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Capítulo 27 de 47
XII
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
O Caos das Origens
Ficam para lá os mundos de expiação, páginas errantes da história de meus princípios e dos princípios da história da humanidade terrestre, que mais além se perdem na confusão, na obscuridade, no caos das origens de todas as substâncias, que foram engendradas e nasceram cia eternidade na Causa eterna fundamental do universo. Lá permanecem nossos ascendentes pela carne (1) e a memória de nós mesmos gravada em caracteres que os séculos jamais poderão apagar, escritos que foram, não no tempo mas no grande livro da imensidade, onde o dedo de Deus imprime os efeitos que do princípio á consumação se realizam. Quedam lá os que vêm depois de nós, os entendimentos embrionários e os corações vazios do sentimento do bem, os de entranhas de fojo, repletos de sujos apetites e de inclinações impudentes. (1) Cremos que se deve entender por "nossos ascendentes pela carne" as organizações dentro das quais o espírito humano efetua seus primeiros desenvolvimentos. Por que vêm atrás de nós? Por que não vieram conosco?
Que pecados os escondem no negro torpor de que agora começam a despertar? De tudo indagamos as causas e a cada pergunta tropeçamos e caímos, e não nos levantaríamos se a Providência tivesse em mente nosso orgulho e se esquecesse de nós, essa Providência que tudo movimenta e em tudo vive, para tudo vivificar e tudo conservar. Todavia, quem nos revelou que aqueles que vêm atrás de nós e os que vão adiante partiram conosco. Juntos saíram do Egito os hebreus; alguns quedaram às margens das vacilações e das saudades, outros em cada uma das etapas da peregrinação e contam-se os que do Egito chegaram à terra prometida. Por que muitos, muitíssimos hebreus pararam do outro lado do Sinai, vagando ainda em fatigante, em eterna peregrinação pelo deserto. Porque se perderam nas encruzilhadas da leviandade e da indolência, e a noite os surpreendeu na senda dos extravios, e dormiram, e ao despertar levantaram acampamento sem buscar as pegadas dos que caminhavam com os olhos no Oriente.
O Senhor a todos enviou seus servos ao amanhecer: uns chegaram à vinha e colheram as uvas; mas outros se sentaram no caminho e o sol os fatigou, e dormiram à sombra de sua preguiça (2). (2) Do que Nicodemos diz aqui a respeito da criação dos espíritos, parece depreender-se que tal criação foi simultânea, isto é, que todos os espíritos apareceram ao mesmo tempo na esfera da consciência e da liberdade humana, teoria que não se pode admitir sem tropeçar em graves dificuldades e profundas contradições. Fizeramse algumas observações nesse sentido por parte dos componentes do Círculo que assistiam ao ato da revelação de Nicodemos e este espírito esclareceu reiteradamente o seu conceito nos termos que o leitor verá a seguir. Algumas de minhas palavras referentes à aparição simultânea dos espíritos à vida da consciência e da liberdade humana levantaram em vosso ânimo um torvelinho de dúvidas e contradições que desejaríeis ver dispersas e dissipadas ao sopro da inspiração, sob a influência da luz. Considerai, eu vos rogo, a minha pequenez e insignificância nas esferas espirituais.
Sou simplesmente um obscuro refletor da luz que a misericórdia de Deus e a caridade de seus bons mensageiros deixam cair sobre o meu ensombrado entendimento para me iluminar e estudar meus irmãos da Terra. Lanço-vos as sementes que em minhas mãos depositam os enviados do Pai de família, sem me atrever a interrogá-los, porque sua magnificência me acanha e me deslumbra; mas as sementes perdem em minhas mãos parte de sua virtude e saem viciadas ao contacto de minha grosseria e impureza: resultando de tudo isto que a revelação, até chegar a vós, não é a expressão fidelíssima do pensamento que brota do manancial da verdade. Se nos conceitos, que por delegação vos transmito, admirais harmonias e belezas, deveis atribuí-las à grandeza e amor da Majestade excelsa, em cujo nome providencialmente vos falo; mas se descobris asperezas e lunares, não percais de vista que é impossível a perfeição absoluta nas obras em que intervém o homem ou o espírito do homem e que somente em Deus reside à sabedoria infalível e a prudência.
Em minhas palavras haveis de considerar, de um lado, a superior inspiração brilhando como puríssimo raio de sabedoria e verdade; de outro, o fruto de minhas observações espirituais e apreciações próprias, tão expostas à sedução e ao erro. Assim, vereis indubitavelmente nestas revelações a luz alternando com a confusão, a luz de cima e a confusão inseparável de todo aquele que não procede diretamente da origem da luz. Nisso mesmo achareis, porém, motivos de admiração, se souberem considerar que em tal se baseia o mérito das ações e o progresso do espírito do homem. Imaginastes, porventura, que veríeis descer do céu a verdade em sua pureza absoluta, sem meda de contradição, nem sombra, nem obscuridade.
