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Capítulo 41 de 47

VIII — parte 1 de 2

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Os Anciãos de Israel em Presença do Faraó - Plano de Moisés para Libertar seu Povo da Servidão

Que se passa na cidade dos Faraós? Porventura o Rei teria anulado os editos de opressão que pesavam sobre os homens da casa de Jacó? Vêem-se os israelitas discorrendo livremente pelas ruas e praças, desenhada nos lábios a alegria e nos olhos a esperança do coração. Deixaram se ser servos os descendentes de Abraão? Os trabalhos públicos desertos, o látego dos dominadores ocioso, nenhum homem de armas vigiando os passos dos estrangeiros. Será, porventura, que as duas raças se fundiram em uma só, que os dois povos esqueceram sua história para formar um só povo? Não; tudo se resume em que os anciãos hebreus chegaram à presença do Rei e lhe disseram: "Senhor, poderoso entre os senhores e poderosos da terra. Paz e glória para ti e para teus filhos.

Nós, os filhos de Judá e de José, que o foram de Jacó, que o foi de Isaac, que o foi de Abraão, vimos a ti e te desejamos longos anos de vida e de reinado, para que faças prósperos os povos e as linhagens que a mão de Deus colocou sob teu cetro. Nós e nossos avós viemos há séculos do Oriente e ao teu amparo e ao de teus augustos progenitores devemos a vida de hoje e no tempo de José nossa glória. Permite, ó Rei, que nos juntemos um dia os filhos de Israel em memória da vinda ao Egito dos netos de Abraão, nossos pais. Se tu, ó Rei, nos dás licença, comemoraremos com a alegria do coração no rosto aquela vinda, que pôs nossa linhagem a serviço e debaixo da paternal tutela dos piedosos reis que te precederam e a nós, teus fiéis servidores, sob a justiça de teu cetro, e esta festa será perpétua cada ano até a consumação, entre nós, teus servos, e entre nossos filhos, servos dos teus filhos.

Estende teu cetro, - ó dos príncipes o mais justo e poderoso! - para outorgar a teus servidores a mercê que te pedem e que só de tua mão podem alcançar. Que o Deus do Egito e o de Judá aumentem a tua glória sobre todos os teus inimigos, multipliquem os dias de teu reinado e prosperem os dias de tua vida." O Rei ouviu benignamente os anciãos, crendo que Israel aceitava com júbilo a opressão e os trabalhos e porque ignorava que Moisés tinha descido á cidade e movido a língua dos emissários hebreus. Um espírito de perdição removera o seu orgulho e pusera-lhe espesso véu diante dos olhos, a fim de que não suspeitasse dos anciãos, nem refletisse que os fracos injustamente oprimidos mantinham freqüentemente pela astúcia o que não poderiam de nenhum modo obter.

Como os hebreus haveriam de submeter-se com espírito pacífico e resignado aos duros trabalhos da escravidão que pesava sobre a sua linhagem, num tempo em que os únicos impulsos das ações eram o egoísmo e a carne, em uma época em que o espírito do amor e a resignação cristã ainda não haviam descido do céu ao entendimento e ao coração dos habitantes da Terra. O Rei, em sua ilusão, não adivinhou que a doçura dos anciãos de Jacó era a astúcia do fraco para emancipar-se do forte e, já caindo no pérfido laço, falou-lhes nestes termos: "Eu, o Senhor das regiões do Egito, aos anciãos do povo de Abraão, que vive sob a vontade de minha lei. Ouvi. Vossas palavras acham graça em meu coração, porque vejo que sois fieis a meu cetro, como o foram ao de meti predecessor José, que administrou a governança dos reinos, Jacó, seu pai, e Judá, seu irmão.

Desde hoje e para sempre vos faço livres do edito pelo qual vos era proibido possuir, e assim o ordeno, para que se cumpra, aos capitães e mordomos da cidade e das províncias de meus estados. Assim vos serão levantados todos os editos que exorbitem a lei comum do Eito, em recompensa da vossa fidelidade. Sedes leais em vossa alma à glória do Faraó e vos aproximareis dele e vos ouvirá, como no dia de hoje. Elegei, os anciãos de Israel, o dia: pois está em vossas mãos; reunirvos-eis e comemorareis a vinda de Jacó: a nenhum egípcio será permitido perturbar o regozijo dos hebreus, porque será alvo da minha ira. Ide dizer aos vossos o que ouvia e sede leais servidores." Foram os anciãos a Moisés com palavras do Rei. Então o filho de Levi marcou o dia, que seria o décimo depois da audiência concedida pelo Rei aos anciãos, pois era necessário preparar as cousas e dispor os ânimos para o bom edito dos planos dos hebreus.

