se levantássemos além disso o enigma dos sentidos, que põem nossa alma em relação com o mundo exterior? Aqui, nós temos cinco sentidos que satisfazem nossas necessidades de percepção, e que, completando-se uns aos outros, formam a unidade de nossa sensação. Outros seres só têm quatro sentidos, outros têm três, dois, ou são totalmente desprovidos deles: esses seres não deixam de ter um sistema completo em si mesmo, mas muito inferior ao nosso, pois não pode lhes dar mais que uma parte das percepções que nos são acessíveis. Mas é possível que um sexto sentido, do qual não podemos fazer a menor idéia, dê a outros seres uma nova superioridade sobre nós mesmos, um sexto sentido que os coloque em comunicação íntima com certas propriedades naturais que nos são desconhecidas. Quanto ao físico ou à moral, então, não temos nenhuma razão para acreditar que a gradação pára conosco: tudo nos leva a pensar o contrário.
Todas as respostas que podemos nos dar às questões baseadas em nossa natureza física estabelecem unanimemente que a beleza da Terra não é a beleza dos outros mundos. Em cada um deles há um Apolo e uma Vênus
típicos; mas a beleza desses seres seria incompreendida por nós, como a nossa o seria por eles. A beleza física é portanto essencialmente relativa. Isso não quer dizer que não exista; há um abismo entre não existir e existir relativamente; mas isso quer dizer que não devemos nos deter nessa beleza como diante do absoluto, pois sempre e possível imaginar alguma beleza mais perfeita: entre ela e a beleza absoluta, há a mesma diferença que entre o finito e o infinito. A beleza absoluta é a beleza espiritual, a beleza intelectual, a beleza moral; qualquer que seja o seu nome, ela está no fundo de nossas consciências como o princípio da idéia do belo, como o ideal do qual se aproximam mais ou menos as belezas finitas que nossos sentidos percebem. Esse ideal é a medida e a regra de todos os nossos julgamentos sobre as belezas particulares; e se estabelecemos graus entre as diversas belezas, é porque nós comparamos, mesmo sem o sabermos, essas belezas de que essa comparação nos faz juízes.
Esse princípio irredutível está em nós com seu caráter absoluto, e nada pode fazer com que não esteja. Mais ou menos velado por nossa inferioridade, mais ou menos visível sob nossa educação moral, ele julga, mesmo que nós queiramos lhe impor silêncio, e julga não apenas o valor de nossas idéias mas também o daquelas de todos os homens. E logo que um fato moral, submetido a nosso julgamento íntimo, é declarado belo em si mesmo, nós o temos por belo, ainda que outros homens afirmem que lhe são indiferentes. Tomamos um exemplo nos fatos da ordem moral como o fizemos nas obras da ordem física. Durante um episódio da vergonhosa guerra que a Rússia travou contra a Polônia, ocorreu um fato que denota uma coragem sobre-humana. As hordas russas haviam mergulhado em fogo e sangue pobres cidadezinhas ao redor de Varsóvia; os habitantes que puderam ser atingidos pelo ferro do soldado haviam sido massacrados, as mulheres arrancadas de seus lares e
submetidas a ignóbeis ultrajes, as crianças deixadas nas neves para morrer. O resto da população que pudera escapar estava em fuga, com os cossacos em sua perseguição. Estes chegaram logo a um rio, além do qual perceberam os poloneses em fuga; mas, não sabendo onde era o vau por onde pudessem atravessar, procuraram por algum camponês ocupado com a terra. Eles obrigaram o primeiro que encontraram a indicar-lhes o vau, sob pena de ser impiedosamente massacrado. Este lhes afirmou não ser da região e não conhecer o rio. Eles empregaram as ameaças e juntaram a ação à palavra; o polonês persistiu em sua afirmação. Perdendo então a paciência, eles lhe ordenaram, sob pena de morte imediata, que se atirasse à água, procurasse o vau e o indicasse a eles. O polonês mergulhou e procurou. Esgotado pela fadiga, encontrou afinal o lugar por onde se poderia atravessar a pé. Simulou então grandes esforços, como se a água tivesse se tornado mais profunda, afundou pouco a pouco, e se afogou para salvar seus irmãos.
Eis aí uma ação que declaramos bela em si mesma. Esse julgamento absoluto, nós o usamos em virtude do princípio que está em nós, e se qualquer um viesse nos dizer que tal ação não o toca nós tomaríamos sua palavra como mentirosa ou seu senso moral como invertido. Se nós raciocinamos desta forma, é porque aquela ação oferece um gênero de beleza que se liga ao nosso ideal de beleza absoluta. Raciocinamos da mesma forma com todos os gêneros de beleza que tocam à beleza intelectual, seja Vicente de Paulo socorrendo as crianças, ou Régulo, cumulado de honrarias em Roma, retornando a Cartago para morrer; a última palavra de Sócrates ao beber a cicuta ou aquela do divino Cristo sobre a cruz; seja Newton, pesando os mundos, ou Platão contemplando Vênus-Urano. A beleza física, a beleza sensível é então relativa, ao passo que a beleza ideal é absoluta; esta é o fundo, o princípio da primeira. Nenhuma das belezas que constituem o belo exterior nos satisfaz; são apenas o indício de uma beleza superior que é a beleza ideal. E esse ideal é tanto mais aparente
no fundo de nossa alma, tanto mais parece purificado, tanto mais completo, quanto mais somos elevados na esfera da inteligência; ele parece elevar-se e recuar à medida que nós mesmos nos elevamos; ele participa do infinito, pois seu termo está em Deus, princípio dos princípios. Todas as almas criadas, quer habitem a Terra ou outras moradas, estão unidas pelos mesmos princípios irredutíveis da beleza ideal, pois esses princípios possuem os caracteres do absoluto e do universal. Se o belo nos objetos difere conforme os mundos; não é assim com o belo no espírito do homem; este é uma noção necessariamente universal. Ele constitui, como veremos, com os princípios da verdade e do bem absolutos, o laço moral que liga à Inteligência primeira todas as inteligências criadas. Em todas as terras habitadas do espaço como na nossa, as almas humanas podem dizer com Platão (1) essas palavras inspiradas: (1) O Banquete, discurso de Diotimo.
"Beleza eterna, não engendrada e imperecível, isenta de decadência como de crescimento, que não é bela em uma parte e feia em outro, bela somente em tal tempo, em tal lugar, em tal relação; bela para esses, feia para aqueles; beleza que não tem forma sensível, um rosto, mãos, nada de corporal; que também não é tal pensamento ou tal ciência em particular, que não reside em nenhum ser diferente dela mesma, como um animal, ou a terra, ou o céu, que é absolutamente idêntica e invariável por si mesma, da qual todas as outras belezas participam, de maneira contudo que seu nascimento ou sua destruição não lhe acarrete nem diminuição, nem crescimento, nem a menor mudança.
Para chegar a ti, beleza perfeita, é preciso começar pelas belezas de aqui embaixo, e, os olhos fitos na beleza suprema, elevar-se sem cessar, passando, por assim dizer, por todos os graus da escala, até que, de conhecimentos em conhecimentos, se chegue ao conhecimento por excelência, que não tem outro fim que não o próprio belo, e que se acaba conhecendo tal como é em si... Qual não seria o destino de um mortal a quem fosse dado contemplar o belo sem mistura, em sua pureza e simplicidade, não mais revestido de carnes e cores humanas, e de
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.