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Capítulo 37 de 47

III — parte 2 de 4

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

A Providência velava sobre a iniqüidade dos homens da Terra e nos ditames do seu amor resolveu precipitar os tempos da regeneração da pobre humanidade, sem minguar nem coibir a sua atividade voluntária e livre, pelo contrário, enriquecendo-a de luz e emancipando-a da ignorância, que escravizava a vontade do homem naqueles remotos dias de sua infância e de sua primeira juventude. De todo modo era conveniente abrir-lhe os olhos da alma, para que percebesse o abismo aonde seus pés se dirigiam, iluminando em maior proporção a sua razão e suavizando um tanto as asperezas dos seus sentimentos, que apenas davam o menor indício do que existia no fundo elo seu espírito.

Os frutos amargos da ferocidade e da carne, as mágoas pungentes que o ódio e o temor deixavam embora passageiramente impressas nas entranhas, continham o desbordamento completo das inclinações escusas e afinal a iniqüidade teria matado a iniqüidade e do temor teria surgido o amor; porém o progresso e a depuração elo espírito do homem não obedecem somente aos esforços humanos mas também à cooperação providencial e amorosíssima de Deus. que envia a sua luz das alturas. Das regiões de seu amor o Pai viu a luta fatigante de seus filhos, seus maus caminhos, suas quedas, seus erros, e compadecido em espírito estendeulhes a sua mão salvadora, tocou-lhes o coração e o entendimento e os despertou. Lá na imensidade, nos conchos da Sabedoria eterna, onde a Providência pesa na balança ele seu amor às obras e os pensamentos das criaturas racionais e livres, Deus resolveu exercer sobre os fracos homens da Terra a sua misericórdia, a sua amorosíssima misericórdia, por meio de sua justiça, de um ato de sua santíssima justiça.

Sua misericórdia sobre a ignorância, que não discerne; sua justiça sobre os corações cheios de soberba e os entendimentos rebeldes. Flutua a milhões de léguas do vosso mundo, mas à vossa vista, outro de maior felicidade; um paraíso onde não é conhecida nenhuma das misérias da Terra. Ali, entre os bondosos espíritos elevados pela virtude, moravam outros, - Adão e Eva, se quiserdes, e sua linhagem - elevados pela luz do seu preclaro entendimento, para que se fizesse neles a prova da misericórdia e se acrisolasse a bondade e o amor de suas entranhas. Pela prova, era-lhes dado purificar-se dos ressaibos e impurezas das concupiscências anteriores e granjearem a posse perpétua do paraíso até os mais venturosos dias de sua futura elevação espiritual. Deles houve os que conquistaram a misericórdia e o paraíso pelas obras de suas mãos e o perfume ele seus sentimentos e estabeleceram ali as tendas de sua peregrinação, sem temor da tempestade que rugia ameaçadora pelo outro lado do monte que deixavam às suas costas.

Todavia, houve também os que, na prova, se deixaram vencer pelo egoísmo e pelo orgulho. A luz do seu entendimento, que deviam empregar em registrar e descobrir os perigos da própria pobreza espiritual e estudar a Deus, para bem dizê-lo, nas letras de ouro da criação esculpidas no solo de seus pés e no luminoso firmamento de seu céu, essa luz empregaram em registrar e descobrir os caminhos falazes da sensualidade e dos falsos prazeres da carne, pela opressão da simplicidade e da inocência, em endeusar o próprio entendimento acima da criação e atribuindo-lhe a supremacia que corresponde à Inteligência universal. Não foram mansos e humildes de coração; muito ao contrário, agressivos e inflados de soberba. Oh! como se despenha à criatura racional de rocha em rocha, de precipício em precipício, quando apaga Deus de seu entendimento e substitui seu amor com os desvanecimentos do amor próprio e seu estudo com o estudo dos gozos materiais!

