Voltar ao livro Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento

Capítulo 9 de 47

III — parte 6 de 6

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Insistiremos ainda no estudo da instituição do sacerdócio cristão, pela eficaz influência que o sacerdote estava chamado a exercer na direção do movimento reformador ditosamente iniciado por Jesus. Para que a seiva do cristianismo, a moral do Evangelho, pudesse circular pelo tronco e chegar até às mais afastadas ramas da árvore da humanidade, tornava-se necessária uma força impulsora constante, um apostolado que fiel guardião da palavra e do testamento do mestre, chamasse os homens à luz em toda a sucessão dos tempos, até chegar ao reinado do espírito, ao triunfo completo sobre as paixões que dividem uns dos outros os membros da grande família humana, ao estabelecer a Igreja universal sobre os escombros de todas as pequenas igrejas estabelecidas na ignorância e no orgulho. Esta empresa era de tal magnitude, que haviam de se suceder milhares de gerações antes que vencesse todas as dificuldades que se acumulariam aos seus passos. Dezenove séculos são transcorridos desde que veio a terra a Boa Nova, e no entanto, em que estado se acha a redenção da humanidade terrestre?

Não saiu ainda, poderemos dizer, do primeiro dia de sua gênesis. É preciso que os cristãos se emancipem de velhas preocupações e se elevem sobre a atmosfera do presente, que nos estreite e nos abriga, volvam vez por outra os olhos à contemplação do passado, ao cristianismo original, que há de ser a sanção do nosso cristianismo; da mesma maneira como o avisado navegante que singra em direção ao austro dirige seus olhos várias vezes ao sententrião a fim de não se desviar do meridiano que haverá de conduzi-lo ao término de sua viagem. Que seja o Evangelho a estrela polar do céu de nossas almas, a bússola de nossa fé nos tempestuosos mares da vida. Por que motivo o fogo sagrado das crenças cristãs está a ponto de extinguir-se? Por que em todos os corações se erigem altares ao sórdido positivismo sobre as cinzas do sentimento religioso? Ai! Invocamos Jesus, e não conhecemos seu Evangelho; nos denominamos cristãos e raros são entre nós aqueles que se dão ao trabalho de estudar os ensinamentos de Cristo.

Por esta razão achamo-nos sem forças para resistir aos assaltos da impiedade. Esquecendo-nos de que o trânsito do homem pela Terra é um combate, menosprezamos aqueles meios de defesa sem os quais é inevitável a derrota. A fé cega que recebemos da tradição, sucedem as vacilações da dúvida, à dúvida segue a indiferença, á indiferença o sensualismo e ao sensualismo a negação, e tudo por não termos edificado nossa primeira fé sobre o racional e sólido fundamento da comparação e do estudo. Já vimos que o Mestre não toma seus discípulos, seus apóstolos, seus sacerdotes, sejam do templo ou da lei, nem da tribo consagrada desde Moisés ao serviço do altar: pouca confiança lhe podia merecer para o magistério das máximas evangélicas, que eram máximas de liberdade, aquele sacerdócio oficial que fanatizava o povo para lançá-lo como uma fera sedenta de sangue contra o primeiro que ousasse levantar a voz contra a opressão teocrática estabelecida ao amparo do antigo Tabernáculo o fundador da nova igreja, da grande igreja que há de ter por templo o universo, não se satisfaz com o sacerdote moldado no padrão da tradição e da letra, egoísta, intransigente, amante das exterioridades do culto e dado ao ócio e ao regalo: o sacerdote de sua predileção é o laborioso filho do povo, o homem virtuoso e simples que sabe fazer o sacrifício de seu conforto em altares da redenção de todos, o varão justo, bondoso, tolerante, inimigo da suntuosidade e da hierarquia, que edifica com a unção da palavra e da santidade do exemplo.

A estes chama para formar seu apostolado; a estes convoca para enviá-los, a fim de que não ignorem as condições e os deveres que o cumprimento da missão sacerdotal leva consigo, lhes fala e os instrui nestes termos: "Ide e pregai, dizendo: Que é chegado o reino dos céus: que a salvação veio do Alto e que a verdade brilha esplendorosa para todos os entendimentos. Curai os enfermos: fortificai com a reveladora seiva do Evangelho esses espíritos que desfalecem e adoecem por causa dos vícios e erros religiosos que se agitam e asfixiam suas crenças vacilantes. Ressuscitai os mortos: devolverei á vida da fé essas almas que pereceram por falta de alimento e que renegaram seu Pai e seu Deus porque viram impor-se a iniqüidade e a fraude onde deviam tomar assento à justiça e a verdade.

