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Capítulo 47 de 47

XVII

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

O Sexto Dia do Homem. - A Civilização Romana. - Corrupção Geral. - Necessidade de Renovação nos Sentimentos e Costumes. - Nascimento de Jesus

A civilização romana era senhora do mundo. O império levara as suas armas e passeara as suas legiões triunfantes por todas as regiões do continente e o cetro dos Césares pesava sobre todos os povos subjugados à onipotência de Roma, que vinha a ser o nervo, o coração do movimento da humanidade terrestre. Roma impusera a sua lei e inoculava a sua corrupção nas províncias conquistadas. Com suas armas levava seus deuses, e com seus deuses um manancial inesgotável de leviandades, uma causa permanente de desfibramento moral, capaz de destruir todo sentimento nobre, toda aspiração elevada, e de desfibramento físico, capaz de consumir a vitalidade do povo mais vigoroso. A civilização romana, modificada com importações da Grécia, do Egito e das regiões orientais, era a civilização do prazer. Epicuro reinava nos corações e nos costumes. Os deuses das virtudes não têm adoradores: seus templos estão desertos; o pó cobre suas imagens. Da terra não sobe mais incenso além do que a sensualidade desenfreada queima nos torpes altares de voluptuosos ídolos. Divide-se a humanidade em escravos e senhores.

Os senhores corrompem os escravos com seu exemplo, e os escravos aumentam a corrupção dos senhores com a sua vil degradação. À família dos escravos pertence à mulher, esse precioso crisol do sentimento, cujo inestimável valor o mundo ainda não conheceu, O homem, à imitação dos seus deuses, só vê na mulher o instrumento, o vaso dos seus apetites lúbricos, e ela, desnuda do sentimento e mesmo do instinto do pudor, se prostitui e se entrega voluntariamente à vergonha. As festas consagradas aos deuses do Império são cenas asquerosas em que tomam parte desde o mais alto patrício até o último da plebe. Para essa enfermidade geral, para essa prostração e decadência do sentimento cooperam os próprios sacerdotes com freqüentes atos de hipocrisia e servilismo, adulando os magnatas em meio aos seus excessos. Não é somente entre os adoradores dos ídolos que imperam a hipocrisia e licenciosidade, mas também entre os que conhecem a unidade de Deus, entre os filhos de Judá e seus sacerdotes e doutores. Israel apenas conserva da legislação religiosa rio deserto e dos profetas a cerimoniosa ostentação do culto.

Quanto à legislação política, foi destruiria com a sua nacionalidade em conseqüência das sucessivas submissões. Tanto na Judéia como em Roma, no Oriente como no Ocidente da Terra, os sábios são incrédulos e os ignorantes supersticiosos; a falsidade dos monopolizadores da luz envolvera a humanidade em trevas e nas trevas se extraviaram as consciências. Como haveriam de crer os sábios do Império nos deuses gregos e romanos, protótipos de todas as misérias, heróis de todos os delitos? Impossível! Todavia se afogavam na corrupção geral, na voluptuosa indolência do prazer e nem buscam a verdade, nem desejam a pureza rio espírito. Como os sábios de Jacó haveriam de crer no Deus da tribo de Levi, no Deus das pragas, das tempestades, das maldições, dos exércitos, se todas essas coisas são engendradas pelos ódios, pelas mais iníquas paixões dos homens! E em sua credulidade se entregam, como os sábios do Império, a todas as suas intemperanças e como eles se prevalecem das superstições alheias para medrar a custa dos povos.

"Gozemos, - exclamam uns e outros: gozemos os prazeres da vida, já que os nossos deuses não têm olhos para ver e nem ouvidos para ouvir; gozemos, pois que as promessas e ameaças dos profetas pereceram com eles e já não troveja no Sinai o Deus de nossos avós. A justiça é o prazer." No entanto, todos vêem essa corrupção geral e sentem a necessidade de uma renovação nos sentimentos e costumes. Todos reconhecem que a sociedade está edificada sobre o egoísmo, o desenfreamento rias paixões, a hipocrisia e a mentira, e compreendem que não pode subsistir apoiada em alicerces tão frágeis; mas a displicência, a luxúria e o ceticismo gastaram toda a sua virilidade, todas as suas forças, toda a energia do espírito, e são egoístas, desenfreados, hipócritas e mentirosos. A linhagem dos homens, a família humana da Terra tem gangrenado o coração e a gangrena é a morte. Só Deus poderá, em sua inefável misericórdia, afastar a grande catástrofe e dar a saúde ao enfermo condenado. Pois bem; assim sucederá.

