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Capítulo 13 de 47
VII — parte 4 de 8
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Dentro do Espiritismo, a religião consiste na moral e somente na moral; porque a moral é o cumprimento do dever e somente por este cumprimento pode o homem aproximarse de sua felicidade e de Deus. Por isto a religião há de firmar-se nestas três grandes afirmações, nestes três princípios fundamentais: Deus, alma imortal e livre, prêmios e castigos espirituais em justa proporção dos merecimentos; porque sem a aceitarão destas -fundamentais verdades, faltará à moral a base e a vida humana, ainda em seus mais nobres exercidos, cairá por inteiro sob a ,jurisdição da mecânica. Convém distinguir entre o Espiritismo prático e o teórico, religião um, e a filosofia outro. O primeiro é a moral em ação; a segunda investiga os fundamentos da moral O Espiritismo prático realiza este progresso. Pelo teórico chegamos ao conhecimento de que uma inteligência infinita governa o todo, de que somos eternamente perfectíveis e portanto imortais, de que nosso porvir será fruto de nossas obras presentes; e pelo prático adoramos Deus e amamos nossos semelhantes, cultivando dessa maneira a felicidade de nosso espírito.
Não cabe dúvida de que a prática se avantaja em muito à teoria sob o ponto de vista do proveito individual: porém é a teoria que destruirá os antigos erros e difundirá pela convicção as crenças que erguerão o novo templo. O Espiritismo, como religião, vem explicado e sancionado nestas palavras de Jesus: "Crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. E ai; ora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade:" (1) (1) João, IV, 21 e 23. Nos primeiros séculos das civilizações, os povos têm necessidade de materializar a adoração, a fim de que penetrem pelos olhos do corpo as primeiras noções da Divindade, já que os da alma estão fechados a tudo que não seja concupiscência e egoísmo.
Um altar de pedras colocado no cimo do monte e mais adiante um templo artisticamente construído na cidade, podem ser considerados como altar e templo dignos da Majestosa Sabedoria na qual, segundo expressão de São Paulo, existimos, nos movemos e vivemos de modo nenhum: o altar simboliza o sacrifício e o único sacrifício aos divinos olhos agradável é o de nossos brutais apetites: o templo simboliza a elevação do sentimento, o incenso de nossa gratidão, e o Ser supremo têm direito a que as criaturas cantem sua glória desde todos os pontos da Terra e desde todos os globos do espaço. Para esta adoração em espírito e em verdade o altar não pode ser outro que o coração do homem, nem há outro templo digno de tanta grandeza, que o universo em toda a sua inefável imensidade. Isto expressou Jesus e isto é o Espiritismo no seu aspecto religioso. Sim, isto diz a escola é o Espiritismo, apesar de quanto em contrário clerical, que vive dos altares de pedra.
A eles se agarra como o avaro a seu dinheiro, como o náufrago à única tábua que flutuar sobre as águas. Porém o mundo marcha, disse Pelletan com gráfica expressão, e os ultramontanos não poderão deter a marcha do mundo. Seu conceito religioso, cada dia mais estreito e egoísta, torna pequeno o altar, o templo e mesmo Deus. Sua adoração é uma idolatria mal dissimulada; seu objetivo o domínio universal. Impotentes para a discussão, conseguem êxito apenas na opressão das consciências. Empunham o fuzil do faccioso ou o bastão do romeiro, conforme convenha a seus planos a violência ou a hipocrisia. Ah! os ultramontanos não constituem uma escola, muito menos unta igreja; formam, isto sim, uma falange internacional perturbadora, belicosa, inimiga da ordem pública baseada no direito, na justiça, na liberdade e cultura dos povos. O conceito religioso do Espiritismo é a adoração em espírito e verdade, tal como o entendia e pregava Jesus, nosso mestre. Necessitaremos demonstra-1o? O Espiritismo é o Sermão da Montanha e o amor a Deus e ao próximo, soma de todas as pregações de Jesus.
Desafiamos os detratores do Espiritismo que nos assinalem um único ponto em que o mesmo possa diferir da doutrina de redenção tão sabiamente exposta nas bem-aventuranças e no capitulo XXII de São Mateus. E toda vez que nossos mais apaixonados adversários são os ultramontanos, vejamos se é a sua moral ou a nossa que do Evangelho se aparta. Assim, vamos colocar ambas face a face, tomando como ponto de comparação a moral do cristianismo. Os ultramontanos de hoje são os fariseus da época de Augusto. Alardeiam ser o mais escrupuloso cumpridor da lei e não se cansam de cantar seus próprios merecimentos e virtudes. Possuem dois céus, um na terra para si e outro, não sabemos onde, para os demais. Seu reino é deste mundo, riquezas, comodidades, deleites, consideração e fausto: o espiritual é reservado para as ovelhas obedientes, para os cândidos que os reconhecem como guias infalíveis das almas. Sua moral lhes permite preparar, incendiar e alimentar fogueiras onde ardam com antecipado inferno vítimas humanas, guerras desoladoras que lançamos povos ao desespero e à miséria.