Combinou com os chefes, que deviam transmitir o plano aos primogênitos das famílias hebréias na cidade e aos homens de Israel que habitavam fora, no monte, fugindo dos egípcios ou apascentando gado nas terras de Gósen.

Este foi o conluio entre Moisés e os chefes da casa de Jacó no dia em que resolveram a execução do testamento de Abraão, depois de ouvidas as promessas do Faraó dos egípcios. A véspera e antevéspera do dia fixado os hebreus poderiam aos egípcios vasos e jóias de ouro e prata para celebrar com grande ostentação a vinda de seus ancestrais às regiões do Egito. Esses vasos e jóias serviriam para se ressarcirem de alguma parte das usurpações de que haviam sido vítimas. Na véspera, à noite, reunir-se-iam cinco famílias israelitas em uma só família e ali juntas comeriam fraternalmente a carne de um cordeiro, com o sangue do qual respingariam as portas dos hebreus. Os anciãos chamariam ao lugar mais retirado da casa os cabeças de famílias e lhes manifestariam secretamente, longe das crianças e das mulheres, o pensamento dos chefes.

Desses, alguns cuidariam de chegar aos filhos de Jacó que viviam fora da cidade em tendas, para avisá-los de que no dia fixado, ao amanhecer, aguardassem, ocultos aos olhos dos egípcios, fora da porta oriental, levando debaixo das túnicas armas com que pudessem defender-se e atacar, porquanto deveriam ser-lhes necessárias. Ao amanhecer do dia prefixado, as famílias israelitas se reuniram em grupo como na véspera e, guiadas pelos anciãos, se dirigiriam dos quatro pontos da cidade, cantando hinos de júbilo, até à porta oriental e depois em direção ao setentrião do grande golfo. Os varões, no entanto, deveriam permanecer ocultos em suas casas, armados, aguardando o sinal dos chefes. Era lícito conjeturar que grande parte do povo egípcio e mesmo muitos homens de armas e capitães seguiriam os passos de Israel, atraídos pela novidade do acontecimento e fiados na confiança do Rei. Já fora e a alguma distância da cidade, sairiam os hebreus ocultos e, arrojando-se com ímpeto sobre eles lhes cortariam a retirada e os perseguiriam de morte.

Então um emissário israelita voaria à cidade, à casa dos chefes, e lhes diria: "O Deus de Jacó seja em ajuda de seu povo." Ouvindo isso, sairiam os chefes com Moisés de seu esconderijo, espalhando-se pelas ruas; dariam fortes golpes nas portas assinaladas com sangue do cordeiro e, seguidos pelos varões, incendiariam a cidade para distrair as forcas dos egípcios e exterminariam os que se opusessem à sua passagem até se unirem ao povo

IX

A Festa dos Hebreus. - A Matança e o Incêndio. - O Pânico dos Egípcios - Projetos de Vingança

Essas foram às pragas do Egito no tempo da saída dos hebreus: o incêndio e a matança. Porque todas as coisas aconteceram tais anunciados como havia anunciado Moisés no acerto com os chefes. A manifesta benevolência do Rei foi semente de confiança nos egípcios e apagou-lhes no ânimo qualquer motivo de receios. Emprestaram sem dificuldade os seus vasos e jóias, crendo assim agradar ao faraó e desejosos de presenciar as festas ordenadas pelos anciãos de Israel. Chegaram o dia décimo e os grupos de famílias hebréias, conforme o plano de Moisés e dos chefes, saíram de suas tendas precedidas dos anciãos, entoando alegres hinos, de glória para o Egito e de agradecimento por parte dos servos. Todo o povo egípcio seguia os passos dos grupos, regozijando-se com a novidade do espetáculo. Dirigiram-se os grupos para a porta oriental e saíram da cidade. Julgando que os mancebos e as donzelas israelitas chegariam a uma eminência próxima com o fito de prolongar o regozijo de seus cânticos, os egípcios seguiram-nos.

