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Capítulo 30 de 47
Livro Primeiro
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
GÊNESE DA TERRA
Introdução
Qual é a história da Terra? Qual a história da humanidade terrestre, deste pequeno fragmento da humanidade universal, que se arrasta sobre face da Terra? Vós, que lestes com alguma reflexão a primeira parte de minhas revelações, pudestes vislumbrar e adivinhar algo acerca do desenvolvimento da Terra até chegar ao momento atual de sua gênese e da humanidade que habita sua superfície, até chegar ao grau de desenvolvimento presente. Porque a Terra deixa seu passado na história dos mundos inferiores e sua humanidade na história das humanidades que se agitam em busca do aperfeiçoamento nos mundos de purificação e prova como o vosso globo sublunar. A história de um mundo é a história de todos os mundo. A história de uma humanidade é a história de todas humanidades. Porque a lei é universal. Todavia, como vós, pobres moradores da Terra, tendes vossos sentidos postos na história do planeta que habitais, enquanto a mim a lei me sujeita e condena a presenciar e estudar suas miséria e suas glórias, da Terra vos falarei nesta segunda parte, outrossim de sua vacilante humanidade.
Na história de vossa morada e do movimento espiritual, em que sois consciente ou inconscientemente arrebatados, achareis toda a sabedoria necessária à emancipação do espírito, que poderá remontar livremente seu vôo às alturas, docemente atraído pela lei da sabedoria eterna. Sejam estas linhas a introdução aos meus estudos sobre a Terra.
II
O Caos - O Primeiro Dia da Gênese
Houve um tempo em que a Terra não existia a não ser pensamento de Deus. Os seus elementos, entregues à perpétua corrente das transformações, obedeciam ao impulso criador da lei que arranca do caos a matéria informe e a dispõe e elabora para o cumprimento das harmonias e belezas naturais. Que é o caos, de onde a mão onipotente faz brotar as criações sucessivas? É, porventura, o nada? O nada, irmãos, é a negação absoluta e Deus, a afirmação absoluta. Se Deus existiu desde a eternidade, a afirmação absoluta excluiu desde a eternidade o nada. O espaço, a imensidade, esteve plena desde o princípio sem princípio da afirmação divina. Nesta afirmação germinaram também desde o princípio as sementes, as origens de todas as coisas. Deus extrai todos os seres e todas as criações do caos, porém não do nada: toma-os das sementes que procedem dele e coexistiram eternamente com Ele. E o maior dos absurdos a idéia de Deus rodeado do nada. E a imensidade absolutamente plena e ao mesmo tempo absolutamente vazia.
E a afirmação inundando tudo e a negação tudo aniquilando. Existe algo? Logo, jamais houve o nada. Se o nada existiu em algum tempo, jamais existiria alguma coisa. A afirmação do nada em algum tempo ou em algum ponto da imensidade é a negação de Deus. Deus existe? Logo, jamais foi o nada, nem no espaço, que é a imensidade, nem no tempo, que é a sucessão. Mas, que é o caos? E a confusão das substâncias em uma só substância informe, primitiva, mãe de todas as substâncias e de suas modificações e formas? As substâncias obedecem desde o princípio aos mandamentos da lei divina e estes mandamentos são harmônicos e produzem a harmonia desde a eternidade. A confusão não está nas substâncias filhas dos preceitos da lei, mas em nosso entendimento, que na sua pequenez não acerta em remontar-se às origens das substâncias e da lei que as governa. Portanto, se caos significa confusão, o caos não está no princípio das substancias e sim no limite do entendimento humano.
A matéria informe não é uma realidade senão com respeito ao homem, a cuja vista não chega mais que um curto, curtíssimo número das transformações materiais. A matéria e a forma são inseparáveis e inerentes; porém, ao entendimento do homem escapam as formas da matéria e a própria matéria quando saem do círculo dos fenômenos sujeitos à sua observação. Como vos disse na primeira parte destas revelações, o horizonte visível do entendimento humano é tão circunscrito que abrange apenas alguns pés no espaço e alguns minutos no tempo. Mas, além desse horizonte, o homem só vê o caos na matéria, e o caos na história das evoluções materiais. Sem embargo, ali como aqui preside a harmonia nas substâncias e nas leis que desenvolvem seus movimentos e eternas transformações.
Ao caos das substâncias materiais corresponde o caos da substância espiritual, seguindo ambos em perfeito paralelismo, Onde o homem perde de vista a matéria, levanta-se inabordável o caos, a confusão dos elementos e fenômenos materiais; onde o homem perde de vista a história do espírito se levanta inabordável o caos, a confusão do principio espiritual. O caos, todavia, nem começa no mesmo ponto para todos os entendimentos nem é, por sua natureza, perpetuamente inabordável ou inexplicável. O que para uns ainda é harmonia, para outros é já confusão. Cada dia a luz rouba elementos às caóticas trevas da ignorância. O caos será sempre o limite do entendimento humano; porém o caos relativo, destinado às conquistas sucessivas da harmonia e da luz. Existem esferas onde o vosso caos é encantadora harmonia e luz radiante: são as esferas espirituais da sabedoria e do amor. O caos, a confusão não está, portanto, no universo, mas na ignorância das leis que presidem ao movimento universal, à elaboração das substâncias e à sucessão das formas.
