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Capítulo 18 de 47
VII
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
A Internacional Cristã
A renovação é a lei da Natureza, e as leis da Natureza infalivelmente se cumprem. Renovam-se os mundos que vagam na incomensurável região do éter; renovam-se as humanidades, os seres que vivem na superfície dos mundos; renovam-se os elementos de vida, os modos de ser das substâncias, as formas dos corpos, as condições dos espíritos. E nesta perene renovação universal, nesta eterna palingenesia dos seres, o substrato, digamo-lo assim, dos que precedem, serve como de levedura dos que seguem, determinando nos mesmos em cada evolução um movimento ascensional em direção ao progresso. Os mundos novos se formam com os resíduos elaborados pelos velhos; a humanidade atual e o renascimento das gerações humanas primitivas. A esta contínua metamorfose, a esta lei, que é da criação, não podiam subtrair-se às instituições humanas, mais mutáveis, como filhas da eloqüente vontade do homem, que as portentosas obras da sábia Natureza.
Porém, da mesma maneira como nestas, as transições se verificam sem saltos bruscos, sem abalos violentos, dentro do cumprimento harmônico das leis, toda renovação nas instituições humanas determina solenes e pavorosas crises, terríveis convulsões, sangrentas lutas entre os interesses criados à sombra do passado e os novos direitos que se pretende introduzir. Nas obras feitas pelos homens sempre se descobrem sinistros vestígios, os vestígios do orgulho e do sórdido egoísmo. Sobrevém uma idéia fecunda, salvadora, com toda a virtualidade necessária para mostrar os caminhos da família humana e regenerar o mundo, e que acontece? Ai do gênio! aí da gigante inteligência que se atreveu concebê-la! uma falange de sábios surgirá com sua autorizada palavra, com suas orgulhosas pretensões cientificas, talvez com seu insultante desprezo, mascara de um sentimento mau que nem a si próprios confessariam sem que sentissem seus rostos rubros de vergonha; e fazendo coro com os sábios virão os negociantes e os fanáticos, prontos para caluniar e perseguir o gênio que ameaça destruir inveteradas fraudes e promulgar um decálogo mais puro.
Urge renovar uma instituição decrépita, viciada, perturbadora, anacrônico baluarte de uma ordem de coisas que pugna com as mais nobres aspirações da consciência humana? Ai dos primeiros apóstolos! Sobre eles cairão com ira os que vivem ao redor daquela instituição, confiados na indiferença com que os povos costumam presenciar os primeiros combates que se travam por sua causa: e se a instituição ameaçada é de índole religiosa ou participa de algo do mesmo caráter, a crise é incomparavelmente mais trabalhosa e difícil em virtude do farisaísmo dos traficantes, que é a mentira da virtude, tão generalizada entre os homens e o fanatismo religioso, que é o mais temível de todos os fanatismos. Em nossos dias assistimos a mais transcendental das renovações que a História registrará, renovação ou transformação filosófica, religiosa e moral, preparada pela Filosofia do último século e fecundada pelo espírito da Revolução Francesa naquilo que teve de grande, de civilizadora, de benéfica.
O riso filosófico de Voltaire, resumindo e afirmando a incredulidade herética dos homens pensadores de todos os séculos, destruiu o dogma e deu à razão o cetro da consciência: a proclamação dos direitos do homem na Assembléia francesa apagou as diferenças sociais estabelecidas na arbitrariedade e na injustiça e, derramando sobre o mundo a luz da dignidade humana, mostrou o verdadeiro ideal do progresso baseado na correlação do direito e do dever. Entre camadas de sangue se alicerçavam os cimentos da nova fé. As grandes transformações humanas, parecem, hão de vir acompanhadas, como os grandes movimentos geológicos, de terríveis convulsões. A ironia aparentemente cética de Voltaire era necessária, como a única arma capaz de abrir no muro do fanatismo o orifício por onde penetrasse a razão humana no recinto dos antigos mistérios para dissecá-los e julgá-los.
