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Capítulo 29 de 47
XIV
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Remorsos. - Inspirações - Lembranças, Promessas e Ameaças
Junto a mim e próximo de vós está neste momento (1) meu triste companheiro de peregrinação espiritual. De intervalo a intervalo desaparecem de seus olhos as trevas e apenas se atreve a fixá-los na luz imponente que vossas almas irradiam. Infeliz! a felicidade da Terra e a vossa perfeição, - eis o ideal de suas concepções e desejos. (1) O momento em que se escreviam estas linhas da revelação de Nicodemos. Chegou comigo a Terra, - o céu segundo acabo de vos dizer, de suas aspirações presentes. Tinha-me seguido sem me ver, atraído indubitavelmente por uma força, um fluido benéfico que emanava de meu corpo espiritual, assim como todo o vosso sistema planetário é atraído por um astro para vós invisível, assim como todos os astros e sistemas, o universo físico e moral, pela força infinita e incompreensível, subsistente no Ser que as criaturas jamais poderão alcançar nem definir. Eu era o sol - digo-o sem orgulho - daquela consciência adormecida, seu guia e conselheiro, o mestre daquele pobre espírito intumescido no pêlo do sentimento.
Aprofundado na pavorosa obscuridade que é seu castigo, surge-lhe à vista em seqüência, destacando-se do fundo negro que o oprime de todos os lados, o quadro sombrio do seu passado criminoso. Cadáveres que o fixam com olhares de ódio e maldição, jorros de sangue que ameaçam afogá-lo formando horrível e nauseabundo lago em torno de sua cabeça; restos humanos mutilados flutuando acusadores sobre a espuma rubra; formas impudicas oferecendo-lhe prazeres impossíveis, cálice lúbrico que se afasta com violência, como se fora movido por mão iracunda, no instante em que seus lábios, ébrios de infames desejos, vão tocar os bordos enganosos; sentidos queixumes de dor, rugidos de ira, gargalhadas de raiva e de cruel sarcasmo - tal é o quadro espantoso que o remorso e o medo levantam na consciência do antigo caudilho dos mundos de violência e luxúria.
"Aprende, - disse-lhe eu em um dos momentos lúcidos de sua consciência, subseqüentes a esses delírios da imaginação, vertigem do remorso -, aprende, na dolorosa experiência de tuas presentes torturas, as conseqüências da infração dos preceitos naturais, escritos em tua alma pela irão poderosa do Ser desconhecido que preenche os espaços com o fragor do trovão e rasga os horizontes com o raio (1); e aprende também, nas visões de luz e felicidade que por curtos lapsos interrompem e suavizam as amarguras do teu espírito, aprende quão venturoso estado espiritual podias ter granjeado lá embaixo, empregando retamente os meios e aptidões que recebeste para saíres triunfante e purificado da prova. (1) Aqui fala Nicodemos na Divindade segundo o conceito que dela podia ter o espírito a quem dirigia suas palavras. "Havia em tua alma todas as forças necessárias para afogar inclinações protérvias e apetites sensuais e a virtualidade correspondente à elevação relativa de teu ânimo para o desenvolvimento de suas tendências ao bem, que deixaste adormecidas e completamente abandonadas.
Tua posição e situação na terra que habitaste te abriram vasto campo para que pudessem exercitar-se tanto os bons como os maus princípios. Foste luxurioso sem limites, e a luxúria, os desejos, as visões impudicas são tua lembrança e o incêndio voraz em que arde tua alma, expiando suas leviandades; foste violento e sanguinário, o sangue e a violência levantam horríveis espectros e pavorosos fantasmas na escuridão que te rodeia. Assim como sentiste e procedeste na Terra, assim recebes na mansão da justiça. "A vida de rude expiação a que te condenou ultimamente a inflexibilidade da lei foi conseqüência, não da lei em si mas da iniqüidade de tuas obras durante a anterior existência de provas e merecimento. Na lei, que é de sabedoria, de amor e justiça, está escrita a depuração, não porém a expiação, pois esta se acha fora da lei, ou melhor, da vontade da lei; eis porque só padecem os espíritos que se apartaram da lei e para eles rondam no espaço os mundos de sofrimento.
