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Capítulo 10 de 46
Grandeurs Comparees Des Planetes — parte 3 de 3
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
balbuciam na superfície de nosso globo! Assim, pois, como precedentemente, a Terra não recebeu nenhuma distinção da Natureza. (3) Diga-se de passagem, como dados estatísticos curiosos, que a população do globo terrestre é hoje de 1 bilhão e 400 milhões de habitantes. Esta soma se renova periodicamente em razão de 90.720 nascimentos e mortes por dia, o que dá mais ou menos um nascimento e uma morte por segundo (o número dos nascimentos supera um pouco o número de mortes). — Cada uma de nossas pulsações marca a morte de uma criatura humana e o nascimento de uma outra. As conclusões precedentes podem a fortiori estender-se às considerações que poderíamos desenvolver a respeito dos volumes planetários. É com dificuldade que podemos fazer uma idéia do mundo gigantesco de Saturno, quando ficamos sabendo que 800 globos do tamanho da Terra, reunidos em um só, não dariam ainda um volume igual ao deste planeta, sem considerar ainda seus vastos anéis nem seus numerosos satélites. Como então abraçar em nossas concepções o de Júpiter, que ultrapassa o nosso em 1.234 vezes!
E o do Sol, que representa, apenas ele, 1 milhão 280 mil globos terrestres? "Perante o aspecto dessas massas imponentes", exclamava Fontenelle, "como poderíamos imaginar que todos esses grandes corpos foram feitos para não serem habitados, que essa é sua condição natural, e que haveria uma exceção justamente em favor da Terra apenas? Quem quiser acreditar nisso, que o faça; quanto a mim, não consigo me resolver. Seria muito estranho que a Terra seja habitada, tal como é, e que os outros planetas não o fossem absolutamente... A vida está em todos os lugares; e mesmo que a Lua não seja mais que um amontoado de pedras, eu antes as faria roer por seus habitantes que não pôlos lá." Esta idéia burlesca lembra Cyrano de Bergerac, que, em seu livro nada científico, faz mui engenhosamente ressaltar o absurdo das opiniões que se nos opõem.
Nós o citaríamos mais de uma vez, se não receássemos abusar do tempo que o leitor quer conceder a nossas considerações; mas nós respeitamos este tempo, e vamos nos contentar com a seguinte passagem, que caracteriza particularmente a sua obra (1). "Seria tão ridículo crer", diz ele, "que a grande luminária do Sol girasse em torno de um ponto quanto
imaginar, quando se vê uma andorinha assada, que para prepará-la, a fogueira girou ao seu redor. Por outro lado, se o Sol tivesse de pensar nesse trabalho, pareceria a medicina tendo necessidade do doente; que o forte devesse se submeter ao fraco, o grande servir ao pequeno, e em lugar de um barco singrar as costas de uma província, a província é que giraria ao redor do barco... a maioria dos homens se deixou persuadir por seus sentidos, e girando junto com a Terra, no céu, acreditaram que era o céu que girava ao redor deles. Acrescentemos a isto o orgulho insuportável dos seres humanos, que se persuadem de que a Natureza foi feita só para eles, como se fosse possível que o Sol, um grande corpo 434 vezes maior que a Terra, (2) só tivesse se acendido para amadurecer suas nêsperas e para plantar seus repolhos! (1) Histoire des États et Empires de Ia Lune et du Soleil. (2) Cyrano escreveu sua Voyage dans la Lune em 1649, e alguns anos mais tarde sua Histoire des États du Soleil. Naquela época, ainda não se pudera medir exatamente a paralaxe do Sol, e as verdadeiras dimensões deste astro eram desconhecidas.
Tamanhos comparados do Sol e da Terra.
"Quanto a mim, bem longe de consentir com sua insolência, acredito que os planetas que giram ao redor do Sol são outros tantos mundos habitados, e suas estrelas fixas são outros tantos sóis que têm planetas ao seu redor, quer dizer, mundos que não vemos daqui por seu pequeno tamanho, e porque sua luz, refletida, não chega até nós. Como, de boa-fé, imaginar que esses globos tão espaçosos sejam grandes campos desertos, e que o nosso, só porque nós é que estamos aqui, tenha sido construído para uma dúzia de pequeninos soberbos? Quê! para que o Sol marque o compasso de nossos dias e anos, quer dizer, que só foi feito para que não déssemos com a cabeça contra as paredes? Não. Esse deus visível ilumina o homem quase como a tocha do rei ilumina o homem vulgar que passa pela rua." Esta última tirada, para dizer de passagem, é talvez um pouco à parte da verdade, mas em todo caso, ela se aproxima da verdade mais que a idéia oposta que combate.
