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Capítulo 36 de 46
Apêndice — parte 6 de 9
A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion
O verdadeiro sentimento religioso não está aí, nem a verdade da ciência, nem a autoridade da filosofia.
O quanto preferimos a essas discussões estéreis as seguintes palavras, ditadas tanto pelo coração quanto pela mente, e cuja eloqüente simplicidade cativa a alma sob o duplo atrativo científico e religioso: "Quando verdes toda essa frota de mundos vogar num concerto (1), e nossa Terra também flutuando como um navio em torno dessa ilha de luz que é nosso Sol; quando verdes os decréscimos estranhos de luz, de valor e de movimento, para os mundos afastados do centro; além da incrível excentricidade e a espécie de loucura dos cometas, que parecem se debater sob a lei pela qual são dominados, tanto quanto os mundos habitáveis; e também sua estonteante mobilidade de formas, suas combustões furiosas, ora no calor, ora no frio; quando verdes toda esta geometria em ação, toda esta física viva, todo esse maravilhoso mecanismo da natureza, sempre sustentado pela presença de Deus e manifestamente regulado por sua sabedoria, sob leis que são sua imagem; quando verdes a vida e a morte no céu: um mundo partido cujos restos rolam perto de nós, o céu levando com ele seus
cadáveres em sua viagem do tempo, como a Terra carrega os seus: quando verdes as estrelas desaparecerem, enquanto que outras nascem, crescem e se avolumam; quando perceberdes essas nebulosas — quer sejam grupos de sóis ou grupos de átomos, que uns sejam sóis, outros, átomos, poeira de átomo ou poeira do sol, que importa? —, quando verdes os grupos de mesma raça, mas de diferentes idades, chegados sob nossos olhos em diversos graus de formação, e deixando ver a marcha do desenvolvimento, como vemos numa floresta de carvalhos o desenvolvimento da árvore em todas as suas idades; depois quando verdes sobre todos os mundos essas alternâncias de noite e de dia, essas vicissitudes de estações em harmonia com a vida da natureza, diria mesmo com a vida de nossos pensamentos e de nossas almas: vicissitudes, alternativas, inevitáveis em qualquer lugar, exceto nesse mundo central onde reinam um pleno verão, um pleno meio-dia... então, se não entra em
vossa astronomia nem poesia, nem filosofia, nem religião, nem moral, nem esperanças, nem conjeturas da vida eterna e do estado estável do mundo futuro; se não acreditais na profecia de São Pedro: "Haverá um novo céu e uma nova terra"; e no oráculo de Cristo: "Haverá um só rebanho"; se, em face desses caracteres grandiosos e desses traços fundamentais da obra visível de Deus, olhais sem ver e sem compreender, sem suspeitar a possibilidade do sentido; então, ó! Então, eu vos lamento!" (1) A. Gratry, Les Sources, cap. IX. Por certo, eis aí palavras a um tempo cristãs e sábias, a um tempo religiosas e filosóficas; a idéia ampla e grandiosa que as inspirou é bem superior àquela que ditou as discussões que passamos em revista; seria de desejar que fosse a linguagem de todos. Terminaremos este estudo por um discurso de Galileu. Alguns dias antes de sua partida para Roma. em janeiro de 1633, o ilustre septuagenário, então em Florença, escrevia a Elie Diodati, jurisconsulto e advogado no Parlamento de Paris: "...
Se pergunto ao teólogo: De quem o Sol, de quem a Lua e a Terra, sua posição, e seu movimento são obra? Penso que ele me responderá: São as obras de Deus. Se lhe pergunto em seguida de que inspiração provém a Sagrada Escritura, ele me responderá: Da inspiração do Espírito Santo, quer dizer, do próprio Deus. Segue-se daí que o mundo é a obra, e a Sagrada Escritura a palavra de Deus. Se lhe apresento esta outra pergunta: O Espírito Santo empregaria palavras que são, na aparência, contrárias à verdade, porque estão de acordo com a grosseria e proporcionais à inteligência vulgar da plebe? Ele responderá certamente, de acordo com os Pais da Igreja, que não se encontra outra coisa na Sagrada Escritura; que é seu estilo próprio, e que em mais de cem lugares o simples senso literal daria, não digo heresias, mas blasfêmias, pois que Deus mesmo ali é representado como capaz de cólera, de se arrepender, de esquecimento e de negligência etc. Se eu lhe perguntar se Deus, para colocar sua obra ao alcance da plebe tola e sem entendimento, algum dia modificou sua criação;
se a Natureza, serva de Deus, aias indócil ao homem e que nenhum de seus esforços pode mudar, não conservou sempre a mesma marcha e se não segue sempre o mesmo curso; estou convencido que ele me responderá que a Lua sempre foi uma esfera, se bem que o povo, durante muito tempo, tomou-a por um disco branco; em suma, ele afirmará que a Natureza jamais se alterou para nos agradar, que ela jamais se divertiu em modificar suas obras conforme o desejo, a opinião e a credulidade dos seres humanos. Se é assim, por que então, querendo conhecer o mundo e suas partes constitutivas, preferiríamos, para regular nosso exame, à obra de Deus, a palavra de Deus? A obra é menos perfeita e menos nobre que a palavra? Suponde que se chegue a estabelecer que há heresia em dizer que a Terra gira; suponde que mais tarde as observações, a crítica, o conjunto dos fatos venham atestar como irrefutável o movimento da Terra; não se teria comprometido em muito a Igreja?
