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Capítulo 33 de 47

III — parte 3 de 3

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Lá pelos fins da quarta época havia já aparecido, à sombra da luxuriosa vegetação que cobria o solo em todas as direções, a criação animal terrestre, compartilhando da posse do globo e de seus abismos com a criação animal aquática, que a precedera, senhora do segredo dos mares. Nisso, surge imediatamente forte duvida e ao espírito investigador sucinto de luz ocorre perguntar: de onde proveio o primeiro animal, o primeiro ser organizado no qual se manifestou, além da força vivificadora, a semente da sensibilidade e do instinto, embora de maneira muito rudimentar e imperfeita? É, porventura, o primeiro tipo da animalidade terrestre uma transformação do último e mais elevado indivíduo da criação vegetal? A vossa dúvida é a mesma que sinto com respeito ao aparecimento dos animais, a mesma pergunta vossa que dirijo também à Ciência que o homem pode conquistar por sua constância no estudo.

Não vos falarei, portanto, como mestre; dir-vos-ei algo como discípulo da Ciência, dessa Ciência arisca e rebelde cuja investigação está exposta a tantos extravios e erros, mas que, apesar de tudo, se deixa lentamente e por etapas surpreender em seus segredos, quando a inquirimos com espírito generoso, por puro amor às leis da felicidade universal. Antes que o mais perfeito dos vegetais projetasse sua sombra sobre a Terra, o reino animal já havia tomado posse dela; disso claramente se depreende que o primeiro indivíduo da criação animal não é uma simples transfiguração do mais perfeito dos vegetais. Também facilmente se concebe que o ulterior desenvolvimento, sempre progressivo, da vegetação não podia ter por objeto a transformação dos vegetais em animais, dado que estes já existiam e não se necessitava, para a sua reprodução e evoluções, da imediata intervenção dos primeiros. Essas últimas palavras minhas encheram de confusão o vosso entendimento(1) e não estranho à perplexidade. Quem fará luz nesse dificílimo ponto da Ciência? Quanto a mim, tenho a dizer-vos que estou cego e caminho às tontas.

Se algo me atrevo a afirmar, é porque me guiam a mão; porém, mesmo guiado, posso tropeçar e tropeço; posso cair e caio. Essa é a falha de toda revelação transcendental, porque nenhuma procede diretamente da palavra infalível: o meio é sempre um espírito, sujeito a equivocar-se por elevado que seja seu nível e o fim é o homem, de cuja perfeição cada um de vós tem em si mesmo o testemunho. (1) Essa confusão devia-se a que as palavras de Nicodemos estavam, segundo parece, em contradição com as de Lamennais na revelação citada na nota precedente, mas os subseqüentes esclarecimentos fazem desaparecer a suposta contradição. E eu não sou um espírito elevado na hierarquia da Ciência e da infalibilidade. Sou um pobre discípulo da luz. Opinaria eu, talvez, que o primeiro elo da animalidade se liga a um dos últimos da cadeia vegetal, se pudesse suspeitar que num vegetal, por exemplo um dos que ocupam grau destacado na escala, se processava já uma individualização ou seleção espiritual.

Adivinho, porém, que a semente espiritual do mais perfeito dos vegetais está muito longe de se ter individualizado e emancipado da grande massa espiritual, - permitam-me -, latente na confusão das substâncias do globo e que, ao perecer o vegetal, volta o princípio que o anima ao depósito comum. O mesmo acontece a respeito da força espiritual das primeiras organizações animais. Adivinho que todas as plantas, da mais simples à de organização mais complexa e acabada, sem excetuar as que se relacionam com as iniciações animais, não passam de ensaios da substância espiritual; que a perfeita individualização dessa substância tampouco se verifica na extensa sucessão dos animais terrestres, a não ser no seu tipo culminante: no homem,última etapa, última transfiguração da animalidade e primeiro estágio, primeira manifestação completa de uma série infinita, eternamente progressiva, de individualizações espirituais. Os selos da individualização espiritual são, a meu entender, a luz e a consciência; nada há nos animais, abaixo do homem, que revele a posse de uma luz estável e de uma consciência definida.

Tenho a impressão de que o vegetal e o animal se prestam mútua e imprescindível auxílio na obra transcendental da individualização da substância espiritual que, por injunção da lei, recebem do acervo comum e vão elaborando lentamente. Pela morte do animal como da planta, volta ao seu manancial o princípio que ambos animava, porém elaborado e enriquecido de condições reciprocamente complementares, que põem esse princípio em estado e aptidão de entregar-se a novas elaborações até alcançar no homem a individualização, - seu estágio final. A cada propriedade que esse principio recebe corresponde nova organização em sua elaboração imediata. Nem o vegetal é uma transformação do mineral, nem o animal uma transformação do vegetal: ambos os organismos são seleções de substâncias modificadas, confundidas ao principio na substância etérea geradora do mundo, desprendida da substância universal. Todavia, o animal como a planta, uma vez individualizados em seus primeiros organismos, são seres indefinidamente aperfeiçoáveis.

