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Capítulo 25 de 46

A Humanidade no Universo — parte 6 de 11

A Pluralidade dos Mundos Habitados · Camille Flammarion

Esta teoria tem talvez o defeito de ser nova e diferir de algumas velhas idéias inveteradas em nossas almas; mas certamente ela não é indigna de nossas concepções teológicas mais elevadas, e é digna da majestade da natureza. Há muitas razões em seu favor; não há contra ela nenhum argumento peremptório da ciência ou da filosofia. A ciência do reino material diz altamente em seu favor. Tudo avança paulatinamente no mundo do ser; a unidade admirável, que estabelece uma solidariedade universal do último ao primeiro dos organismos terrestres, do molusco ao homem, é uma lei primordial aplicada em tudo e por toda a parte. A máquina do mundo funciona com uma multidão de rolamentos que mutuamente se chamam e se respondem; o que faz que esse funcionamento seja guiado pela Solidariedade, ouse se quiser, pela Necessidade.

O menor órgão com defeito atrapalharia a harmonia geral, e se alguma mão gigantesca tentasse parar o Sol em seu curso nos espaços, não apenas o sistema desse astro, Terra e planetas, seria profundamente alterado nas condições fundamentais de sua vida — e em alguns casos destruído apenas por isso — mas também os sistemas siderais, dos quais nosso sol não é mais que um elemento, e sobre os quais se exerce sua influência de atração, receberiam um golpe desastroso que turbaria a quietude dos movimentos celestes. O ritmo das estrelas, entrevisto por Pitágoras, foi regulado por Newton; mas Newton, como Pitágoras, inclinou-se perante ele, sentindo o peso da universal solidariedade das coisas. Se perguntássemos agora à ciência do reino intelectual o que ela pensa de nossa teoria, seu assentimento seria o mesmo.

Ela nos ensinaria os destinos de nossas almas para além do tempo em meio às esferas radiosas do céu; ela nos diria onde dormem essas almas antes do nascimento de nossos corpos, e talvez nos mostraria como, sob esse sono aparente, se elaborava nossa existência; ela nos descobriria enfim, na sucessão hierárquica dos mundos, a avenida que sobe às regiões da serenidade e da terra prometida.

Vista a essa luz, nossa permanência terrestre é despojada da névoa que nos impedia até agora de reconhecer seu lugar em meio à obra divina; nos a desnudamos e compreendemos seu papel; longe do sol da perfeição, ela é mais obscura que outras; é um lugar de trabalho aonde se vem perder um pouco de sua ignorância original e elevar-se um pouco rumo ao conhecimento; sendo o trabalho a lei da vida, é preciso que nesse universo, onde a atividade é a função dos seres, se nasça em estado de simplicidade e de ignorância; é preciso que nos mundos pouco avançados se comece pelas obras elementares; é preciso que em mundos mais elevados se comece com uma soma de conhecimentos adquiridos; é preciso, enfim, que a felicidade, à qual aspiramos todos, seja o preço de nosso trabalho e o fruto de nosso ardor.

Se há "várias moradas na casa de nosso Pai", não são de modo algum leitos de repouso, mas domicílios onde as faculdades da alma se exercem em toda a sua atividade e com energia ainda mais desenvolvida; são regiões onde a opulência aumenta paulatinamente, e onde se aprende a conhecer melhor a natureza das coisas, a melhor compreender Deus em seu poder, a melhor adorá-lo em sua glória e seu esplendor. Como se poderia compreender Deus e sua obra ficando encerrados neste mundo inferior? No fundo da sombria caverna onde estamos, dizia Platão, a luz nos é desconhecida e a verdade é inacessível; somos como cegos de nascença que falassem do sol, a ignorância é nosso quinhão, e nossos julgamentos sobre a Divindade são incompletos e repletos de erros. Platão dizia a verdade.