Adão e Eva, e com eles muitos outros de sua geração, todos que haviam tornado estéril, por causa do egoísmo e da soberba do entendimento, a providencial misericórdia, foram pela justiça expulsos do paraíso e desterrados até a consumarão de seu orgulho e de sua sensualidade. Viram-se obrigados a repassar o monte que nas águas da graça alcançaram, transpor e volver às regiões onde haviam deixado estabelecidas suas tendas. Cairam com ímpeto do paraíso, cujas portas cerrou atrás deles o gênio das recordações, o espírito que segura na destra a espada flamante do cumprimento da lei. Contudo, caíram ostentando no corpo vestígios luminosos de uma beleza perdida e, na fronte, chispa da claridade de seu entendimento e o selo de uma divina promessa, a promessa de uma redenção mais ou menos remota pela humildade do juízo e o amor das entranhas.

Os homens primitivos da Terra se haviam apossado dela em toda a sua redondeza, dos climas boreais ao equador: os homens do paraíso localizaram-se nas regiões do Oriente, para daí derramar-se mais tarde e se apossarem dos quatros ângulos do mundo. Vieram sobre o Oriente porque era o Oriente onde dominava com maiores estragos a violência. Sucederam-se muitos séculos, e ainda tem ali a violência o seu mais elevado trono. O Oriente é o berço de todas as civilizações, porque ali nasceram as raças de luz descidas do paraíso; todavia, também foi em todos os tempos o teatro das maiores iniqüidades e das maiores abominações, porque ali foi onde primeiramente se aliaram com a violência a malícia do coração e o entendimento pervertido. Alguns séculos, e o Oriente se povoou com imigração dos desterrados do paraíso. - Quem são estes? dizia o homem velho da Terra. São meus filhos e não os conheço. Sou mais forte que eles: meu braço poderia destruí-los sem resistência e, no entanto, olham-me com desprezo.

Chegaram por último à região e à tribo e, não obstante, me humilham com o raio de seu olhar e me dão ordens como ao miserável escravo. Quem são estes, que são meus filhos e não os conheço? - Quem são estas, cuja formosura resplandece sobre a formosura de minhas mulheres e cujo fascinante olhar produz vertigens e desarma o braço iracundo? Vão são minhas filhas? Porém, se são minhas filhas, por que sorriem de meus furores, por que se burlam de minha altivez, por que são tão formosas? - Oh! sim; são meus filhos e não os conheço: odeio-os. São minhas filhas e sinto nas entranhas, com o gelo de seu desdém, o fogo de seus olhares. Os homens da imigração invadem uma região do Oriente e chegam até às lindes da onde hoje está a áfrica. Eles e os primeiros povoadores da Terra formam duas famílias, duas raças que se repelem com força e que se repelirão até que se fundam em uma só raça, uma família, imagem da fraternidade universal.

Ao passo que avançam os filhos da nova geração, retrocedem os homens primitivos. Lentamente desaparecem os segundos das zonas de que sc apossam os primeiros, como sc uma força superior impulsionasse a separação. Os homens velhos correm para o meio-dia e com preferência para o Ocidente; são os homens das selvas e das montanhas. Parece que se consideram impotentes para resistir à invasão e ao esbulho e recuam ante o inimigo para concentrar forças e começar depois a reconquista de suas tendas e a restauração de seu poder. No entanto, os filhos de Adão e Eva se estendem pelas planuras, pelas margens dos rios e pelos climas temperados. Trabalham, além da pedra a da madeira, o ferro que extraem das entranhas da Terra. Destroem as tendas de troncos e ramos, edificam sobre pedra e madeira as primeiras cidades toscas que os olhos humanos viram. Tecem túnicas e fabricam com elas o ornamento de seus corpos. Temem e abominam os homens das selvas. Por isso, constroem com o ferro instrumentos de opressão e morte e levantam portas e diques ao redor de suas cidades.