Os germes luminosos e harmônicos de todos os seres coexistiram eternamente com Deus como irradiações necessárias da Causa Primordial, da força eternamente fecunda e criadora. Desse caos onde preexistiram e se elaboraram os germes dos seres, surgiram os seres presentes e surgirão os vindouros. Que são todas as substâncias que o entendimento conhece, e o próprio entendimento, o espírito em seus infinitos graus de desenvolvimento? Germes, sempre germes de novas transformações mais puras, de novos estados mais perfeitos. Em seu estado relativamente primitivo, os elementos que mais além haviam de constituir a Terra moravam e andavam dispersos nessa confusão do vosso entendimento, caos, obscuridade informe para vós; harmoniosa beleza, luz vivíssima para as inteligências soberanas que voam nas regiões onde a sabedoria e o amor têm pousada. Os elementos da Terra, desde a eternidade, vinham arrastados na corrente de suas combinações e transformações harmônicas. Quem poderá desviar o caminho percorrido pelos elementos terrestres, remontar pelo entendimento ás fontes e princípios de todas as suas evoluções e fases?
Só o entendimento que preexistiu a todos os entendimentos e os arrancou do movimento harmônico preestabelecido e engendrado na fecundidade de sua sabedoria; só a causa necessária, o princípio imanente de todas as causas secundárias, de todos os princípios sucessivos. Para a criatura, o caos, a confusão, as trevas, a dúvida, a ignorância do passado e do porvir; só para Deus a harmonia, a claridade, a luz, a sabedoria, a evidencia. Os germes da Terra, antes da sua presente formação, vagavam como perdidos no éter, buscando a virtualidade, os princípios vitais de que se haviam desprendido em anteriores estados imediatos. Eram resíduos impotentes, fragmentos gastos e infecundos do universo sideral que iam ao encalço de sua renovação, necessária ao cumprimento dos seus destinos eternos. O éter é o recipiente dos resíduos siderais e planetários, o laboratório universal de todas as ações e reações das substâncias que enchem os imensos recessos do espaço.
Recebe as escórias dos mundos, frias, impotentes, mortas e as devolve transformadas em tesouros de calor, de fecundidade e vida, que restabelecem e enriquecem a admirável economia do organismo universal. Os germes ou primitivos elementos da Terra, errantes nas planuras do éter, se transformavam e enriqueciam sob a influência desse princípio essencial, restaurador e criador. Atraíam-se uns para os outros em meio de suas evoluções incessantes, obedecendo à lei das harmonias, que aproxima de incomensuráveis distâncias os corpos destinados a compartilhar o cumprimento de um fim. O éter é a restauração e depuração dos sedimentos da natureza material; Deus, a suma inteligência, a suprema perfeição, é o éter das almas, o movimento e a vida dos espíritos. Embora única em seu princípio, à lei é uma para a matéria e outra para o desenvolvimento e o progresso dos espíritos; no entanto, em ambas se reconhece à unidade da origem, por suas íntimas conexões e a semelhança de suas atividades.
A lei que engendra o movimento e a união das substâncias inertes tem, como duas fases, atração molecular e a gravitação universal; a lei que engendra o movimento e a união das inteligências é a sabedoria ou o amor. Poder-se-ia dizer que a atração molecular é o amor dos elementos das substâncias inertes tem, como duas fases, atração molecular dos espíritos. A sabedoria ou o amor: eis duas palavras expressivas para vós, até ontem para mim, de dois conceitos distintos que, sem embargo, se bem meditais, têm idêntico significado. Que é a sabedoria senão a posse das conquistas do amor ao desconhecido e que é o amor senão o descobrimento das leis da felicidade am algumas de suas múltiplas, de suas inesgotáveis manifestações ditosas? Por que Deus é o amor? Porque é a posse absoluta da sabedoria absoluta. Por que é a sabedoria? Porque é a posse absoluta de todas as leis que engendram e expandem o amor. A fórmula da felicidade suprema está na síntese de todas as manifestações amorosas.
Nesse recíproco amor das substâncias materiais, nessa atração molecular, nessa gravitação universal engendrada na sabedoria da substância essencial, rolavam os elementos primitivos da Terra, saturando-se de vida e de atividade no éter. A força em cuja virtude se transportavam e se aproximavam uns dos outros era a mesma que impele e arrasta os mundos em sua eterna e harmoniosa carreira. Este é o primeiro dia da gênese da Terra, entrevista muito confusamente pela ciência dos homens. Calculais em séculos a duração desse primeiro dia? Contai as partículas moleculares da mais alta de vossas cordilheiras e respondeime. Mas não; nem assim alcançaríeis medir a duração do primeiro dia da gênese da Terra.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.