São estes, até certo ponto, deformações da criação, manchas da natureza; porém manchas e deformações indispensáveis à consumação da justiça e do progresso e resultantes das manchas e deformações da natureza humana, não dos conceitos da lei. Se na tua penúltima encarnação tivesses praticado a virtude tal como conhecia teu entendimento e nos momentos supremos da liberdade te aconselhava o coração, teu espírito, emancipando-se, teria deixado de lado, sem as abordar, as ilhas da dor, os infernos de padecimento incessante, como se não existissem. A lei é universal e os mundos de expiação somente recebem as criaturas delinqüentes. Aquele que nunca delinqüiu, jamais sofrerá pela força da lei; poderá voluntariamente entregar-se ao sofrimento pela salvação de seus irmãos pequenos; neste caso, não é a lei que o condena, ele mesmo se entrega ao sacrifício. "Chora, pobre irmão, chora; não te rendas porém ao desespero e ao furor, ,julgando que ficarão eternamente fechadas as portas da reabilitação e do progresso. O teu presente não é inapelável.
Deus, teu pai eterno, olha para ti compassivo e carinhoso. Amanhã verás brilhar o sol, se teus propósitos são de remorso e não de desespero, luxúria ou ira. Queres ser bom, - serás feliz. Se o desejas e atuas conforme teus desejos, serás o que sou hoje, como cheguei a ser, tendo sido antes como tu. Porque hás de saber, irmão, que também vim das terras da iniqüidade e da dor; que o teu é o meu passado e o passado de muitíssimos espíritos incomparavelmente mais puros e felizes do que este que contigo fala e que julgas participar da natureza dos deuses. " Expiaste teus crimes, oh? irmão -, no mundo inferior de onde vens, e os expias sob o peso da escuridão, da lembrança, das visões, do temor e do remorso nos círculos espirituais, pontos intermediários que enlaçam o passado, o presente e o porvir das criaturas. Emprega tua estada nesses círculos em descobrir os germes ruins que se escondem no teu peito, para desenraizá-los e arrancá-los.
Essas regiões são as dos propósitos do espírito experimentado no remorso e na dor, forma os teus com resolução e presteza, desprezando os impulsos dos apetites desordenados e ouvindo a voz acusadora que surge indecisa das profundezas de tua alma, e desta maneira serão abreviadas tuas amarguras; porque o ápice do remorso que precede e acompanha o arrependimento preencherá a medida da justiça, medida que, se assim não procederes, só poderá preencher-se com séculos e séculos de acerba expiação. "Foste provado, e as inclinações carnais te dominam sem resistência; tua vida foi um parêntese perdido para a elevação e progresso de teu espírito. Causaste danos a teus irmãos, partícipes na prova, e estás irrevogavelmente obrigado a repará-los; somente depois da reparação poderás reclamar a tua parte na herança dos espíritos ávidos de progresso e justiça. Teus propósitos e arrependimentos podem apressar a dia feliz em que te serão abertas às vias da reparação e da prova, de tua ulterior felicidade. "E necessário nasceres outra vez.
Morarás outra vez entre aquelas tribos luxuriosas, turbulentas e ferozes, cujos sanguinários instintos contribuíste para fomentar. Outra vez serás o caudilho e tua influência sobre os seus sentimentos e costumes será muito superior à que ali exerceste em tua penúltima existência: poderás fazer o bem em muito maior escala do que fizeste e praticaste o mal. Serás o caudilho, não de uma tribo, mas de cem tribos poderosas, submetidas à tua vontade e à tua palavra. Com um olhar, com um gesto lança-las-ás à opressão de todos os povos débeis e estabelecerás sobre os oprimidos uma tirania quase onipotente. Em tuas mãos estarão a destruição e morticínio de teus inimigos e dos inimigos de teu povo. Triunfarás sobre eles e o nome do vencedor ressoará de um confim a outro como o do mais afamado da Terra. Caudilhos notáveis serão teus capitães, príncipes e filhos de príncipes serão contados no número de teus servos. Assim terão tuas más e boas inclinações vasto campo para experimentar seu poder.
Não haverá atentado que não possas consumar, nem boa ação que não possas praticar, nem grande empresa que não possas empreender. Do teu arbítrio dependerá correrem rios de sangue ou de água puríssima e salutar, a água regeneradora da civilização dos povos. "Feliz de ti se em teu renascimento sabes dar ouvidos à voz do dever, que te chamará e avisará continuamente com vivacidade no íntimo de teu espírito. Se escutas seus conselhos, que serão de um grande espírito invisível, teu protetor e protetor dos povos sobre os quais dominará a lei da tua existência, os homens semearão de flores o caminho de tua glória e teu nome será o emblema de paz nas contendas do mundo. Teu povo te apontará como seu amor, sua glória e seu poder, como juiz e libertador dos povos conquistados. Começará em ti uma série de varões anônimos, aptos a transformar as sociedades impelindo-as e fazendo-as entrar nas correntes do progresso.