As ruas da cidade estavam quase desertas, só um ou outro homem de armas encarregado da vigilância ordinária interrompia aquela silenciosa solidão. De improviso, espantoso clamor ouve-se ao longe, ao oriente, para onde saíra o povo hebreu. Os mancebos israelitas tinham arrojado os instrumentos e aparatos de regozijo públicos e caído de surpresa sobre a multidão curiosa e desprevenida. O pânico se apodera dos egípcios, que em debandada sc dirigem à cidade; porém hebreus armados, em grandes número, os envolvem e neles fazem formidável estrago. Os que conseguem salvar a vida e refugiar-se no recinto da cidade espalham por ela o alarme e o pavor. No meio deles também penetram emissários de Israel, que buscam os chefes escondidos e Moisés, dizendolhes: "O Deus de Jacó seja em ajuda ele seu povo." Os clarins do Faraó chamam os homens de armas com estridente som. Reúnem-se aos capitães e o Faraó em pessoa se põe à frente respirando vingança, e os guia ao lugar da catástrofe, resolvido a exterminar até o último dos filhos e filhas de Judá.

Mas por que logo empalidece e vacila? Viu levantarem-se de vários pontos gigantescas colunas e chamas como que arrojadas ao céu pelas bocas de inúmeros vulcões e não sabe se correr em perseguição dos malditos servos ou acudir primeiro a sufocar o elemento voraz que ameaça reduzir a cinzas a pérola do Egito, a antiga corte dos poderosos Faraós. Se fora da cidade cairiam vítimas da traidora cilada dos hebreus, em maior número cairiam dentro do seu recinto, invadido em todas as direções pelas chamas. Eis porque o Rei vacila à frente de sua hoste no mesmo momento em que, ébrio de coragem e sedento de sangue, ameaçava de morte os seus soldados que deixassem com vida um que fosse dos filhos de Israel. Afinal, tomou o partido de socorrer primeiro a cidade.

Mordendo os lábios ensangüentados na ira impotente, distribuiu as suas hostes em grupos de cem homens para que se dirigissem aos pontos invadidos e se auxiliassem uns aos outros se necessário fosse, ficando com parte ele seus soldados e muitos egípcios do povo em reserva, no centro da cidade, para enviar reforços aonde maior importância tivessem o perigo. Sobre esses grupos separadamente caia a gente de Moisés, os varões hebreus que permaneceram ocultos esperando a voz de seus capitães. A eles se juntaram também os irmãos de fora e os mancebos da festa, que acabavam de entrar na cidade perseguindo as multidões fugitivas. Essa brusca e inesperada acometida desconcertou por complete os egípcios, que não atinaram já com a defesa e buscaram a salvação na fina. Pareciam-lhes, as pequenas legiões inimigas, exércitos numerosos. Imaginavam que todas as nações se haviam aliado em favor de Israel e que os exércitos de todo o mundo estavam de acordo para a destruição dos egípcios.

Tal era o pânico que os soldados do Rei, arrojando as armas, deixaram os hebreus donos do que foi campo, não de batalha, mas de medo e mortandade. O próprio Faraó com alguns dos seus, abandonado por suas hostes, com as quais teria podido aniquilar o inimigo, teve de retirar-se e encerrar-se em seus palácios. No entanto, a multidão hebréia caminhava em direção ao Mar Vermelho, elevando ao Deus de Judá cânticos e preces pelo triunfo de Moisés e pelo extermínio das poderosas hostes do Faraó. Dessarte, e não de outra, pela astúcia, pelas armadilhas, pela malícia do coração, sacodem os fracos o jugo opressor dos soberbos. Israel foi o instrumento de justiça sobre a casa do Egito, que violentou e transgrediu por longos séculos a lei escrita na consciência tios povos; quem será o instrumento de justiça sobre a iniqüidade de Israel.

O espírito que cobre com as asas a casa de Jacó derramou lágrimas da alma ao presenciar a sanha dos hebreus na tímida mulher e na inocente criança e o gênio das justiças gravou no livro cia memória uma data e uma ameaça junto ao nome de Israel. As chamas continuaram devorando a cidade dos Faraós, a orgulhosa: Mênfis. Paga bem caro por ter servido de morada à iniqüidade e de trono à tirania! Os homens de Moisés percorrem todo o dia as suas ruas desoladas brandindo na destra a arma homicida e na esquerda a tocha incendiária. Afinal, chega à noite, e só então é que os desumanos descendentes de Abraão dão tréguas à sua fúria destruidora e, envoltos nas sombras noturnas, se encaminham ao acampamento do seu povo. Não a superioridade dos hebreus, mas a surpresa e o pânico tinham sido a causa da destruição parcial de Mênfis e do extermínio dos egípcios. Temerária foi à empresa acometida por Israel, tão temerária que tocava os limites do impossível, do absurdo.