Seus disparos certeiros tinham como alvo o supranaturalismo, que havia feito da Filosofia cristã uma Teologia fantástica e absurda, e as formas, que havia desnaturalizado o puríssimo conceito religioso acariciado na mente do divino Apóstolo da liberdade e do amor; porém, no fundo do ceticismo voltaireano palpitava o espírito do crente e germinava a semente da religião do porvir, isenta de insustentáveis cerimônias, filha legitima da moral do Evangelho. Cabe duvidar que Voltaire e a Revolução tenham dado o golpe de graça ao supranaturalismo, emancipando a razão? É menos certo que o racionalismo toma da moral evangélica as máximas com que elabora seu código de moral social. A seita ultramontana, encarnação de todos os erros, de todas veleidades e abusos cometidos em nome do cristianismo, compreendeu-o fartamente; grande mistificadora da moral universal, promulgada por Jesus com as palavras: "Amai-vos uns aos outros."
E pela mesma razão compreendeu, sente também que o mundo sacode vergonhoso jugo; eis porque deu o alarma em toda linha e se prepara para desencadear a batalha decisiva, a fim de recobrar aquele onipotente domínio que a fez senhora dos povos. Seus propósitos e planos o definimos no capítulo precedente, com o titulo de "A Internacional Negra": destruir o direito moderno em nome da tradição, a Ciência em nome da fé, a civilização em nome do cristianismo, a liberdade em nome do Evangelho. Exatamente o que ao ultramontanismo lhe interessa destruir é o que às sociedades lhes convém edificar e assegurar. Não pode haver comunidade de interesses entre o escravo e o amo, entre as vítimas e o verdugo: isto é preciso que se compreenda bem.
E da mesma maneira que a sede de domínio agrupou em torno de uma bandeira odiosa, hipócrita, envilecida, todos os que buscam na ignorância e no opróbrio dos demais sua utilidade e vaidade, o amor à liberdade há de agrupar sob outra bandeira, franca, generosa, nobre, pela qual lutaremos, pois a justiça só pode existir sobre a face da Terra através da elevação do sentimento e da difusão da luz. A humanidade está enferma, devora-a lentamente a lepra corrosiva da ignorância supersticiosa; mas, afortunadamente, conheceu seu estado, e para recobrar a saúde falta apenas que se lhe mostre o remédio. É indispensável restaurar suas forças morais, que os tiranos do pensamento procuraram aniquilar.
Homens de boa vontade, de consciência honrada, de coração reto e ânimo varonil; vós que deplorais a iniqüidade de uns e a cegueira de outros; vós que conheceis os fariseus, os mercadores do templo e que negociaram às expensas dos humildes e dos simples; vós que condenais essa abominável intolerância anticristã que se pretende restabelecer para nos lançar novamente na sinistra escravidão da Idade Média; vós que estudastes o movimento religioso dos séculos e que vistes a que ponto chegou a falsear-se aquela doutrina de caridade e sacrifício selada com o sangue do civilizador do mundo, ouvi, ouvi nossa voz, que, em sua humanidade, é, não obstante, a expressão de uma necessidade universalmente sentida, o eco de uma aspiração que ferve na consciência dos povos.
E preciso arrancar a máscara da hipocrisia; é preciso denunciar as maquinações maquiavélicas daqueles que, prometendo a felicidade celeste, se acomodam e se fartam nos bens terrestres é preciso derrubar os altares de todo ídolo que erigiu a superstição; preciso chamar as coisas por seu nome, sem contemplações egoístas; é preciso levar a instrução a todas as partes, para que em todas as partes se aprenda a discernir o real e o aparente, a virtude e o fingimento, a religião e a fraude religiosa, o sacerdote e o mercenário, os benfeitores da humanidade e os que não são nem aspiram ser senão seus opressores e seus carrascos. A Internacional Negra, organizada pelo ultramontanismo para recobrar o monopólio das consciências, é necessário opor a força coletiva de todos os homens de bem, amantes da justiça e do progresso, a INTERNACIONAL CRISTÃ, que terá por objetivo precipitar a solução da crise social e religiosa que atravessa o mundo e cooperar para a necessária e inevitável transformação dessas instituições degeneradas que, tendo esgotado sua fecundidade em virtude de nelas terem infiltrado sua seiva corrompida o utilitarismo e o orgulho, já não podem servir senão de estorvo e resistência na marcha desembaraçada dos destinos humanos.