Ao seu impulso erguem-se as civilizações mais antigas da Terra. Ao lado dos ásperos costumes da tribo, dos modos bárbaros e grosseira linguagem do homem da montanha, nascem às relações sociais da cidade, as maneiras estudadas, a dissimilação e os idiomas acomodados às novas necessidades que a diferença no modo de ser das famílias leva atrás de si como seqüelas. Quando os homens se juntam para viver em sociedade e não os acompanham a pureza de sentimentos nem a justiça dos desejos, expandem-se e requintam-se rapidamente as artes que conduzem a dissimulação, porque os homens necessitam praticar as regas da hipocrisia a fim de que não se veja o egoísmo de suas miras e seja possível a sociedade. A esse objetivo convinha o enriquecimento da linguagem; e a linguagem se enriqueceu de todos aqueles volteios necessários para velar oportunamente o pensamento.

Credes que hoje, com todos os seus decantados progressos, poderia existir na Terra a sociedade, sem hipocrisia e a dissimulação, sem a mentira nos costumes e na Língua se cada qual se visse forçado a manifestar a verdade de seus sentimentos e propósitos? Sim, existiria, porém não sem que primeiro se desse uma grande depuração humana, um grande cataclismo no seio das sociedades terrestres; não sem que primeiro a metade dos homens levantasse pendão de extermínio contra a outra metade; não sem que primeiro o sangue corresse em rios e formasse lagos; não sem que primeiro se regenerassem os corações no Jordão de suas lágrimas e se purificassem as consciências no fogo das grandes dores, na piscina das resoluções de justiça tomadas em presença daquelas formidáveis catástrofes que ferem a quantos sobrevivem. A sociedade edificada sobre a verdade, por conseguinte sobre o amor, existirá na Terra; porém antes sucederão essas coisas.

Se estas acontecem de golpe, a transformação será rápida: sobre as ruínas fumegantes se levantará a nova cidade, jovens, exuberante de seiva e de virtude, que crescerá como que edificada pelo espírito de Deus e encherá a Terra. Se acontecem-se com lentidão, com a lentidão das obras dos homens lenta será também a transformação e a cidade nova se edificará sobre a velha, casa por casa, torre por torre à medida que os bamboleantes monumentos, que as carcomidas instituições desmoronarem. Assistimos todavia aos estertores do sexto dia do homem e da morada do homem; o passar de um dia a outro vai sempre precedido de um juízo, de um veredicto e de uma separação necessária: tudo aquilo que exige uma rápida sucessão de acontecimentos, um brusco desequilíbrio, a partir do qual se contam as gerações e os dias e se edifica a nova civilização. E depois dessas coisas sabeis o que restará das vossas instituições atuais, de vossas leis e governos, de vossa civilização?

O que resta das primeiras civilizações do Oriente; da antiqüíssima civilização do Egito; dos medos e dos persas, dos helenos e romanos? O que resta de todas as civilizações mortas, porque cumpriram a necessidade que lhes deu vida: o cadáver. A presente geração, apesar de viver na dissimulação e hipocrisia, sente afogar-se na atmosfera de corrupção que respira e busca uma corrente de ar puro que, restaurando as suas forças, refresque suas esperanças murchas. Vive na mentira, porém sente-se ávida de verdade; opera o egoísmo, o positivismo individualista, mas a intima inspiração de sua alma é a regeneração de todos pela justiça e o amor; entregase aos gozos sibariticos do sensualismo, que são como a fosforescência da felicidade; mas no fastio, na degeneração, acha o resultado da embriaguez dos sentidos e, se envergonhado de si mesmo, volve como o náufrago os olhos em todas as direções e implora a Terra e aos céus outra felicidade mais pura, mais estável, outros gozos que não deixem no coração marcas de dor, lagrimam de desconsolo, espinhos de remorso e de vergonha.