Limpai os leprosos: purificai, circuncidai com circuncisão da alma as consciências minadas pela sensualidade e egoísmo, e afugentai demônios, os ídolos da paixão e do desenfreio, em cuja honra erigiu altares à concupiscência humana e cujo culto podereis arrancar dos corações, inoculando nos mesmos o puríssimo e vivificante espírito da caridade, da esperança e da fé. O que de graça recebestes, de graça dareis: a vós que foram dadas a grau e a revelação, não para que monopolizeis em utilidade própria estes dons, mas sim para que os façais frutificar em benefício da humanidade, filha de Deus, como administradores que sois de bens que não tendes ganho, e dos quais deveis fazer com que todos os vossos irmãos deles participem. (1) (1) Mateus X, 7 e 8. "Não possuireis ouro, nem prata, nem dinheiro, nem levareis alforje, nem bastão, nem tereis duas túnicas; porque aquele que tem seus sentidos postos nas riquezas, nas comodidades e no fausto, dá evidente mostra de que não é a salvação do próximo o móvel de seus desejos.

O sacerdócio é vocação e não promoção, abnegação e não sensualidade, simplicidade e não ostentação, sacrifício e não preponderância. O sacerdócio termina justamente onde começam a preponderância, a ostentação, a sensualidade e o comércio. Aquele que ama o ouro ou a prata, não é sacerdote; aquele que vende em troca de bens temporais os da alma, não é sacerdote; aquele que não sabe fazer sacrifício de suas comodidades terrenas sempre que se ofereçam a seus olhos a desnudez e a fome, ou insulta com sua abundância a miséria dos filhos do povo a quem recomenda o desprezo das coisas da vida, não é sacerdote modelado no Evangelho e nutrido com a seiva dos ensinamentos de Cristo.

Digno é o trabalhador de seu alimento, e também o ministro da palavra; porem este ministério é delegado pela Providência e o mesmo é profanado quando aquele que pretende exercê-lo confia mais na eficácia dos bens terrenos do que na fraternal solicitude da Providência. (1) (1) Mateus, X, 9 e 10. "Não sete vezes mas sim até setenta vezes sete perdoareis a vossos irmãos. Se eles forem devedores, também o sois vós, pois sois homens como os demais. Tendes o dever de perdoar e não o direito de julgar e condenar. Sobre vós e todos os homens, um está estabelecido como juiz a justiça, nas mãos de Deus, não vossas, pecadoras e falíveis. Por isto o reino dos céus é comparado a um rei, que quis ajustar contas com seus servos, o qual, havendo perdoado a um de seus devedores dez mil talentos, o entregou depois ao cárcere e á tortura por não se haver compadecido de outro que lhe devia cem dinheiros. O mesmo fará também convosco o Pai celestial, se não perdoardes de vossos corações.

O que pronunciar palavras de maldição, de ira ou de vingança não e sacerdote; é o merecedor do tormento até que pague o último ceitil. (2) (2) Mateus, XVIII, 21 e seguintes. Sabeis que os príncipes dos povos avassalam seus súditos e que os grandes oprimem os fracos e os humildes? Não será assim entre vós. Entre vós, aquele que quiser ser o maior será vosso criado, e o que pretender ser o primeiro será o último. No sacerdócio não cabem preeminências nem hierarquias: as distinções e privilégios nascerão da sabedoria e se arraigarão nas repúblicas ao calor das concupiscências humanas: mas a milícia espiritual, o sacerdócio cristão, há de ser um exemplo perpétuo de igualdade, humildade e abnegação, donde os poderes da Terra aprendam constantemente a reformar e melhorar suas instituições até alcançar dentro das mesmas a perfeição cristã, que há de ser o triunfo da igualdade e por conseguinte a morte das distinções hierárquicas.

