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Capítulo 32 de 47
III — parte 2 de 3
Nicodemos – A Imortalidade e o Renascimento · D. José Amigó y Pellicer
As erupções do núcleo modificavam e transformavam com freqüência o exterior do globo e as águas, que corriam desordenadas por sua superfície: evaporavam-se, nesse movimento incessante de ação e reação, de dilatação e condensação e liquefação, o córtex terrestre se esfriava e endurecia, aumentando a sua espessura. Ao alvorecer o quarto dia do nascimento da Terra, as águas não tinham ainda leito estável. Era necessário que fecundassem todos os germes de vida latentes nas ramadas superiores do novo mundo, camadas continuamente renovadas pela ação invasora das substâncias que constituíam o núcleo. A força vital das substâncias, próximas a manifestar-se na superfície por meio de rudimentares organizações, ficava a cada momento afogada sob o aparecimento e a renovação das matérias que do grande fervedouro central subiam impetuosas e inundavam a face do vosso planeta. Desse modo variava incessantemente a direção das águas, que circulavam em todos os sentidos, fecundando as sementes de vida que o movimento propulsor do grande núcleo impelia até o exterior. As abundantes águas despenhavam-se das alturas atmosféricas em chuvas espantosas.
Formavam-se rios e estes formavam mares com vertiginosa, com incrível rapidez; com a mesma rapidez se esvaziavam os rios e se volatilizavam os mares. Outros rios recém-formados pela tempestade vinham precipitar-se sobre os leitos abandonados, novos mares sobre as áreas das águas evaporadas, porque a evaporação dos líquidos e a condensação dos vapores se efetuavam bruscamente e sim interrupção da Terra à atmosfera e da atmosfera a Terra. Cingia o planeta em toda a sua redondeza densíssima nuvem formada pelos vapores que da sua superfície se elevavam e pelas águas que desciam das regiões superiores. Em vão os raios do sol forcejavam em descobrir e penetrar o mistério dos surpreendentes movimentos que preparavam o desenvolvimento da vida na mansão terrestre. Essa preparação ter-se-ia efetuada na obscuridade se as trevas não tivessem tido outro inimigo além do sol; porém a cada instante a escuridão se via turvada na posse da Terra pelo sinistro fulgor do raio, que iluminava todos os horizontes, e pelos reflexos vulcânicos que arrojavam os gigantescos respiradouros do núcleo candente.
Houve tempo em que as águas cobriam toda a Terra, sem que por isso deixassem os vapores de inundar a atmosfera. A luz elétrica fulgurava em todas as direções e do fundo do imenso oceano terrestre viam-se surgir, aqui e ali, enormes colunas de fogo, cujos resplendores resvalavam pela agitada superfície das águas. Imponente e indescritível espetáculo! Minhas palavras são apenas um esboço incolor, uma pálida expressão da cena formidável que a natureza oferecia no quarto dia da formação do vosso globo. Cataratas de fogo, torvelinhos de vapores, mares que caíam das nuvens com estrondo aterrador, - toda essa confusão observada à luz cintilante de um relâmpago eterno -, podeis imaginar algo parecido com a realidade desse quadro sublime? As águas terrestres, em seu curso violento, arrastavam, transportavam e depositavam as matérias destinadas a servir de berço às primeiras manifestações da vida orgânica vegetal, cujo germe dormitava no seio de todas essas substâncias que havia arrojado à superfície a força expansiva existente nas entranhas.
Destarte, enquanto o córtex exterior esfriava e engrossava em virtude das expansões internas e dos agentes externos, modificava-se a sua constituição como efeito do contínuo movimento das águas e dos novos sedimentos terrosos que iam se depositando lentamente. Passaram-se séculos após séculos. Segui-me, remontai-vos comigo em espírito mais acima da atmosfera da Terra, um pouco mais além da linha divisória que separa dos confins do éter os vapores e os gases ambientes ao redor do planeta. Formosíssima visão! Os raios do astro do dia rasgam brechas nas camadas atmosféricas, chegam até os cumes descobertos das montanhas e resvalam sobre a superfície dos mares encrespados. Vistosos repuxos de afogo, que saltam das cavernas subterrâneas, interrompem de distância em distância a monotonia das águas e a unidade da paisagem. As colunas vulcânicas, além de coroar os altos cumes, sobem dos abismos do oceano, à maneira de ilhas fantásticas impelidas para o exterior pela mão de terrível deidade.