Os tempos não podem ser mais oportunos e favoráveis: por uma feliz conjunção de circunstâncias o ultramontanismo já não é mais aquele monstro gigante, aquele terrível dominador de outras épocas. De seu poder e antigo esplendor conserva apenas a pele. E o gigante Golias, porém a quem o Davi da civilização alvejou a cabeça. A Internacional Cristã pode lutar com ele com toda a confiança de vencê-lo. Ela faz guerra ao direito moderno em nome da tradição, e nós temos que fazê-la à tradição em nome do direito; não à tradição baseada nos eternos princípios de justiça, condição e elemento indispensável de progresso, mas sim á que se alicerça em fatos consumados na força da arbitrariedade e do monopólio, que é a tradição invocada pelo ultramontanismo. Que os povos vejam com toda clareza a enorme diferença que há entre a tradição genuinamente evangélica, de igualdade e amor entre os homens, e a tradição ultramontana de privilégio e anátema.
Introduziram-se abusos e corruptelas que objetivam o predomínio de uma casta em prejuízo dos interesses comuns, materiais e morais; desnaturalizou-se o cristianismo primitivo de maneira que o acidental veio substituir o essencial, a forma e a palavra, o pensamento e o espírito, e urge fazer com que tudo isto seja conhecido e julgado e condenado pelos mesmos de cuja ignorância se prevaleceram os mistificadores para nela cimentar seu comércio. Que é a tradição senão o precioso legado que à posteridade se transmite, para que, estudando nos mesmos as necessidades e os feitos de cada época, sirva de ponto de partida a novos desenvolvimentos sociais, cada dia mais harmônicos e perfeitos? Ponha-se muito em conta que unicamente a tradição divina, concordância perfeita entre os fatos e as leis universais, é a que responde a todas as necessidades e a todos os tempos, devendo por conseguinte ser reputada como elemento eterno de progresso; e que a tradição humana, assim, seja tão apostólica como histórica, tão eclesiástica como doutrinária, só responde a determinados tempos e a necessidades transitórias, devendo ser considerada antes como objeto de estudo para graduar o alcance do movimento e da civilização em suas sucessivas etapas, do que como pauta à qual tenham que se subordinar os destinos da humanidade em seus desenvolvimentos ulteriores.
Queremos signi Ficar com estas palavras que, enquanto a tradição divina não prescreve jamais, a tradição humana, prescreve, uma vez esgotada sua seiva fecundante: que, enquanto a primeira é foco de luz eterna, a segunda é chama que alumia cada dia menos e finda por apagar-se. O ultramontanismo faz guerra à Ciência em nome da fé, com a missão da Internacional Cristã é submeter à fé ao veredicto da Ciência, do qual não pode sair senão condenado ao perpétuo afastamento de toda razão sensata. Entenda-se que não falamos de fé propriamente divina, a qual, radicando-se nos eternos princípios de moral e na concordância harmônica dos fenômenos e soas leis, nada pode temer da investigação filosófica, antes ao contrário, se robustece e afirma com as conquistas do entendimento: falamos dessa outra fé, turva, cega, inimiga do exame, irracional, que os ultramontanos implantaram em seu código político-religioso, e sem a qual jamais teriam podido implantar nas consciências seus erros e nos povos seu despótico domínio: falamos dessa fé contraditória, absurda, que pretendem fazer passar por donativo sobrenatural e que impõem pela violência como se fora natural.