Cada indivíduo traz na semente reprodutora condições de progresso, embora tão lento que, para fazer-se ostensivo, necessita do concurso do tempo em longuíssima sucessão de gerações e séculos. Convém não confundir esses organismos com a força vivificados que os arranca da inércia e com o princípio espiritual que neles se desenvolve. A organização se transmite por geração, mas tanto a força vivificadora como o princípio espiritual sobem, antes de individualizar-se no homem, do depósito comum. As primitivas aparições, vegetais como animais, não foram organizações fortuitas, espontâneas, improvisadas; foram o resultado seguro, inevitável, de uma evolução lenta e harmônica, iniciada desde as primeiras atrações moleculares dos elementos do planeta. Tanto a primeira planta como o primeiro animal que apareceram sobre a Terra nasceram das sementes de outro vegetal imperceptíveis ao homem do planeta se o homem existisse e outros animais preexistentes e análogos a eles; invisíveis naqueles dias primevos.

Desde a aurora do primeiro dia começou a elaboração das organizações vegetais e animais, como a de todas as individualizações que se efetuariam por obra da atividade da lei sobre a confusão das substâncias elementares do mundo que se formava. O vegetal e o animal, como organismos, são duas individualizações distintas e independentes. Sem embargo, o desenvolvimento do segundo não se teria realizado se antes a Natureza não houvesse assegurado a existência do primeiro; o aparecimento de ambos era necessário às individualizações da substância espiritual e da substância etérea que pela eternidade acompanhará o espírito desprendido ou emancipado da substância espiritual. A lei opera simultaneamente sobre a substância - mãe dos espíritos e sobre o princípio fluídico que há de constituir o invólucro, inerente e eterno, das individualizações espirituais. No instante supremo de terminar a feliz individualização do espírito, termina também a do seu fluídico invólucro.

Sem o corpo espiritual o espírito viveria eternamente nas trevas, como se, nem mais nem menos, não tivesse conquistado sua independência da substância-mãe. O corpo espiritual é, como o espírito, incorruptível e eternamente perfectível. Sua perfectibilidade consiste no desenvolvimento, sempre harmônico e progressivo, das propriedades; ou faculdades que possui em semente desde a sua individualização. O corpo espiritual e o espírito constituem uma unidade incorruptível e, como incorruptível, imortal, porque, ao individualizar-se, individualizou-se neles o princípio vivificador para não se separar na sucessão dos séculos; com diferença no que respeita a todos os organismos vegetais e animais inferiores ao humano, nos quais a imortalidade fica destruída com a decomposição, porque o princípio de vida regressa ao depósito comum. No homem, mesmo quando o principio de vida de seu organismo volta também ao depósito para vivificar novos seres, o espírito já está individualizado e possui principio de vida individualizado que nunca mais o abandonará. Compreender-me-eis melhor explicando-o pior.

A ALMA do vegetal e a ALMA do animal MORREM, porque delas se desprende o fluido vivificador: o espírito do homem não morre, porque o princípio da vida não se separa nem pode dele separar-se. Corpo espiritual, espírito e princípio vivificador, - esta a trindade que não se corromperá nem se decomporá jamais viverá eternamente progredindo e aproximando-se de Deus. Já vos disse como havereis de considerar as minhas pa lavras: como pontos de mira, como débeis faróis no roteiro das investigações científicas da natureza e sucessão das expansões da Terra e da humanidade da Terra até chegar à geração de hoje.

A poderosa irradiação do princípio vivificador havia engendrado uma esplendorosa, uma gigantesca vegetação. Nascia a planta e era assombrosa a rapidez com que crescia, se ramificava e elevava sua copa a grande altura. Arrastavase o réptil fazendo farfalhar a folhagem, enquanto na espessura ou balançando-se nos braços do ar as aves deixavam ouvir seus melodiosos acentos. Dilatado período de paz sucedera às formidáveis agitações dos dois dias precedentes. Bramiam a tempestade e o vento; chuvas torrenciais se desprendiam das nuvens; faiscava o relâmpago e ardentes baforadas subiam da grande fogueira central; tudo, porém, a intervalos cadenciados, à maneira de notas harmônicas do majestoso concerto da criação terrestre. Contudo, aquela paz estava longe de ser definitiva. Era antes um descanso das forças expansivas do interior da Terra para se precipitarem com maior vigor e vencer todas as resistências que opusessem aos seus furores. Com freqüência ocorria através do córtex do globo como que convulsivo estremecimento, que pressagiava terríveis transtornos e dias de tribulações para os seres vivos.

