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Capítulo 39 de 47
III — parte 4 de 4
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
O Cristo é o primeiro personagem verdadeiramente histórico das Escrituras indianas, assim como Abraão é o primeiro personagem verdadeiramente histórico das Escrituras hebraicas. Antes do Cristo dos orientais e antes do Abraão dos hebreus, a iniciação e a alegoria. Um foi o fundador da civilização-mãe, o outro pôs a primeira pedra na obra da formação e civilização de um povo, filho dos homens primitivos da Terra. O Cristo estabeleceu sua doutrina chamando as porta, do entendimento e do coração as gerações humanas, preparando desse modo à emancipação dos povos, pelo amor, e o consolo dos oprimidos, pela esperança. Abraão inaugurou a organização da força dos fracos, para resistir aos fortes e sacudir o jugo da opressão e a injustiça. Um era a voz do cumprimento da lei, o outro o protesto dos homens desamparados.
Abraão, descendente de um dos chefes das tribos que moravam nas selvas e às margens dos rios, apartados de todo comércio com as cidades, contra as quais sustentavam contínua guerra de emancipação e resistência, herdara de seus avós todos os ultrajes recebidos e a indignação que despertam nos peitos generosos o opróbrio e a injustiça. Vivia entre os seus inimigos como se tivesse esquecido as injúrias do passado e confundido suas aspirações e gostos com as aspirações e gostos dos homens das cidades; em realidade, porém, habitava entre eles para estudá-los em seus costumes íntimos e aproveitar seus ensinamentos assim como suas debilidades, em benefício, dos servos. Para triunfar do inimigo, é preciso conhecer os meios com que haverá de lutar e seus pontos vulneráveis.
Deixou a cidade em que viveram seus pais e avós e grande parte das riquezas por eles acumuladas à força de engenho e trabalho, Haviam-no precedido, a seu mando, sua mulher e seus servos e as servas de sua mulher e o acompanharam aqueles cujo coração soube granjear, Peregrinou com os seus pelo deserto em direção entre Ocidente e Meio-dia, agrupando simultaneamente a seu redor todos os homens que derramavam lágrimas de injustiça. Consigo levou também a iniciação das crenças dos sábios, entre os quais Abraão era contado. Onde Abraão? - perguntavam os chefes da cidade-, onde o primogênito dos nossos inimigos? E deitaram língua na peregrinação de Abraão, mas debalde, porque espíritos de justiça e de bondade dirigiam suas resoluções e encaminhavam seus passos em segredo. No entanto, Abraão, oculto na obscuridade, envia seus emissários às selvas e se entende com os primeiros das tribos errantes. E as fogueiras dos oprimidos alumiam durante a noite as cristas dos montes e acendem no peito dos escravos risonhas esperanças.
E o chefe de todos, porque é o mais animoso, o mais sábio e o mais autêntico. Formam circulo ao seu redor os que guiaram as tribos e dobram a cerviz a seus conselhos. Ele os adestra no emprego da astúcia, porque seus inimigos das cidades são os mais astutos entre as gerações dos homens, como que vieram de cima envoltos na luz de sua inteligência pervertida. Esse é um princípio de um principio de um povo que mais tarde será mestre de muitos povos. Chegou Abraão aos confins do Ponto, visitando os desterrados que se localizaram nas margens orientais e meridionais do grande golfo, que hoje é chamado Mar Negro e separa Ásia da Europa. Ali anunciou a palavra de esperança e continuou sua peregrinação aos desertos do Meio-dia até chegar ao golfo que divide a Ásia da África. Ainda não deteve os seus passos. Os inimigos eram poderosos ao extremo e era-lhe necessário concentrar todas as forças. Procura o Mar Vermelho, desce à região do Egito e toca a buzina aos ouvidos dos que perguntam quem há de ser seu redentor e seu chefe.
Os caldeus já não se dão conta do fugitivo de Ur. Julgam-no morto ou incapaz de resistência, muito menos para invasão das cidades. Todavia Abraão, uma vez posto em contacto com os irmãos, os servos das terras visitadas, volve seus passos até o Ponto, onde o esperavam prontos a levantar a cabeça contra a opressão os chefes dessas tribos. Tomou-as sob a direção de sua astúcia e esperou. Dormiam as cidades em seu poder e em seus vícios; quando não suspeitavam a tempestade, rugiu o trovão e os habitantes de algumas cidades, com seus capitães, foram passados a fio de espada. A fama se propagou até a Caldéia e os caldeus se lembraram do fugitivo de Ur. Ao mesmo tempo brilharam por toda parte chispa de incêndio, porque por toda parte haviam Abraão deixado algo da semente de seu pensamento. Entre os mais animosos dos chefes dos servos meios Isaac e Ismael, filhos do capitão dos chefes.
