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Capítulo 46 de 47
XVI
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Os Doze - Os Mistérios - O Código Hebreu - Morte de Moisés - A Conquista de Canaã - Os Juízes e os Reis
Um após outro, sigilosamente foram comparecendo os convocados à tenda do filho de Levi. Reuniram-se em número de onze, inclusive Moisés, número elevado depois a doze com a presença do sacerdote que morava no Sinai e a quem Moisés obedecera convocando os sábios. O primeiro de todos era o sacerdote, o segundo Moisés, o terceiro Josué, o quarto Aarão e os outros depois de Aarão, iguais. Esperouse o sacerdote, porque era entre eles o mais sábio e o que deveria dirigir a palavra aos demais. Chegando ele, depois do ósculo de paz aos onze, assim lhes falou: "Vós sabeis, irmãos, muitas coisas que o povo de Israel ignora; jurastes porém conservar o mistério e guardareis o juramento, porque as coisas que vos foram confiadas não são do povo. Só vos sabeis todo o testamento de Abraão, que vos foi transmitido por Isaac, por Jacó, por Judá e por José, e pelos primogênitos de Judá e de José, até hoje.
"Nos dias de Abraão, vosso pai, ninguém soube dele o mistério de seu pensamento, até Isaac, seu filho, e depois, até Jacó, mas Jacó revelou o mistério a Judá e a José, rei do Egito. Hoje somos doze. "Todavia Isaac acrescentou algumas palavras ao mistério de Abraão, e Jacó algumas palavras ao mistério de Isaac, e Judá e José acrescentaram muitas palavras ao mistério de Jacó, e destarte até nossos dias; porque as coisas que vós sabeis, e eu convosco, sobrepujam o mistério de José. "Quanto tempo permanecerá o mistério? Muitos séculos, pois que os homens da Terra nasceram ontem e seus olhos ainda não podem levar a luz. Porém eu vos digo que hoje somos doze, amanhã seremos vinte, em século vindouro centos e centos e a luz trará cada século novas palavras ao mistério. Até que se cumpram os tempos e nesses dias o mistério será o livro da sabedoria de todas as coisas, porque todas as coisas terão sua luz no mistério.
Então, até os cegos de nascença beberão a luz e os surdos ouvirão a verdade no mistério. A superfície do lago está tranqüila, mas as correntes interiores agitam suas entranhas. Assim a humanidade hoje e assim o mistério no seio da humanidade. Guardai-vos de perturbar as águas da superfície: logo chegará a hora, quando os homens poderão assimilar o mistério. "Abraão e Isaac creram em Deus, na força do universo e suspeitaram da existência de um agente no homem, de um ser ativo distinto da matéria corpórea, e indagavam de Deus a respeito da natureza e do destino desse misterioso ser. Não conheceram a imortalidade, mas a pressentiam no mais íntimo do coração e esperavam. Viam-se condenados à morte prematura e sem embargo confiavam viver e viver, sem se darem conta de suas esperanças nem das formas das novas fases da vida.
De vez em quando teriam elevado os olhares e fixado com ansiedade a lua e as estrelas do céu, como que interrogando as causas de sua luz, de sua existência e de seus movimentos ordenados; tanto Isaac como Abraão sempre julgaram que os astros eram da Terra e que não havia senão um céu cujos limites seriam os do firmamento visível. "José já adivinhou que, sobre o firmamento visível, há outro mais longínquo e ainda talvez uma série de firmamentos e suspeitou que Deus os teria instituído para os homens virtuosos, antes de voltarem para ele, de cujo seio haviam saído; José falou de suas instituições e pressentimentos a Jacó e a Judá, depois de descerem de Canaã para o Egito; aprendera estas coisas dos sábios da corte faraônica, que as tinham iniciadas nos mistérios de suas tradições secretas. José foi além das tradições secretas dos hebreus e dos mistérios egípcios, porque foi mais sábio que os mais sábios de seu tempo.