As montanhas eram abaladas em suas bases e as águas dos mares saltavam fora dos seus leitos como levantadas por invisível potência. Sucederam-se os dias e as ameaças se cumpriram. Ouviu-se horrendo estalo, um imenso trovão, que confundia todos os estalos, todos os trovões, todos os ecos e vozes em uma só voz e um só eco, transtornando a maneira de ser do córtex do globo e agitando violentamente todas as camadas atmosféricas. O transtorno foi geral e simultânea sua ação; o que não fez o fogo fê-lo a água, e o que a água e o fogo deixaram em pé foi derrubado pelo impetuoso e ardente sopro da tempestade. Abriram-se outra vez as cataratas celestes e as águas despencaram em mares sobre a Terra com estrondo pavoroso, voz terrível que, acompanhada da rouca trepidação da nuvem saturada de eletricidade, parecia anunciar o imediato esfacelamento e o fim do débil globo nascente. Continuava relampagueando e chovendo; tanta foi à água que quase toda a superfície do planeta ficou inundada pelo elemento liquido.

Viam-se apenas num ou noutro ponto, sobre as túrgidas ondas, as cristas empinadas das cordilheiras, como pequenas ilhas em meio a um oceano embravecido, como arcas de salvação no naufrágio universal. Quando as águas, retirando-se das alturas, deixaram descobertos os terrenos inundados, os vegetais e os animais havim sido riscados da superfície da Terra. Um ou outro talvez sobrevivera à espantosa catástrofe, mas as condições de vida haviam sofrido grandes modificações por força da última evolução das substâncias terrestres e os animais e as plantas sobreviventes pereceram uns após outros sob a ação, para eles deletéria, das condições de vida que se manifestaram por causa do grande acontecimento. O reino vegetal e o reino animal jaziam sepultados sob os escombros; o fogo e a água, correndo em todas as direções. haviam transformado completamente o aspecto exterior do globo. Um parêntese de silêncio e de morte sucedera ao bulício das aves e dos animais e à exuberante vegetação anterior.

Todavia, era um parêntese, não mais que isso; parêntese necessário, durante o qual todas os germes de vida retomavam suas atividades em si mesmos, para reaparecerem com maior esplendor em organizações mais perfeitas, acomodadas ao meio em que haveriam de desenvolver-se e aperfeiçoar-se. A catástrofe veio, porque tinha de vir: estava na lei que preside ao movimento da matéria e do princípio vivificador e à depuração da substância espiritual. Essa substância e aquele princípio não podiam então se manifestar e continuar a abra de suas individualizações nos organismos existentes: necessitavam outros mais aperfeiçoados e estes, por sua vez, novas condições e meios para sair da obscuridade para a vida, crescer e reproduzir-se. Sepultados vegetais e animais debaixo das recentes camadas superpostas à crosta terrestre em conseqüência da última revolução geológica, nem por isso ficaram destruídas suas propriedades fecundantes; pelo contrário, estavam eles chamados a cooperar eficazmente, com a virtualidade de seus eflúvios, para a renovação e reaparição da vida em organizações acomodadas às novas condições vitais.

Paulatinamente vira-se brotar dos escombros da grande ruína tipos de vegetação não conhecidos na época precedente, menos vistoso que os vegetais anteriores mas que havia ganhado em vigor e resistência o que perderam em ufania. Diversidade enorme desses tipos se estendeu e se aclimatou em todas aquelas regiões que a água ia deixando descobertas. Os arbustos e as árvores de espessa e resistente contextura, forte para lutar anos e mesmo séculos com a destruidora ação do tempo, tomaram posse das continentes recentemente arrancados ao domínio do oceano. Analogamente aos vegetais, embora mais tarde, reapareceu vantajosamente transformada a criação animal na terra e nos ares. Já não eram, em geral, aves e animais de corpo monstruoso: os novos hóspedes haviam degenerado de seus progenitores quanto ao volume de suas formas, mas apareciam em organizações incomparavelmente mais delicadas e perfeitas e revelando maior desenvolvimento na substância espiritual. O que caracteriza o período atual da criação é o vigor e a beleza das formas nos organismos vegetais e animais, nestes últimos o aparecimento dos primeiros indícios de uma inteligência rudimentar que gradativamente se afirmava e robustecia.

Tremores periódicos e revoluções parciais vinham completar a obra providencial da grande catástrofe e a radical renovação necessária de todos à nova maneira de manifestar-se no globo o princípio de vida e a substância espiritual. Tipos intermédios ou de transição enlaçavam umas às nutras as espécies vegetais e animais; elos de progresso, elementos que recordavam e prometiam olhando para trás e pressagiando os harmônicos concertos do porvir. Visses tipos transitórios desapareciam uma vez cumprida sua missão providencial, que outra não era senão fazer brotar espécies novas das espécies existentes. Estabelecida uma espécie, não tinha já razão de ser o tipo intermédio que a produzia. Através de longa série de organizações animais e tipos de transição que sumiram da Terra para não reaparecer em toda a sucessão das gerações, a substância espiritual ia se enriquecendo das propriedades que determinariam sua individualização e desprendimento.

Um instante, um minuto mais da eternidade e eis a levantar-se dentre os animais superiores um tipo de transição, de cujos olhos sai um raio de luz quase pura, de cuja boca se ouve como que um queixume de dor e uma palavra balbuciante. O aparecimento desse tipo se multiplica simultaneamente em diferentes regiões. Tal foi o quinto dia da gênese da Terra.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.