Contudo, Ismael fugiu para longínquas terras em ao Meio-dia, por causa de rixas e desentendimentos domésticos e porque haveria de dar o grito de guerra entre os homens das selvas meridionais, que só a faziam aos ferozes das montanhas. Isaac caiu nas mãos dos homens das cidades. Para salvar a sua vida e resgatá-lo, teve Abraão de depor as armas e devolver às cidades seus primeiros limites, adiando assim muito a contragosto o momento da emancipação de sua raça. A fim de que não resultassem vãos os sacrifícios feitos, nem infecundo o sangue tão prodigamente derramado, consagrou-se a obter pela paz o que não havia conseguido pela guerra: a organização e a cultura das tribos e a dispô-las para as eventualidades do futuro. Tomou o sentimento religioso por base da civilização que se propunha levantar e a circuncisão como selo dos filhos de seu povo.
Falou-lhes de que o Senhor Deus de todas as gentes lhe tinha aparecido em sonhos, por um de seus emissários celestiais, prometendo-lhe que seu povo seria poderoso entre os povos da Terra se fechasse os ouvidos às sugestões iníquas e os abrisse à justiça; que cairia porém em longas e duras servidões, se os fechasse à justiça e os abrisse à iniqüidade e à abominação dos ídolos, como os filhos das cidades. Proibiu-lhes, com ameaças do Alto, misturarem-se aos idólatras e não permitiu a seu filho tomar mulher nem dos caldeus, nem dos persas, nem dos egípcios, só entre donzelas de seu povo. Ensinou-lhes os mandamentos da justiça, novos para as tribos, e a adoração ao Senhor Deus e o sacrifício. Como não podia desconhecer as aspirações materializadas, os desejos grosseiros e carnais dos homens de seu povo, falou-lhes do Deus do trovão e da vingança, de uma longa e próspera vida para os fiéis observadores da lei da consciência e de terríveis castigos neste mundo para os transgressores amantes do mal alheio e dos deleites pessoais.
Da alma imortal e da transmigração do espírito falou com Isaac, seu filho, e com os mais doutos entre os que eram reputados sábios. Na mente e no coração daquela gente, a morte do corpo era o mesmo que a morte do espírito. Criam em Deus, em um Deus feito à sua semelhança, superior em sabedoria e poder; porém não suspeitavam ainda da possibilidade de uma recompensa ou de uma expiação ulteriores à vida. Abraão baixou ao sepulcro, deixando a iniciação religiosa por testamento, posta a primeira pedra na obra de emancipação e dignificação do povo primitivo da Terra. Legou seu testamento a Isaac e morreu em paz, dando encomendando seu espírito ao Senhor. Isaac continuou as últimas tradições do pai. Ensinou aos seus o cultivo da terra e com o seu bom exemplo a justiça. Amarguraram sua existência antagonismos de família, produzidos pela inveja de seus filhos Esaú e Jacó, que só terminaram com o desaparecimento de Esaú, o qual fugiu para terras longínquas por causa das carinhosas preferências de sua mãe por Jacó.
Este foi instruído pelo pai na iniciação religiosa e na educação do povo cujos modestos destinos iria dirigir. Morto Isaac, pretendeu Esaú reivindicarem seus direitos ao patriarcado do povo. Era animoso e não lhe faltaram partidários. Todavia, o ter chamado em sua ajuda os estrangeiros privou-o do apóio dos seus, que o abandonaram à própria sorte; vencido e humilhado Esaú, ficou Jacó na posse pacífica da cobiçada chefia. Os antagonismos hereditários continuaram entre seus filhos, que foram doze varões e Diná. Um ultraje consumado na pessoa de Diná foi pretexto, para os filhos de Jacó, da destruirão de um povo. O Patriarca teve de se separar do menor de seus filhos, a fim de subtraí-lo ao ódio dos demais irmãos, que haviam surpreendido com invejosa desconfiança as carinhosas preferências com que o pai o distinguia. Enviou-o ao Egito, onde o fez instruir na iniciação e nas tradições orientais, como também nas ciências profanas, que há esse tempo tinham no Egito o mais elevado destaque.