A manifestação absoluta de Deus, cujo estudo poderia levar-nos à verdade, é todo o conjunto do mundo, é o coro universal dos seres; mas sobre a Terra nós conhecemos somente individualidades isoladas, cuja relação com o Todo nós é desconhecida, e nosso isolamento, causa de nossa ignorância, é o primeiro princípio de todos os paradoxos e todas as dificuldades que têm atrapalhado a filosofia. Julgar, pela Terra, a criação universal, é querer julgar um coro de Palestrina por uma fuga ou quaisquer notas saídas ao acaso da onda musical; é querer julgar um quadro de Rafael por algum matiz no pé de uma

Fornarina; é querer julgar a Divina Comédia de Dante por um grupo de um dos Círculos do Inferno... Repitamos: a analogia tem seus limites como os outros métodos, e se a anatomia comparada pode reconstruir um esqueleto inteiro a partir de uma mandíbula, é porque dispõe de um órgão característico e de importância capital; mas nenhum paisagista procurará adivinhar a extensão e a riqueza de um prado pela inspeção de um talo de capim. Um iletrado, a quem se apresentasse uma tragédia de Sófocles ou de Corneille, e que, reparando nas linhas de comprimento desigual numa página, letras maiúsculas aqui, minúsculas ali, nomes nas entrelinhas, e toda a irregularidade de uma página de versos separados, censuraria Sófocles ou Corneille por não terem escrito uma página mais clara ou mais regular, e este iletrado não seria mais tolo que nós, quando nos deixamos levar ao pessimismo em função do espetáculo inexplicado da Terra. Se existe uma aparente irregularidade, é porque não temos sob os olhos senão um fragmento isolado.

Do ponto de vista do conjunto, esse fragmento seria visto como uma parte inerente à unidade geral. Não conhecendo, da imensa natureza, senão este débil átomo sobre o qual levamos uma existência passageira, temos desejado julgar a obra divina, em seu duplo aspecto de espaço e tempo, por este ponto imperceptível onde estamos, e nisso somos comparáveis àquele que quisesse avaliar um vasto canteiro por uma das figuras parciais que constituem o plano geral, e cuja disposição irregular, quando vista isoladamente, concorre entretanto à simetria do todo. Em seu conjunto e seu objetivo, a criação é divina; ante a grandeza e unidade de seu plano, as pequenas irregularidades aparentes encontram-se plenamente justificadas. É preciso saber compreender que a Terra e sua população não são mais que um indivíduo, que sua humanidade não é mais que uma criança que vacila e treme; penetrados por esta verdade, não nos creremos mais no direito de julgar a obra imortal a partir de nós mesmos e das coisas que nos cercam. Goethe já havia dito: "A natureza é um livro que contém revelações

prodigiosas, imensas, mas cujas folhas foram dispersadas em Júpiter, Urano e os outros planetas". Após ter feito a análise das coisas, convém fazer a síntese e elevar-se ao topo de onde se descobre a unidade e a harmonia. Mas talvez se apresente como objeção que esta hipótese ainda não explica a presença do mal junto ao homem, e que ela não expõe as imperfeições de nossa natureza; pois se o mal existe na Terra, mesmo que o Universo fosse infinito em extensão e perfeição para além de nosso mundo o mal não deixaria de existir aqui, nem seria menos inconciliável com a noção do Ser supremo. Para resolver esta dificuldade — a única que se possa imaginar contra nossa teoria — é preciso, primeiro, desenganar-se quanto a uma idéia falsa que se faz geralmente das criações divinas. Já foi dito e repetido que nada de imperfeito pode sair das mãos de Deus, e pretende-se, contra os testemunhos da ciência e da filosofia, que a perfeição seja apanágio necessário de tudo o que é engendrado pela força criadora.

É mais apreciado sustentar esta proposição totalmente gratuita, com o risco de fazer os seres decair, não se sabe como, de sua grandeza primeira, do que admitir que a lei do progresso está na natureza, não é uma lei fictícia de degradação. Disso resulta uma contradição intransponível entre esses dogmas e a ciência. A antiga Academia dos gregos, a grande escola de Aristóteles, entrou em caminho errado quando estabeleceu o princípio da incorruptibilidade do mundo: um tal exemplo, a despeito da autoridade respeitável de seus vinte séculos, não serviu de nada aos metafísicos de que falamos. É a mesma coisa hoje em dia, quando a astronomia, a mecânica, a fisiologia, a medicina, mostram claramente que não é a perfeição original a lei da Natureza, mas a perfectibilidade progressiva; persiste-se em sustentar que tudo é perfeito, quando elas mostram um estado de imperfeição manifesta, lacunas e uma força de transformação perpétua na constituição dos corpos e no organismo dos seres: é sustentar implicitamente que tudo é estacionário e negar o movimento, quando tudo avança e se eleva segundo o fluxo ascendente das coisas. Ora, é preciso se desvencilhar dessa idéia