O Filho do Homem não veio para estabelecer a hierarquia, mas sim para suprimi-la na ordem espiritual, e a dar sua vida em redenção e em holocausto. (3) (3) Mateus XX, 25 e seguintes. "Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio. (4) (4) João, XX, 19. Eu recebi do Pai a altíssima investidura do sacerdócio, a divina missão de redimir com a predicação e com o exemplo das virtudes a pobre humanidade terrestre, que vaga perdida nas encruzilhadas, o caminho reto da perfeição e do progresso: missão gloriosa e santa, porém plena de fadigas, perseguições, ingratidões e perigos. Subirei a meu Pai, e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus, (1) e a vós outorgo a continuação do celestial ministério para cujo estabelecimento desci das moradas da felicidade imortal e tomei corpo entre os homens da Terra. Transmito-vos minha potestade, meu encargo sacerdotal; mas com a condição de que sereis, como eu, o caminho, a verdade e a vida das almas. Nisto consiste o sacerdócio: na predicação e no exemplo; na humildade e no amor; na abnegação e no sacrifício.

Quem não seguir estas minhas pegadas e se apartar de meus caminhos, não é, não pode ser sacerdote da Igreja que eu vim estabelecer. Ide, pois, e ensinai a todos batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, isto é, ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos mandei (2), e de cuja observância depende o verdadeiro batismo do espírito, o batismo essencial para a purificação e salvação". (1) João, XX, 17. (2) Veja-se a nota 10, do Padre Scio, no cap. XX de S. João. Nestes termos institui Jesus o sacerdotal ministério, o corpo docente chamado a continuar a obra da redenção através dos ensinamentos evangélicos. O retrato do sacerdote cristão foi feito com a mão do Mestre, com a mão do fundador do cristianismo. Colocados neste retrato os olhos do entendimento, estudemos o sacerdócio do nosso século, e meditemos. Não soou ainda para os cristãos o momento de meditar?

Oh! divino livro! Oh! Evangelho de Jesus! Só em tuas inspiradas palavras respira o espírito a doce paz, a fé benfazeja, a esperança consoladora que pode sustentá-lo e alentá-lo em meio às amarguras e flutuações da vida. A vida humana é uma perpétua e renhida luta entre os opostos elementos através dos quais se elabora a consciência individual, e a consciência, a alma, o espírito, uma semente, um princípio divino, um germe, filho da Sabedoria ainda não criada, sujeito a uma série indefinida de transformações, a uma depuração eterna. Arrasta-se trabalhosamente pela terra em seus princípios a larva espiritual, e da terra não pode erguer-se e sobre ela trabalha seu casulo durante muito tempo para ressuscitar de sua morte aparente em estado de miserável verme. Quem contará os séculos de sua primeira formação da primeira fase de sua eterna vida? Quem medirá a enorme distância que separa do obscuro nascimento da lagarta sua luminosa ressurreição em nítida mariposa?

Quem conseguiu abarcar com seu olhar a sucessão dos dias desde as primeiras densíssimas trevas até os lampejos da luz. Nesta brava peleja, neste perpétuo choque de instintos, de tendências, de paixões, de sentimentos, de juízos encontrados, a cada nova investida sente o homem fraquejar sua fé, que é a promessa de uma felicidade que se perde de vista, e sua razão, que é a bússola de sua fé. Lá vai a nave! Lá vai o espírito do homem! A que inexploradas praias o arrojará o furor da tempestade? Dele apodera-se com freqüência a vertigem do tenebroso, do insondável, do incompreensível, da morte, da dúvida, da negação, que é a vertigem da tempestade, que é o delírio do nada; e então já não pergunta aos ventos, já não distingue o horizonte; fecha os olhos e se entrega de corpo e alma à agitação que o rodeia, crendo que naquela agitação tenha nascido, que o torvelinho que o afoga o tenha gerado e que o mesmo torvelinho voltará a confundir-se! Horrível desfalecimento!

