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Capítulo 2 de 46

Parte 2 de 2

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

algumas palavras caídas de bocas eloqüentes, e se reúnem em grupos diversos sob o estandarte da Idéia moderna. E que o homem, progressista por natureza, não quer ficar estacionário, e muito menos retroceder. Acontece que o progresso ao qual o levam suas tendências íntimas não é uma idealidade perdida num mundo metafísico inacessível às investigações humanas, mas sim uma estrela radiante atraindo para seu foco todos os pensamentos ansiosos pelo verdadeiro e sedentos de ciência. E que a humanidade ainda não atingiu a era luminosa à qual aspira, faltam séculos de preparação lenta e penosos trabalhos para chegar ao conhecimento da verdade, não há dia sem aurora, e se a época presente resplandece sobre as que a antecederam, pelas grandes descobertas que a caracterizam, é que efetivamente ela nos anuncia o dia. Salve esta renovação intelectual! Que todos os nossos esforços, que todos as nossas vigílias lhe pertençam. Que ela possa não ser mais tão-só uma oscilação inevitável do movimento intelectual, e que assinale, enfim, a chegada do homem a estrada real do progresso.

Possa filosofia não mais ser relegada a um círculo de seitas e de sistemas, e unir-se enfim à Ciência, sua irmã: é de sua união fecunda que a humanidade espera sua nova fé e sua grandeza futura. Talvez, ao ler estas linhas, perguntar-se-á que relação existe entre a Pluralidade dos Mundos e a filosofia religiosa; talvez cause surpresa o fato de abordarmos, com tanta gravidade, um tema do qual poderíamos ter apresentado, antes de tudo, o lado pitoresco e curioso. E, com efeito, parece que importa pouquíssimo para a filosofia que os mundos de Marte e Vênus sejam enriquecidos por uma natureza luxuriante e povoados de seres racionais, e que todas essas estrelas que cintilam sobre nossas cabeças durante a noite profunda sejam os lares de outras tantas famílias planetárias. Os que pensam desse modo e sabemos que formam a maioria, para não dizer a totalidade dos leitores deverão mudar de opinião, e crer que a

Pluralidade dos Mundos é uma doutrina ao mesmo tempo científica, filosófica e religiosa da mais alta importância. E para demonstrar tal verdade que este livro foi escrito. E ao mesmo tempo, se possível for, para torná-la fecunda. Para julgar sadiamente, é preciso considerar o todo, e não a parte. Já foi observado que as idéias recebidas sobre o homem e seus destinos são marcadas por uma parcialidade terrestre; demasiado exclusivista. Admiráveis páginas foram escritas sob a impressão de uma universalidade de humanidades de que não nos damos conta, e que, não obstante, nos rodeia por todo o lado, por uma enorme extensão. Os psicólogos interrogaram-se se nossa alma não poderia, um dia, ir habitar outros mundos, e se então a vida eterna, despojando-se do terrível aspecto sob o qual foi até agora representado, poderia e por conseguinte deveria ser recebida desde agora entre seus temas de estudo: os naturalistas procuraram desembaraçar o enigma da criação e o mistério das causas finais, erguendose até aqueles astros longínquos, que parecem outras tantas terras dadas, como a nossa, em apanágio a nações humanas; os curiosos e quem não é? - interrogaram o horizonte, procurando adivinhar que raças possíveis de seres podem ter plantado suas tendas lá em cima; cada um no entanto sempre duvidou da realidade da existência nesses mundos e logo recaía no abismo tenebroso das simples conjeturas.

A certeza filosófica da Pluralidade dos Mundos ainda não existe, porque não se estabeleceu esta verdade no exame de fatos astronômicos que a demonstrem; e constatou-se, nestes íntimos tempos, que escritores de renome deram impunemente de ombros ao ouvir falar das terras do céu, sem que se pudesse retrucar com fatos e deixá-los sem ação com seus raciocínios ineptos. Mesmo que esta questão pareça a alguns de elevado alcance filosófico, mas rodeada de mistérios impenetráveis, embora para outros não seja mais que uma fantasia da curiosidade pela pesquisa vã do grande desconhecido, sempre á consideramos como uma das questões fundamentais da filosofia, e

desde o dia em que, pressionados pela convicção profunda que residia dentro de nós anteriormente a todo estudo científico, quisemos aprofundála, discuti-la, e tentar fazer uma demonstração exterior dela, vimos que, longe de ser inacessível às pesquisas da mente humana, brilhava perante esta numa claridade límpida. De imediato tornou-se evidente para nós que esta doutrina é a consagração imediata da ciência astronômica; que ela constituir a filosofia do Universo, que a vida e a verdade resplandecem nela, e que a grandeza da criação e a majestade de seu Autor não brilham em lugar nenhum com tanta luz quanto nesta grande interpretação da obra da natureza. Também reconhecendo nela um dos elementos do progresso intelectual da humanidade, aplicamos nossos cuidados a seu estudo, e propomo-nos estabelecê-lo sobre argumentos sólidos, contra os quais as desconfianças da dúvida ou as armas da negação não pudessem prevalecer. Pensamos que, num estudo objetivo deste gênero, deveríamos nos deixar conduzir belo espírito do método experimental, baseando-nos na observação, e entregamo-nos ao trabalho.