falsa; é um prisma enganador que nos confunde e nos apresenta a sombra e o erro, bem onde nossos olhos procuram a luz e a verdade. Uma vez reconhecido este erro, tendo-o descartado de nossa maneira de veras coisas, refletiremos que toda criatura é essencialmente finita, cheia de limites e imperfeições; que, longe de ter a ciência como algo a ela inerente, vive num estado de profunda ignorância; que só se aprimora graças à experiência, e em seus primeiros dias é suscetível de errar a cada passo. Frente a este estado de coisas, como poderíamos nos espantar que ela às vezes caia em erro, para erguer-se a seguir e aprender com isso a se conhecer melhor? O que realmente nos causaria espanto seria que, em seu estado primitivo de simplicidade e fraqueza, essa jovem criatura avançasse a passos largos para longe do berço onde foi dado à luz. O que nos surpreenderia é que tivesse a perfeição como destino, e que o sublime dom da santidade lhe fosse dado sem que o tivesse merecido e mesmo que ele o vá perder levianamente, sem poder apreciar seu valor inestimável.

Existe em matemática a chamada teoria dos limites. Ela ensina e demonstra que há certas grandezas em cuja direção é possível avançar para sempre, sem que jamais se chegue até elas: pode-se aproximar indefinidamente de uma quantidade menor que o seu todo; mas quanto a atingi-las: jamais. Aquele que, iniciado na natureza dos números, tentasse ponderar esta teoria, aprofundar seu sentido íntimo e aplicá-la ao conjunto do mundo, veria subitamente erguer-se à sua frente um anfiteatro gigantesco, cujos degraus não teriam mais fim. Esse anfiteatro seria a hierarquia dos mundos; o limite de baixo, ou a origem, estaria perdido no fundo dos degraus inferiores; o limite do alto, ou a perfeição absoluta, seria igualmente inacessível; entre esses dois limites se elevariam os homens em sua marcha infinita. O homem que se entregasse a esta contemplação, digamos, poderia fazer uma idéia aproximada da incompreensível imensidade da criação.

Colocai agora a Terra nos degraus inferiores desse imenso anfiteatro, e vereis se nossas fraquezas, nossas misérias e nossos defeitos não se explicam frente a Deus e a sua obra, Nós chegaremos a esta mesma concepção da hierarquia dos mundos, se examinarmos os caracteres distintivos daquele que habitamos. De qualquer lado que encaremos a natureza, nossa doutrina moral se edificará sobre nossa teoria física; pois a Pluralidade dos Mundos é um princípio verdadeiro, e todo princípio verdadeiro deve se encontrar, seja na aplicação evidente, seja em estado latente, dentro de todas as maneiras de ser da grande verdade da Natureza. Se a Terra fosse o único mundo habitado no passado, presente e futuro; se fosse a única natureza, a única habitação da vida, a única manifestação do Poder criador; seria um fato incompatível com o esplendor eterno, ter formado, como obra única, um mundo inferior, miserável e imperfeito.

Aquele que acredita na existência de um só mundo, portanto, é inevitavelmente conduzido a essa monstruosa conclusão de que as divinas hipóstases, eternamente inativas até o dia da criação terrestre, se manifestaram tão-somente pela criação de uma sombra, e que toda a efusão de seu poder infinito não teve como resultado senão a produção de um grão de poeira animada. Se a Terra fosse o único mundo habitado, seria um mundo completo por si mesmo, cuja unidade seria manifesta, e que, segundo a observação de Descartes, satisfaria a nossas concepções e não permitiria a elas buscar fora desse mundo o alimento de nossas aspirações e a existência de um estado superior ao nosso. Ora, sabemos todos que, qualquer que seja a perfectibilidade possível de nossa raça e o grau de civilização que possamos atingir, não chegaremos jamais a transformar as condições vitais de nosso globo; não chegaremos jamais a substituir nossa natureza por outra menos grosseira e uma organização mais sutil; não chegaremos jamais a desfazer as cadeias que nos ligam pesadamente à matéria. Certamente, a humanidade progrediu. As novas gerações trazem sempre consigo um novo poder de

