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Capítulo 15 de 46

Fisiologia dos Seres — parte 5 de 5

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

tinha nem o mais modesto representante. Para quem brilhavam, então, essas estrelas semeadas por todo o espaço? Sobre que cabeças desciam seus raios? Que olhos as contemplavam? Então estávamos apenas para nascer! Surpreende-nos pensar em que houve um tempo em que a Terra estava vazia, em que esta Terra nem existia. Pensemos nisso, porém, e nosso julgamento não terá nada a perder! Tal foi, em verdade, há um certo número de séculos, o estado do mundo em que hoje estamos. Pretender, perante esse espetáculo, que nossa humanidade sempre foi e sempre será a única família inteligente da criação, seria sustentar uma proposição insustentável, seria não somente um ato de falso julgamento e de ignorância, mas ainda cair puerilmente no ridículo e no absurdo. (1) V. nosso Livro IV: Os Céus, p. 178. As considerações sugeridas pelo infinito na vida, aqui embaixo, se unem, como acabamos de ver, a todas aquelas que resultam dos estudos cosmológicos, para fundar sólida e inabalavelmente a doutrina da pluralidade dos mundos.

Somos bem pequenos, no cenário da criação; temos o infinito abaixo de nós na economia viva, como temos o infinito acima de nós, nos céus. Ora, se a Natureza só se deu ao trabalho de nos fazer conhecer a menor parte dos seres que existem sobre a Terra, se ela nos quis provar assim que além das criaturas que caem sob os nossos sentidos há uma multidão de outras que ela nem sonhou em nos fazer conhecer, e isso em nossa própria casa, quanto mais, por mais forte razão, deveríamos estender esta intenção suprema às maravilhas que ela opera nas regiões que nos são interditas por seu antagonismo e sua distância!

Quanto, por mais forte razão, devemos ter certeza de que ela não só não nos deu os meios de saber de que maneira ela agiu naquelas habitações longínquas, mas ainda que não quer nos ensinar até que profundidade ela propaga pelo espaço milhares de mundos habitáveis, esferas reluzentes que semeou nas pradarias azuladas do céu, com a mesma profusão e a mesma facilidade com que propagou a erva verdejante nas pradarias da Terra!

Assim a natureza nos ensina que, tal como aqui embaixo, abaixo do homem, há uma infinidade de criaturas de que ignoramos a existência, assim a imensidão dos céus está povoada de uma infinidade de mundos e de uma infinidade de seres que podem ser bem superiores ao nosso mundo e a nós mesmos. "Os que virem claramente essas verdades", diz Pascal, (1) "poderão examinar a grandeza e o poder da natureza nesse duplo infinito que nos cerca por toda parte, e aprender, por esta consideração maravilhosa, a se conhecer a si mesmos, vendo-se como colocados entre uma infinidade e um nada de extensão, entre uma infinidade e um nada de números, entre uma infinidade e um nada de movimentos, entre uma infinidade e um nada de tempo. Fundado nisso, pode-se aprender a se estimar por seu justo preço, e a formar reflexões que valem mais que todo o resto da geometria." (1) Pascal, Pensées. E a grande lei de unidade e solidariedade que presidiu à transformação dos mundos e que dirige todas as operações da Natureza!

Esta lei de unidade, que dá a cada espécie de mineral figuras geométricas similares, como a cada um dos mundos as mesmas formas e os mesmos movimentos, que no espaço agrupa um sistema de mundos em torno da paternidade do Sol, como no seio da matéria densa um conjunto de moléculas simples em torno de seu centro de afinidade; que construiu o sistema arterial, o sistema ósseo do homem e dos animais segundo o mesmo modelo que as folhas das plantas, as ramificações das árvores, até mesmo os diferentes cursos de água. regatos, rios pequenos e grandes! Esta lei de solidariedade que faz com que cada um dos seres concorra para a harmonia geral, que nada esteja isolado na economia universal, e que as exceções entre os seres sejam monstros na ordem natural! — Haveria necessidade de nos estendermos sobre esta lei primordial, para mostrar que a natureza não poderia estabelecer um sistema de mundos no qual um dos membros seria exceção à regra geral, e que, por conseguinte, a Terra não seria habitada se estivesse na ordem das coisas que os planetas fossem destinados a uma eterna solidão? A vida vegetal funciona como a vida animal; no esporão do

