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Capítulo 20 de 47

Primeira Parte

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Depois da Morte

Assombro Espiritual. - Vanitas Vanitatum

Por que razão venho até vós? Que força desconhecida me impele? Onde estou? Sei que não estou nem no céu nem no inferno Onde está Deus? Que será peito de mim Oh! que estranha e terrível confusão! Faz poucas semanas que parti (1) do delicioso país cujas costas são banhadas na parte ocidental pelo mar Tirreno e na parte oriental pelo voluptuoso golfo de Veneza, o país das grandes recordações, das grandes ruínas, dos grandes monumentos da arte e também dos maiores e abomináveis crimes. Doma, a imortal cidade das colinas, dos césares, dos tiranos e dos papas, era a minha morada e o Vaticano o meu lar, entre os que vestem a púrpura e aconselham a Pio. Parti e a púrpura permaneceu junto ao solo e o meu espírito amanheceu desnudo no mundo em que a consciência sai do coração para apresentar-se acusadora diante dos olhos. (1) Estas linhas foram escritas no dia 2 de maio de 1875. Mas, por que me dirijo a vós da Terra? Explicai-me este misterioso segredo, se podeis.

Nada vi, na minha chegada, daquilo que esperava ver quando parti. Não vejo Deus e não me encontro no céu; mas não sou atormentado como no purgatório ou no inferno. Não sofro nem gozo: dizei, se o sabeis, que é isto? Teria tampouco Deus esquecido suas ameaças ou não se lembrará de suas promessas? Ah! humanos, quão insignificantes sois! Que distancia daquilo que vejo ao que aprendi e li entre os homens! Dizei-me porém vós não conseguireis dar uma explicarão pois a Ciência humana é vaidade e a Ciência divina ninguém a conhece, nem mesmo Pio. Deixo-vos, pois não podeis esclarecer minhas dúvidas; não obstante, uma voz que me domina diz que voltarei a ver-nos. No entanto, continuo a me perguntar por estas mesmas coisas e a mesma voz responde: Estudai.

II

Uma Consciência Nua. - No Espaço

Sim, estudai, ontem vo-lo recomendei por inspiração alheia e hoje vo-lo recomendo por inspiração própria. Quão pouco sabem os homens das coisas do espírito! Ao chegar, verifiquei que nada sabia e no entanto tinha entre os homens a reputação de sábio. Algo, todavia, consegui compreender depois de minha mudança, apesar de vagas e confusas minhas idéias em virtude do choque da realidade, que atinge de uma forma nova, desconhecida, assombrosa, a minha razão. Vi claramente que a Ciência adquirida no orgulho é vã e transitória e também vãos e transitórios os sentimentos gerados no terror e que são apenas estáveis e imortais a Ciência e os sentimentos conquistados pela virtude, que é a posse da verdade. Depois da primeira surpresa, causada pela perda e pela recordação de conhecimentos que eu havia conceituado com Ciência e He sentimentos que havia ,julgado espirituais, pesarosos de minha desnudez inesperada, procurei reconhecer-me e estudar-me. Quem sou, pois? interrogava-me.

E estudando-me a mim próprio verifiquei que sou filho de minhas ações voluntárias, embora subordinado à lei universal, lei que sempre está conforme pressinto agora, muito, muito além do olhar do homem, e se me encontro desnudo é porque não soube ou não quis, em minha viagem pela Terra, tecer os únicos trajes que perpetuamente acompanham o espírito na sua eterna circulação. Não conservo do que fui senão aquilo que por sua natureza à alma correspondia, assim como o corpo não conserva senão as substâncias que assimila e o nutrem. Recordo-me e quase não me reconheço. Vesti o meu entendimento e minha consciência com tecidos estranhes ao espírito e contemplo-me desnudo. Chegou há minha hora e dormindo na Terra, leito de injustiça e orgulho e de miserável egoísmo, despertei em uma nova Terra onde mora e se cumpre à justiça, no mundo dos espíritos que se desprenderam de seus corpos terrestres.

Curto foi o meu sonho e muito depressa adivinhei que a morte me havia atingido, arrebatando-me do mundo que acabava de ser teatro de minhas provas e o crisol de minha purificação e progresso, A primeira coisa que experimentei ao voltar de minha letargia, foi um desvanecimento passageiro, devido sem dúvida, à nova maneira de ser de minha existência espiritual. Despertei uma segunda vez e me senti como aturdido e assombrado ante a magnificência do espetáculo que se desenrolava aos olhos de meu espírito. Tive medo! Sob meus pés abria-se um abismo infinito e sobre minha cabeça idêntico abismo que me circundava e me oprimia. Eu me transportava de um ponto para outro do espaço com uma rapidez vertiginosa e o meu pavor ia aumentando, pois não conseguia ver nenhum outro ser naquele abismo incomensurável, Só inteiramente só ante tão assombrosa magnificência, sem uma única mão que me sustentasse, sem uma voz que me desse alento, julguei-me condenado àquele movimento, àquela vertigem, aquele abismo, à solidão daquele espaço imenso e os meus cabelos se eriçaram e uns movimentos de desespero quebraram todas as minhas forças.

Queria deter meu curso...mas em vão! aumentava a minha celeridade à medida que pretendia ou desejava interrompê-la. Em minha presença se reproduziam todos os atos de minha vida e contemplava sucessivamente como num espelho todas aquelas ações e desejos em que voluntariamente havia intervindo. Eu não estava em mim e também não estava fora de mim: em mim, desnudo como um resultado; fora de mim vestido com tudo aquilo que me rodeou e serviu para resolver bem ou mal o problema da vida. E ao mesmo tempo um número incomensurável de mundos girava e passava junto a mim, ou melhor, eu é que passava junto a eles, tão rápido como o pensamento.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.