Olhai para ambas as extremidades do eixo sobre o qual se move a Terra em seu movimento diário; vedes esse verde tapiz que se estende sobre uma e outra região, principalmente nos pontos elevados, nos picos e mesetas das montanhas solitárias? São as primeiras organizações visíveis da vida: são as primícias da vegetação do planeta. As sementes dessa vegetação primitiva e rudimentar, como as de todas as sucessivas vegetações ulteriores, vinham virtualmente contidas nas partículas terrestres por força do principio vivificador e do elemento espiritual que haviam absorvido em longa peregrinação pelo éter. Todavia, tanto o princípio vivificador como o elemento espiritual, necessitavam, para as suas indefinidamente múltiplas individualizações, do meio das substâncias materiais, através das quais e como em perpétuo crisol haveriam de se efetivar suas expansões, suas depurações c progressivos aperfeiçoamentos.
Cada nova criação arrancada pela Onipotência à misteriosa fecundidade do éter determina o princípio de uma perpétua evolução, em que intervirão necessariamente a matéria bruta como meio, o principio vivificador como força e o elemento espiritual como termo e objeto. Sem a matéria a vida seria impossível e sem a vida e a matéria o elemento espiritual careceria perpetuamente de luz. Os três termos sempre se completariam pelos tempos afora, constituindo uma trindade indivisível, - matéria, vida e espírito-, na ordem do desenvolvimento da unidade espiritual. O primeiro chamamento da lei aos átomos ou elementos cósmicos que se desprenderão do éter para formar, através de séculos, mais uma criação, é o primeiro passo para uma portentosa individualização, tríplice em princípio, porque abrange a matéria, a força vivificada e o elemento espiritual, cujo acervo comum, antes das respectivas individualizações, é o éter.
Depois dessa primeira individualização portentosa, - oh, divino arcano! oh, insondável mistério! - a própria lei obriga a matéria a novas individualizações, que têm seu limite superior no corpo fluídico das inumeráveis individualizações da substância espiritual. (1) (1) Deve-se inferir do que neste ponto afirma Nicodemos que a lei de depuração, de transfiguração e progresso opera sobre a matéria bruta como sobre as demais substâncias e que o limite das transformações perfectivas dessa matéria está no corpo fluídico espiritual. Na luminosa revelação de João e Lamennais, inserta na obra "Roma e o Evangelho", está exposto o mesmo conceito, desta forma: O limite superior do corpo carnal é o corpo espiritual; O limite do corpo espiritual é o espírito e o limite do espírito é Deus: Veja-se "Roma e o Evangelho", pág. 149, edição de 1874. Como se transfigura e se purifica a matéria debaixo da ação do princípio vivificador e da substância espiritual? Como opera o princípio vivificador sobre a matéria ao calor da influência do espírito?
Como se individualiza, se aperfeiçoa e ascende o espírito através das formas materiais, com a cooperação eficaz do princípio vivificador? Sei que existe essa lei, porém não a conheço nem aspiro a conhecêla, porque é uma lei primeira e o segredo das leis primeiras reside em Deus. Contentemo-nos, nós criaturas, com o conhecimento dos efeitos dessas leis, que na posse desses efeitos temos o amor do Pai universal e a fonte sempre viva de nossa felicidade. A matéria, sob a ação eficaz do espírito e da vida, transfigura-se indefinidamente de depuração em depuração. O princípio vivificador é como o sol que ilumina a ação misteriosa e constante do espírito sobre a matéria. E o espírito... ah! que poderei dizer-vos do espírito! Nada; porquanto a natureza da chispa espiritual escapa e sempre escapará aos espíritos. Assim como tampouco sei da natureza da matéria nem da natureza do espírito vivificador, que seguramente provém com c espírito, - direi melhor-, com a substância espiritual, de uma origem, de um nascimento comum.