Perdida corre a humanidade dos tempos presente!... Encontrará a luz de seus caminhos? A geração de hoje produz o mal, mas deseja o bem e o desejo do bem a salvará Não assim o homem do quarto dia. O homem da imaginação, o Adão bíblico, depois da queda, contempla-se formoso, forte e inteligente; contempla a mulher, bela, com a beleza da paixão e do deleite, e exclama: - A vida é o amor, a voluptuosidade, o domínio, a posse da Terra; é o descobrimento dos segredos da Natureza para o aumento do bem-estar e a multiplicação dos gozos; é o prolongamento da juventude, a robustez e vigor do corpo para o prazer, a satisfação de apetites e desejos: esta é a vida. -Amemos, pois, e juntemo-nos para ser forte; gozemos e dominemos. E vem o culto das paixões, a guerra de raça contra raça, de povo contra povo, de região contra região, de uma parte da grande família humana, filha de Deus, contra outra, não menos filha do amor e da sabedoria do Ser que do alto olha compassivo os extravios de seus filhos.

Entre os homens primitivos cia Terra, a brutalidade, a arrogância, o ódio; entre os homens da imaginação, o requinte nos prazeres, ciência dos gozos, a dissimulação, o apego às riquezas, a aspiração insensata de domínio. O Deus dos primeiros ruge no furação e fulmina sua ira no relâmpago; o dos estrangeiros vindos do paraíso se humaniza e cede a todos os apetites, a todas as concupiscências, até oferecer-se a seus adoradores em formas agradáveis, em todas as que melhor possam atiçar as paixões sensuais. Nem todos os filhos da imigração meditam e praticam a iniqüidade desvie o princípio e em seqüência; alguns voltaram ao caminho da lei, do qual se tinham apartado em sua morada anterior e ganham, pela justiça de suas obras e humildade de sentimento, a felicidade perdida por seu egoísmo e orgulho. Seth é o símbolo alegórico dos desterrados que reivindicam pela virtude o direito de voltar à pátria perdida, deixando definitivamente as praias inóspitas do desterro.

Caim, ao contrário, simboliza a multidão de espíritos para os quais a luz que irradiam ilumina somente os tortuosos caminhos de sua corrupção e os castelos de sua soberba. Ambos, Seth e Caim, não foram nesses tempos duas personalidades reais; foram os símbolos dos dois ramos em que se bifurcou a árvore da geração adâmica, o menor elevando-se até o céu, o outro torcendo-se para a Terra para nela apoiar-se. Entretanto, no curso dos tempos, os descendentes dos homens simbolizados em Seth tomaram da linhagem de Caim a corrupção dos costumes. A iniqüidade das paixões e a soberba do coração encheram as partes do globo habitadas pelas raças estrangeiras. Misturam-se com os homens primitivos sob o manto de amizade e proteção; a proteção foi tirania e a amizade crudelíssimo sarcasmo. Não tereis visto esse mesmo iníquo proceder em vossos dias, quando o mundo antigo, abrindo caminho através dos mares do Ocidente, deixou-se cair sobre as terras pressupostas e redescobertas no outro lado do Atlântico. Não acontece ainda o mesmo à vossa vista no dia de hoje?

Tudo porém se realiza providencialmente. A injustiça dos invasores do velho continente no novo encontrou o castigo, ao mesmo tempo em que com suas luzes iluminava os horizontes de um povo que se arrastava nas trevas da barbárie. Assim também o homem primitivo: sob a opressão e tirania dos estrangeiros do paraíso achou a luz que haveria de guiá-lo à verdadeira liberdade. A inteligência do homem dilatava cada dia seus confins, mas era a inteligência ela corrupção e o mal se assenhoreava do mundo. Eram necessárias terríveis ameaças para deter as gerações no caminho de sua embriaguez. Por sorte, ainda havia na Terra elementos suficientes para a ameaça e o castigo. As paixões inflamaram discórdias e guerras devastadoras; os tremores terrestres inundavam de água e fogo as regiões mais povoadas e fecundas. Povos inteiros sucumbiam e a notícia da espantosa inundação correu boa parte da Terra. Tal foi o dia quarto da história da humanidade terrestre.

O Quinto Dia. - A Lenda do Dilúvio. - A Iniciação. O Cristo do Oriente

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