E quando chegar a hora suprema do julgamento de tuas obras teu espírito voará para os céus e tua memória quedará entre os homens eternamente abençoada. "Todavia ai de ti! se, em vez de dobrares tua cerviz ao jugo suave da lei e inclinares teus ouvidos aos severos conselhos da consciência, te rebelares orgulhoso e temerário, dando guarida em tua alma às seduções do egoísmo e aos apetites impudentes, que moverão em teu coração formidável combate às inspirações do bem, aos celestiais impulsos da virtude! Antes valera não teres renascidos! Porque então tua nova vida de prova será tua nova condenação incomparavelmente mais terrível que a primeira, porquanto tua responsabilidade terá aumentado com a liberdade e os meios de praticar o bem, depositados em tuas mãos.
Nos momentos críticos da consciência, nos quais a vontade permanece, diríamos, no fiel da balança e o espírito flutua indeciso entre a doce atração da virtude e os violentos estímulos da iniqüidade e do prazer, um suavíssimo sopro, provindo das alturas da misericórdia e da graça, clareará tua mente e penetrará corou fluido benéfico em tuas entranhas e na fonte e base de teus propósitos. Serão esses os instantes supremos de tua vida. Se por tua desgraça aquele sopro te resvalar pela fronte sem que o entendimento aproveite sua regeneradora influência; se teu coração repelir aquele fluido reparador, deleitando-se, ao contrário, no hálito impuro, na corruptora atração das paixões carnais, terão então fixado voluntariamente teu destino, e aquele que pôde conquistar e cingir os louros dos espíritos animosos cairá confundido no desespero e na execração dos espíritos indolentes, covardes para o bem e desgraçadamente ativos para derramar entre seus irmãos o luto, u ódio e os desejos de vingança, fogo consumidor de todas as sementes de caridade e virtude.
As horas de tua vida se arrastarão fatigadas no insone e cruel remorso. Em teus hediondos festins, o Mane, tecel, fares da consciência, renovando a lembrança de teus crimes, te arrebatarão mesmo os gozos aparentes e afundarão teu ânimo em negra melancolia. A maldição dos homens te perseguirá como sombra implacável, pronta a te cravar o punhal nas entranhas para libertar a humanidade de um monstro. Serás o opróbrio e a escravidão dos meus a glória dos inimigos e a execração de todos. Quando soar para ti o gongo terrível da justiça, teu espírito cairá rápido nos infernos do desespero, roedor eterno das almas contumazes, e teu nome será ignomínia na história dos povos. Do cárcere de tuas obras não sairás até que pagues por todas elas. Recorda tua última existência de expiação e treme.
Pensa na misericórdia de Deus, em sua bondade atual para contigo e toma alento para confirmar tuas boas resoluções Atenta para que minhas palavras não se percam em tuas leviandades, irmão: que a lei do Grande Espírito encontre pouso no teu e te ilumine." Diversidade de afetos e sentimentos, de conceitos e desejos, minhas palavras levantaram o espírito. Alternavamse-lhe no ânimo, multiplicando os contrastes, o temor e a esperança, a soberba e a simplicidade, o ódio e a mansidão, as seduções do prazer e os impulsos virtuosos. Enchia-se no desespero com as ameaças proféticas. Propunha-se ser benéfico para com os seus, compassivo e generoso para com os povos conquistados; logo, mudados os desejos, aspirava à satisfação das paixões pessoais, ou se comprazia no extermínio de competidores inimigos. Ora brandia furioso a arma homicida e a tocha devastadora, ora se entregava à misericórdia, ao amor, à regeneração alheia. Quadros dissolventes que precipitadamente apareciam e se diluíam, para reaparecer e tornar a evaporar-se, sem que nenhum deixasse marcas profundas em sua vontade solicitada em diversas direções.
Flutuava o pobre espírito entre seus hábitos e o desejo de se elevar na escala de perfeição que havia vislumbrado; frágil barquinha humana açoitada por ventos opostos, ora soçobrava e se fundia sob a pesada carga de suas misérias, ora flutuava trêmula sobre as ondas revoltas das paixões, a proa em direção ao farol da virtude, que descobria como única esperança nos extremos confins do horizonte.