Por sua morte, o mistério formado da tradição hebraica e ela tradição egípcia passou a seus filhos e aos de Judá seu irmão, pelos quais e de primogênito a primogênito o mistério chega até vós. "Todavia sabemos nós que os astros não são da Terra e que, muito ao contrário, a Terra é dos astros e com eles se move no firmamento, que a luz do sol cai sucessivamente sobre todas as regiões da Terra, porquanto, sendo a Terra um astro, temos de julgar que, do mesmo modo que os astros são redondos e giram, assim a Terra é redonda e gira. Contudo, não faleis dessas cousas a toda gente, porque pesam; em sua ignorância não as podem compreender e não compreendendo não as podem ter em conta. E suposto que a Terra é um dos astros, não poderíamos presumir que haja astros como a Terra?
Medita bem sobre essa pergunta, Moisés, tu Josué e tu Aarão, e iodos que estão presentes; se julgardes, como eu julgo, no tocante a Terra e aos astros, poderemos acrescentar nosso conceito à tradição secreta de Abraão, Isaac, Jacó, José, Judá e dos sábios do Egito. Sabemos nós que a criatura humana, durante a sua peregrinação pela Terra, está formada de um corpo grosseiro tirado da matéria terrestre e do qual se desprende com a morte, de princípio astral, que perpetuamente a acompanha, mesmo depois de terminada a existência terrena, e do espírito das vidas, que é o entendimento ou à vontade, que subsiste através de todas as vidas até que a criatura volte ao seio de Jeová, no qual foi engendrada e do qual nasceu para viver por si mesma em um prolongado curso de luminosas transformações. O princípio astral é o laço de união entre o entendimento e a matéria terrestre. O que ignoramos é o limite das transformações, a última transformação da criatura antes que o entendimento se desprenda do princípio astral para volver a Jeová.
Agora, irmãos, meditai e meditemos todos: agregaremos alguma palavra ao mistério que herdamos de nossos pais?" Permaneceram alguns instantes em silencioso recolhimento e depois, levantando Moisés o rosto, falou aos demais palavras semelhantes a estas: "Saúde e paz, irmãos. Sinto-me inclinado a crer que não só a Terra é dos astros, como também há terras nos astros: habitadas por quem? Vi Abraão, meu pai, porém ignoro onde mora. Onde mora nosso pai Abraão? Onde moraremos nós depois da morte? Opino que moraremos além, que nossa vontade, circundada do princípio astral que perpetuamente a acompanha, tomará corpo sucessivamente naquelas longínquas terra, para admirá-las e admirar nelas a sabedoria e a magnificência de Jeová nosso Senhor antes de regressarmos a seu seio. Rogo-vos que me permitais acrescentar ao mistério estas palavras:"Terá fim o caminho do espírito das vidas? Chegará o entendimento da criatura à sua completa e definitiva absorção no entendimento de Jeová, que é o Princípio?" Inclinaram todos a cabeça em profunda meditação e depois, levantando-a, exclamaram: "Terá fim o caminho do espírito das vidas?
Chegará o entendimento da criatura à sua completa e definitiva absorção no entendimento ele Jeová, que é o Principio? Bendito sejas Moisés; tua sabedoria esclareceu o pressentimento mais harmonioso da nossa vontade. Pois que nós queremos conhecer cada dia mais a obra da criação e a Jeová, para entoar hinos em louvor à sua sabedoria e não que o espírito do homem chegue à sua última transformação e à sua definitiva e absoluta fusão com o Espírito do grande Jeová nosso senhor." E desde esse dia as sábias palavras de Moisés foram agregadas aos mistérios hebreus, não porque fossem de Moisés, mas em razão de que expressavam a mais íntima das aspirações e a mais consoladora das dúvidas das mentes que raciocinavam. Hoje a razão e o sentimento dos pensadores e de muitos homens de boa vontade respondem negativamente as perguntas acrescentadas aos mistérios hebreus por iniciativa do chefe de Israel. Negativamente a elas já respondiam os doze no íntimo do espírito, mas não se atreviam a mais que delinear o problema para os iniciados e mestres dos tempos futuros.