Consenti, ao contrário, em designar apenas o segundo lugar à palavra, todas as vezes que a obra pareça se afastar dela, e não causareis nenhum mal à Escritura. - Há muitos anos, no início daquele grande barulho contra Copérnico, redigi uma memória, assaz detalhada, dedicada a Cristina de Lorena, na qual, apoiando-me na autoridade da maioria dos Pais da Igreja, tentei demonstrar que havia um grave abuso em fazer intervir em questões científicas a autoridade da Escritura. Pedi que se abstivesse de empregar tais armas nas discussões deste gênero. Assim que eu estiver menos assaltado por inquietudes, providenciarei para que tenhais uma cópia deste escrito; mas estou na véspera de ir a Roma por ordem do Santo Ofício, que acaba de proibir a venda de meu Diálogo, etc." "Por que, pois, querendo conhecer o mundo e suas partes constitutivas, preferiríamos, para regular nosso exame, à própria obra de Deus, a palavra de Deus? Designemos apenas o segundo lugar à palavra." Detenhamo-nos sobre esta frase de Galileu. Se não tivéssemos de manter aqui uma independência completa, apresentaríamos esta frase como a conclusão mais
racional a guardar para aqueles que nos levaram a escrever esta nota, e que atribuem importância à questão debatida.
Nota B
Tabela dos pequenos planetas situados entre Marte e Júpiter
Nota C
Sobre o Calor na Superfície dos Planetas
O calor na superfície dos planetas pode depender de duas causas principais: pode ter sua fonte: 1º) no foco calorífico do próprio planeta; 2º) na radiação do Sol. Examinaremos uma depois da outra estas duas causas independentes. A primeira se associa à origem cosmogônica que se adota para os planetas, e daremos um resumo dos diferentes sistemas que se propôs para explicar esta origem, e as conseqüências que sc tirou sobre a questão de que tratamos. Burnet é o primeiro autor moderno que imaginou um sistema cosmogônico. Sua obra apareceu em 1681 sob o título de Telluris Theoria Sacra, título evidenciando de início a intenção formal do autor de nada apresentar que pudesse parecerem contradição com o ensinamento bíblico. Sua teoria é netuniana: é à água que atribui as mudanças sucessivas ocorridas na superfície do globo. A terra era de início uma massa fluida, um caos de matérias diversas, que só se revestiu de forma esférica quando os materiais mais pesados desceram ao centro, para formar um núcleo sólido. A água, mais leve, envolveu este núcleo, e ela mesma foi envolvida pela atmosfera.
Todavia, as substâncias graxas sobrenadaram, e as partículas terrosas em suspensão na atmosfera recobriram estas matérias graxas: foi a primeira terra cultivada pelos homens antes do Dilúvio. Ao fim de quinze ou dezesseis séculos, essa crosta caiu no abismo das águas que se encontrava debaixo dela. Foi esta a causa do Dilúvio. Nossos continentes atuais são os restos da crosta terrestre que não afundaram. Este sistema teve celebridade por alguns anos; recrutou alguns partidários e diversos comentadores. Está completamente esquecido hoje. O autor teve de passarem silêncio por um fato de alta importância, que
começava a se revelar e que deve ser visto como o primeiro passo da geologia moderna: o fato da existência de restos fósseis nas camadas da terra. Não somente Burnet, mas a maioria dos sábios daquela época achavam muito difícil explicar esta existência e ficar de acordo com o Gênesis; também, em lugar de ver neles os vestígios de uma vida desaparecida, imaginou-se uma certa força plástica que imprimira nos fluidos rochosos formas orgânicas ou ainda que pedras inertes tinham assumido, sobre a influência dos corpos celestes, a configuração que apresentavam, explicações com que Voltaire muito se divertiu, embora compartilhando delas. Mas graças aos trabalhos perseverantes de Fracastoro, Bernard Palissy, Stenon, foi preciso reconhecer nessas pretensas pedras figuradas relíquias autênticas dos séculos antediluvianos. Na mesma época, os ingleses Woodward e Whiston acumulavam milagres sobre milagres para expor um sistema ao mesmo tempo científico e dogmático. O primeiro supõe que, na época do Dilúvio.