Retornemos a nossos planetas: resta-nos ainda a considerar as densidades e as massas dos corpos planetários, e estas últimas considerações se unirão às precedentes para nos confirmar a opinião de que a Terra não recebeu nenhum privilégio particular da Natureza. Para fazer uma idéia aproximativa bastante razoável dessas densidades, vamos dá-las comparando às das substâncias conhecidas. Assim, a densidade do Sol é um pouco superior à da hulha, e a de Mercúrio, um pouco inferior à do estanho. A densidade de Vênus e da Terra é igual à do óxido de ferro magnético; Marte apresenta o peso do rubi oriental; Júpiter é um pouco mais pesado que a madeira de carvalho; Saturno temo peso do pinheiro, flutuaria na superfície da água como uma bola feita de madeira; Urano tem a densidade do lignito, e Netuno, a da faia.
Se observarmos agora que, a densidade da Terra sendo tomada por unidade, a menor (a de Saturno) será sete vezes inferior, e a maior (a de Mercúrio) um terço mais considerável, reconheceremos que a densidade do globo terrestre não é a mais baixa, nem a média, nem a mais elevada.
O estudo da interessante questão dos efeitos da gravidade na superfície dos diferentes globos de nosso sistema nos mostra que no Sol eles são 29 vezes mais intensos, e em Marte, a metade mais fracos que sobre a Terra. Por conseguinte, um corpo que percorra 4,90 m no primeiro segundo de queda na superfície terrestre, percorre 143,91 m sobre o Sol, e somente 2,16 na superfície de Marte. Estes são os dois termos extremos da intensidade da gravidade na superfície dos planetas. Quanto ao peso comparado dos corpos, em Mercúrio, este peso é um pouco mais elevado que na Terra; em Vênus, um pouco inferior. Em Júpiter, é quase três vezes mais forte que aqui; em Saturno, Urano e Netuno, difere pouco do que é na Terra. Por vezes as pessoas se espantam que os astrônomos possam calcular o peso dos corpos na superfície dos outros mundos. Para dar uma idéia da maneira como se faz este cálculo, diremos que este peso depende da massa do globo e de seu tamanho.
A atração que um astro exerce sobre os corpos colocados na sua superfície (é esta atração que constitui o próprio peso dos corpos) é tanto maior quanto for a massa do astro — em outros termos, é mais pesado; mas esta atração é tanto mais fraca quanto o astro for maior: ela diminui em função do quadrado da distância da superfície do globo a seu centro. Se tomarmos um exemplo, seja Júpiter, diremos: O volume de Júpiter iguala 1.234 vezes o volume da Terra; se os materiais constituintes deste globo fossem análogos em densidade aos da Terra, sua massa seria 1.234 vezes mais considerável que a da Terra, e a atração que exerceria sobre um corpo colocado a uma distância de seu centro, igual ao raio terrestre, seria 1.234 vezes mais forte que aquela exercida pela Terra sobre os corpos colocados na sua superfície. Só que os corpos colocados na superfície de Júpiter não estão situados a uma distância igual ao raio terrestre, mas a uma distância igual ao raio de Júpiter, o qual é onze vezes maior que o primeiro. Portanto, a atração que Júpiter exerce sobre um corpo colocado na sua superfície deve ser diminuída na relação do quadrado de 11, ou de 121 para 1.
Se aplicarmos este cálculo ao peso médio de um homem (70 quilogramas), transportado para a superfície de Júpiter, este peso será representado pela expressão [(70 .1234)]/121, quer dizer, 714 quilogramas. Mas supusemos, neste cálculo, que a massa deste astro fosse a mesma que a massa da Terra. Não é assim. Foi descoberto, por determinações fundadas no movimento de seus satélites, que este globo inteiro, malgrado seu enorme tamanho, só pesa 310 vezes mais que a Terra. E evidente com isto que, para um mesmo volume, a matéria de que Júpiter se compõe é mais leve que a matéria de que se compõe a Terra; ela está na relação de 310 para 1.234, ou cerca de quatro vezes menos densa. Em nosso exemplo, o peso encontrado, de 714 quilogramas, deverá, pois, ser reduzido segundo esta proporção, o que remete a 174. — Vemos que não é nem o triplo do peso ordinário de um homem sobre a superfície da Terra, e que em nossa própria morada há diferenças muito mais consideráveis entre nosso peso e o de certos animais mamíferos da mesma ordem zoológica que nós.
