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Capítulo 42 de 47

VIII — parte 2 de 2

Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer

Amanheceu o dia quarto e, pela mesma porta por onde dias antes saíra o povo hebreu, saiu em seu encalço o exército dos egípcios. Além dos homens de armas do exército permanente, compreendia elementos das regiões vizinhas, em virtude dos editos reais. Mais de duzentos mil soldados, sem contar a cavalaria e o grande número de carros de armas destinados a semear o espanto e, a matança. A frente ia o Rei com os mais esclarecidos capitães, tomando nota dos hebreus e combinando propósitos e planos para a derrota e extermínio destes. Até à tarde do terceiro dia, - o sétimo da saída ele Israel - , o exército do Faraó não avistou os hebreus. Estavam estas acampadas à margem setentrional do Mar Vermelho, partes dentro de um povoado ali existente, partes nas suas imediações, em tendas, para abrigar-se do sol. A noite se aproximava e o Rei, a conselho dos capitães, resolveu aguardar o amanhecer para cair com todas as suas forças sobre Israel. Contudo, ai dos egípcios! muitos deles não veriam o nascer do próximo dia.

No mais escuro da noite, um grande clamor, uma gritaria infernal se levantou de suas tendas, arrancando bruscamente o Rei do seu sono. Os hebreus haviam surpreendido o avanço egípcio e penetrado no coração do acampamento até a tenda real chefiados por Josué, enquanto Moisés com parte de sua gente feria pela retaguarda, isto é, do lado de Mênfis e outro pelo Meio-dia, pois que Moisés havia dividido em três o seu improvisado exército. Quem poderia pintar a confusão dos primeiros no acampamento egípcio? em o Rei nem os seus capitães acertavam dar ordens, nem soldados obedece-las, enquanto os israelitas os apunhalavam ferozmente. Quando o Faraó, pelejando com o valor do leão e a ferocidade do tigre, conseguiu reorganizar as suas hostes, havia sucumbido à fina flor do exército. Chegou porém a hora do aparecimento do sol, em que variou em favor dos egípcios o aspecto das coisas.

Estava o exército do Faraó em grande parte formado de verdadeiros soldados, familiarizados com as armas e as batalhas, e se a surpresa pôde a princípio semear nele a confusão e o pânico, difícil seria destruí-lo sem uma vigorosa e terrível resistência. Assim foi que, aos primeiros alvores da manhã, os soldados correram a agrupar-se ao redor dos seus capitães e do Rei, formando corpos compactos primeiro para a defesa, depois para a agressão. Começaram os hebreus a ceder terreno, retirando-se em direção ao mar, exceto os chefiados por Josué, que iam retrocedendo em sentido oposto, como se fira seu propósito continuar conservando no meio os egípcios e reservar suas forças para o instante supremo e decisivo. A vitória já sorria aos capitães do Faraó: mais outro esforço e o povo de Israel pagava com todo o seu sangue o sangue que derramara e os estragos causados na primeira cidade dos egípcios.

O Faraó destaca uma parte de sua gente em perseguição de Josué e com o grosso de seu exército avança contra Moisés, que comanda o grosso do exército israelita. Já este não pode retroceder um passo sequer, porque o Mar Vermelho está às suas costas como barreira intransponível, já o egípcio saboreia o prazer de terrível e imediata vingança pois o inimigo está enfraquecido e não poderá resistir ao vigoroso embate de seus soldados. Israel vai perecer. Quem salvará Israel? Ouve-se do lado dos israelitas o som de uma buzina vibrando de modo singular no instante supremo. É o próprio Moisés, agitado, convulso, terrível, que a tem nos lábios e arranca aqueles sons estridentes. Que sucede? Por que a confusão e a desordem nas hostes vencedoras? Porventura o Deus de Abraão, Isaac e Jacó pelejam em favor de Israel contra o egípcio? Ainda ressoam os ecos da buzina fatal e um acontecimento inesperado para o Faraó, mas previsto por Moisés, muda de novo o aspecto da batalha.

Como se aquele som fora um sinal de antemão combinado, ao ouvi-lo uma porção dos egípcios se arroja sobre o Faraó e os mais esforçados capitães apunhalando-os barbaramente e fazendo causa comum com os inimigos do Egito. O espanto se apodera dos soldados leais, vendo a traição de seus companheiros e o Rei abatido e cortada à cabeça coroada. Em meio a essa consternação e transtorno caem Josué e Moisés sobre o exército desnorteado e o destrói, ficando dele duas têrças partes sobre o ensangüentado campo de batalha, Informado da convocação do rei a fim de que se apresentassem para pegar armas todos os varões robustos de certa idade, Moisés havia disposto que fossem a Mênfis numerosisimos hebreus de confiança e se alistassem no exército real obedecendo para todos os efeitos a alguns capitães egípcios, que eram de sua completa devoção: uma só palavra lhes bastaria para se darem a conhecer aos seus durante a luta e livrar suas vistas na confusão ou obscuridade. E assim aconteceram as coisas.

Talvez o rei tivesse ordenado o ataque assim que descobriu o acampamento de Israel, não tivessem aconselhado o contrário àqueles capitães que estavam em combinação com o chefe hebreu. Temeram possivelmente que poderiam malograr seus projetos se antes o exército egípcio não recebesse um golpe, inesperado pela ousadia, e julgaram que para esse golpe seria conveniente aproveitar a confiança que o Rei tinha em suas forças e as sombras da noite. Morto o rei e destruída sua poderosa hoste, os poucos capitães sobreviventes recolheram os restos dispersos e retrocederam para Mênfis, não só para guarnecer as suas muralhas como para salvar a cidade e o reino, caso os israelitas, empolgados pelo triunfo, pretendessem voltar ao papel de conquistadores. Não era esse, porém, o intuito de Moisés. Permaneceram quatro dias às margens do Mar Vermelho a fim de descansar e recolher a presa de guerra, passados os quais levantaram acampamento e continuaram seus caminhos em direção ao Sinai.