Têm maldição e anátemas para o que prega a fraternidade universal c sentimentos de tolerância e perdão para os incendiários e assassinos, quando o assassinato se denomina fuzilamento de liberais e o incêndio recai sobre povos que não abriram suas portas às hordas ultramontanos. Leiam-se seus órgãos de imprensa: não teve uma palavra, uma só palavra de censura contra os perpetradores dos crimes consumados em Igusquiza, em Igualada, Cuenca, em Olot, e ensurdecem o céu e a terra com seus clamores, e ai daquele que se atreve a duvidar de seu dízimo, nu dificultar alguma de suas romarias, cuja piedade aparente serve de máscara a nefandos propósitos, a planos liberticidas e criminosos. A eles cabem perfeitamente as palavras de Jesus: Este povo com os lábios me honra: mas seu coração está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens. (1) Nisto se distinguem os ultramontanos e se avantajam a todos os cultos desfolhados da árvore do cristianismo: multiplicaram os mandamentos até desnaturalizar por completo a moral do Evangelho.
O Evangelho está edificado sobre o amor, a humildade e o perdão; e a moral ultramontana sobre o temor, o egoísmo, o orgulho e o anátema: o primeiro estabelece como a lei de perfeição a prática da caridade; o ultramontanismo, antepõem as cerimônias externas. (1) Mateus XV, 8 e 9. Jesus disse: “Coloca no seu lugar a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão (1); os ultramontanos, pelo contrário, asseguram que não só é lícito, senão obrigatório, desembainhar a espada em favor ou em dano dos príncipes do mundo, segundo convenha aos interesses da seita”. (1) Mateus, XXVI, 52 "E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro será servo de todos" (2) diz o Evangelho; mas os ultramontanos, fazendo caso omisso deste ensinamento, estabeleceram primeiros, segundos e terceiros. "De graça recebestes, de graça daí: Não possuais ouro nem prata, nem cobre em vossos cintos" (3): a isto responderam nossos fariseus colocando um preço em todos os serviços espirituais e acumulando-os à vista de todos.
Amaldiçoam todos os que ousam revelar ao povo sua avareza e seus abusos puníveis, esquecendo-se das máximas evangélicas que Jesus prescreveu: perdoar as ofensas até setenta vezes sete. (4) (2) Marcos, X, 44 (3) Mateus X, 8 e 9 (4) Mateus XVIII, 21 e 22 E estes, estes são os que se escandalizam com o Espiritismo, como se escandalizavam com as verdades que derramava Jesus aos escribas e fariseus. Do Mestre disseram que era um impostor e que agia pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios (5): não é, pois, de admirar que digam o mesmo dos apóstolos da Boa Nova os fariseus e escribas dos nossos tempos. Se reproduzirem os mesmos efeitos, é porque as causas são as mesmas. O Espiritismo, como Jesus, condena as exterioridades (6), e aplaude a adoração em espírito e verdade; recomenda, como Jesus, a adoração a portas fechadas e em segredo, como muito superior à adoração pública nas sinagogas (7); faz depender, como Jesus, toda a lei e os profetas, do amor a Deus e ao próximo (8); promete, como Jesus, a salvação e a felicidade, não aos cumpridores de fórmulas, mas sim aos que praticarem as obras de misericórdia.
Porque destes de comer ao faminto e de beber ao sedento, e ao peregrino hospedastes e ao nu vestistes, e visitaste, o enfermo e o encarcerado, vinde benditos do meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a fundarão do mundo (9). (5) Mateus, XII, 24. (6) Mateus, VI, e seguintes. (7) Mateus, VII, 6 e seguintes. (8) Mateus, XXII, 37, 39 e 40. (9) Mateus, XXV, 34 e seguintes. Este, e nenhum outro, é o conceito religioso-moral do Espiritismo, exatamente conforme a moral evangélica, apesar de quanto propalam os que fingem não conhecê-lo para que tenham ocasião de caluniá-lo. Porém, é apenas isso o Espiritismo? Certamente que não, como o catolicismo não é apenas dogma. O Espiritismo é religião e é a filosofia e no presente parágrafo o estudamos unicamente em seu aspecto religioso, a fim de ressaltar a injustiça com que o tratam os doutores do catolicismo oficial. Quem não ouviu qualificarem de monstruoso, de infernal engenho, a moral espírita?
Que consciência menos avisada não se sentiu ainda presa de pavor, ao ouvir que, do fundo das iniqüidades do século, acaba de surgir uma seita estreitamente unida por meio de tenebrosos pactos com o mesmíssimo diabo para exterminar a Igreja? Que fanático não terá visto em sonhos o espectro do Espiritismo apresentando-se como fantasma descarnado envolto em serpentes e vomitando fogo? E preciso que os mais timoratos se persuadam de que aspecto religioso do Espiritismo nada tem de iníquo e horripilante; que a sua moral é a mesma do Evangelho; que não vem destruir a religião, mas sim combater o tráfico religioso.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.