Deus porá a sua mão nas enfermidades dos homens, pois foram criados para a vida e o progresso, Esses transes supremos estava desde o princípio na previsão divina e seu remédio nas harmonias divinas da lei. Porquanto nada sucede que não haja sido previsto na eternidade pela sabedoria infinita de Deus, que é pai de misericórdia. e bondade, decretou a instituição da lei, com o aperfeiçoamento e o progresso, a cura de todas as enfermidades. Os mandamentos das Tábuas foram escritos para que os sucessivos ensinamentos, fazendo triunfar o bem sobre a Terra, se esculpissem na mente e no coração do homem, não para que o tempo e as veleidades humanas os apagassem. Que importam os séculos e as gerações humanas que com os séculos sucedem? O fim dos homens e das coisas é o bem, e esta lei é infalível.

As Tábuas não haviam sido entendidas e explicadas em espírito e em verdade; eis porque só vestígio quase imperceptível deixou nas civilizações que tiveram algum contacto com a hebraica, e esta é também a razão pela qual, na época a que me refiro até o final do quinto dia, careciam de virtualidade para regenerar o próprio povo de Israel. Se as primitivas interpretações puderam iniciar na geração do Sinai um movimento de progresso, dez séculos mais tarde entorpeciam os desenvolvimentos espirituais das novas gerações. E não foram dez, mas quinze, os séculos em que essas interpretações subsistiram. As Tábuas que Moisés e o sacerdote viram no firmamento de sua visão celestial iriam servir de alicerce e pedra angular da moral, que há de ser a religião, a única religião das humanidades depuradas; mas a imoralidade dos tempos desviou-as, desde o princípio, dos seus objetivos primordiais, acomodando-as à instituição de um culto que, mais do que ao sentimento, falasse aos sentidos dos homens. Desse erro dimanaram os desregramentos elos filhos de Jacó.

Olvidaram o culto do sentimento, da adoração da alma e a fizeram depender única e exclusivamente da observância do sábado, como se a adoração devesse ficar necessariamente restringida ao espaço que medeia o despontar e o pôr do sol de um dia determinado. No atraso de seu espírito não souberam compreender que o sábado da lei não podia significar um dia da semana, apenas um dia, um período da vida do homem em sua peregrinação sobre a Terra. O sábado da lei é o tributo de respeito e gratidão que deve a criatura ao Autor de sua vida e felicidade e significava que homem não tem de viver somente para as coisas terrenas mas, de vez em quando, e mesmo com alguma freqüência, como freqüentes são os sábados, deve elevar o seu pensamento ao céu para glorificar à suma Inteligência, ao supremo Amor. Isso, quanto à adoração direta.

Quanto à adoração indireta, que consiste no cumprimento do dever, a lei não estabeleceu nenhuma limitação: para a prática da justiça nas ações, todos os dias são sábado. Se os hebreus interpretaram mal os preceitos de adoração escritos nas Tábuas, melhor não entenderam os outros que unham por objetivo a observância da justiça e do amor em relação às criaturas. Julgaram que as proibições do Decálogo haviam sido dadas só em benefício de Israel e contra as nações estrangeiras, as quais consideravam fora da bondade e das promessa de Jeová. Em conseqüência, creram lícito o homicídio, o adultério, a violação, a depredação e a mentira, sempre que recaíssem sobre os povos inimigos. Creram igualmente que a promessa de viver na terra dos viventes, feita aos cumpridores do Decálogo, devia entender-se a terra de Canaã, como recompensa de conhecer e adorar o verdadeiro Deus, e jamais elevaram seus olhares acima das nuvens, à terra espiritual das almas vencedoras. Se algum levantava sua contemplação aa céu, guardava seu pensamento no mais intimo do espírito.

Esses erros, nascidos da miséria das gerações daquele tempo, foram causa de que o sentimento moral se desfibrasse e notoriamente decaísse, à medida que o entendimento humano despertava. A razão, já mais vigorosa, não podia aceitar sem protesto aquele Deus que vingava dos egípcios os filhos de Israel, nem as frivolidades da adoração levítica, nem preceitos revelados em proveito de um só povo; e, depois de ter protestado, acabava por emancipar-se do fanatismo para cair em cutia servidão, à servidão da incredulidade e do orgulho...Os sábios deixaram de crer, porque à sua razão repugnavam as primitivas crenças, e os ignorantes, porque adivinharam, apesar do cumprimento exterior da lei, a incredulidade dos sábios. Era, pois, necessária uma renovação moral fundada no espírito regenerador das Tábuas, a fim de que todos os homens e todos os povos chegassem a aplacar a sede de suas almas nas puríssimas águas que desceram sobre o Sinai e que, desprendendo-se de seu cume em arroios cristalinos, haveriam de fecundar todas as regiões e vivificar os espíritos. Então nasceu JESUS, encarnação do espírito de amor e de justiça, precursor do espírito de sabedoria e de verdade.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.