O povo egípcio por si só, sem o auxílio do numeroso exército que guarnecia a cidade, poderia ter aniquilado os servos. Quando, porém, um indivíduo ou um povo tende a sofrer o castigo de seus crimes e se perder, não Deus, suas próprias paixões o cegam para que não acerte ver os caminhos de sua segura salvação. Assim aconteceu aos egípcios. Haviam abusado da fraqueza tios estrangeiros, haviam-nos oprimido e carregado de humilhantes e insuportáveis trabalhos; em suma, haviam cometido contra eles toda espécie de usurpações e injustiças e era preciso que fossem expiados os delitos e reparados os males. Por isso o orgulho pusera denso véu sobre os olhos do Rei, por isso crera nas adulações dos anciãos julgando-as merecidas e por isso o pânico fez o que não teria podido fazer a força dos homens e chefes de Moisés.

Todavia, uma vez os israelitas fora da cidade e acalmado o fracasso do primeiro dia, voltou à razão a exercer o seu império natural no entendimento do Rei, em seus capitães e soldados e no povo. Lembraram-se da véspera e cobriram o rosto de vergonha. O medo rebentara as cadeias dos escravos, de escravos que por mais de quatro séculos haviam vivido na humilhação e na impotência. Parecia-lhes um sonho todo o acontecimento da véspera; porém, as chamas, as ruínas, os estragos e os cadáveres ensangüentados os chamavam a realidade e incendiavam de ira os seus ânimos. Era necessário apagar a sua vergonha e aplacar a sua vingança com todo o sangue do povo fugitivo. Reuniram o Rei em conselho os capitães, os sacerdotes e os sábios da corte. Opinaram os primeiros que convinha perseguir sem perda de tempo os hebreus, na certeza de que não oporiam resistência formal, dada a confusão que neles teria produzido o inesperado do ataque e o acompanhamento dos anciãos, mulheres e crianças.

Os sacerdotes não vacilaram em afirmar que o Deus poderoso do Egito faria pesar a sua mão sobre Moisés e os seus, acrescentando que em sonhos haviam visto os campos encharcados do sangue dos infiéis, sinal evidente da proteção dos deuses e da vitória segura do Egito. Os sábios, porém, que nunca acreditam no céu dos sacerdotes, nem nas veleidades e preferências divinas, opinaram não ser prudente expor a sorte do povo egípcio à surpresa e duvidoso desalento do inimigo e à intervenção imediata dos deuses, cujos arcanos não é dado aos homens penetrar, Que os hebreus eram um povo fugitivo, mas um povo fugitivo vencedor, que luta não com o fito de conquistar e sim com deliberado propósito de fugir. Que dispunham de toda espécie de armas defensivas e ofensivas, adquiridas na véspera à custa do pânico dos egípcios e que, empolgados pela recente vitória e pelo temor de perder suas mulheres e riquezas, fariam sem dúvida prodígios de bravura.

Que o mais sensato era reunir todos os recursos necessários em armas e soldados para tema vitória certa, esperando que o tempo e o cansaço desfibrariam um tanto as forças do inimigo. No entanto o Rei, ao invés de ouvir os conselhos da prudência, ouviu a voz da ira e do orgulho. Aparentando, serra embargo, que não afrontava os sábios, manifestou na presença deles que três vezes nasceria o sol no Oriente e outras tantas desapareceriam no Poente antes que saísse da cidade o exército em perseguição de Israel, enviando-se nesse ínterim exploradores em seu encalço que vigiassem os seus propósitos. Os sábios inclinaram respeitosamente a cabeça e se retiraram; foram-se os sacerdotes ao templo para impetrar o auxílio dos deuses, oferecendo cruentos sacrifícios, e os capitães continuaram em conselho com o Rei, combinando os meios mais eficazes de vencer e aniquilar os hebreus. Publicaram-se editos reais convocando todos os varões que pudessem manejar uma arma; apontaram-se todas as coisas para o ataque e foram enviados freqüentes emissários a explorar cautelosamente o acampamento israelita.

Por seu lado, tampouco dormia Moisés; seus espiões, que agiam entre os capitães e sacerdotes no conselho do Rei, informaram dos planos belicosos que se tramavam contra ele e seu povo. E enquanto o Faraó se rodeava dos homens experientes nas artes cta guerra, preparando a destruição dos netos de José, dia e noite rodeava-se Moisés dos chefes e dos anciãos, meditando e preparando atrevido e decisivo golpe de mão sobre os egípcios, que os deixasse sem forças para intentar novas perseguições.

As Hostes do Faraó. - Surpresa Noturna. - As Margens do Mar Vermelho. - A Buzina de Moisés. - Morte do Rei. - Destruição do Seu Exército.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.