entusiasmo, um novo vigor de ação, e saudamos com amor a juventude que acaba de nascer, cuja missão é preparar a aurora do vigésimo século! Mas, por mais fervorosas que sejam nossas aspirações, por mais caras que sejam as nossas esperanças, a história desta própria humanidade nos ensina que, tanto entre os povos como entre os indivíduos, existe a juventude, a virilidade e a decadência; e infelizmente sabemos que, daqui a alguns séculos, esta esplêndida capital do mundo onde brilhamos hoje em dia em toda a atividade de nosso trabalho, este santuário das ciências onde se elaboram as conquistas do gênio, este campo da liberdade onde o homem aprende a conhecer seus direitos e exercer seu poder individual em benefício de todos, nós sabemos que um dia todos esses esplendores se dissiparão; que o Sena lamentoso rolará suas águas murmurantes na solidão, à sombra dos salgueiros e em meio aos prados silenciosos; e que o viajante, informado de nossa história passada, só poderá aqui e ali reconhecer alguns fragmentos de edifícios elevando-se acima do solo como ossos desnudados, alguns capitéis de colunas quebradas, últimos vestígios de maravilhas desaparecidas.

A civilização terá elegido uma nova pátria e, do fundo de seu sono, a França ouvirá ao longe os ruídos do mundo e os tumultos das tempestades humanas, sonhando com os dias longínquos de sua glória e talvez com os dias de sua indolência e seu luxo efeminado, causa de sua queda e sua morte. — É a história da Babilônia dos jardins suspensos, da Tebas de sete muralhas, de Ecbatane, tumba de Alexandre, de Nínive onde Jó profetizou, de Cartago, rival de Roma; Roma, centro do mundo há dois mil anos, tocha da cristandade sob Leão X, hoje tristemente sentada na borda do Tibre, que há muito tempo arrastou ao abismo os antigos troféus de uma era gloriosa. Sim, como todo indivíduo, a humanidade tem diante dela os limites de sua perfectibilidade, limites distantes, esperamos, mas limites que ela não saberia ultrapassar e que marcarão, tão logo sejam atingidos, o primeiro período da decadência. Se nossas faculdades e nossas forças sobre a Terra parecem ilimitadas, não ocorre o mesmo com os elementos de nossa

perfectibilidade, eles são circunscritos: quando se completa a combustão, o fim da chama está próximo. A história da Terra depende, sem a menor dúvida, de suas condições de habitabilidade. A natureza inanimada é anterior à natureza animada, e esta é submissa à influência da primeira. Ora, não será inútil examinar agora qual é a lei da vida que preside à existência dos habitantes de nosso globo, lei da qual depende a perpetuidade dos seres na superfície da Terra. Reconheçamos sem demora, a lei de vida é a lei de morte. Entre todos os animais que povoam a Terra, não há um só que não viva às expensas dos outros seres vivos, animais ou vegetais; e dos acotiledôneos ou criptógamos, as últimas e as mais simples das plantas, até o bímane, o mais avançado na escala animal, todos os seres vivem para alimentar a vida. As plantas, de existência ainda tão misteriosa, nas quais a observação ansiosa de Goethe acreditava reconhecer uma alma, as plantas vivem para serem comidas.

Os animais que se alimentam das plantas servem por sua vez de alimento a esses cuja existência não é mais que uma longa carnificina, e esses igualmente a outros ainda, e assim por diante. Os seres animados só podem viver aqui sob a condição de se entre devorarem. A severa lei malthusiana é verdadeira em seu princípio, embora exagerada; ela é a expressão dos fatos que acontecem ao nosso redor (1). A lei de morte é a lei de todos os que vivem sobre a Terra. É nossa própria lei para nós mesmos. Se nos fosse possível um dia juntar, ao final de nossa vida, a pilha colossal de seres que serviram para nos alimentar, cada um de nós ficaria verdadeiramente espantado com essa imensa hecatombe!

E o que dizemos de nós, todo ser animado, herbívoro ou carnívoro, pode relacionar a si, em grau maior ou menor: a lei da vida, é a lei da morte. (1) Eis a lei que o economista inglês Malthus aplicou ao homem, como sendo a expressão da vida terrestre; "Todo homem que não tem como se alimentar, ou cujo trabalho não é necessário à sociedade, está a mais sobre a Terra. Não há mesa posta para ele no banquete da vida: a Natureza lhe ordena que parta, e não tarda ela mesma a cumprir essa ordem." Eis o estado da Terra, estado incontestável, que ninguém sonhará pôr em dúvida e ao qual estão tão habituados que ninguém pensa a respeito!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.