Deus fez com que todos os corpos terrestres fossem reduzidos a pó, e daí em pasta mole pelas águas diluvianas; os corpos marinhos teriam facilmente penetrado nesta pasta. O segundo supôs que a Terra fora outrora um cometa, onde a confusão dos elementos só formava um vasto e tenebroso abismo. Desde a aurora da criação, no famoso Fiat lux, a Terra tornou-se esférica, depurouse e permitiu que os raios solares a iluminassem. O Dilúvio foi produzido por um cometa cuja cauda aquosa envolveu a Terra durante quarenta dias. — Vemos que os cometas foram bem úteis ao autor. — Para explicar como as camadas cheias de fósseis marinhos, recobertas em outros tempos de água, se encontram no seco hoje, Whiston supôs uma mudança na obliqüidade da eclíptica, em conseqüência do que os mares teriam abandonado seus antigos leitos; mas Newton, tendo demonstrado a impossibilidade desta hipótese, substituiu-a pela idéia de que a Terra pôde passar muito perto do Sol, e ficou seca. Leibniz, por sua vez, escreveu sua Protogéa. Ele via nos planetas outros pequenos sóis, no passado iluminados como o nosso, e agora extintos,
desde a época em que seus elementos de combustão foram consumidos. Foram as forças plutônicas que dominaram nas revoluções do globo; é ao fogo que é preciso atribuir os acontecimentos que nos sistemas precedentes foram atribuídos à água. Quando a Terra foi esfriada, o vapor atmosférico se condensou e formou os mares e as diversas massas de água que banham atualmente o globo terrestre. Buffon veio em seguida, com mais ardor e mais zelo do que todos os anteriores, na determinação da quantidade de calor que os planetas manifestam em sua superfície, quantidade de calor que ele quis acompanhar em seu enfraquecimento desde a origem dos mundos até nossos dias e, mais que isso ainda, até o fim dos mundos. Não faltava ao tema, como se vê, grandeza nem interesse. O célebre autor da História Natural, considerando que os planetas têm todos uma direção comum do ocidente para o oriente, e que a inclinação de sua órbita é muito pequena, concluiu que o sistema planetário todo deve ter a mesma origem, o mesmo impulso inicial, e que esta origem, bem como este impulso, devem vir do Sol.
Pode-se encontrar aqui o princípio da hipótese cosmogônica emitida mais tarde por Kant e Laplace. Mas Buffon não se contentou com procurar a origem do estado astronômico atual, quis ainda procurar o porquê, e não encontrou outro modo de explicação senão imaginar que um cometa, caindo obliquamente no Sol, fez jorrar, como salpicos, os planetas que circulam ao redor dele. Sabe-se hoje que a massa de um cometa seria infinitamente pequena, para que sua queda no Sol pudesse ocasionar uma tal revolução; se um cometa viesse a cruzar com a Terra em seu curso, é da mais alta probabilidade que o choque ficaria desapercebido de nós. Tendo o cometa em questão separado a 650ª parte da massa do Sol, esta parte escapou como uma torrente liquefeita e formou os planetas. As partes mais leves se afastaram mais do corpo solar; Saturno, último planeta conhecido no tempo de Buffon, é um exemplo disto; depois vieram, na ordem das densidades: Júpiter. Marte, a Terra, Vênus e Mercúrio. A experiência mostra, ademais, que estas partes só puderam escapar girando
sobre si mesmas e tomando uma direção oblíqua onde a força centrífuga combinada com a força centrípeta forma a órbita de cada planeta. Quanto aos satélites, a obliqüidade do golpe pôde ser tal, disse Buffon, que teriam se separado do corpo do planeta principal pequenas partes de matéria que teriam conservado as mesmas direções do planeta: estas partes teriam se unido, segundo suas densidades, em diferentes distâncias do planeta por força de sua atração mútua, e ao mesmo tempo elas teriam necessariamente seguido o planeta em seu curso em torno do Sol, girando elas mesmas em redor do planeta; tal seria a origem dos satélites. Esta foi a primeira tentativa, disforme, de cosmogonia científica. As pesquisas de Buffon sobre o resfriamento da Terra e dos outros planetas foram expostos por ele mesmo em suas memórias, que não ocupam menos de duzentas páginas como estas. Vamos ajudar nossos leitores. Resumiremos esta obra apenas pelas tabelas seguintes, que encerram os últimos resultados das discussões hipotéticas do autor.