A densidade dos mundos e o peso dos corpos na sua superfície são, certamente, elementos muito importantes entre as analogias que associam os diversos planetas a Terra. Todos os seres organizados são constituídos segundo este peso relacionado a seu tipo de vida; uma certa soma de força corporal é necessária a todos. Esta força está, entre os animais, em harmonia com seu tamanho, peso, modo de agir e a quantidade de movimento que têm para dispender nas funções ordinárias da vida; ademais, ela está em relação com suas possíveis necessidades, e guarda para eles uma reserva, quando precisam aplicar uma maior soma de atividade, na corrida, no trabalho e nas diversas operações. Esta mesma força é igualmente necessária aos vegetais, a fim de que possam suportar seu próprio peso e resistir aos choques exteriores aos quais se expõem por todo lado. Ora, esta força corporal, em correlação com o peso, depende acima de tudo da atração do globo. A relação que existe entre a força e o peso dos animais e dos vegetais é, pois, o resultado de uma combinação inteligente entre a força dos seres organizados e a densidade do globo onde
vivem; a mais ligeira perturbação inverteria a ordem reinante e lançaria a desordem ali onde subsiste a harmonia. A intensidade da gravidade, que existe em diversos graus nos planetas, indica, pois, uma grande diversidade nos organismos dos seres que os habitam, e como estes organismos se encontram aqui em harmonia com esta intensidade devido a um estado da matéria anterior à organização, devemos concluir que a Natureza não se embaraçou muito para estabelecer nos outros globos seres cuja constituição esteja igualmente em harmonia com esta mesma intensidade nos mundos que habitam. Onde a gravidade difere em alto grau da terrestre, os seres diferem no mesmo grau em seu estado de energia, os efeitos desta grande força influindo de maneira notável sobre as leis da organização.
Para encontrar uma aplicação disto na Natureza terrestre, podemos observar que em nossos continentes não existem animais maiores que o elefante, porque, a atividade das forças musculares não se acelerando em razão do aumento de peso, os movimentos de massas assim tão enormes não se efetuaria mais com a mesma facilidade; ao passo que no seio dos mares, o peso específico dos animais lhes permite nadar com agilidade no meio para o qual nasceram. Poderemos estender este princípio à nossa tese, se considerarmos a diversidade dos meios onde vivem os seres em outros mundos; o que a observação demonstra em particular para a Terra, a analogia o estende para a generalidade dos mundos planetários. Julguemos a variedade possível dos seres apenas pela diferença de gravidade que se observa de um globo para outro. Um quilograma de matérias terrestres seria reduzido a alguns gramas, transportado aos pequenos planetas, ao passo que se elevaria a quase 30 quilogramas no globo solar; um homem terrestre de 70 quilogramas seria extremamente leve nos primeiros, ao passo que pesaria mais de 2 mil quilos no Sol.
Poderia, igualmente, cair de um quarto andar, na superfície de Pallas, sem sofrer maior mal que saltando aqui do alto de uma cadeira; ao passo que a menor queda no Sol, supondo que ele pudesse ficar em pé por lá um só instante, quebraria o seu corpo em mil pedaços, como se fosse apiloado num almofariz de bronze.
Por mais extraterrestres que pareçam, estas últimas observações são bem próprias para nos esclarecer sobre os inumeráveis efeitos de uma mesma força natural, e a nos ensinar o quanto aqueles que aparecem sobre a Terra estão longe de ser os únicos que se cumprem no Universo. Terminando estas considerações, diremos uma palavra sobre o tamanho de certas massas planetárias, e tiraremos de tudo o que precedeu a seguinte proposição, tornada auto-evidente: que nem o conjunto do sistema, nem cada um dos planetas em particular, puderam ser criados em favor dos habitantes de nosso pequeno mundo, ao qual a Natureza não concedeu o menor privilégio. Recordaremos assim que, malgrado a fraqueza de suas respectivas densidades, Saturno e Júpiter pesam, o primeiro, 92 vezes e o segundo, 310 vezes mais que o globo terrestre; recordaremos que outros planetas ultrapassam igualmente o nosso em peso como em volume, e que, portanto, todas essas enormes massas reunidas só formariam ainda a setecentésima parte do peso do Sol.