Os ultramontanos começam por cegar seus adeptos com o pó sutil da fé para poder vender-lhes logo em seguida seus berloques de alquimia e suas contas de miçanga que fazem passar por jóias de ouro de lei; e são inimigos da claridade, seja porque os cegos que escravizam já não lhes servem, ou porque suas tendas, como as dos traficantes de má fé, necessitam estar obscura. Sejamos, pois, prudentes e enxerguemos claro, nós que desejamos para a humanidade nobres destinos; abramos os olhos dos cegos e registremos em sua companhia, levando a Ciência como lume, as tendas dos traficantes religiosos. A seita ultramontana faz guerra à civilização em nome do cristianismo, e à Internacional Cristã lhe compete demonstrar que as doutrinas e práticas ultramontanas constituem o pólo oposto da pregação e das práticas recomendadas por Cristo.
Oh! esta demonstração é bem simples; não é necessário apelar a grandes recursos: bastará abrir o Evangelho em qualquer de suas páginas e comparar com a mansidão e as repreensões de amor de Jesus o desenfreado orgulho, a intolerância e o amor dos sectários que pomposamente se gabam de ser os únicos e infalíveis intérpretes de Deus. Em que máxima evangélica se autoriza a guerra e o derramamento de sangue pela fé? De que ensinamentos cristãos se fazem derivar as leis e os príncipes no governo dos povos. De onde estabeleceu Jesus que a água e as mãos erguidas para o céu e os golpes sobre o peito, e as formas externas do culto, e a oração retribuída, fossem condições essenciais de salvação e progresso espiritual Porventura autorizou com seu exemplo ou com seu verbo o fausto e as riquezas dos ministros da palavra? E se nada disso autorizou, como o clericalismo ultramontano, que o autoriza e o pratica, ousa intitular-se fiel depositário e intérprete da revelação cristã e herdeiro da missão de Jesus?
Só por unta insigne aberração do entendimento humano, só pela perversão completa do sentido moral e a crassa ignorância das gerações que nos precederam na morada terrestre, pode explicar que passassem despercebidas as inumeráveis mistificações introduzidas c as amputações feitas no símbolo cristão. Homens ele boa vontade, uni-vos à Internacional civilizadora cujo primeiro pontífice é o Cristo e mostrai aos ignorantes com o Evangelho nas mãos, que jamais a seita ultramontana foi nem pôde ser representante do cristianismo em sua nascente pureza. O ultramontanismo, enfim, faz guerra à liberdade em nome do Evangelho; porém de que Evangelho? Não o de Jesus; porque o Evangelho de Jesus é a sanção mais solene da liberdade, especialmente da liberdade de consciência, que os ultramontanos afogaram em sangue e chamas quando sua maléfica influência formava as leis e governava as repúblicas.
O Evangelho ultramontano é o dos fariseus, que fechavam o reino de Deus diante dos homens e nem eles entravam nem deixavam que entrassem os demais; que devoravam as casas das viúvas fazendo longas orações; que pregavam as coisas insubstanciais, e deixavam de lado as mais importantes da lei, da justiça, da misericórdia e da fé; que faziam do mosquito um caso de consciência e se esqueciam do camelo; que limpavam a parte de fora do corpo e do prato com suas aparatosas cerimônias e os deixavam sujos por dentro, olvidando o espírito da lei; que com sua hipocrisia e leviandades se assemelhavam aos sepulcros caiados, exteriormente formosos e interiormente cheios de imundície e corrupção. Este é o Evangelho em cujo nome pretendem os ultramontanos matar a liberdade, porque a liberdade há de ser o juízo de suas abominações. Por isso aos mandamentos de Deus, que são os da Natureza e da lei, acrescentaram e puseram adiante os seus próprios que são os de seu progresso e conveniência.