XV
Voz do Céu - A Luta do Espírito - Trevas e Luz - Os Propósitos - A Reencarnação - O Derradeiro Chamado - A Separação - Sobre o Vaticano
As minhas exortações inspiradas não lograram de pronto algo mais que produzir a confusão no espírito. Ao terminálas permaneceu indeciso por momentos, não sabendo se agradecer-me ou odiar-me por elas, até que por fim o amor próprio e as seduções da carne sobrepujaram os sadios apelos do dever. Como menino voluntarioso, que anela escapar ao solícito cuidado do mestre para entregar-se em cheio aos folguedos e desvarios, assim o espírito aguardava impaciente a hora em que, livre da pressão dos meus conselhos e da acusação dos meus olhares, pudesse sem testemunhas alimentar-se de vaidade e grosseiros apetites. Estará o infeliz condenado a desprezar as minhas advertências salutares, - perguntava a mim mesmo - serão vãos, completamente vãos todos os meus esforços e o amor dos inspiradores celestiais? De nada lhe serviram nem a expiação sofrida, nem as promessas, nem as ameaças?
Chegou então até mim, penetrando docemente todo o meu ser, uma voz suavíssima que me disse: "Nem tuas admoestações, nem a virtude da misericórdia, nem a caridade dos espíritos de luz serão estéreis para a melhoria dessa pobre alma, na qual temes que hão de triunfar os estímulos violentos e brutais. Na lei caminham unidas a justiça e a misericórdia, na vontade de Deus a misericórdia e a justiça. Louvemos a Deus pela misericórdia de sua vontade. Aquilo que não pôde extrair do espírito a luz de tuas palavras, poderão a lembrança, o remorso e as trevas. Sobrevirão em tropel lembranças após lembranças, trevas após trevas, e nesta luta das aspirações espirituais com os incentivos grosseiros da concupiscência o espírito consumirá anos e anos, talvez séculos, até que, esgotadas suas forças nas torturas, no desespero, nos gozos de sua fantasia exacerbada, prestará ouvidos às admoestações de sua própria consciência, eco providencial da inspiração do céu.
Apresentar-se-ão sucessivamente no espelho de sues alma as ações voluntárias, os pensamentos e sentimentos anteriores, com os males e iniqüidades que deles foram conseqüências; não porém para renovar-lhe no ânimo os horrores do desespero, mas como suave bálsamo que acalmará, suscitando o arrependimento, a dor das feridas. Acontecerá então que a benfazeja luz de tuas palavras, apesar do tempo recordadas uma a uma, abrira seu peito à esperança de redimir-se e elevar-se. Sabendo estar destinado pela lei da providência a ser o caudilho de um povo e o conquistador ele cem povos, desejará com fervor apressar o tempo da prova, resolvido a empregar os grandes meios de que terá de dispor na melhoria própria e na felicidade dos demais. "O tempo que permanecer nas mansões dos espíritos errantes, que esperam sua reabilitação mediante a prova que a justiça lhes prepara e o amor do Pai lhes suaviza, não será perdido para o progresso de sua alma se souber aproveitar as lições do sofrimento e da misericórdia que alternadamente receberá em cumprimento das harmonias da lei.
As mais importantes conquistas, para não dizer todas, a criatura livre realiza no mundo dos espíritos: neste se afirmam os caracteres, se adquirem a ciência e os sentimentos, se desfazem erros e falsas felicidades e se formam resoluções eficazes. A alma que subiu carregada de manchas e crimes ao mundo dos espíritos pode descer ao sofrimento e à prova com todas as aptidões, todas as forças necessárias para ascender de novo, cingindo o diadema das almas vencedoras. As vidas de sofrimento e de prova justificam a ciência, os sentimentos e virtudes que se conceberam nos círculos espirituais. "Crês, porventura, que esse pobre espírito tomará corpo no mundo de seus destinos levando consigo todos os erros, leviandades e deformidades presentes? Lembra-te dos longos períodos na vida espiritual e considera que a lei não há de ser para os demais menos flexíveis do que foi para ti. Somos todos filhos do Pai e o Pai mora nas alturas.
De Deus vem a centelha de toda luz, vem igualmente para ti e para mim, para todos nós que nos movemos debaixo do excelso trono da inteligência suprema, da amorosa causa universal. "Antes que este pequenino volte à terra de sua reparação, lutará consigo mesmo, - por quantos dias e anos? - até esgotar toda a sua atual atividade para o mal. Arderá em desejos carnais que não poderá satisfazer e sofrerá tortura pelas desordenadas visões dos seus desejos; todavia, de vez em quando um tênue raio de luz rasgará suas trevas, para que vislumbre algo dos gozos dos espíritos castos. Revolver-se-á no lodo de seus torpes apetites e sofrerá tortura pela impotência de suas paixões; de vez em quando, débil reflexo lhe iluminará o caminho, para que entreveja algo do triunfo gloriosa dos espíritos continentes. Correrá no encalço de seus ódios e desejos de vingança e padecerá tortura pela memória e visões de sangue e de cadáveres; ainda de vez em quando luminosa chispa ferirá seus olhos, para que descubram algo da sorte feliz dos espíritos mansos.