galináceo, sob o casco do cavalo, encontramos os cinco dedos do quadrúpede e do bímano; o corpo humano passa por todos os graus da animalidade em seu primeiro período embriogênico, e as fases rápidas que se cumprem silenciosamente no seio da mãe são talvez um indicador da Gênese do homem sobre a Terra... Ora, a partir do instante em que nada é isolado neste globo, que a lei da unidade nele é aplicada profusamente, em tudo e por todos os lugares, é inadmissível que haja um mundo isolado no universo e que nosso globo, formando exceção à parte de todos, seja o único revestido das maravilhas da criação viva. É preciso necessariamente opinar entre os seguintes dois termos: admitir que a Terra é uma exceção ou um acidente na ordem geral, ou admitir que ela é um membro do sistema universal em harmonia com os outros; é preciso julgar-nos fora da grande criação, como essas monstruosidades que não entram no sistema dos tipos naturais, ou ver em nosso mundo um elo da imensa série; no primeiro caso, proclama-se a morte acima da vida, e o nada acima do ser: no segundo caso, é-se intérprete fiel das lições da natureza, e prefere-se a vida à morte. — Insistir seria inútil, e não insultaríamos os leitores fazendo-os crer que haja um só entre eles em que não haja feito a escolha.

Eis pois todas as ciências reunidas para demonstrar a verdade de nossa tese. A essas demonstrações peremptórias e irrecusáveis que estabeleceram a certeza entre todas as mentalidades abertas ao ensinamento da natureza, acrescentaremos, para terminar, uma prova direta mais manifesta ainda. Apresentaremos aqui, vitoriosamente, os fragmentos dos mundos planetários que se perderam pelos caminhos do céu, os aerólitos que, passando muito perto de nosso globo, foram atraídos por ele e caíram em sua superfície. São os únicos objetos que nos colocam em relação direta com a natureza dos astros longínquos; são preciosos para nós: a composição química de alguns entre eles nos traz provas incontestáveis da existência da vida na superfície dos mundos de onde eles vêm. A análise descobre geralmente neles o ferro, o níquel, o cobalto, o manganês, o cobre, o enxofre etc., cerca de um terço das substâncias

elementares existentes sobre nosso globo; a ação dos óxidos faz distinguir em sua substância três princípios ou três combinações cujos fenômenos físicos e químicos têm seus análogos nas combinações terrestres, e que são: a camacita, metal cinza-claro que se cristaliza em barras; a tenita, que se apresenta em folhas muito finas; a plessita, assim chamada porque enche os vazios causados pelas duas outras. Atacados pelo ácido, estes metais apresentam um aspecto análogo ao traçado inverso dos gravadores sobre as chapas de aço que devem representar as hachuras; vemos aparecer simultaneamente muitos sistemas de linhas paralelas que se cruzam, umas e outras visíveis conforme se ilumine a superfície atacada. Destas diversas substâncias que se encontram nos aerólitos, nenhuma falou em favor da existência da vida antes que neles se encontrasse o carbono: este último caso se apresentou, mas apenas em quatro aerólitos.

Eis aqui um butim bem modesto, sobretudo se pensarmos na imensa quantidade de pedras caídas do céu sobre a Terra, desde as eras recuadas, quando os antigos povos da América reuniram o suficiente delas para fabricar para si instrumentos de caça, facas e outros utensílios usuais. Mas a raridade do fato não o torna menos precioso. A presença do carbeto de ferro (grafita) foi, de fato, reconhecida por Reichenbach em suas belas e perseverantes pesquisas sobre a química das amostras dos outros globos. Estes fragmentos encerram não somente metais e metalóides ordinários, mas também carbono, quer dizer; um corpo simples cuja origem podemos sempre reportar às condições normais dos seres organizados. Nada é mais interessante, com efeito, que encontrar, no fundo do crisol onde se tratou o ferro meteórico, certo resíduo cristalizado de natureza orgânica. Trata-se de um enviado misterioso que franqueou distâncias assustadoras para nos trazer esses restos de natureza desconhecida.

Alguns físicos emitiram a opinião que a presença da grafita no ferro meteórico poderia provir de uma modificação sofrida por esses fragmentos ao atravessar nossa atmosfera ou depois de sua queda; esta opinião foi refutada ao se mostrar que a densidade desta grafita é de 3,56, ao passo que a da grafita terrestre não passa de 2,50, o que torna

inadmissível toda hipótese de modificação. De resto, encontraram-se fragmentos de carbono no próprio interior do ferro meteórico. Os aerólitos que tiveram o privilégio de nos fornecer estes dados são: o que caiu em Alais (Gard) a 15 de março de 1806, um segundo caído no cabo da Boa Esperança a 13 de outubro de 1838, um terceiro caído em Kaba (Hungria) a 15 de abril de 1857, e um quarto caído a 14 de maio de 1864 no sul da França, em Orgueil (Tarn-et-Garonne). Este encerrava água e turfa. Ora, a turfa se forma pela decomposição, no interior da água, dos vegetais. O aerólito de Orgueil veio, pois, de um globo onde existe água, e certas substâncias análogas à vegetação terrestre. Por outro lado, os cometas apresentam geralmente carbono, à análise espectral.