Sede egoístas, usurários, ladrões, adúlteros, rebeldes, ateus, desumanos, hipócritas, homicidas; enquanto orais em público, e jejuais e vos abstendes de certas carnes em determinados dias, e falais bem da seita, e assistis às suas cerimônias, os ultramontanos cobrirão todas as vossas faltas com um espesso manto; mas se por desgraça vos julgais dispensados de vos submeter ostensivamente às suas exterioridades, ainda quando adorais a Deus e amais fraternalmente o próximo, sereis no seu dizer filhos do príncipe das trevas e selarão vossa sorte com o estigma dos réprobos, fazendo caso omisso daquilo que pregara Paulo, isto é, da necessidade da circuncisão espiritual e da inutilidade da circuncisão do corpo. Pois bem; um dos mais importantes deveres da Internacional Cristã será entregar ao juízo dos homens ambos os Evangelhos, o de Jesus e o dos ultramontanos, para que vinguem duvide que, combatendo este último à liberdade, nela combate seu espírito capital, a alma da moral evangélica.
Em resumo: o lema da Internacional Cristã será o mesmo que o da civilização, isto é, instruir e moralizar o povo, tirando-o da exploração religiosa de que vem sendo vítima há muito tempo. Não há necessidade de pactos prévios, regulamentos, sociedades secretas, símbolos, mas sim de honradez, amor ao bem e varonil interesse para proclamar a verdade em todas as partes sem contemplações egoístas: pois a ignorância e a superstição não são exterminadas com associações tenebrosas ou com o emprego da força nem os ídolos caem com gritos e ameaças, mas sim levando aos entendimentos e às consciências o espírito do exame, o calor da convicção e o claro discernimento daquilo que é devido não poucas vezes à indolência daqueles que, conhecendo-o, não querem dar-se ao trabalho de manifestar publicamente o seu pensar, esperando que o tempo se encarregará de aclarar as coisas c acelerar o movimento do progresso: estes conservam a tocha secretamente escondida e a humanidade nada tem a lhes agradecer.
E preciso que se leve muito em conta também que, se o erro, para subsistir, necessita de exércitos armados de feroz intolerância, a verdade necessita apenas, para desalojá-lo de suas posições, de um único soldado que a proclame com perseverante entusiasmo. Se os dogmas irracionais ou anticristãos da seita ultramontana têm ainda lugar nas crenças do povo, isto se deve a esses espíritos acomodatícios que, apesar de rechaçados no foro intimo de suas consciências, os respeitam e sancionam publicamente. A total falta de escrúpulo dos falsários religiosos que deturparam o verdadeiro sentido do cristianismo, que converteram o templo em mercado e a religião em mercadoria, opomos a dignidade e o nobre desígnio dos espíritos honrados e independentes, amantes da justiça, resolvidos a pregá-la como lei única de perfectibilidade, no seio da família, nas ruas e nas praças, nas escolas e ateneus, onde quer que haja uma consciência que possa aproveitar esta saudável doutrina.
Jesus Cristo não veio para fundar uma casa de comércio; veio para reunir as eternas verdades da moral universal que vagavam dispersas mas ausentes nos corações, para com elas formar as Leis da redenção humana, santificadas com seu exemplo e seladas com seu generoso sangue: é dever, pois, da Internacional Cristã instruir o povo dentro daquelas verdades para que, conhecendo-as e meditando-as, caia em si e constate que nem o comércio, nem o orgulho, nem a perseguição, nem o domínio, nem as cerimônias exteriores, e principalmente o que não seja adoração em espírito e verdade e amor ao próximo, é o cristianismo de Jesus. Todo aquele que recebe uma moeda falsa, que a denuncie e a rechace: agir de outra maneira é contribuir para que o povo a tome por ouro ou prata.