José, - que este era o menor dos filhos de Jacó -, bebeu nas fontes egípcias toda a sabedoria da época em tal grau que, mesmo entre os mestres, era julgado o primeiro. Seu saber e suas virtudes o levaram à confiança do Rei, que nele depositou pouco menos que todo o peso da governança do Estado. Enviou notícias de sua ascensão ao velho pai e o chamou para perto dele, bem como os irmãos, para que compartilhassem da providencial prosperidade. Veio Jacó ao Egito e falou ao ouvido de José, dos segredos do governo e das tradições que herdara de seu pai Isaac e de seu avô Abraão no tocante aos destinos de seu povo. Vieram também Judá e Benjamim e os outros filhos de Jacó com suas mulheres e filhos e todos os servos, que eram em grande número, e todos os rebanhos que possuíam, que eram muitos.
Todavia, a fim de que os hebreus não despertassem receios nos homens da cidade, dispôs José, com a anuência do Rei, que toda a tribo, salvo o patriarca Jacó, acampasse fora dos muros, na terra mais a Oriente, conhecida por terra de Gósen. Desde então José concentrou o pensamento, recorrendo em suas dúvidas a Jacó, para o acerto na direção das coisas do Egito, correspondendo à confiança do Rei e à educação política e moral do povo hebreu, sem a qual não lhe seria possível altear-se nem sobre os egípcios nem sobre qualquer dos povos da Terra. O ministério de José na corte egípcia durou tanto quanto a vida de seu régio protetor. Pôde assim fomentar longamente os interesses de sua raça e chamar a seu lado os irmãos para lhes dar parte nos projetos de engrandecimento das tribos. Morreu Jacó, deixando a Judá e a José o testamento de Abraão e Isaac; morreu depois o Rei, protetor de José e dos hebreus.
Seu sucessor, receoso da proliferação das tribos, despojou José das insígnias do poder e chamou à cidade os homens de Gósen para vigiá-los e oprimi-los. Entraram na cidade como servos, e José e seus irmãos foram apontados aos homens de armas como perigosos para a paz e a tranqüilidade dos egípcios. Não se atreveu o Rei a ordenar a prisão e a morte de José e Judá porque muitos egípcios se lembraram da justiça de José no longo tempo em que regeu os destinos do Egito. José morreu de velhice, deixando aos seus filhos e aos filhos de Judá, que era o primogênito, embora não o maior dos irmãos, o testamento secreto de Abraão, de Isaac e de Jacó. Morto José, em quem os egípcios sempre respeitaram a sabedoria e a justiça, rompeu-se o laço de união entre os egípcios e os hebreus; o Rei pôde oprimir estes últimos sem despertar indignação nem as murmurações de seu povo.
Ele via aumentar no Egito, dia a dia, a casa de Jacó e não considerava impossível que os hebreus impusessem aos egípcios, em tempo não muito remoto, as suas força e vontade. Sabia que, chefiados por Abraão, se haviam levantado em armas contra as cidades e suspeitava da existência de um testamento de guerra e emancipação, filhos entre os chefes das tribos. Abandonou por isso os hebreus à injustiça dos egípcios e os chefes dos hebreus à vigilância e ação dos homens de armas do Egito. Leis especiais, progressivamente mais rigorosas, diferentes das sábias leis comuns do Egito, regeram desde então os filhos de Israel; leis inspiradas pelo temor, que é o mais injusto dos conselheiros das ações humanas. Proibiu-lhes, primeiramente, dedicarem-se ao estudo das ciências, pertencerem à milícia e ao sacerdócio e exercerem o ensino e cargos da administração ou do governo do país. A seguir, foram-lhes congelados os bens imóveis; tornaram-nos legalmente incapazes de possuí-los no futuro e foram declaradas coisas do Estado, sobre as quais podia o governo operar impunemente, sem responsabilidades.
Outrossim, os filhos dos hebreus, desde o nascimento, não ficavam sob o domínio paterno mas debaixo da jurisdição, nesse ponto onímoda, dos delegados do poder. Em uma palavra, houve no Egito dois povos: um, senhor; o outro, escravo, na mais aflitiva e infamante escravidão. Qual não seria a indignação dos fortes que trabalhavam em segredo a fim de libertar de tanta humilhação à casa de Israel! De tempos em tempos essa indignação sublevava os ânimos e o escravo intentava quebrar os ferros do insuportável cativeiro; derramava-se então o sangue de centenas de míseros hebreus e forjava-se mais um grilhão para os oprimir. Era o israelita um povo tão apegado aos instintos materiais e grosseiros e não teria tido virtude para levantar uma civilização fecunda, se antes não se tivesse desprendido de suas escórias no crisol do infortúnio. Era porém um povo vigoroso em toda a força fecundante do princípio de vida e se multiplicava e crescia rapidamente em meio aos rigores a que o sujeitava o cruel despotismo dos reis do Egito. E o número cada dia maior dos oprimidos aumentava os temores e a crueldade do opressor.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.