Todos trabalham no grande edifício; uma vez reconhecido o plano do arquiteto, é à multiplicidade, tanto quanto ao vigor dos operários, que se deve o progresso e a construção. Foi por isso que nos permitimos, nós, perfeitamente desconhecidos no mundo dos pensadores, acrescentar também a modesta pedra que nos foi dado colher ao longo de nosso caminho; não que nos julgássemos necessários em meio aos trabalhadores, mas somente porque tendo nossa carreira nos ligado ao estudo pratico da astronomia, tanto no Observatório de Paris quanto no Bureau de Longitudes, (1) tínhamos em mãos os documentos necessários para dar base sólida à doutrina da Pluralidade dos Mundos, por tanto tempo relegada no domínio das questões metafísicas e conjeturais. (1) Departamento criado em 1795, encarregado dos avanços da astronomia (até 1854, dirigia o Observatório de Paris). Reúne especialistas de renome nas áreas da astronomia, geofísica, meteorologia, navegação etc., publicando anualmente: La Connaissance des temps, Annuaire du Bureau des Longitudes (ambos desde 1795), Ephémérides nautiques (desde 1889),

Ephémérides aéronautiques (1935) e Encyclopédie scientifique de 1'Univers, desde 1977. (Nota da Editora.) Acrescentemos agora, para justificar desde o início a seus olhos, leitor, a razão de ser de nossa publicação, que, independentemente da atualidade de que se reveste pelos trabalhos recentes do pensamento humano, este capítulo da filosofia natural é o lado vivo, se é que assim se pode dizer, da ciência astronômica, a qual, malgrado suas magníficas descobertas, seria de uma utilidade menor para o avanço do espírito humano, se não se soubesse encará-la do seu ponto de vista filosófico, e que sob este aspecto ela deva concorrer, como os outros ramos da Ciência, e nos ensinar o que somos. O espetáculo do universo exterior é, de fato, a grande unidade com a qual devemos nos colocar em relação para conhecer o verdadeiro lugar que ocupamos na natureza, e sem este tipo de escudo comparativo, vivemos na superfície de um mundo desconhecido, sem nem sequer saber onde estamos nem quem somos, relativamente ao conjunto das coisas criadas.

Sim, a astronomia deve ser doravante a bússola da filosofia; ela deve caminhar à frente, como farol dominador, tornando claros os caminhos do mundo. Por muito tempo o homem ficou isolado em seu vale, ignorante de seu passado, de seu futuro, de seu destino; por muito tempo ficou adormecido com uma vaga ilusão sobre seu estado real, num julgamento falso e insensato sobre a imensa criação. Que desperte hoje de seu torpor secular, que contemple a obra de Deus e reconheça o seu esplendor, que dê ouvidos ao ensinamento da natureza, e que seu isolamento imaginário se apague para que ele veja, na extensão dos céus, as humanidades que vogam e se sucedem nos distantes espaços! Estabeleceremos aqui nossas doutrina sobre argumentos de várias naturezas, o que dividirá a obra em várias seções fundamentais. Num primeiro estudo, nossas considerações serão abertas pela exposição histórica da doutrina, de onde se evidenciará que os homens de destaque de todas as eras, de todos os países e de todas as crenças foram partidários da Pluralidade dos Mundos; esperamos que esta constatação faça pender a

balança em favor de nossa tese. Nos estudos seguintes, a astronomia e a fisiologia virão, cada uma segundo o que lhe concerne estabelece que os mundos planetários são habitáveis como a Terra. E que esta não tem nenhuma proeminência marcante sobre eles. O espetáculo do Universo nos fará saber, depois, que o mundo que habitamos não é mais que um átomo na importância relativa das inumeráveis criações do espaço; - ficaremos sabendo (para tomar um exemplo à nossa volta) que a formiga, em nossos campos, teria infinitamente mais fundamento para acreditar que o seu formigueiro é o único lugar habitado do globo, do que nós, de considerar o espaço infinito como um imenso deserto, no qual nossa Terra seria o único oásis, no qual o homem terrestre seria o seu único e eterno contemplador - A filosofia moral virá em último lugar, para animar com seu sopro de vida esses raciocínios fundamentados no ensinamento das ciências, e mostrar que relações associam nossa humanidade as humanidades do espaço. Ela fundamentara o que julgamos poder chamar a Religião pela ciência.

Eis o programa, talvez demasiado amplo, que se delineou por si só perante nós, quando nos deixamos dominar por nossos estudos prediletos. Possamos tê-lo compreendido e abordado de uma maneira digna de um assunto tão grande e magnífico, e possamos ser de alguma utilidade àqueles que, como nós, procuram o conhecimento da verdade no estudo da natureza! Escrito em Paris, em 1861; publicado em 1862.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.