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Capítulo 11 de 47

VII — parte 2 de 8

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Para aplaudir ou condenar com justiça uma doutrina religiosa ou uma teoria filosófica, é necessário conhecê-la e, para conhecê-la, estudá-la com severa imparcialidade, sacrificando todo espírito sectário e todo orgulho de escola na investigação da verdade que se busca. Com freqüência, sucede o contrário, isto é, que se aplaude ou se condena a priori, sem prévio conhecimento, porque os juízos humanos são filtros, na maioria das vezes, da paixão ou do interesse; porém neste caso não é a verdade o que se busca, mas sim a satisfação maligna de algum apetite ignóbil; não é o estímulo do saber o que nos move, mas sim o de nossa conveniência pessoal.

Deveriam os homens não esquecer que as mais preclaras conquistas do engenho e da consciência, cientificas e religiosas, foram, quando da sua aparição, qualificadas de utopias, aberrações e heresias, não só pelo vulgo receoso e ignorante mas também pelas pessoas ilustradas; o que não impediu que, com o decorrer do tempo, fossem aquelas heresias aceitas como dogmas, as aberrações como verdades transcendentais e as utopias como grandes progressos consumados. Tivera-se isto presente e os homens seriam mais brandos ao lançar anátemas contra idéias e doutrinas que não se deram ao trabalho de estudar. As apoteoses póstumas com que a humanidade tem honrado a memória de muitos inovadores, depreciados e perseguidos em seu tempo, deveriam fazer-nos precavidos em nossos juízos, não esquecendo que toda inovação, antes de ser de domínio geral, foi patrimônio de um só. O senso comum é tão mutável e tão cheio de veleidades, que não devemos de nenhuma forma considerá-lo como critério de verdade, muito menos tomá-lo como ponto de partida em nossas investigações filosóficas.

E, mais que o resultado das convicções gerais, a manifestação das inclinações mentais de cada século, filhas das circunstâncias e acomodadas á educação e ao grau relativo de cultura. A investigação cientifica, em seus princípios, sempre teve no sentido comum um detrator e um inimigo encarniçado. Este fato, que, visto superficialmente parece inexplicável, é lógico e natural; porquanto o senso comum tem seu nascimento no senso individual e vai se formando com a lentidão dos séculos. Toda idéia, toda doutrina nova, por mais útil e regeneradora que seja, vem abalar interesses profundamente arraigados e destruir outras idéias, outras doutrinas, intimamente relacionadas com aqueles interesses. Disso resulta que, quanto mais radical seja a transformação que a nova idéia traz, mais tenazes os progressos da civilização, se os homens soubessem sacrificar seu interesse particular em benefício da felicidade comum! Infelizmente sucede exatamente o contrário: o egoísmo é o rei dos corações e os homens antepõem sempre ao bem comum a conveniência individual.

Por que Sócrates, o fundador, por assim dizer, da Filosofia moral, foi condenado a beber cicuta; por que Jesus, o fundador da religião do espírito, sofreu quatro séculos depois a morte no infame madeiro; por que Galileu, o que trouxe ás ciências astronômicas um novo e mais seguro caminho teve que se retratar ante o Tribunal da Fé, de verdades que mais tarde haviam de ser aceitas por todo mundo? A razão é óbvia: os sofistas gregos, os sacerdotes judeus, os inquisidores romanos, compreenderam que a nova doutrina atentava contra a sua preponderância e seus interesses e então se propuseram afogá-la em seu nascimento, afogando a voz dos apóstolos. E no entanto o senso comum não se rebelou contra tamanha iniqüidade, porque, fundado no erro e no fanatismo religioso, condenava sem escrúpulo os atrevidos inovadores. Fácil será ao leitor conhecer que não estão fora de propósito estas considerações. Apesar do muito que a humanidade tem progredido, ainda se condena sem ouvir e se julga sem conhecimento de causa.

O orgulho científico, a ignorância e a interesse exercem ainda influência poderosíssima nos juízos dos homens e arrastam o senso comum na tortuosa corrente do erro. Quem ainda não ouviu condenar o Espiritismo? Quem não se julgou mestre para decidir ex-cátedra que o Espiritismo é uma aberração, uma enfermidade do entendimento, uma grande farsa ou uma insigne velhacaria? Pela mesma razão que nos propusemos a discorrer sobre Espiritismo, julgamos oportuno chamar antes a atenção acerca das contradições em que o senso comum costuma cair quando se trata de uma idéia nova que vem pôr em dúvida a legitimidade de certos direitos, baseados na imemorial aceitação de outras idéias que a humanidade nem havia pensado discutir. Os homens, de maneira geral, são intolerantes em matéria religiosa: uns por fanatismo, outros por conveniência, muitíssimos por ignorância, e um número não pequeno por sistemática oposição a tudo aquilo que tende a emancipar riu domínio da matéria corpórea as funções racionais.