XI

Considerações Históricas e Filosóficas

Ocupei-me com alguma delonga dos sucessos que prepararam a emancipação dos hebreus e de sua saída do Egito, por vários motivos e considerações que de nenhum modo devia descurar. Em primeiro lugar, na história do povo de Israel tem princípio à verdadeira História, desde que esta se refere ao movimento religioso chamado a transformar os povos e as gerações que se sucederiam em terras do Oriente. Convinha retificar em grande estilo os erros históricos cometidos precisamente na parte que se refere ao aparecimento do pensamento cristão nas regiões ocidentais, já que mais tarde,Tesos haveria de fazer frutificar a semente atirada ao solo pela mão de Abraão, de Jacó e de Moisés. O cristianismo não pode basear-se senão na verdade, ou do contrário não prevaleceria na alma dos homens. Os erros são filhos das gerações e sempre estão mesclados com a verdade; porém a missão do espírito humano consiste em apoderar-se sucessivamente das verdades, rechaçando os erros.

Para esse nobilíssimo fim, que conduz à felicidade espiritual, temos de cooperar, nós, todas as criaturas inteligentes, umas pelo estudo, outras pela contemplação misericordiosa dos feitos da humanidade, que permanecem eternamente escritos, e das misteriosas forças que operam com incessante atividade, engendrando o desenvolvimento dos seres espirituais. Por isso eu, insignificante partícula do mundo inteligente e livre, aponho minha pedrinha ao edifício do progresso geral, a cola ereção temos de contribuir, os de cima e os de baixo, nós que meemos na contemplação e vós que peregrinais no estudo. Além disso, a narração dos feitos que precederam a saída dos hebreus envolve o conhecimento do estado social daqueles tempos, conhecimento indispensável para poder apreciar devidamente a evolução do progresso humano e a filosofia dos acontecimentos mais notáveis daquele período da História. O feito culminante da saída do povo de Israel e destruição do exército dos egípcios não teria explicação racional plausível sem o conhecimento das circunstâncias que o prepararam com a antecipação necessária.

Como se explicaria plausivelmente que o Faraó se desfizesse por sua vontade do domínio que exercia sobre a linguagem de Jacó, cuja servidão era um dos principais elementos de seu poder e da prosperidade de seus estados? Como se explicaria que o povo hebreu, desfibrado pela escravidão, tenha podido emancipar-se a despeito da onipotência faraônica? Como se explica à derrota de um poderosíssimo exército por uma multidão desacostumada às artes da guerra, sem organização nem forças, mescla de crianças, mulheres, anciãos e varões que ainda sentiam sobre os ombros o fardo dos escravos? Como se explicaria isso plausivelmente, se antes não se falasse do gênio político de Moisés, de sua prudência e astúcia, de sua ilustração incomum, muito superior à sua época; de sua primeira introdução na casa e, em conseqüência, na confiança do Rei e na amizade dos magnatas?

Bem sei que tudo isso se explica apelando aos milagres; porém o milagre por sua vez não tem explicação, porque está fora da lei e se aproximam rapidamente os tempos em que seja rejeitado, mesmo pelas pessoas menos doutas, porque se verà em mais claro conhecimento dos atributos uma soberana inteligência. Por último, naquela rudimentar civilização israelita dos tempos de Moisés tem raiz o principio de outra civilização muito mais, incomparavelmente mais esplendorosa; civilização não de linhagens, de todas as castas, de todos os povos da Terra, chamados a estreitar-se em um só feixe, em uma só família, por força da poderosa virtualidade da idéia e do sentimento, cujo alvorecer começava a iluminar a mente e o coração do sábio chefe dos hebreus. Esse povo haveria de ser o despertador dos demais povos e a causa da fusão de todos em um abraço fraternal, ao se realizarem as profecias de Jesus, cujo cumprimento sancionará aos olhos dos homens as profecias anteriores à verdade do Evangelho.

Eis aqui a série de considerações que me aconselharam a dar, nesta revelação, à época hebraica de Moisés a importância que tem realmente, tratando-a com alguma extensão maior que os acontecimentos anteriores. Muitos, muitíssimos repelirão esta revelação e os ensinamentos que contém, considerando-a ajeitada por alguns homens para seus propósitos particulares, outros, em número também ponderável, duvidarão de sua autenticidade e de sua realidade histórica, suspeitando da boa fé de seus irmãos; e outros, por último, simples de coração e naturalmente verazes, a acolherão com ,júbilo na alma e darão a Deus sinceras graças por mais esse raio da luz divina, por esse novo dom da misericordiosa providência. Esses últimos serão em minoria na geração de hoje, porém o seu número irá aumentando com os que saírem da dúvida, enquanto o dos desconfiados e vacilantes aumentará com os que irão sucessivamente desertando do campo da incredulidade e das hostes do ceticismo. Julgai terem sido muitos os que em seu tempo creram inspirada a palavra dos profetas, do próprio Jesus Cristo?

Pelos dedos das mãos teríeis podido contar o numero dos crentes e já vedes que as profecias e o Evangelho triunfaram na alma de uma porção importante da família humana estabelecida sobre a Terra. Assim sucederá com as minhas palavras, porque são a expressão de um fato providencialmente disposto, que será sancionado por outros fatos da mesma índole, também providencial e amorosamente preparados. E agora voltemos à História.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.