Presumo, - somente por suposição posso falar-vos que da essência mais pura da matéria que contribui para a formação dos mundos, toma o princípio espiritual à substância fluídica etérea dentro da qual está chamado a quebrar-se em inumeráveis individualizações e a resolver o magno problema de sua felicidade, eternamente ativa e progressiva. Quando a Terra houver irradiado toda a virtualidade fluídica vivificados e a essência puríssima que há de acompanhar perpetuamente as individualizações espirituais como laço de relação entre o subjetivo e o objetivo, estará cumprida a sua missão, e seus resíduos frios, estéreis, inanimados, voltarão a espraiar-se para entrar de novo no laboratório universal. Presumo também que nenhuma individualização espiritual se tenha realizado na eternidade sem a colaboração simultânea da matéria, em seus princípios tangíveis, e do princípio vivificador.
Se fosse lícito pressupor que tempo houve em que não existia nem havia existido nenhum mundo, eu me atreveria a afirmar que tampouco existia nem havia existido nenhuma individualização espiritual, fora de Deus, e acrescentaria que não pôde manifestar-se o primeiro espírito criado até depois de se haver manifestado o primeiro mundo, e com ele a força vivificada. A escada de Jacó, que é a escada da felicidade e do progresso perpétuo, está formada em toda a sua elevação, de substância material e de força de vida e, somente apoiado nessa força e naquela substância, é que o espírito poderá ascender eternamente. Todavia, assim a matéria, como a vida e o espírito aparecem tão grosseiros, tão rudimentares, no degrau inferior da escada, que é impossível ao espírito humano adivinhar ali o porvir da matéria da vida e da substância espiritual em suas sucessivas expansões. No seu primeiro desenvolvimento vêem-se aparecer como confundidas em uma só substância, que há de constituir o esqueleto, a matéria térrea do mundo em vias de formação.
O que primeiro se manifesta nas criações é a matéria; a esta se segue à força vivificados e por ínfimo o princípio espiritual. A força de vida, apesar de vir germinando desde o início, não aparece no planeta até o quarto dia de seu desenvolvimento: mostra-se então na florescência vegetal que vimos atapetando as regiões circumpolares, as primeiras onde pôde deitar raízes e tomar lugar na superfície do globo. De toda essa vegetação primária não tendes conhecimento, porque desapareceu do solo com as condições que a haviam provocado. O movimento vivificador acomoda sempre as organizações que engendra as condições e meios dos elementos materiais nos quais há de ensaiar a sua poderosa atividade.
Enquanto as verdes primícias da ação vivificadas das substâncias materiais desciam das montanhas para os vales e planícies, corriam das zonas polares para as intermédias, mais tarde para a grande região perpetuamente aquecida pelo sol, outra vegetação análoga começava a atapetar as profundezas do oceano, das quais subia lentamente pelas fraldas das cordilheiras submarinas até galgar seus elevados picos e ocupar aqui e acolá a superfície das águas, dando-se assim as mãos, ambas as vegetações, a marítima ou aquática e a terrestre. Qual a série de progressivas transformações, que teve de passar até alcançar a opulência de seus melhores tempos, imaginai vós mesmos, se vos for possível; quanto a mim, não posso dar-vos em palavras uma idéia exata, nem aproximada.
O desenvolvimento se efetuava com lentidão apenas concebível; as reproduções vegetais conservavam tanta semelhança com os tipos imediatamente superiores que se confundiam com eles; sem embargo, depois de algumas dúzias de séculos, a vegetação primitiva fora apagada da Terra e substituída por outra de estabilidade perpétua, da qual conserva traços marcantemente hereditários a vegetação do vosso século. As condições atmosféricas do planeta impossibilitavam ainda o aparecimento dos animais em sua acidentada superfície, porém não no fundo dos mares, onde a força ele vida começava a produzir organismos de transição, tipos intermediários nos quais se confundia o animal com o vegetal, tipos de que não resta hoje vestígio no profundo regaço das águas. Contudo, as mesmas condições que se opunham ao nascimento do animal facilitavam, robusteciam e multiplicava em todas as partes a vegetação terrestre. O tempo chegou em que imenso tapete de gigantesca verdura ocultou a Terra ao olhar do príncipe dos astros (1). (1) Ao olhar do sol, que é o príncipe dos astros do nosso sistema planetário. Assim foi o quarto dia da gênese da Terra.
VI
O Quinto Dia da Terra. - Gênese Espiritual. A Grande Catástrofe. O Precursor do Homem
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.