Todas estas intolerâncias, além do orgulho científico, que é a intolerância desdenhosa daquele que se presume conhecedor dos infinitos ramos da infinita árvore das ciências; todas estas intolerâncias se deram as mãos para afogar o cristianismo espírita em seu nascimento. Tão perguntaram de onde procedia e muito menos para onde se encaminhava. O fanatismo, a ignorância, o interesse, jamais perguntam pelos títulos que possam legitimar uma conquista qualquer do entendimento humano; a oposição sistemática, sem levar em conta o cuidado ao examinar estes títulos, os declara falsa; o orgulho científico os exige, mas, uma vez colocados ao alcance de suas vistas, volta-lhes as costas com desdém, fechado no manto de suas vaidosas pretensões. Podemos classificar os impugnadores a priori do Espiritismo em espiritualistas, materialistas e céticos. Sigamo-los em seus juízos, e veremos que, se souberam darse a mão para lhe fazer encarniçada guerra, andam muito pouco concordes na maneira de julgá-lo.

De que provém esta discordância de pareceres a respeito de uma doutrina que tem princípios fixos e se apóia em fatos tangíveis submetidos á observação de todo o mundo? Entre os espiritualistas, uns opinam que o Espiritismo nasceu nas lojas maçônicas, como resultado do ódio á Igreja que se intitula católica, e ao clero. Outros, que é uma espécie de protestantismo vergonhoso, auxiliar das igrejas dissidentes na obra de combater a instituição papal. Estes decidem com suposta autoridade que os espiritistas são ateus, materialistas disfarçados para mais facilmente seduzir os incautos. Aqueles, que o Espiritismo não é senão a continuação da revelação diabólica, um plano infernal tramado nos concílios do principio das trevas para a condenação das almas. Não se olvide que os que atribuem ao diabo os fatos e doutrinas do espiritismo são precisamente aqueles que ao diabo devem sua prosperidade pessoal e seu domínio sobre a terra. Quanta ingratidão!

E enquanto estes senhores andam as voltas com sua majestade satânica, com o protestantismo, e com as lojas, os materialistas asseguram formalmente que o Espiritismo é uma alucinação ou uma loucura, e os céticos uma audaciosa fraude. Se tivéssemos que dar crédito aos materialistas, concluiríamos que há atualmente milhares de pessoas cujos sentidos e inteligência, excitados por uma causa desconhecida, imaginam ver o que não existe. sendo justo temer que o mundo se transforme em breve num imenso manicômio. E se a razão está do lado dos céticos, quem não temerá pelo faturo elas sociedades, considerando quão perniciosos efeitos, quanta perturbação nos ânimos hão de produzir a má fé, a prestidigitação. empregadas como meio educativo e exercidas por multidões de pessoas entre as quais as de costumes inatacáveis c de consolidada reputação científica?

Estas contradições em que incorrem uns e outros, esta discordância de opiniões no que se refere aos fins a que obedece ao Cristianismo Espírita, faz com que se suspeite de pronto que seus detratores ou não o estudaram ou tem o deliberado propósito de alienar a atenção do público. A injustiça com que tratam o Espiritismo faz presumir esta ultima alternativa. Fábulas ridículas, contos inverossímeis, imputações caluniosas, nada se perdoa com o fim de desprestigiá-lo na consciência das pessoas honrarias. Os escribas e os fariseus, que com as doutrinas do Espiritismo vêem sita influência temporal e seu comércio em perigo, insurgem as turbas contra os apóstolos da nova idéia e pedem para estes, César e mordaças, já que não é possível pedir cruzes. Os saduceus, como que pressentindo que o sensualismo há de receber das crenças racionais espíritas uma ferida incurável, unem-se aos fariseus para combater o inimigo comum.

Todos se juntam em seu egoísmo, no positivismo utilitário e pouco lhes importam a verdade e o interesse geral quando se trata de suas particulares conveniências. Que é Espiritismo? Quais são seus princípios como filosofia? Quais as crenças religiosas que daqueles princípios se derivam? Está a sua moral em contradição com a moral evangélica? Fomenta as preocupações e o fanatismo ou os destrói? Qual é a razão de ser do Espiritismo no atual momento histórico? Quais seus fins, qual o belo ideal de suas aspirações? Eis aqui uma série de temas, cuja importância não necessitamos encarecer e cujo estudo submetemos à ilustração do leitor. Persuadidos de que o Cristianismo Espírita só necessita ser sinceramente abraçado, não pedimos pela graça, mas sim pela justiça. Ouvir antes de julgar e julgar depois com imparcialidade. A História será severa com todos aqueles que, obedecendo a motivos bastardos, tenham retardado um só instante o triunfo de uma idéia salvadora.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.