Aquele que reputa anticristão o mercantilismo religioso, e não obstante o fomenta com seu óbolo, assim como aquele que conceitua insubstânciais as cerimônias da seita ultramontana e não obstante a elas se associa, um e outro são falsificadores da verdade e por conseguinte alimentam a mentira que, sem sua adesão, talvez não subsistisse. São espíritos medrosos e egoístas, a quem o medo ou a conveniência, ou ambas as coisas ao mesmo tempo, inspiram uma filosofia de transações prejudiciais a si próprios e que miseravelmente se enganam assim como aos demais para cujo engano involuntariamente contribuem A crise religiosa é um fato de nossos dias; a idéia cristã, depois de uma laboriosa germinação de dezenove séculos no seio da humanidade, está próxima de mostrar-se ao mundo em todo o seu brilho e esplendor, em toda a sua fecundidade c pureza original.
Confinada no santuário das almas fiéis ao Evangelho, escarnecida pelos fariseus herdeiros daqueles que crucificaram Jesus, mistificada pelos eternos corruptores do sentimento religioso, perseguido e levada ao calvário e à fogueira, através de seus apóstolos que ousaram condenar a hipocrisia, a corrupção e o engano, teria naufragado mil vezes em tantos e tão grandes tropeços, que não deve haver na história dos grandes movimentos humanos algo superior ao poder e previsões dos homens. Aquela idéia que a ignorância, o fanatismo, a injustiça e a soberbia quiseram afogar, surge hoje com mais força do que nos primeiros séculos do cristianismo, apossando-se, no mando político, das leis e no mundo moral, das consciências. Que escola política nega ao princípio democrático a virtude necessária para fazer num futuro mais ou menos remoto à felicidade dos estados? Quem não pressente seu advento no governo dos povos?
Quem não tem sede e fome de que a igualdade substitua o privilégio, a liberdade, como expressão do direito, ao monopólio como expressão da força, a fraternidade a esse bastardo apetite de domínio que nos devora, que nos divide, que fomenta os ódios, que inicia as guerras, que aviva e estimula todos os germes da iniqüidade e da corrupção? É que o cristianismo se impõe como uma necessidade social e moral, política e religiosa; é que o mundo se apercebe de que a cegueira do espírito só conduz ao culto dos ídolos de barro destituídos de sentido; é que a Ciência, filha de Deus, proclama a unidade de origem e destino de todas as criaturas inteligentes, a unidade de moral, a instabilidade e caducidade dos cultos e a eternidade e universalidade da religião sem cerimônias, que reassume todos os seus preceitos no amor e na justiça.
Soldados da Internacional Cristã, homens todos que ao amor e à justiça tributais sincero culto, chegaram os dias em que sereis conhecidos por vossas obras; em que podereis acelerar o advento de vossos ideais, em que os povos necessitam de vossas atividade e conselhos para entrar resolutamente no caminho da regeneração; os dias de lutar em cumprimento de santíssimos deveres. Desfraldai com franqueza e valentia vossa bandeira de dignidade, de emancipação, de civilização, de vida, diante do estandarte de vergonha, escravidão, retrocesso e morte que tremula no cimo das fortalezas do ultramontanismo da Internacional Negra. Se quiserdes, o comércio político-religioso dos ultramontanos findará para sempre: bastará que não entreis em suas tendas, nem com eles vos compromisseis; doe proveis publicamente a falsidade de suas mercadorias e a ilegitimidade de seu trafico; que sejais, enfim, exteriormente aquilo que sois interiormente, agindo e pregando com sinceridade aquilo que conheceis e sentis.
Eles julgam que a mulher é sua por vaidade e fanatismo e nela confiam a abjeta restauração de seu domínio; porém a mulher é do homem, quando o homem lhe sabe mostrar dignamente o caminho da verdade e o esplendor da justiça. A torre, a babel ultramontana estremece: soldados da Internacional Cristã, derrubem-na com o aríete da predicação e a vereis desmoronar-se a vossos pés!
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.