Assim, quando um geômetra (1), querendo nos dar por um cálculo original uma idéia da massa terrestre, ensina-nos que seriam precisos 10 bilhões de atrelagens de 10 bilhões de cavalos cada para arrastar o globo da Terra sobre um solo semelhante ao de nossas estradas comuns, encontramos, aplicando este cálculo ao Sol, que seria preciso, para efetuar seu transporte, uma força representada por 3 quatrilhões e 550 trilhões das precedentes atrelagens. No entanto, era este o astro que os antigos imaginaram ser arrastado por quatro cavalos! Seu peso real intrínseco está avaliado em 2 nonilhões de quilogramas, ou: 2.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 (1) Francoeur, Uranographie. Seriam, pois, necessárias mais de trezentas e vinte e quatro mil Terras no prato de uma balança para equilibrar o peso do nosso astro do dia! Que o leitor deduza por si mesmo das considerações precedentes a conclusão decorrente, pois não pediremos aqui outras testemunhas em favor da verdade de nossa doutrina, senão o julgamento íntimo do mais simples bom senso. Que ele siga a marcha filosófica da astronomia moderna, e
reconhecerá que, a partir do momento em que o movimento da Terra e o volume do Sol ficaram conhecidos, os astrônomos e os filósofos acharam estranho que um astro tão magnífico fosse unicamente empregado para iluminar e aquecer um pequeno mundo imperceptível alinhado em companhia de um grande número de outros sob sua dominação suprema. O absurdo de uma tal opinião foi mais notável ainda quando se descobriu que Vênus é um planeta com as mesmas dimensões da Terra, apresentando, como ela, montanhas e planícies, estações e anos, dias e noites. Estendeu-se esta analogia à conclusão seguinte, que, semelhantes por sua conformação, estes dois mundos deveriam sê-1o, também, por seu papel no Universo: se Vênus estivesse sem população, a Terra também deveria estar; e reciprocamente, se a Terra era povoada, Vênus deveria sê-lo também.
Mas quando em seguida observou-se os mundos gigantescos de Júpiter e Saturno, cercados de seus esplêndidos cortejos, foi-se invencivelmente conduzido a recusar seres vivos aos pequenos planetas precedentes, se não se dotasse de vida a estes, e pelo contrário, dar a Júpiter e a Saturno homens bem superiores aos de Vênus e da Terra. Com efeito, não é evidente que o absurdo da imobilidade da Terra se perpetuou, mil vezes mais extravagante, nesta causalidade final mal entendida, cuja pretensão é de se obstinar em colocar nosso globo na primeira classe dos corpos celestes? Não é evidente que este mundo está lançado sem nenhuma distinção no amontoado planetário, e que não está melhor estabelecido que os outros para ser a sede exclusiva da vida e da inteligência?... Quão pouco fundado é o sentimento pessoal que nos anima, quando pensamos que o Universo foi criado para nós, pobres seres perdidos neste mundículo, e que, se desaparecêssemos do cenário, esse vasto Universo ficaria descolorido como um conjunto de corpos inertes privados de luz?
Se amanhã nenhum de nós acordasse, e se a próxima noite, fazendo a volta ao mundo, selasse para a eternidade as pálpebras fechadas dos seres vivos, acreditar-se-ia que daí por diante o Sol não enviaria seus raios e seu calor, e que as forças da Natureza cessariam seu movimento eterno? Não; esses mundos longínquos que passamos em
revista continuariam o ciclo de suas existências, acalentados pela força permanente da gravidade, e banhados na auréola luminosa que o astro do dia engendra ao redor de seu brilhante foco. A Terra que habitamos não é mais que um dos menores astros agrupados ao redor desse foco; e seu grau de habitação nada tem que o distinga entre seus companheiros... Afastai-vos um instante pelo pensamento, leitor, para um lugar do espaço de onde se possa abraçar todo o conjunto do sistema solar, e suponde que o planeta onde recebestes a vida vos seja desconhecido! Ficai bem convencido que, para vos entregar livremente ao estudo presente, não deveis mais considerar a Terra como vossa pátria, nem preferi-la às outras moradas, e contemplai agora sem prevenção e com um olhar ultraterrestre os mundos planetários que circulam em torno do foco da vida!
Se suspeitais dos fenômenos da existência, se imaginais que certos planetas são habitados, se vos disserem que a vida escolheu certos mundos para ali depositar os germes de suas produções, sonharíeis sequer, de boa fé, em povoar aquele globo ínfimo que é a Terra, antes de ter estabelecido nos mundos superiores as maravilhas da criação viva? Ou se formásseis o desígnio de vos fixar sobre um astro de onde se possa abraçar o esplendor dos céus e sobre o qual se possa gozar dos benefícios de uma natureza rica e fecunda, escolheríeis como habitação esta mesquinha terra eclipsada por tantas esferas resplandecentes?... Seja qual for à resposta, leitor, e é a conclusão a mais fraca e a menos contestável que poderíamos tirar das considerações precedentes, reconheçamos que a Terra não tem nenhuma preeminência notável, de maneira a ser o único mundo habitado, e que os outros planetas têm uma importância ao menos igual à sua no destino geral do sistema do mundo.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.