Só um vivíssimo raio de sol pode torná-lo à realidade: à esperança, à fé, à vitória, pela resistência e pelo trabalho. Este claríssimo raio de luz brilha nos olhos de todas as gerações, de todas as idades, de todas as seitas, de todos os ramos da grande família humana universal, na essência pura de suas tradições, na profundeza de suas crenças, no espírito e nas profecias apocalípticas de seus livros sagrados, que são o Sancta Sanctorum de sua fé, e brilha nos nossos, nos dos povos regenerados pela seiva do cristianismo, no código moral dos ensinamentos de Jesus, compilados por alguns de seus discípulos que os recolheram de seus lábios ou que os beberam puros das nascentes tradições. A este código temos que voltar nosso olhar nos momentos de terrível dúvida, de vertigem infernal, de desfalecimento, de desespero, e em seus preceitos e máximas beberemos sempre o consolo, a força e a alegria.

Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos (1) os que cem vezes sucumbistes às sugestões impuras do egoísmo e da carne; os que vos sentis arrastados na impetuosa corrente dos gozos enganadores, da corrupção e do orgulho; os que levais vossas túnicas manchadas no sangue que destilam os ferozes instintos do ódio e da vingança: os que exalais com vosso fétido alento o odor da podridão da alma: os que perdestes a fé que regenera, a fé cale salva, a fé que transpõe montanhas; os que vos sentis enervados com o bem, os que duvidais de tudo e tudo negais; os que vos fartais da matéria e vos credes condenados a perecer em uma de suas transformações; os que vos Sentis travados para o bem, os que não conseguis descobrir a harmonia inteligente e o amor providencial na marcha da sucessão e nos destinos dos seres; os que desfaleceis nas contradições aparentes da vida e lançais na face do céu uma sarcástica, uma ímpia gargalhada.

Vinde, vinde a mim todos e eu vos aliviarei, eu mudarei vossa imundície em curo, vossa enfermidade em saúde, vosso ceticismo em fé, vosso desespero em esperança. Tomai meu jugo sobre vós e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e nesta mansidão e nesta humildade encontrareis o repouso de vossas almas: porque meu jugo é suave e meu fardo é leve. (1) Mateus, XXVIII, 19 e 20. Sim, suavíssimo é o jugo do Evangelho. Jesus, que é o caminho (1) pelo exemplo de suas virtudes, a verdade, pela divina origem de suas palavras, e a vida, pela fecundidade regeneradora de sua moral, deseja misericórdia e não sacrifício (2). Não exige de seus discípulos mortificações e sofrimentos estéreis, exterioridades que a nada conduzem, esquecimento dos afetos e das relações sociais, separação egoísta do mundo para entregar-se a uma contemplação mística constante; nada disso entra nas prescrições de seu código, que não respiram aridez e melancolia, mas sim alegria e expansão, a alegria da pureza e a expansão da simplicidade e da bondade em meio às condições da vida propriamente humana.

Tão suave é o jugo, tão fácil o cumprimento de seus preceitos, que os reduz todos ao amor a Deus e ao próximo (3), fazendo depender deste duplo amor, deste exclusivo mandamento de caridade, toda a lei de regeneração e todas as profecias. Baseados nisso, dizemos e não nos cansaremos de repeti-lo, que Jesus não veio para estabelecer um culto em que tivessem de continuar como essenciais às práticas exteriores, mas sim o culto ela verdade, o culto do sentimento. Também não veio para fundar uma religião, mas sim fazer compreender que a religião das religiões, aquela que abrasa e funde todas em uma, é a pratica da moral, alicerçada no amor a Deus e às criaturas. Tudo o que é amor, amor da alma puro e desinteressado, é religião, é cristianismo, é religião universal, estabelecida desde os princípios dos tempos e explicada por Jesus, eterna como a subordinação da criatura inteligente e livre á causa criadora, á Inteligência soberana.

E Tudo o que não é amor, nem do amor procede, nem ao amor se dirige, ainda que religião se chame, não é religião, ainda quando de cristianismo se intitule, não é cristianismo: poderá ser e será indubitavelmente algo filho da convenção, da ignorância ou da malícia dos homens, rito, cerimônia, culto externo; porém cristianismo, porém religião, jamais. O cristianismo, a religião, é o culto espiritual, a adoração íntima, o amor, a fraternidade estreitando em uma só família os homens de todos os povos, de todas as raças, de todas as gerações que se sucedem na possessão do mundo. Que vos ameis uns aos outros, nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, disse Jesus (1). (1) João, XIV,6. (2) Mateus, XII 7. (3) Mateus, XXII, 37 a 40.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.