Não é um fato bem concludente em favor de nossa tese, ter em mão traços irrecusáveis dos elementos vitais extraterrestres? — Acrescentemos que o aerólito caído recentemente (23 de julho de 1872) em Lancé (Loir-et-Cher), continha cloreto de sódio, quer dizer sal, idêntico ao que conhecemos na Terra. (1) (1) Quanto ao conjunto dos aerólitos e sua análise, v. nossos Études sur I'Astronomie, t. V. Já em 1830, a propósito de uma matéria orgânica vegetal encontrada nas folhas de um jardim botânico de Siena, analisado e visto geralmente como de origem meteórica, observou-se que se encontra nos aerólitos oxigênio, carbono e hidrogênio, bem como água combinada no estado de hidrato de óxido de ferro, quase a única forma sob a qual ela nos pode chegar, e fez-se a prova de que há, além de nosso globo, elementos químicos de um reino vegetal análogo ao nosso.

Registremos com cuidado estes dados, mas não nos associemos por isso ao erro de certos naturalistas que, conforme Plínio, emitiram a opinião de que as chuvas de sementes, grãos, flores, pequenos animais e insetos desconhecidos no local em que caíam podiam provir de outros mundos. Depois que se pode medir a força do vento e avaliar a que enormes distâncias ele pode transportar as nuvens mais densas, pudemos nos contentar com uma explicação mais simples. Importa não confundir as substâncias terrestres transportadas pela atmosfera com as substâncias de origem cósmica. Para mencionar alguns exemplos deste tipo de fenômeno,

mencionaremos a chuva vermelha que caiu em 16 e 17 de novembro de 1856 no sudeste da França: era uma massa imensa de matéria terrosa apanhada pelo vento na América, na Guiana, e da qual uma parte (com o peso de 720.000 quilos) foi se abater sobre a França. Não se passa um só ano sem que os meteorologistas assinalem estas chuvas de terra vermelha, outrora chamadas de chuvas de sangue. Mencionaremos ainda o maná caído em Zaiviel naquele mesmo ano, recordaremos ainda os numerosos exemplos de chuvas de rãs, sapos, insetos, gafanhotos etc., que de tempos em tempos vêm se abater sobre regiões infelizes, devastá-las, e por vezes trazer os germes de doenças. Mas de todas estas chuvas extraordinárias, mesmo quando não se pode reconhecer a sua origem, não houve uma que trouxesse provas incontestáveis em favor de uma proveniência extraterrestre.

"De resto, temos uma opinião por demais boa dos outros mundos para lhes atribuir a produção de tão vis animais", dizia um cronista a propósito de uma chuva de sapos; "e mesmo que fossem agraciados por eles como em nosso planeta, temos demasiada confiança em seu bom gosto para crer que quisessem enviá-los como amostras de sua zoologia." Para retornar aos aerólitos e à sua verdadeira composição, achamos que devemos nos contentar com os resultados relatados mais acima, se considerarmos que, essas pedras meteóricas sendo fragmentos de mundos extintos, ou resíduos vulcânicos ou, por fim, corpúsculos cósmicos flutuando no espaço desde a sua origem, seria quase impossível encontrar neles vestígios diretos da vegetação ou da animalidade. Por mais forte razão, os restos dos seres vivos só poderiam se apresentar neles em casos extremamente raros, para não dizer nunca; ademais, o pequeno número dos aerólitos recolhidos e analisados, a exigüidade ordinária de suas dimensões, colocam ainda um outro obstáculo à presença de substâncias orgânicas em seu interior.

Devemo-nos satisfazer com o fato de apresentarem elementos intimamente ligados às funções ordinárias da vida; e se as demonstrações e raciocínios que precederam não estabeleceram dentro de nós a certeza, permitir-nos-emos esperar que este fato se ajunte aos anteriores para lhes

dar mais peso, para confirmá-los, e para colocar a pedra angular no monumento cujas bases acabamos de construir.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.