(1) Buffon dá este grau de resfriamento como sendo o limite da existência de seres vivos. Porém, as considerações fundadas sobre a influência do calor radiante dos planetas sobre seus satélites, e alguns pontos de minúcias sobre a fisiologia dos seres, engajaram Buffon a modificar os números precedentes. Depois de um exame de muitos anos, deu a tabela seguinte, que é sua última palavra na teoria que nos ocupa aqui:
Decorre da teoria geral de Buffon: 1°) Que a natureza organizada, tal como a conhecemos, não teria nascido ainda em Júpiter, cujo calor seria demasiado ainda hoje para se poder tocara sua superfície, e só daqui a 40.791 anos os seres vivos poderiam subsistir ali, e durariam 367.498 anos; 2º) Que a natureza viva, tal como a conhecemos, estaria extinta no quinto satélite de Saturno já há 27.274 anos, em Marte há 14.506 anos e na Lua, há 2.318 anos; 3º) Que a natureza estaria prestes a se extinguir no quarto satélite de Saturno, pois que só tem 1.693 anos para chegar ao ponto extremo do calor mínimo necessário à manutenção de seres organizados; o quarto satélite de Júpiter estaria quase no mesmo caso; 4°) Que no planeta Mercúrio, na Terra (que ainda tem 93.291 anos para viver), no terceiro, segundo e primeiro satélites de Saturno, no segundo e primeiro de Júpiter, a natureza viva estaria atualmente em plena existência, oferecendo o espetáculo de movimento e de atividade que nos oferece a natureza terrestre.
Os sistemas precedentes, dos quais o de Buffon encerra a lista, são uns e outros erguidos sobre princípios demasiado exclusivos e pouco científicos. Na época em que seus autores os promulgaram, o progresso geral das ciências não estava avançado a ponto de se poder, sem sair da ciência experimental e teórica, erguer conjeturas sobre essas questões envolvidas em tantos mistérios; também a crítica científica não reconheceu aí nenhuma
solução satisfatória, e teve de justiçar esses vários erros. A famosa teoria de Buffon não é mais que uma curiosidade histórica, como suas antecessoras. Está demonstrado hoje que o calor na superfície da Terra e dos outros planetas não tem sua fonte somente no foco calorífico do planeta, mas ainda e sobretudo na radiação do Sol, influenciado pela altura, densidade e composição química da atmosfera. É a J.B. Fourier que se deve o ter retomado desde seus alicerces a teoria matemática do calor, de tê-la discutido em seus vários elementos, de lhe ter aplicado a análise matemática, e de tê-la estabelecido sobre uma base sólida, o que lhe deu a maior autoridade científica. Eis, segundo o próprio Fourier, o conjunto dos grandes resultados aos quais chegou: é, ao mesmo tempo, o conjunto de nossos conhecimentos atuais sobre este tema. Nosso sistema solar está colocado numa região do Universo na qual todos os pontos têm uma temperatura comum e constante, determinada pelos raios de calor e de luz que são enviados por todos os astros que nos rodeiam.
Esta temperatura fria planetária é pouco inferior à das regiões polares do globo terrestre. A Terra teria esta mesma temperatura do céu, se duas causas não concorressem para aquecê-la: uma é a ação contínua dos raios solares, que mantêm em sua superfície a diferença dos climas; a outra é o calor interior, que possuía quando os corpos planetários foram formados, e do que uma parte apenas se dissipou através da superfície. Consideremos agora a influência dos raios solares. As alternativas da presença e da ausência do Sol teriam, desde a origem das coisas, determinado variações diurnas e anuais, semelhantes às que observamos hoje. Qualquer detalhe sobre isto seria supérfluo; todos compreendem, com efeito, como a superfície aquecida pela presença do Sol acima do horizonte deve se esfriar, a cada noite, depois do ocaso deste astro. A causa das variações anuais é também evidente. Em nossos climas, o Sol ficando, durante o verão, mais tempo a cada dia acima do horizonte, e dardejando seus raios mais diretamente sobre nossas cabeças, deve resultar
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