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Capítulo 40 de 47
VII
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
Moisés. - Sua Emigração ao Sinai. - A Visão. - Volta Moisés a Cidade
Haviam transcorrido bem perto de quatro séculos desde o estabelecimento da casa e tribo de Jacó na terra egípcia de Gósen. Da família de Levi saiu um precioso rebento, um menino que por sua singular formosura encontrou graça no palácio dos reis. Havia-o salvo da brutalidade dos editos a filha do príncipe, que possuía todo o amor de seus pais e sob os generosos auspícios da nobilíssima donzela foi o menino recebido na casa do Rei e entregue à educação dos sacerdotes e dos sábios da corte. Chamaram-no Moisés, e os homens de armas dobravam os joelhos em sua presença, como em presença da real princesa filha do Faraó dos egípcios. Crescia o menino em formosura e discrição e no amor aos filhos de Levi, José e Judá, aos filhos de todos os que o eram de Jacó e que haviam descido ao Egito nos dias cia elevação de José. O favor real não o cegou nem teve poder de fazê-lo olvidar seu nascimento e a vergonhosa humilhação de seus irmãos.
Transpassavam-lhe a alma os opróbrios de que eram alvo e as perseguições de que eram vítimas freqüentemente. Quem libertará da injustiça os filhos de meu pai Jacó? Onde está a indignação dos fortes, o braço que há de quebrar as cadeias vergonhosas? Isso perguntava o filho de Levi ao ouvido dos que choravam, pois que resolvera abandonar os prazeres dos palácios reais onde morava e oferecer seu braço aos vingadores de Israel. Pôde averiguar que os que não choravam e meditavam eram os descendentes de Judá e os primogênitos dos descendentes de José, os quais se reuniam em segredo, contavam e recontavam os homens de Rubem, de Simeão, de Judá, de Levi e das demais casas saídas de Abraão. Então Moisés seguiu de noite os passos dos descendentes de Judá e de José e, tendo-os surpreendido em seus conluios censurou-os, dizendo: Porque vos arreceais de mim? Esqueces que sou filho de Jacó vosso pai?. Julgais talvez, porque como na mesa do Faraó, que sou egípcio?
Ouvindo isso, os primogênitos de José e de Judá reconheceram a alma de Moisés e puseram a seus olhos o testamento de liberdade das tribos transmitido desde Abraão. Deliberaram juntos acerca do testamento; contaram os filhos de Israel que moravam dentro e fora da cidade; calcularam o número dos egípcios que podiam manejar a espada e resolveram que os dias do testamento de Jacó estavam pertos. Ai dos opressores! exclamaram, e, sussurrando um ao ouvido do outro a palavra da senha, retiraram-se animados para seus lares. Ao sair da reunião, observou Moisés que um dos homens de armas do Faraó seguia sigilosamente suas pegadas. Temeroso de que houvesse surpreendido o segredo dos hebreus, caiu de ímpeto sobre o homem de armas e fechou sua boca para sempre. Não voltou entretanto à presença do rei. Para salvar a vida, que era necessária aos seus, e aguardar a hora da libertação das tribos, fugiu da cidade para o Sinai; ali permaneceu oculto na tenda de um sacerdote egípcio, que oferecia sacrifício aos deuses implorando a abundância e a prosperidade para os moradores da região. Grato à piedade do sacerdote, o filho de Levi tomou por mulher uma de suas filhas e jurou-lhe ainda que, no dia da glorificação das tribos, seria contado entre os descendentes de Levi e entre os sacerdotes de Israel.
Moisés, que era rapazote quando fugiu da cidade, capital dos egípcios, viveu no monte em companhia do sacerdote até alcançar a plenitude da virilidade e da prudência e experiência que lhe seriam necessárias na empresa e que estava destinado. Gemiam no entanto os hebreus sob o látego dos imperiosos egípcios e só os mais idosos e os chefes inconfidentes possuíam a chave dos planos secretos de Moisés Aarão, seu irmão, era quem recebia as palavras de sua boca e as repetia ao ouvido de Judá e de José e o próprio Aarão retinha em sua mente o pensamento dos mais idosos e dos chefes, levando-o ao ouvido de Moisés no Sinai. Dessarte, estava Moisés no monte para livrar sua alma das armadilhas dos exploradores, e estava na cidade para conhecer os planos e as obras dos inimigos de seu povo.
Morreu o rei e foi elevado ao trono dos Faraós um seu irmão, que abominava mais que todos os seus predecessores os filhos de Jacó, contra os quais fez editos de feroz perseguição no princípio de seu reinado, revelando o intento de extinguir na Terra o nome e a descendência de Israel. Foi então que os anciãos dos hebreus rasgaram as suas túnicas e os chefes das tribos ergueram o braço em presença de Aarão e lhe disseram: Vai a teu irmão, que vive no Sinai em casa do sacerdote da região, e lhe dirás: Isto viram meus olhos. Foi Aarão e disse o que vira e ouvira. Moisés compreendeu que eram chegados os dias do testamento de Abraão. Todavia, andava ele pensativo e temeroso, porque não acertava o caminho por onde chegar à cidade e libertarem os seus, julgava que sua vida cairia nos laços dos egípcios e vacilava. Prostrou-se de joelhos e, inclinando a fronte, exclamava: Senhor! Senhor! Deus de meus pais Abraão, Isaac e Jacó! onde acharei a salvação dos meus irmãos que gemem?
Luz, Senhor, Senhor! E dos mananciais da luz veio à luz, porque Moisés viu visão de espírito e ouviu em sua alma o pensamento do espírito, que lhe dizia: Não temas, Moisés, não temas, porque escrito está que os soberbos hão de ser humilhados e os perseguidores perseguidos, e a cada qual segundo suas mãos. Fecha os olhos e desce à cidade; que os inimigos do teu povo têm olhos e não verão, têm ouvidos, mas não ouvirão. Vai à cidade, congrega os chefes e os anciãos e lhes dirás: Isto disse o espírito que cobre com suas asas as tendas dos filhos de Jacó: Que a justiça seja vossa medida, porquanto, se fordes justo, Deus estará convosco em toda a casa de Israel. Os dias chegaram e o que tiver a semente na mão deixe de semear, o que tiver começado a edificar sua tenda deixe o escopro e o martelo.
Os egípcios dormem, porque não foram justos convosco e, antes que despertem, vossa liberdade estará em vossas mãos e justo que se alegrem os que gemem, respirem os que se afogam. Mas, aí dos egípcios no dia de hoje, porque oprimiram! Mas, ai dos hebreus no dia que virá, se não é a justiça a sua medida! Hoje Egito, amanhã Israel: esta é a lei, até a consumação da iniqüidade do mundo". Moisés voltou a si e, vendo ainda em sua presença o irmão Aarão, mandou que ele o precedesse e avisasse de sua próxima chegada os chefes para que o aguardassem prevenidos à hora do sono da cidade; antes de deixar o monte, queria prosternar-se e orar pela sorte das tribos e dar o ósculo de amor e paz a sua mulher e filhos e ao sacerdote egípcio, pai de sua mulher. Fez assim; e quando as sombras começavam a subir as encostas da montanha desceu Moisés do Sinai, trilhando caminhos ignorados em direção à cidade.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.