Rebelarse-á contra as profundas trevas de seu cárcere e serão mais horrorosas as trevas; contra suas lembranças e estas serão mais vivas; contra suas visões, que serão mais fatigantes e freqüentes; contra sua própria consciência, então mais acusadora e cruel; até contra a idéia de Deus, que intentará afastar irado de sua mente, e esta idéia, ao invés de se dissipar, tomará mais corpo e esplendores Contudo, há de chegar o dia, irmão, fica certo; há de chegar o dia em que, consumidas na luta todas as forças e em plena posse das recordações, envergonhado, humilhado, rendido, dobrará a cerviz rebelde ao jugo da consciência e, de joelhos, com toda a energia de sua alma exclamará: "Senhor, pequei diante de tua justiça e ofendi a meus irmãos: eis aqui teu servo que chora arrependido de coração; ordena e obedecerei. Que devo fazer, Deus meu, para apagar o meu passado?"
"Então a inseparável obscuridade, - companheira de todos os seus desejos de iniqüidade e luxúria, inferno de seus pesadelos, visões e sofrimentos-, será menos densa e horrorosa, abrindo caminho aos eflúvios luminosos do perdão, que cairá das alturas da misericórdia como chuva benéfica. As trevas serão menos tenebrosas e a solidão menos solitária. A meia-luz o alentará com a esperança de que a noite não há de ser eterna para ele; que há de raiar o dia, cujo alvorecer começa a distinguir, e verá a face do sol. E a esperança será o calor fecundante dos bons germes ocultos no mistério de seu espírito. Pouco a pouco sentirão as suaves primícias do nascer eles virtude e os prazeres tranqüilos que antecedem, como alvorada feliz, os sentimentos do dever.
Estes brotarão em seu coração ao sopro da inexaurível bondade de Deus: subirão ao entendimento para se fortalecerem pela luz e o entendimento os devolverá ao coração, onde deitarão raízes profundas, preparados para dar os frutos de que a alma necessita alimentar-se para sua depuração e sucessivos desenvolvimentos. à. concepção do dever e de suas imaculadas doçuras seguirá o repúdio dos antigos erros e dissipações, o propósito inquebrantável de caminhar retamente pelas vias esplêndidas do amor. "Uma vez no terreno das firmes resoluções de virtude, ser-lhe-ão abertas às portas maciças do cárcere. Radiante de ventura pela emancipação das trevas e ufano de sua ansiada liberdade, cairá de joelhos no espaço luminoso, bendizendo agradecido o Deus de seus sentimentos e oferecendo-se submisso a seus desígnios paternais.
Visitará os mundos da expiação, porém com aquela tranqüilidade de alma, mescla de satisfação e plácida melancolia, com que um exencarcerado contempla de fora as grades de sua morada, a triste morada de outros tempos, fosse espetáculo excitará e aumentará em seu peito a compaixão e o amor pelas infortunadas criaturas que ali gemem até o renascimento e fará esforços por levar-lhes algum alívio nos sofrimentos, algum consolo no seu desespero. Chorará com a dor alheia e estas lágrimas tão santamente derramadas cairão sobre sua própria alma e serão o batismo de seu espírito, porque não há piscina que tanto purifique a própria lepra como a que se enche de lágrimas do amor ao próximo. "'Recolhidas uma a uma as suas recordações de expiação disseminadas nos mundos de sofrimento, a misericórdia o levará a escolher as de reparação e prova no mundo de violência e de lascívia, penúltimo pouso de seu espírito encarnado.
Lerá ali, página por página, a história de seus atos, que lhe ficarão fortemente gravados no coração e na mente para humanidade terrestre formar adiante, em nova existência, a base de suas intuições e o despertar de seus pressentimentos. Assistir ao combate das paixões e apetites bestiais com as noções da imortalidade e o sentimento, ainda rudimentar, do amor e do dever, e acudirá, mesmo em vão, com sua vontade e seu conselho, a sustentar as almas seduzidas pelos estímulos carnais. Ao presenciar a vitória do mal sobre o bem, dor cruel dilacerará seu ânimo e elevará sentida prece ao Grande Espírito em favor das misérias humanas. A meditação e o estudo de suas lembranças e das experiências atuais fa-lo-ão conhecer como é fácil o predomínio da iniqüidade quando predomina a ignorância.
AO REDOR DA TERRA
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.