Falaram depois Moisés e o sacerdote e referiram aos demais as coisas que lhes haviam acontecido no monte, inclusive as suas visões, sem ocultar-lhes nem uma palavra nem um ponto das coisas que acompanharam e coroaram a misteriosa manifestação da vontade do Senhor até o regresso de Moisés ao acampamento. Ficaram pasmados os dez com as palavras do sacerdote e do filho de Levi e prorromperam em exclamações de alvoroço, pois que não duvidavam da veracidade dos fatos. "Por que - perguntavam -, por que Jeová elegeu o povo de Israel entre os povos, e a nós entre os varões e os anciãos do povo de Israel? Não é Israel grosseiro de compreensão, brutal, prevaricador e duro de coração? Quanto a reis, onde está a nossa justiça? Não dobramos a cerviz às abominações do povo? Não há em Israel mil, entre os varões e os anciãos, mais justos que nós Oh! grande Jeová! quem penetrará as leis de tua vontade, quem descobrirá os teus arcanos?
Oh! só tu és o sábio e a ninguém revelaste a palavra de teu segredo." Como começassem a notar algum movimento no campo, resolveram separar-se, a fim de não excitarem a curiosidade do povo e reuniram-se outra vez na noite seguinte para se ocuparem das coisas que tinham relação com a governança de Israel Reuniu-se com efeito e, tomando por fundamento os oitos preceitos revelados, ampliados até o número de dez nas tábuas que Moisés lavrou no Sinai, lançaram as primeiras pedras elo edifício da legislação e civilização hebraicas. Com o conselho de todos, formou-se uma espécie de código de governo religioso, que é por onde sempre principiaram as civilizações na infância dos povos. Não é necessário reproduzir aqui o código político-religioso de Israel, porquanto chegou substancialmente a todo vós nos livros que se atribuem a Moisés e que se pode dizer ter ele escrito, porque preparou o material que serviria aos sábios do século vindouro.
A inclemência dos séculos e a mão profana do homem alteraram tanto sua origem como a sua pureza primitiva, mas no fundo restou ainda a luz necessária para iluminar o pensamento dos legisladores de Israel. É lei da história da humanidade terrestre que as verdades e os fatos não se possam transmitir senão envoltos em nebulosidades e corrompidos por causa do egoísmo dos homens. Os preceitos da lei não foram dados de uma só vez ao povo, senão sucessivamente durante os quarenta anos que os hebreus peregrinaram até chegar ao país de Canaã, situado no Setentrião do mar da Pentápolis. Uma civilização não se funda em poucos dias e a legislação hebraica era o alicerce de uma civilização que seria a mãe de todas as civilizações ulteriores. Moisés não viu mais que o princípio do princípio, pois fechou os olhos antes da entrada de Israel em Canaã, deixando encomendada a Josué a continuação de sua obra.
Anos antes morrera o sacerdote seu pai, que não quis abandonar o Sinai, dando a Moisés em testamento sábias admoestações, que Moisés primeiro e depois Josué aplicaram na direção e bom governo das tribos. Guerras sangrentas para chegar à terra de Canaã e apossar-se dela, até constituir uma nação tiveram de sustentar os descendentes de Jacó. Os seus chefes, Juízes pelo espaço de três séculos e meio, e depois Reis até a prostração da nação judaica, invocam sempre o nome de Deus para as guerras, sem o que teria sido de todo impossível despertar na alma daquelas gerações sentimentos varonis e abalançá-las aos caminhos do progresso. Nem todas as guerras foram justas: com o nome de Deus escudavam-se às vezes torpes desígnios, ódios sangrentos, desmedidas ambições. tias, como a justiça tem de cumprirse, o povo judeu não pôde evitar as expiações que as suas enormes faltas provocaram tanto no tempo dos Juízes como sob o cetro dos Reis.
Oprimiu, e foi oprimido; desapossou, e foi esbulhado: violou e esfaqueou, e foi violado e esfaqueado: pois esta é a lei da justiça. Em meio a essas alternativas, iam-se completando os misteriosos desígnios da Providência. Os hebreus vencedores impunham inconscientemente aos vencidos a semente do Decálogo; quando vencidos e humilhados, os seus orgulhosos vencedores inconscientemente a recebiam. Destarte, o germe da civilização mosaica, prólogo cta que mais tarde haveria Jesus Cristo de fundar, foi se espalhando e deitando raízes nas nações do mundo, preparando o advento da revelação cristã, profetizada aos judeus por alguns espíritos justos e animosos que pressentiram a necessidade de uma nova iluminação. Cumpriram-se os tempos e foi da gênese do homem da terra o quinto dia.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.