Vão vos manifestei desde o princípio que minhas palavras não vos infundiriam uma certeza invencível das coisas da vida espiritual e que minha missão se limitava a inclinar pela duvida e pelo estudo vossos desejos ao sentimento e à prática do bem Como na moral, há na Ciência princípios absolutos, sobre os quais pode o entendimento humano estabelecer afirmações, e múltiplos pontos sobre os quais só é permitido discorrer por hipóteses ou conjecturas, hipóteses que o tempo vai desvanecendo pela sua falsidade, ou robustecendo e confirmando por estarem cimentadas no indestrutível assento das verdades que o homem está chamado a descobrir, mercê ela atividade sempre crescente de seu espírito.
Entre os segredos cujo descobrimento continuará reservado até a consumação, e cujo conhecimento é exclusivo da universal Inteligência, figura indubitavelmente em primeiro plano o que se refere aos princípios e origens de todas as coisas, acerca do qual pode o homem conjeturar, mas não afirmar; acumular suposições mais ou menos aceitáveis e sempre discutíveis, mas não pronunciar a última palavra nem estabelecer proposição que cerre a porta a futuras e mais luminosas investigações. As origens das coisas serão em todos os tempos e em todos o graus e planos da vida espiritual o "mais além" da Ciência e da perfeição: a última esfera, inacessível, das aptidões espirituais; o degrau superior da escada de Jacó, que ultrapassa as nuvens e os céus e se perde no infinito; o último e supremo anel da cadeia do saber, posto na mão de Deus, cujos anéis intermediários figuram as sucessivas conquistas da Ciência e do aperfeiçoamento espiritual do homem.
Iremos eternamente em busca de nossa origem, novas luzes e maior felicidade serão sucessivamente o prêmio de nossas estudiosas ânsias; mas a origem das coisas permanecerá também indefinida, na região da sabedoria eterna, inacessível aos esforços da inteligência dos homens. A origem de todas as coisas é, diríamos, a chave da onipotência e da sabedoria de Deus: eis porque jamais poderemos remontar a ela; seria o mesmo que surpreender e possuir o segredo e o poder da criação. Fôramos deuses, filhos de Deus; poderosos, filhos da Justiça; puros, filhos da Pureza; bons e compassivos, filhos da Bondade e da Misericórdia: nosso poder, nossa sabedoria, nossa justiça, nossa pureza, nossa bondade e compassividade seriam perpetuamente reflexos de Deus, do Sol de todas as perfeições que desde a origem das criaturas sobre elas irradia, como que lhes comunicando, por seu imenso amor, algo de sua divindade. A criatura racional será sempre a inteligência e o sentimento relativos no seio da inteligência suprema e do sentimento absoluto, gota d'água no oceano infinito de luz que inunda a criação.
Quando será dado à gota d'água descobrir sua natureza e origem e penetrar o mistério do oceano em cujas entranhas se agitará e viverá pelos séculos dos séculos? Eu não podia, portanto, referindo-me à origem e princípio. dos espíritos e à sua aparição histórica, - se assim me é permitido chamá-la-, estabelecer proposições absolutas, como se tivesse descerrado diante de meus olhos o eterno véu das origens. Meu espírito aflito em presença das imperfeições e infortúnios das regiões do crime e da dor, da opressão e violência, desejoso do aperfeiçoamento universal, do progresso e felicidade de todas as criaturas, formulou numa pergunta sua aflição e desejos, exclamando: "Quem nos revelou que aqueles que vêm atrás de nós e os que vão adiante não partiram conosco? (1) Juntos deixaram os hebreus à escravidão; eu não ignorava, porém, que depois dos hebreus partiriam os egípcios, e depois os gregos e mais tarde os romanos, um após outros todos os povos que compartilham a peregrinação sobre a Terra.
Tampouco ignorava que o Pai de família envia seus servos à vinha as segundas e terças-feiras, ao amanhecer, ao meio-dia e à tarde. Juntos, inumeráveis dos que vão adiante e dos que vêm atrás saíram juntamente conosco da escravidão espiritual; só esta extensão deveis dar às minhas palavras no tocante ao nascimento dos seres inteligentes e sensíveis à vida de liberdade da alma. (1) Com esta pergunta, Nicodemos formulava seu desejo de felicidade universal na aparição simultânea de todos os espíritos, sua aflição pela desigualdade dos progressos realizados pelos mesmos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.